Assassin's Creed: Elementary
28 Um Homem Chamado Moriarty
Notas iniciais
Tarde demais.
Foi esta a expressão que tomou os semblantes de Holmes e Evie, quando os dois chegaram aos escombros. A explosão fragmentou uma enorme pedra que decerto bloqueara o lugar. A luta de Evie com os capangas, por mais que tivesse sido demorada, serviu para que eles pudessem retirar umas poucas rochas que ainda obstruíam um pouco a porta e finalmente abri-la com a Peça do Éden que estava em sua possessão.
—Como ela conseguiu deslocar essa pedra? Parece pesada... – pensou Holmes, enquanto analisava a belíssima porta de pedra, com desenhos estranhos talhados em sua superfície.
—Isto. – disse Evie, apontando a ele o que parecia ser um círculo desenhado na superfície. Enquanto passava seus dedos naquela textura, a Assassina chegava a conclusões. Sem dúvida, e por intermédio de algum mecanismo que o conhecimento humano ainda desconhecia, os Artefatos do Éden em posse de Moriarty funcionavam, unidos, como uma “chave”, pois ela poderia afirmar com certeza que a Peça do Éden que vira com Milverton cabia perfeitamente ali.
—Há uma escada logo a seguir. – disse o detetive, acendendo uma tocha com um de seus fósforos.
Quando Evie pôs o pé naquela escada, imediatamente o ambiente se iluminou. Como se suas presenças ali fossem sentidas. Não era mais necessário fósforo ou qualquer aparato de fogo.
—Impressionante. – balbuciou Holmes, enquanto descia os primeiros degraus ao lado de Evie. – Acho que está na hora de me dizer o que é exatamente uma “Peça do Éden”.
Evie bufou.
—Para começo de conversa, você sequer deveria estar aqui, depois de tudo que fez contra o meu irmão...
—Como eu te já te disse, seu irmão mereceu. Além disso, eu tenho contas a ajustar com Miss Adler. Mas isso não deveria me impedir de me explicar o que é exatamente esse “Artefato” ou “Peça” do “Éden” que vocês tanto mencionam.
—Não vejo razão para você saber disso.
—Sabe, a julgar por sua reação, eu diria que é algo poderoso. Místico, quem sabe. Seria uma espécie de Santo Graal ou...?
Evie riu com a menção do “místico”.
—Você não vai desistir, não é mesmo?
—Ao que parece, temos uma longa escadaria pela frente. Tempo é o que não irá nos faltar, mesmo descendo rapidamente.
—Nem sei por onde começar.
—Sou paciente. Gosto de histórias longas.
Em meio ao descer dos degraus, Evie contava, de modo resumido, sobre a Primeira Civilização. Ou Aqueles Que Vieram Antes, como alguns Assassinos e Templários gostavam de chamar. Uma Civilização Antiga com habilidades especiais, que dominavam tecnologias que pareciam ser, simplesmente, incompreensíveis aos humanos. Falou brevemente da extinção dela, e de como alguns objetos proeminentes deles ainda circulam pela Humanidade. Deu alguns exemplos, para que Holmes entendesse.
—Então, a Espada de Joana D’Arc é, na verdade, um Artefato do Éden?
—Sim. Era um Artefato extremamente poderoso, mas acabou danificada na época da Revolução Francesa. Não possui o mesmo poder que antes.
—Está me dizendo isso apenas para me ludibriar e fazer com que eu perca o interesse pela espada? Admito que eu gosto de esgrima, mas montantes não são de meu agrado.
Evie riu. – Se quisesse fazê-lo perder o interesse, diria que tudo que está vendo é uma alucinação sua causada por morfina nas suas veias.
Foi a vez de Holmes rir.
—Já tive muitos sonhos estranhos quando drogado, mas nada que se comparasse a isso. Olha, parece que há alguém por ali... – cochichou Holmes. A conversa fez com que os dois sequer percebessem que a escadaria já estava chegando ao fim. Holmes e Evie se agacharam, usando as sombras como cobertura. O ambiente era escuro, iluminado por tochas antigas, presas às paredes tomadas de mato. O som de goteiras ecoava pelo lugar.
—Vê as inscrições nas paredes? – cochichou Holmes. – Referências romanas.
