Assombrados - A Irmandade
2 Judhy
Notas iniciais
Estava tudo muito claro. Era como se Jorge estivesse saído de um local totalmente escuro e olhado para um holofote, seus olhos ardiam demais. A sensação era a de estar em um daqueles sonhos que parece que realmente está acontecendo, talvez estivesse mesmo. Jorge se levantou do chão, o local era intensamente branco. Quando as pupilas dos seus olhos se adequaram ao novo ambiente, percebeu que estava dentro de um cubo de vidro e o mesmo ficava dentro de uma sala branca.
Com um pouco de esforço Jorge se levantou e foi até a parede de vidro, bateu com as mãos. O vidro era extremamente forte, blindado talvez. Jorge girou o corpo para observar tudo ao seu redor, não havia nada de diferente em todo aquele local. Quando terminou de girar o corpo, ficou parado olhando para a parede de vidro que acabara de esmurrar. No reflexo ele percebeu que agora havia alguém atrás dele.
Virou-se de súbito. Era uma pessoa com capa azul marinho e capuz na cabeça. Jorge nunca vira algo parecido antes, ficou sem reação diante daquela pessoa que pela abertura do capuz o observava.
— Olá, quem... Quem é você? – Indagou gaguejando.
Não ouve sequer uma resposta nem gesto. Foi então que Jorge percebeu que pela sua direita e esquerda, havia mais pessoas, como aquela que estava a sua frente, andando em fila. Havia cinco de cada lado. Todos com capuz, vestidos igualmente, alguns de estatura mais alta outros mais baixos.
A sua esquerda, Jorge avistou que uma daquelas pessoas não tomara o devido cuidado e deixara aparecer às pontas do cabelo loiro cacheado. Era a mais baixa de todos os outros Encapuzados.
Jorge encostou-se à parede de vidro atrás dele, e começou a escorregar caindo sentado em seguida. E novamente a voz que outrora, ele não conseguia se lembrar de quando, havia ouvido começou a sussurrar agora muito baixinho em sua mente.
“Você tem que quebrar a barreira... Jorge... Você é um de nós... Você vai descobrir em breve como quebrá-la... Se esforce Jorge...”. Era a voz da garota novamente, e Jorge suspeitou de que seria aquela mulher encapuzada que tinha as pontas do cabelo a mostra. E de repente, todos eles levaram as mãos até a ponta do capuz. Quando começaram a puxá-lo, Jorge ficou na esperança de finalmente ver o rosto daquelas pessoas, tentar reconhecer alguma delas.
Ele realmente estava interessado em saber quem era a pessoa de cabelos a mostra. Não sabia como, mas de alguma forma ele sentia uma ligação muito forte com aquela pessoa, era estranho, mas a única coisa que Jorge conseguiu ver foi enormes feixes de luz branca brilhando em baixo daqueles capuzes. “Você é um de nós Jorge, não se esqueça disso...”. Foi a ultima coisa que a voz misteriosa lhe disse antes de tudo novamente ficar escuro.
E desaparecer.
...
Trice estava chegando perto das ultimas árvores da mata aberta, aquelas que ficavam mais próximas à mansão, onde horas atrás avistara a pessoa encapuzada. Quando notou que bem ali havia uma correntinha de ouro no meio de alguns galhos e folhas que estavam no chão, Trice a pegou. Nela havia três pingentes, eram três letrinhas, um “F” maiúsculo, um “d” minúsculo e um “V” que era prateado e também maiúsculo. Não sabia o que aquilo significava, mas sabia que seria útil, talvez a pessoa a qual seguira pela floresta, e que aparentemente havia morrido na cachoeira tivesse deixado cair. Colocou-o no pulso, e seguiu caminho.
Chegando aos jardins da mansão Trice lembrou-se do seu sapato que havia deixado cair ali, que agora não estavam mais onde ela o deixara. “Não acredito que roubaram! Nojentos!”, mas não podia se deixar importar com aquilo agora, não naquele momento, talvez depois... mesmo que depois fosse tarde demais para procurar um sapato, enfim deixou o furto de lado e focou no que realmente importava agora, encontrar seu namorado e lhe contar tudo o que lhe havia acontecido. Voltou até a enorme pantufa onde o havia deixado, mas para a sua surpresa ele já não estava ali, “Será possível que não roubaram apenas o meu sapato?”, pelo estado que ela o deixou ali, pensou que ele só acordaria no dia seguinte e só sendo tirado dali por um guincho.
