Assassin's Creed: Elementary

27 O Inferno de Jacob Frye


Notas iniciais
Agora vamos ver como Jacob está se saindo na cadeia. Boa leitura!

Dois chutes nas costas despertaram Jacob de volta ao mundo. Mais uma vez, havia sido sedado. Seu organismo, tão acostumado aos estupores do álcool, parecia não suportar mais doses e doses de sedativos. Tudo isso porque os policiais reconheciam que seria difícil demais mantê-lo preso por muito tempo, então prefeririam não se arriscar a contê-lo em uma fuga. Por isso, sedá-lo era a melhor opção.

—Onde eu estou? – balbuciou, ainda grogue. Sentiu algo molhado cair sobre seu rosto. Mas não era água.

—Westminster, seu filho da puta. – e ouviu risos. O cheiro forte de urina quase o fez vomitar. Tentava limpar em vão seu rosto, enfurecido e com vontade de matar o patife que mijou em sua cara, mas ainda sentia-se letárgico por causa das doses de morfina que insistiam a passear por seu sangue. Não demorou para que seu estado cambaleante fosse percebido pelos presos. Todos Blighters, que se achavam naquele momento os mais sortudos homens do mundo por ter o líder dos Rooks em sua cela, drogado demais para esboçar qualquer reação para suas agressões.

Os guardas ouviram os primeiros sons do espancamento, mas não reagiram. Foram orientados por Lestrade, o inspetor responsável por aquela delegacia, a não socorreram o perigosíssimo gângster Frye. Merecia apanhar um pouco e sofrer na mão dos outros detentos, achava o inspetor, pois tinha certeza de que, apesar de todo o rigor daquela cela, Jacob era poderoso demais para ser mantido em cárcere por muito tempo. Logo os Rooks dariam um jeito de tirar seu líder dali, fosse por meios legais ou não. Mas Lestrade não deixaria passar a chance de castigar um criminoso da estirpe do Assassino, nem que fosse ao menos um pouco.

—Chefe... Eu acho que Jacob Frye vai acabar morrendo se continuarmos a deixa-lo naquela cela.

Lestrade ergueu seus olhos da maçã que havia acabado de cortar, para encarar o semblante horrorizado do jovem guarda que viera lhe transmitir o recado. Robert, tão acostumado com a vida de carcereiro, certamente estava falando sério. Não era facilmente impressionável.

—Muito bem, então. Leve aquele marginal para a solitária.

—Mas só temos uma cela solitária e ela já está ocupada...

O inspetor deu de ombros. – Não se preocupe, soldado. Já consegui uma transferência de Jacob a Dartmor, e será amanhã cedo. Tudo que ele precisa é amanhecer vivo na solitária para tal. Daí não será mais problema nosso. Será que consegue fazer isso?

—Como queira, inspetor. – disse o policial da Scotland Yard, se retirando. Voltando à escuridão úmida das celas da delegacia, contou as novas ordens de Lestrade ao seu companheiro de trabalho, também carcereiro. O homem suspirou.

—Que bom. A última coisa que queria era ter o líder dos Rooks morto no meu plantão. Mas ele vai dividir a cela com outro preso?

—Melhor do que dividir com presos rivais. Agora, vamos. Do jeito que ele está, teremos que carrega-lo até a solitária.

Como de praxe, um dos oficiais abriu a cela sozinho, enquanto era vigiado pelo outro guarda. No meio da cela, estirado ao chão, estava Jacob Frye. Seu rosto estava tão coberto de sangue que mal dava para reconhece-lo. Sequer parecia o valentão que provocava medo em meia Londres, de tão espancado.

—Sabe, por mim ele ficava aqui para sempre... – zombou um dos presos, enquanto observava os dois oficiais carregarem Jacob pelos corredores. Todos tinham seus pulsos avermelhados e doloridos, de tanto espanca-lo. Sabiam que ficaria metade de suas vidas presos, mas no fundo sentiam-se satisfeitos por provocar dor em quem os colocou naquele lugar. E mesmo aqueles que não participaram do espancamento comemoravam ver o estado lamentável de Jacob, a ser carregado inconscientemente pelos corredores. Era quase um desfile de provocações, xingamentos, e mesmo umas tentativas de cuspi-lo.