Evie concordava. Aquele lugar parecia um balneário montado pelos romanos. Decerto eles tentaram reconstruir alguma coisa sobre as ruínas da Primeira Civilização, mas a descoberta da Fonte do Esquecimento provocou algum acidente e a ideia foi abandonada. Os olhos de Evie voltaram-se à uma estátua feminina.
—Minerva, de acordo com a inscrição em latim abaixo dela. A deusa da sabedoria, do conhecimento e da guerra, na mitologia romana. – explicou Holmes.
Minerva. Ainda que de modo indireto, os seres da Primeira Civilização estavam presentes naquele lugar. Evie sabia que Minerva falou com Ezio Auditore sobre o futuro. Foi um alerta. Um alerta confuso, mas um alerta. Um alerta cujo significado só o tempo dirá.
A dupla caminhou mais um pouco, com cuidado. Não sabiam que Irene Adler estava ali sozinha ou com mais alguém. Possivelmente, Moriarty estava com ela. Evie sentia seu coração disparar, diante da expectativa de, finalmente, encontrar esse tal Moriarty pela primeira vez, frente a frente. Ainda não havia digerido bem o acontecido na Mansão de Milverton. Tinha contas a ajustar. Com Adler, por sua traição, e também com Moriarty.
E ainda havia Holmes...
O detetive merecia pagar pelo que fez, sim. Mas Evie ainda não havia decidido como. Em outras circunstâncias, ele pagaria com a vida, mas a Assassina já não tinha mais certeza se Holmes realmente merecia morrer. Quando toda essa confusão acabasse, ela se sentaria com Jacob Frye para discutir o que diabos ele estava fazendo envolvido com prostituição e ópio sem o consentimento dela. Só então decidiria a respeito de uma punição ao detetive.
—Pela sombra projetada, há duas pessoas. – concluiu Evie, recostando-se à parede.
—Certamente Irene Adler e o Professor Moriarty. – disse Holmes, sacando seu revólver. O brilho do metal da arma fez Evie se alarmar.
—Terá coragem de matá-la?
—Não me aproximaria dela com um buquê de flores, depois dos últimos eventos.
Evie rolou os olhos. – Eu me preocuparia mais com esse Moriarty. Matou Milverton a sangue frio. Uma pessoa dessas está apta a qualquer coisa. Ainda mais com uma Peça do Éden em jogo.
—Percebi que não está mais chamando Moriarty de “templário”. Posso presumir que agora está aceitando minha teoria de que ele pode não ser um templário?
—Eu nunca ouvi falar de um templário chamado Moriarty. Nunca. Talvez sua teoria tenha lá o seu fundamento. Mas ainda assim, pergunto-me como um civil poderia saber tanto das Peças do Éden.
—Talvez, do mesmo modo que eu soube sobre vocês. Ele descobriu sozinho.
—Assassinos e Templários tem algo em comum: uma discrição absurda sobre seus negócios. Estou mais inclinada a acreditar que alguém o contou sobre os Artefatos.
—Irene... – amaldiçoou-se Holmes, sentindo-se o mais tolo dos homens.
Holmes e Evie se silenciaram. Moriarty e Adler conversavam à distância deles. Traziam os olhos atentos a uma enorme fonte de pedras rústicas com uma intensa luz que emanava de seu interior a ponto de iluminar completamente o lugar. Sendo um homem racional, Holmes jamais acreditou em Magia, mas a julgar pelo que seus olhos estavam observando, o detetive precisava admitir que, talvez, a Magia não fosse restrita a meros contos criados para crianças tolas.
—Uma vez que se elimina o impossível, o que restar, por mais improvável que possa parecer, é a verdade. – balbuciou o detetive, ainda encantado com a Fonte. Tornou-se atento quando percebeu o professor agachar-se à altura das águas e rapidamente se levantar.
—Há algo brilhando no fundo desta Fonte. Há de ser a Maçã. – disse o professor, com um forte tom de animação em sua voz.
—A Maçã não seria a própria Fonte, como relataram os druidas?
—Duvido muito. As propriedades mágicas desta água são provenientes do Artefato do Éden, que os druidas decerto lançaram nesta água com o intuito de proteger. Essas águas nada mais agem que um condutor do poder do Artefato. Precisamos retira-lo dali...
—Nem olhe para mim. – resmungou Adler, ao ver os olhos cinzentos de Moriarty pairarem sobre ela, num tom sugestivo.