Olhou a toda a volta, não havia sinal de Jorge. Muitos convidados já haviam ido embora da festa, mas alguns ainda permaneciam ali, jogados em cantos, outros ainda tentavam continuar bebendo ainda mais. Mike ia passando por ela junto com Brenda, Trice o segurou pelo braço:
— Ei Mike, você viu Jorge? – Perguntou enquanto olhava com um tom de espanto para Brenda, aquela não era a “nerd da sala” que ela conhecia desde o primeiro ano.
— Caramba, você está toda suja... Eu... vi quem...? Jorge? Ah o vi faz uma meia hora, ele estava seguindo para a mansão, eu acho que ele estava procurando por você, mas na verdade nem cheguei a falar com ele porque eu estava muito ocupado, não é gatinha? – Mike beijou Brenda — agora eu tenho que ir, sabe como é né? Tenho que comparecer aqui – Sorriu enquanto saia agarrado com Brenda, com uma mão em sua nádega, tão apertada que Trice se perguntou quando Brenda conseguiria se sentar novamente.
O que Jorge procuraria se estivesse bêbado e cansado de tudo? Não era fácil responder a essa pergunta, Jorge quase nunca ficava bêbado. Uma cama talvez fosse a resposta mais lógica para a pergunta que separava ela de Jorge naquele momento. Então Trice seguiu para o interior da mansão mais uma vez, percorrendo pelos enormes corredores. Lembrou-se de que horas atrás ela estava ali procurando pela amiga, a amiga! Trice havia esquecido completamente de Lana, embora houvesse desistido de procurá-la por um momento, ela era sua amiga mesmo assim e embora não devesse, ela se preocupava com ela. Mas agora não seria uma boa hora para decidir procurar duas pessoas ao mesmo tempo, onde quer que Lana pudesse estar, ela estaria com Enzo, talvez até mesmo no colo dele.
Quando chegou ao quarto de Jorge, se deparou com o quarto todo arrumado e que ele não estava ali também. Procurou em todos os cômodos do primeiro andar, e não o encontrou. Subiu as escadas e estava agora na sala de estar superior, onde Jorge minutos atrás havia desmaiado, Trice só não sabia disso. O namorado não estava ali também. Trice notou os copos trincados em cima da grande mesa de carvalho no centro da sala, e o enorme lustre estava todo apagado, a louça de cristais brilhava com a luz que entrava pela janela que havia ali.
Andou por mais dois corredores, que faziam o contorno em volta da sala. Foi quando ela avistou uma porta de um quarto que ficava mais ao fundo, era quase uma passagem secreta entre a parede para a despensa e para o banheiro dos empregados. O que lhe chamou a atenção foi que na porta havia uma plaquinha, como aquelas que geralmente os pais colocam na porta dos quartos dos filhos. Era uma plaquinha rosa, com flores, estava grafado um nome. Judhy.
Trice não conhecia ninguém com aquele nome na família de Jorge e ele também nunca havia lhe dito nada sobre quem seria Judhy ou da existência daquele quarto, embora Trice conhecesse a maioria dos familiares de Jorge, aquele nome em especial ela nunca sequer havia ouvido, nem um comentário, nada. Embora estivesse muito interessada em encontrar o namorado, ela segurou na maçaneta da porta, e a abriu. Foi abrindo lentamente e se esgueirando pelo vão como se temesse a alguma coisa que estivesse ali dentro.
O quarto era totalmente rosa, cheio de bonecas, pelúcias, e um berço. Em cima de uma cômoda havia porta-retratos, mas com nenhuma foto. Era tudo muito estranho, seria normal se não fosse um quarto quase escondido dentro da mansão Winker. Trice sabia que os seus sogros um tanto quanto misteriosos, e que participavam de uma religião que não sabia o nome, muito desconhecida. Trice andou rapidamente por dentro do quarto, andando lentamente, prestando a atenção em cada detalhe do quarto de menina fofo e ao mesmo tempo estranho que encontrara. Foi até a janela que havia do outro lado, sentou-se no baú e ficou ali, olhando para fora. Todo o jardim já estava vazio, havia alguns jovens que ora ou outra apareciam caminhando meio que sem direção, eram como se fossem zumbis, Trice sentiu-se nos estúdio de “The Walking Dead.”, onde aqueles jovens que chegaram sóbrios para a ultima festa da escola, agora se tornassem zumbis que caminhavam sem direção pelos jardins da Mansão.
