Capítulo 7 — A Depressão.

Passaram-se algumas semanas, desde meu encontro com Annie e com o Sr. Dermott, nunca mais vi nem um dos dois no colégio.

Annie por outro lado, esperava que ela me fizesse alguma ligação ou que apenas aparecesse como um vulto nos meus pesadelos. Mesmo que tudo que aconteceu parecesse com um borrão na memória e mesmo que ela fosse estranha. Ela foi à única pessoa que eu tive mais próximo de amigo. Eu me enxergava triste. Uma voz curiosa me dizia:

“Por qual razão estou vivendo?"

As semanas passadas e as que se seguiram via-se apenas meu reflexo nas poças d'água nas calçadas dos quarteirões. Com a chegada do inverno, a única coisa que eu era capaz de fazer era caminhar pelas ruas. Não havia mais nada. Kate chegou há algum tempo, ela não diz nada sobre minhas andanças. Mas posso notar o porquê de não se importar, ela está ocupada com o trabalho na delegacia. Às vezes, eu ia para o colégio às vezes não. Passava horas com a cabeça encostada na almofada do sofá fitando a luz no teto.

“Por que quero viver?"

Não me alimentava direito, e mesmo sendo magro, perdi peso. Não conseguia compreender porque estava vivendo assim. Talvez tiver alguma informação sobre meu pai em anos tenha tido um sério efeito sobre mim.

Um dia decido ir a MPS (Serviço de Polícia Metropolitana), para ver tia Kate, ela mal tinha tempo para conversar comigo em casa então fui até seu local de trabalho. Tinha que perguntar uma coisa importante. Chegando em frente à delegacia vejo uma viatura estacionada, de dentro sai dois policiais junto com Kate.

– Robert, o que está fazendo aqui? Eu olho para o rosto abatido dela com olheiras enormes, era nítido que estava bebendo cafeína para ficar acordada até tarde.

– Eu queria falar com você.

– Agora? — Ela diz sem entusiasmo na voz. — Estou ocupada, espere eu chegar em casa e...

– É sobre o meu pai. — Interrompo-a. Kate muda sua expressão.

– Podemos conversar na minha sala.

A Sala de tia Kate não era um lugar tão espaçoso, talvez as janelas laterais dessem a impressão mais ampla, mas não havia nada de tão surpreendente, uma mesa no centro cor de tabaco, duas poltronas acolchoadas uma de cada lado da mesa, uma estante discreta no fundo com varias pastas enegrecida e por fim, alguns quadros nas paredes dando vida ao ambiente.

– Sente-se. — ela fala apontando para a cadeira acolchoada. Obedeço sua ordem. Ela cruza as mãos sobre a mesa e me encara.

– Eu queria perguntar uma coisa. — Eu falo e ela permanece imóvel — Eu queria saber mais sobre meu pai e minha mãe.

– Você sabe que sua mãe era minha irmã e que crescemos juntas, não sabe? — Aceno com a cabeça. — Então deve saber que ela era muito importante para mim.

– O que eu quero saber exatamente é como ela morreu. Tudo que sei é que ela foi assassinada, mas isso não basta. Kate respira e abaixa o olhar.

– Robert, você também sabe que estamos nessa investigação há anos, só encontramos o corpo e nada mais.

Dou um suspiro pesaroso. Já vi que íamos andar em círculos nesse assunto.

– E quanto ao meu pai? Ele está vivo? — Kate aquiesceu num canto.

– Eu não o conheci muito bem, na verdade tudo que sei é que ele não era uma pessoa muito sociável. — ela suspira cansada. — Eu não sei o que aconteceu com ele.

Como ela não sabia se ele ainda está vivo, penso. Eu tenho certeza disso. Ele está vivo, sr.Dermott falou com muita certeza.

– Ele é um foragido? — Digo rapidamente. Ela me encara perplexa.

– De onde tirou isso?

– Apenas me diga. Kate fica em silêncio por um momento, imaginando o que ia me responder. Por fim ela diz.

– Eu preciso trabalhar, estou muito ocupada Robert, vá pra casa.

– O quê? — Grito indignado com a resposta.

– Por favor, tia eu preciso saber, ao menos me dê alguma informação!

– Bem, se quer mesmo saber alguma coisa do seu passado você pode ir até a sua antiga casa. Eu pago a passagem. Procure no porão, isso se a família que mora lá não tiver jogado tudo fora.

A ideia de Kate era interessante, realmente eu gostaria de encontrar alguma recordação sobre meu pai. Por fim, digo.

– Está bem.

Algo me incomodou muito na maneira que Kate me respondeu. Parecia que ela queria evitar o assunto a qualquer custo dando-me respostas que não condiziam com as minhas perguntas. Eu estou frustrado. A única coisa que me resta é viajar para os Estados Unidos novamente, e ver minha antiga casa.

...

A essa hora da noite se via uma garoa inexpressiva e silenciosa que pintava as janelas das casas de prata. Eu a estava sentindo em minha pele, gelada, triste e vazia. Sinto falta de minha mãe. Por que diabos ela tinha que ser morta? É então o momento que a pergunta vem;

“Se não há ninguém tão importante para você, então porque quer viver? Por quê?”

