Assombrados - A Irmandade
1 Winker
Tudo estava enfeitado com cores vivas, o vermelho vibrante ofuscava o brilho tênue dos panos brancos. Os amigos, ou nem tão amigos assim, de Jorge já entravam no embalo da última festa da Gravellin’s High School. Um baile de máscara talvez fosse a melhor descrição, embora muitos já não estivessem usando máscara. Jorge, que é filho único dos Winker, levara quase o ano todo tentando convencer seus pais a deixarem que ele desse essa festa na mansão.
“A Mansão Winker”, como ela era conhecida, ficava situada no extremo norte da cidade. Aos fundos, próximo ao jardim, havia uma mata aberta que Jorge ia muito quando era criança para brincar com seus primos na cachoeira que havia no final da trilha. Na entrada da mansão havia grandes colunas dóricas que sustentavam o teto da enorme varanda que havia em frente à mansão. Na escadaria principal, alguns jovens estavam sentados paquerando, alguns já em estágio mais avançado...
Jorge não havia bebido muito desde o inicio da festa, mas estava muito instável e estava sendo carregado por Trice, sua primeira namorada e mesmo assim tentava continuar recebendo bem os convidados que em geral chegaram atrasados. Desde criança os pais o ensinaram a tratar bem os convidados que eles recebiam em casa, ás vezes a senhora Winker fazia com que decorasse certos modos de etiqueta para não deixar a visita com má impressão sobre a família, como ela dizia.
— Ei Mike, está gostando da festa? – indagou ele enquanto se apoiava no ombro de Trice.
Mike não respondeu, apenas fez um gesto com o polegar, enquanto segurava duas garrafas de cerveja. Todos ali pareciam estar no mesmo estado de Mike, loucos, em outra dimensão. As festas dos jovens da Gravellin’s High School eram bem conhecidas, pois os pais da maioria dos alunos eram de classe alta, e estes geralmente tinham a família exposta na mídia. Então você imagina a matéria que daria para uma revista de fofoca, vários jovens de classe alta reunidos em uma mansão bebendo até cair, era tudo o que a senhora Winker não queria para a reputação da família.
A mansão estava realmente impecável, era do costume dos Winker darem festas assim de tal nível, mas em geral nunca havia tantos jovens bêbados fazendo loucuras pra todo o lado. A mãe de Jorge, Mary, foi quem organizou toda a festa, desde a iluminação até a proibição de bebidas alcoólicas, a liberação obviamente ficou por conta do filho. As festas na mansão eram dadas geralmente quando os pais de Jorge iriam assinar algum novo contrato, ou até mesmo receber algum “cliente de extrema importância”. Era assim que eles os chamavam, aqueles clientes que possuíam bastante grana e que para eles, era quem garantiam o futuro dos negócios deles.
— Já volto, preciso encontrar a Lana. – Disse Trice enquanto deixava Jorge sentado em uma enorme pantufa em forma de coração aveludado, perto de uma grande árvore. Seu tronco enorme, as folhas secas, um efeito do outono, o vento fazia seus galhos balançarem como se suas poucas folhas fossem bailarinas que dançavam para o céu estrelado. E Jorge ali ficou.
O outono em Gravellin Hills era a melhor estação do ano. Quando as folhas caíam e as copas das árvores tomavam aquele tom marrom avermelhado até mesmo com alguns nuances verdes em seu interior. As ruas que tinham muitas árvores, quase todas, agora ficavam mais claras pelo fato das árvores ficarem com menos folhas.
Trice procurava por Lana, em todas as partes da grande mansão Winker, enquanto Jorge repousava na pantufa, mas não a encontrou. Não era fácil encontrar alguém ali, em meio a tantas pessoas, em meio a algumas máscaras. Era como procurar uma agulha em um palheiro. Tentou o interior da mansão e mesmo assim nada de encontrar a amiga. Flagrou até um casal, se é que podemos chamar duas pessoas que mal se conhecem de casal, se pegando no corredor que levava a entrada para o porão.