Pensou até mesmo o quão perigoso seria se um daqueles jovens seguisse o mesmo caminho do Encapuzado, era assim que Trice decidiu chama-lo, e acabassem tendo o mesmo que fim que ele, morto em uma correnteza. Era tudo tão estranho, quem eram aquelas pessoas que ela avistara no meio da floresta enquanto seguia seu alvo? Todas pareciam usar o mesmo tipo de capuz, seriam eles algum tipo de... mago, ou até mesmo... bruxos? Pelo modo como eles criaram aquela barreira que a distanciou do Encapuzado, Trice poderia dizer que sim. Era como se uma aurora boreal tivesse descido no meio da floresta e a impedisse de continuar a correr.
Enquanto observava e divagava em seus pensamentos, Trice olhou para a mata aberta, para o inicio da trilha de onde ela havia acabado de vir, agora não havia ninguém ali, nenhum encapuzado. Lembrou-se de que precisava encontrar o namorado, levantou-se e saiu para procura-lo nos outros cômodos do segundo andar, embora estivesse interessada em saber o que significava aquele quarto, a única pessoa que poderia lhe contar a verdade seria seu namorado, que no momento não estava em lugar algum. Pensou até mesmo nas empregadas da mansão, mas sabia que elas contariam a sua patroa que a namorada do filho dela estava xeretando pela mansão.
Procurou-o até mesmo no banheiro dos empregados. Quando Trice entrou no escritório do Sr. Winker, ela avistou alguns quadros estranhos na parede. Foi até a cadeira de couro, tomando muito cuidado para não relar em nada, se ela quebrasse algo dali, seu quarda roupa inteiro vendido em liquidação não conseguiria cobrir o gasto que seria qualquer peça dali e olha que Trice só tinha roupas das mais caras grifes, por fim sentou-se na cadeira de couro do sogro. Era muito confortável, Trice aproveitou para relaxar um pouco. Enquanto ali estava, abriu a gaveta da escrivaninha, havia alguns papeis alguns contratos e mais ao fundo algumas fotos, que pôde perceber serem muito antigas.
Trice as pegou, tirou o elástico que as prendiam e começou a olhá-las uma por uma. Eram fotos da senhora Winker quando ainda estava grávida de Jorge. Ela parecia muito feliz, estava abraçada com o marido.
Na foto seguinte ela já estava muito diferente, a barriga maior. Trice deduziu que ela estivera quase na hora de dar a luz. Seus olhos pareciam tristes, o rosto com olheiras, toda desarrumada, não parecia à senhora Winker da foto anterior e nem mesmo a que Trice conhecia atualmente. Trice colocou as duas fotos lado a lado para compará-las. Realmente algo de errado na vida de Mary havia acontecido na segunda foto para ela estar tão estranha, deprimida.
Deixou as fotos de lado e então na foto seguinte havia um bebe, só podia ser Jorge. Seus cabelos lisos, castanho escuro. Um olhar e sorriso meigo, como o de todo bebe. Trice virou a foto para ver se havia algo escrito atrás, ela fizera isso com todas as outras, mas nenhuma havia escrito nessa. Nessa havia algo escrito, mas Trice não conseguia entender o que significava. Em geral aquela noite inteira aconteceu coisas que Trice não conseguia entender, o sumiço de Lana, a aparição do Encapuzado, o sumiço de Jorge, o quarto de uma misteriosa Judhy, e agora aquela legenda. “Fruto do Vinculo”.
Estava muito cansada para tentar entender o que “Fruto do Vinculo” significava, não estava disposta a encontrar respostas para as coisas mais bizarras que haviam acontecido ali naquela noite, não naquele momento. Aconchegou-se na cadeira, pegou o celular e enviou uma mensagem para Lana “Me liga... — T.S”. Minutos depois reenviou o mesmo SMS, para Jorge.
E adormeceu ali mesmo.
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