—Ora essa, Miss Adler. A senhora faz serviço muito pior que molhar as malditas anáguas em um poço com milhares de anos. O dinheiro que lhe prometi não é o suficiente?
—Não sou tola, Moriarty. Sinto que há algo de muito nefasto nessas águas...
Os dois calaram-se quando o ruído de um rato ecoou pelo lugar. Holmes amaldiçoou-se, pois foi o responsável por denunciar sua própria posição. O roedor parecia ter adquirido um enorme fascínio pela calça de Holmes, e o detetive não viu alternativa senão afugentá-lo quando o rato começou a tentar escalar sua perna.
—Parece que temos visitantes, Miss Adler. – concluiu Moriarty, sacando o revólver.
—Droga! Eles já sabem que estamos aqui. Precisamos agir. – sussurrou Evie.
—Dê a volta pelas pilastras da ruína, Miss Frye. Vou tentar distraí-los.
Holmes abandonou sua posição, de braços estendidos. Evie aproveitou-se da surpresa do professor e da ex-Assassina americana para se mover pelas sombras.
—Sherlock Holmes.
—Professor Moriarty.
—Parece que Miss Adler não foi o bastante para deixa-lo fora da jogada.
—Não se lamente em demasia, professor. Subestimar-me é um erro que meus adversários costumam cometer com frequência. Mas sinto-me honrado em finalmente conhecer o homem que conseguiu deixar duas poderosas ordens secretas para trás em busca de... O que é isso mesmo?
—Peça do Éden.
—Isso mesmo, Peça do Éden. – repetiu o detetive, enquanto Evie aproximava-se do professor. – Espero que entenda meu lado, é muito complicado para alguém como eu passar a aceitar a existência do sobrenatural.
—Está falando disto? – apontou o professor para o lago resplandecente pela luz. – Não é tão “sobrenatural” quanto parece. Trata-se de uma tecnologia criada por uma civilização extinta, porém fantasticamente mais avançada do que a nossa. Enfim, é uma longa história. Adoraria ter esta conversa contigo na Universidade onde leciono. De verdade, adoraria. Consigo imaginar claramente nós dois, conversando sobre as nuances dos conflitos entre Assassinos e Templários com uma visão menos “passional” e mais “racional” acerca disto, mas infelizmente receio que isso não será possível, pois...
O toque gélido da lâmina de Adler no pescoço de Holmes sobressaltou rapidamente o detetive.
—O que você testemunhou aqui não poderá sair desta sala. – completou Moriarty.
Holmes engoliu em seco. Sentia claramente o perfume de Adler em suas costas. Conhecia bem a mulher para saber que, apesar de estarem em lados opostos, ela não seria capaz de fazer-lhe tamanho mal. Ou seria? O detetive estava incerto. Achava melhor não pagar para ver.
—Não mate-o agora, Adler. – pediu o professor. – Tive uma grande ideia.
—Mudou de ideia quanto à conversa sobre Assassinos e Templários? Pois para mim o convite ainda está de pé...
—Infelizmente, não. Nada de conversas, rapaz. Você será nada menos que o meu... “Voluntário” para retirar a Maçã do Éden que está no fundo daquele poço.
—Você ficaria abismado se eu contasse que eu não sei nadar?
Moriarty gargalhou.
—Essa é a desculpa mais esfarrapada que um homem de sua estirpe poderia me dar, Mr. Holmes. Honestamente, esperava um argumento melhor de você.
—Quando eu tinha oito anos de idade, me afoguei no lago de minha propriedade em Yorkshire. Eu estava remando e o bote virou. Meu pé ficou agarrado em uma planta. Só não acabei morto porque meu irmão Mycroft estava me observando do outro lado do lago e chegou a tempo de me salvar de um afogamento. Desde então, adquiri uma espécie de "bloqueio". Nunca mais consegui nadar. Em toda a minha vida.
Moriarty suspirou. Sentiu claramente sinceridade nas palavras do detetive. Mais do que isso, um leve tom emocionado, verdadeiro e até mesmo envergonhado por trauma de infância afetá-lo mesmo quando já adulto.
Mas isso só tornava tudo mais divertido.
—Jogue-o no poço.