Ela sabia que Lana só poderia estar com Enzo, que também não estava em lugar algum, os dois obviamente estariam juntos fazendo-se o que dois jovens bêbados juntos poderiam estar fazendo. O sumiço da amiga era normal, mas geralmente Lana se metia em coisas nada legais quando sumia assim. Da ultima vez que ela havia sumido, os pais dela tiveram que contatar a Sheriff da cidade para procura-la. Depois de duas semanas e alguns dias a encontraram.
E naquele dia, naquela festa na enorme mansão, cheia de lugares oportunos para que Lana e Enzo passassem a noite, não seria estranho que eles desaparecessem assim.
Trice estava muito cansada de toda aquela festa, e se Lana havia sumido com Enzo, ela não era obrigada a ficar procurando-a. Embora Lana e Trice fossem melhores amigas desde a infância, Lana sempre fora a garota popular que geralmente deixava Trice sozinha quando era possível que ela se tornasse mais popular do que já era.
Quando ela voltou aos jardins, já havia tirado o salto e agora estava pendido por seu dedo médio balançando em sua coxa. Seu vestido bege, em contraste com seu longo cabelo ondulado ruivo e seu salto branco. Ficou parada perto da piscina, olhando em volta para ver se mesmo assim ainda conseguia encontrar a amiga. Foi quando ela avistou alguém do outro lado da pista de dança, se escondendo atrás de alguns galhos de árvores.
Era difícil explicar como Trice conseguiu notar aquela pessoa ali, já que ela estava toda vestida com uma capa azul marinho, e um capuz na cabeça, que escondia seus olhos. Conseguiu notar apenas que deveria ser uma garota, de cabelos loiro dourado, cacheados, pois estes estavam visíveis caindo levemente pelos ombros. Trice percebeu que aquela pessoa estava lhe vigiando e logo que percebeu que ela o avistara, começou a se esquivar por entre as árvores da mata aberta.
Trice hesitou em segui-la. Mas quando percebeu que a pessoa começava a andar em passos largos, como se estivesse fugindo, não foi capaz de se conter e começou a correr atrás do que agora era apenas um vulto entre as muitas árvores na floresta.
Estava descalça e não era nada agradável correr por entre aqueles muitos galhos secos e pedras que havia no meio da mata. Passou correndo por algum galho com espinhos, que enroscou em seu vestido fazendo-o rasgar. “Merda, merda, merda! Era um Armani” Trice cochichou enquanto corria sem parar tentando ao mesmo tempo arrumar o vestido.
O vulto no meio da mata ficava cada vez mais difícil de ser visto, já que ali no meio daquele breu e de toda aquela neblina que havia era quase impossível de identifica-lo. Mas Trice correu, não conseguia parar de pensar no rasgo do vestido, mas aquilo não importava agora, tinha até mesmo se esquecido do sumiço de Lana, nada mais importava agora para ela, queria apenas descobrir quem era aquela pessoa misteriosa.
...
Na mansão, Jorge acordou ainda zonzo. Chamando por Trice, ele não se lembrava de como havia ido parar ali. Demorou um pouco para entender até mesmo onde ele próprio estava. Era como se tudo o que ele havia vivido até ali houvesse sido apagado de sua mente. Ele só conseguia se lembrar de Trice, e algo sobre Lana ter desaparecido.
Levantou-se escorando no grande tronco da árvore, esfregou os olhos com as palpas das mãos. E saiu perambulando pelo terreno da mansão procurando pela namorada. Ao longe, avistou Mike conversando com várias garotas, uma delas, Jorge percebeu pela penumbra, era Brenda Levihaal, a garota mais nerd da escola. Ficou pasmo quando viu a garota naquela situação, ela que fora quietinha em todos aqueles anos, agora estava se esfregando no corpo de Mike.
Deixou a cena e andou por volta da piscina, perguntando a alguns convidados que estavam ali se estes haviam visto sua namorada, ou até mesmo visto Lana e Enzo. Mas ninguém havia visto. E então Jorge notou que um par de sapatos estava jogado no meio da grama. Correu até eles e conseguiu se lembrar de que aquele era o sapato que ela estava usando na festa, fora ele mesmo quem havia dado a ela.
Correu para dentro de mansão, procurando Trice pelos quartos, que eram muitos, mas não a encontrou. Tentou o celular, mas deu apenas caixa postal. Entrou correndo na sala do segundo andar, era uma sala enorme. Com várias esculturas que seus pais apreciavam muito, no centro havia alguns sofás de couro preto, e uma mesinha com alguns copos usados. Imaginou um casal transando ali mesmo, no sofá. Observou que Trice também não estava ali, e de repente algo muito estranho aconteceu.