Havia um único prisioneiro na solitária, como era de esperar. Estava ali pelo mesmo motivo que Jacob Frye: porque provocou uma briga com os outros presos. A velha rivalidade de gangues, mas que fora longe demais quando um deles soube que seu mais novo amigo de cela estava organizando atentados com anarquistas. Um deles havia perdido a mãe em um atentado de cunho político. Queria mata-lo. O melhor a se fazer, na decisão de Lestrade, foi deixar Harry Carter na solitária, até que sua transferência para a boa e velha Dartmor, depósito dos bandidos mais perigosos da Inglaterra, fosse aprovada. A riscar a parede, Harry mal sabia que a sua transferência já jazia sobre a mesa de Lestrade. Ainda assim, temia em antecipação. Lembrava-se dos dias intermináveis passados na sombria e fria Dartmor. Nem em seus piores pesadelos o patife se imaginava de volta aquele lugar horrível.

Choramingava de sua desgraça. Por que era sempre tão ambicioso, tão sedento por poder e dinheiro? Bastava levar uma vida comum de gângster, cometendo uns crimes aqui e ali, e estaria tudo certo. Teria ainda a amizade com Jacob, que ele fez o favor de arruinar. Seu amigo de longa data, aquele que estava sempre presente em suas mais antigas memórias da infância, agora deveria lhe odiar por todas as besteiras que fez. Tinha todos os motivos do mundo para deseja-lo longe, e agora que Dartmor estava tão perto, certamente conseguiria.

—Por que eu fiz isso com você, Jacob? Por que? – lamentava-se, em meio ao choro. Seu rosto estava já avermelhado de tanto chorar, com as lágrimas a salpicarem seus recentes hematomas. Ouviu passos próximos. Deveria ser algum guarda, a deixar comida. Naquela solitária escura, sequer sabia quando era dia ou noite. Encolheu-se, ao ouvir os primeiros ferrolhos abrirem a pesada porta de metal que lhe separava da civilização.

—Temos companhia para você, bebê chorão. Aproveite, porque será só por essa noite.

E assim, largaram sobre o chão daquela cela a última pessoa que ele esperava ver novamente.

—Jacob?! – surpreendeu-se Harry, limpando o rosto ensanguentado de seu alquebrado amigo. Ouviu de seu amigo um pigarreio de dor. Seus olhos estavam fechados. Um deles, claramente porque estava roxo. O outro, apenas de cansaço. Acolheu a Jacob tal como um bebê, abraçando-o e tentando confortá-lo de sua dor da maneira que era possível naquelas condições. Limpou-o com sua camisa e usou sua única tina de água para lavar seus ferimentos. Quando feito, deixou-o em um canto. Em claro, esperou que ele acordasse, para assim explicar o que ele fazia ali, naquela fétida cadeia de Westminster. Teria certamente uma boa história para contar.

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Foi a escuridão quem recepcionou Jacob, no momento em que ele abriu seus olhos castanhos. Quer dizer, apenas um olho castanho. Um deles não conseguiu abrir de jeito algum, talvez por causa da enorme bola que o circundava e agora atrapalhava sua visão. Ao menor esboço de se levantar, sentiu dor. Nem em seus mais intensos dias de treinamento de Assassino sentiu tamanha dor. Quer dizer, talvez no dia em que se atrevera a lutar em uma arena de luta clandestina em Crawley, quando ainda tinha dezoito anos e apanhou de praticamente todos os lutadores naquela noite. Mas mesmo assim, jamais sentira-se tão moído. Parecia ter sido atropelado por um trem cargueiro.

Ao grunhir de dor, percebeu algo se movimentar. Estava escuro, mas ele conseguia sentir sua presença. Era Harry, surpreendeu-se tão logo o notou.

—Harry? – disse, tentando ignorar a dor em seu abdome. O gângster sentou-se ao seu lado. Também estava cheio de hematomas recém-adquiridos, ainda que não na mesma extensão que ele. Sinal de que Abberline não exagerara ao falar de Westminster.

—O que está fazendo aqui, Jacob?

—Eu fui preso. – disse o Assassino, reunindo todas as suas forças para se sentar, apesar dos protestos de seu amigo. Grunhiu um pouco enquanto se mexia, mas sabia que a dor era necessária. Render-se a ela só pioraria as coisas, como dizia seu pai sempre durante os mais duros treinamentos.

—Isso deu para perceber. Mas o que fez para ser preso?

—Tudo, Harry. Absolutamente tudo. – admitiu Jacob.

—Então, sua prisão é por causa dos Rooks.