Nem eu sei responder, algo me diz que eu deveria, eu preciso saber o que aconteceu minha mãe e quem foi meu pai? O que era isso? Um adolescente de dezessete anos depressivo? Solto um suspiro em meio à chuva e a lágrimas salgadas. Caio de joelhos em cima de uma poça d'água. Por que estou tão só?

...

Kate marcou a viagem para a semana seguinte, arrumei apenas uma mala com coisas necessárias, porque era bem provável que ficaria apenas um dia por lá. No dia da viagem me despedi de Kate, disse que voltaria logo e que não era necessário se preocupar.

...

Lembro do aroma agradável de comida infestando a casa, das escadas de madeira que rangiam, do assolho de diferentes cores em cada cômodo da casa. Lembro da janela do meu quarto voltada para o jardim da frente, do gramado verde-oliva e do caminho ladrilhado até a porta da frente. Recordo-me até da cor de cada flor que minha mãe plantou em frente a casa.

Agora, todas essas coisas não estavam mais lá, só uma camada de tinta prata reluzente. Ao lado direito da casa construíram uma garagem que pelo que lembro não existia. As flores também não estavam mais ali, no lugar vi apenas uma grama que precisava ser cortada. Não havia um sinal de que minha antiga vida foi ali. Tudo tinha mudado.

Aproximo-me da porta da frente mantendo meus punhos cerrados, e bato três vezes na madeira branca. Um garoto pequeno, de cabelos arrepiados e olhos castanhos abriu a porta.

– Sua mãe está? — pergunto. Ele não me responde e grita alto chamando a mãe. Logo uma mulher vêm ao meu encontro.

– Você não é um desses vendedores ambulantes é? — A mulher de cabelos ruivos pergunta olhando de mim para a minha mala. — Porque se for vou logo dizendo que não estou interessada em comprar nada.

– Não é isso, é que essa é minha antiga casa e eu passei para dar uma olhada. A mulher me encara como se eu fosse um golpista que conta essa história sempre para levar alguma coisa. — Eu só queria pedir que deixasse ver o porão — falo baixo.

– Sinto muito, talvez você deva voltar outra hora. — Ela me responde com a voz firme.

Ela fita a expressão nos meus olhos por alguns segundos. Uma expressão desolada de alguém sem rumo na vida.

– O que você quer exatamente lá embaixo?

– Eu vivi minha infância nesta casa, eu lembro do aroma dela, das cores e de como o assoalho fazia barulho quando eu andava. Tudo que eu queria ver era o porão para checar se ainda a alguma coisa para me recordar a este lugar. Isso se a senhora não tiver jogado tudo fora. Ele pareceu se amolecer com minhas palavras. — Por favor.

– Tudo bem, — ela suspira — Venha comigo.

Saímos do hall, eu a segui pelas laterais da casa até chegar ao quintal dos fundos. Lá ficava duas portas de madeiras desbotadas trancadas por um cadeado. Ela abre a porta e nós dois entramos. Uma luz incandescente surge. Não era de se esperar, a sensação de estar ali dentro era ruim, as paredes eram de uma cor desbotadas, teias de aranhas encobriam os quatro cantos do recinto. A umidade ali irritava as vias respiratórias. E posso jurar que vi um rato grande passar pela fresta de duas caixas abarrotadas de poeira.

– Eu deveria ter jogado tudo isso fora há muito tempo.

– Ainda bem que não fez isso. — falo enquanto me agacho para procurar alguma recordação do pai.

Após uma hora revirando caixas e mais caixas, acho uma encoberta de papel camurça rasgado. Abro-a e vejo um álbum de couro marrom. As fotos iniciais eram preto e branco de pessoas que eu nunca havia visto e conforme ia folheando as páginas as imagens iam ganhado cor. Até que eu vi uma foto, nela estava mamãe, um homem e uma criança no centro, parecia a mesma que eu vi de relance há muito tempo. A legenda dizia: Megan, Robert e Jacques, A família Jones.

Não consigo esboçar uma reação a imagem, apenas encaro o homem da foto, Jacques. Lembro das palavras do Sr. Dermott: Meu propósito é encontrar Jacques Brainor Jones, o seu pai. Ele estava ali comigo e com mamãe, todos sorrindo felizes.

Observei que dentro da caixa havia outro objeto, um canivete negro com laminas prateadas, com uma gravura na superfície de três letras J.B.J. Olho as inicias e percebo que eram as inicias do pai.

– Obrigado. Muito obrigado. — falo aos soluços. Procuro por mais algumas coisas que pode pertencer a mim, mas no final esses foram os únicos objetos que levei embora: um álbum de fotos e um canivete.

– Obrigado — repito.

– Não há de que. — ela sorri.

Retornei para a Inglaterra no mesmo dia. Quando cheguei, vi Kate debruçada sobre a mesa de centro na sala de estar — dormindo. Na frente dela estava uma xícara de café. Tento não acorda-la e sussurro um obrigado bem baixo.

Exatamente um mês depois aconteceu a pior coisa da minha vida.