As luzes da sala piscaram, Jorge olhou para o enorme lustre. Continuavam piscando, ora mais rápido ora mais devagar. Os dois copos que estavam em cima da mesinha de centro trincaram, fazendo-o se assustar. Uma voz que parecia estar muito perto de Jorge começou a sussurrar em seus ouvidos. “Eu estou vendo você... Jorge... Fala comigo... Você pode falar comigo... Jorge... Fala comigo... Eu estou vendo você...”.
Jorge se sentou no sofá. Suava frio, não entendia o que estava acontecendo, nem de quem era aquela voz estranha, uma voz de garota, mulher. E o que parecia ser um sussurro agora era como se estivesse falando em voz alta para que todos pudessem ouvir. A voz parecia estar cansada, ofegante. “Eu estou vendo você... Jorge... Fala comigo... Você pode falar comigo... Sabe que pode... Fala comigo... Eu estou vendo você...”.
E então ele desmaiou caindo com um baque no sofá.
Trice corria mais rápido, seus olhos já tinham se acostumado com a pouca luz da mata. Estava quase chegando ao fim da trilha quando avistou alguma coisa mais estranha ainda no meio da mata, enquanto corria atrás de uma pessoa com capuz, percebeu que outras pessoas parecidas com ela estavam paradas ao longe, observando-a correr. Pensou em parar, mas não poderia. “Eu não rasguei o meu vestido Armani para desistir logo agora!”.
De repente, Trice trombou com algo que ela mesma não conseguia ver o que era. Foi como se uma barreira magnética havia sido erguida em sua frente, como os polos de um imã quando não se atraem. Suspeitou de que fossem aquelas pessoas que haviam feito aquilo, mas como era possível?
Quando Trice avistou ao longe seu alvo desaparecendo na mata a barreira finalmente desapareceu, aquilo só havia dado tempo para que o encapuzado fugisse mais rápido. Mas ela não desistiu e começou a correr novamente, sempre se esquivando dos galhos mais ‘perigosos’ que conseguia identificar (na verdade Trice estava mais preocupada em não deixar mais com que nenhum galho rasgasse seu vestido em outra parte, 1 – porque era um Armani, 2 – porque Trice amava aquele vestido, 3 – porque 1 e 2 eram extremamente importantes demais para ter um 3.)
Chegando ao final da trilha, já conseguia sentir a brisa que vinha da cachoeira. Trice já viera ali tantas vezes com Jorge, tantas palavras de amor em meio a tantas correntezas, e agora ela estava em apuros e ele nem se quer sabia onde ela estava, por um momento lembrou-se do namorado deitado na pantufa em forma de coração na mansão Winker. Será que eles ainda voltariam a se ver? Mas aquele não era o momento para tanto sentimentalismo, e então apenas continuou a correr.
Agora os outros encapuzados na floresta já haviam desaparecido, ao chegar à beira do riacho onde a cachoeira desaguava, ficou parada tentando encontrar um jeito de atravessar toda aquela correnteza, mas antes de tudo ela procurou pela pessoa. Não estava em lugar algum, olhou em todo o redor e não a achou. Quando Trice olhou para além da correnteza, fixou o olhar bem ao meio dela, estava ali.
A capa azul marinho estava enroscada em um galho no meio do riacho, Trice ficou pasma. Aquela pessoa havia se jogado na correnteza? Fora ela que havia feito uma pessoa se jogar em uma correnteza? O seu coração batia mais forte agora, era como se uma angustia estivesse tomado conta do seu peito.
“Ah meu Deus, como eu fui burra! Ah meu Deus eu matei uma pessoa, eu não acredito! Meu Deus!”. Trice não conseguia se perdoar, sabia que a pessoa não poderia ter atravessado a correnteza, pois não havia jeito. A única coisa que precisava agora era de Jorge, seu namorado, que a consolaria.
Levantou-se da beira do riacho e voltou para a trilha, e seguiu caminho correndo até a mansão Winker.
Notas finais
Abraços!
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