—Sim. – disse o Assassino, massageando o ombro dolorido. – A polícia chegou até a mim, com provas contundentes, de que eu sou o líder dos Rooks.

—Isso significa que Evie...

—Evie está fora disso, Harry. Ao menos aquele desgraçado do Holmes a poupou.

—Espere, aquele detetive? Foi ele quem te prendeu?

—Não necessariamente, mas provocou a tempestade perfeita para a minha prisão. Foi ele quem reuniu as provas e me entregou à polícia.

Harry parecia assustado.

—Se isso for verdade, você irá para Dartmor!

—Pode ter certeza de uma coisa, Harry. Eu não vou a lugar algum, e mesmo se eu for, não ficarei trancafiado como um animal por muito tempo. Darei meu jeito de fugir.

—Jacob, Dartmor é impossível de se fugir! É a prisão mais bem vigiada da Inglaterra! Falo isso como um antigo prisioneiro de lá! Precisamos fugir daqui antes de ir para lá, do contrário iremos apodrecer naquela pocilga!

—Não sei como. O mais forte aliado que eu tinha na Scotland Yard agora me odeia. Os Rooks estão fragmentados, escondidos como ratos, vulneráveis demais para me ajudar. A não ser que minha irmã ou Violet tentem me resgatar...

—Esqueça Violet, Jacob! Simplesmente esqueça!

Jacob surpreendeu-se com a irritação de Harry.

—Qual é o seu problema com Violet, Harry?

—Essa Violet, a quem você chama de “sua namorada”, não é quem você pensa que é, Jacob! Seja lá o que for que ela tenha te contado, é uma grande mentira. Ela... Ela é uma atriz, é isso.

O Assassino riu.

— Violet, uma atriz... Francamente, Harry. Se você não gosta dela, apenas admita.

—Eu a conheço de outros verões, Jacob! Ela tentou dar um golpe no baú em um príncipe e eu... Bem, eu fui contratado para roubar a casa dela. Ela tinha um retrato comprometedor desse príncipe, que guardava em um cofre. E quando eu entrei na casa dela, eu...

Jacob percebeu um forte constrangimento em Harry.

—Eu não sei como dizer isso sem parecer um cafajeste, mas... Ela me deteve do roubo de um jeito nem um pouco puritano.

—Puta merda... – balbuciou Jacob, catatônico. – Quer dizer que você e Violet...

—Na verdade, o nome dela é Irene Adler. E sim, nós fomos amantes. Eu era de uma quadrilha de assaltantes na época em que nos conhecemos e tinha muitos contatos no submundo do crime. Hoje sinto que tudo que ela fez foi ficar comigo para me usar, porque eu sempre contava a ela sobre os bandidos que o príncipe pagava para roubar o seu retrato. Até mesmo das emboscadas armadas pelo príncipe eu já a salvei. A sorte dela é que ele se casou com uma princesa poderosa e se esqueceu dela.

—Não é possível... – retrucava Jacob, incrédulo. – Como ela pode ser uma impostora?! Como?! A não ser que... Droga, ela só pode ser uma desertora da Irmandade! Por isso ela age e pensa como uma Assassina!

—Jacob, eu a vi matar pessoas! É claro que ela age e pensa como uma assassina.

—Urgh, deixa para lá, Harry! Eu já entendi tudo agora. Violet é mesmo uma atriz, e certamente foi paga por Sherlock Holmes para se aproximar de mim e assim conseguir o máximo de provas possível para me incriminar.

—Na verdade, o nome dela é Irene Adler. – insistiu Harry, mas Jacob o ignorou.

—Se envolveu comigo só para me colocar na cadeia! E eu aqui, tolamente a pensar em pedi-la em casamento! Que idiota que eu sou! Idiota!

—Jacob...

—Me deixe em paz, Harry. – disse o Assassino, voltando a se deitar. Jamais se sentira tão magoado como naquele momento. Sua vontade era deixar de existir. Mas claro, não sem antes eliminar Sherlock Holmes e Violet – melhor dizendo, Irene Adler – da face da Terra. Fechou os olhos, numa vã tentativa de descansar e sonhar com isso. Mas tudo que pôde sonhar foi com um dia em um passeio no parque com Violet. Mesmo em seus sonhos ela parecia tripudiar de seus sentimentos. Não havia paz para o Assassino nem ao dormir.

Notas finais
Ai ai esse Jacob... KKK Próximo capítulo: Evie e Holmes no encalço de Moriarty... Preparem-se, pois será decisivo! Até o próximo!