Adler caminhou passo a passo com Holmes, mantendo sua lâmina afiada recostada ao pescoço do detetive. Já estavam às margens do lago. Holmes olhava para seu brilho, mortal. Havia algo no fundo, ele concluiu. O professor estava certo. A áurea mágica daquele poço emanava de um objeto possivelmente redondo, depositado no fundo. Bem no fundo. Por São Jorge, quantos metros de profundidade esse poço tem?
—Estava falando sério quando disse que eu não sei nadar... – avisava o detetive, com a voz trêmula de pavor. Já se encontrava com um pé na borda.
—Isso não me importa. Eu só quero que alguém retire essa maldita Maçã de lá.
—E para que eu faria isso, se acabarei morto de qualquer forma?
—Por Júpiter! Cale-se, ou...!
Adler sentiu algo espetar-lhe o ombro. A dor da facada arremessada por Evie fez sua mão se soltar do pescoço de Holmes. O detetive soltou-se da atriz e rodopiou para longe dela, quase se desiquilibrando e caindo no poço. Evie atacou na hora certa e com precisão, e correu na direção de sua adversária, como um touro. A Assassina e a atriz agora lutavam ferozmente. Holmes tentou correr para ajudar Evie, mas um disparo de arma de fogo o deteve. Por pouco não o acertou.
Era o professor.
—Você e essa maldita Assassina não irão me atrapalhar! – gritava o acadêmico, enquanto o detetive buscava abrigo de seus disparos entre as antigas pilastras que sustentavam o lugar. Logo Holmes passou a revidar com seu revólver. Disparos começaram a ser trocados entre o detetive e o professor.
—Vai se esconder como um rato, é? – provocava o professor.
—Quanta hipocrisia, quando adota a mesma estratégia... – retrucou Holmes, tentando mais uma vez disparar contra Moriarty, também escondido em uma pilastra. Fragmentos de pedra saltavam a cada disparo, o som ecoava como trovão. O detetive voltou seus olhos para Evie e Irene, que permaneciam a brigar intensamente no chão. Havia sangue no rosto de Evie. Ele só não sabia se era mesmo dela, ou de Adler.
—Essa briga delas duas precisa acabar, não é mesmo?
Para horror de Holmes, o professor apontou seu revólver para as duas. A menor chance de uma bala acertar Evie Frye estremeceu o coração de Holmes, que disparou suas duas últimas balas. Suas mãos, trêmulas, fizeram-no errar a mira, sempre impecável. O máximo que conseguiu foi acertar o professor de raspão, fazendo-o errar também o disparo e assim não acertar nenhuma delas. Aproveitando a dor de seu oponente, Holmes correu para perto de Moriarty e lançou-se contra ele. Ambos acabaram caindo ao chão pateticamente.
O disparo errado do professor acertou uma parede próxima, mas foi o bastante para desiquilibrar Irene Adler e fazer a atriz receber um soco no queixo, forte o bastante a ponto de faze-la desmaiar. Arfando e com o nariz sangrando, Evie levantou-se e voltou seus olhos para uma cena que fez seu coração congelar.
Holmes e Moriarty estavam atracados. Travavam uma luta corporal, quase patética, onde um tentava tolamente empurrar o outro contra o poço. Apesar da idade, o professor Moriarty era resistente. E estava levando a melhor.
Uma cabeçada atordoante desferida pelo professor fez o detetive perder o equilíbrio. Bastou o menor dos empurrões para que ele caísse no poço. O som da água a se agitar mais pareceu um estrondo, e nem mesmo Evie sabia se isso era efeito das propriedades mágicas da Maçã ou seu assombro em ver Holmes a cair sobre aquelas águas, perigosas de tão incertas. Sua reação tornou-se um grito. Não lembrava por quanto tempo gritou. Tudo que lembra era de ter saltado à água, enquanto um desesperado Holmes lutava tolamente para se manter na superfície.
“Não beba a água”, repetia a si mesmo Evie. “Não beba a água”.
Holmes sacudia-se dos pés à cabeça. Estava longe da superfície quando Evie o alcançou. Com a boca completamente fechada, Evie ergueu-o, mas o desespero do detetive parecia tornar impossível o resgate. O fôlego começava a faltar a Assassina, que temendo engolir a misteriosa água da fonte, decidiu adotar uma atitude drástica: socou o detetive algumas vezes até faze-lo desmaiar.
Evie sentiu os pulmões queimarem quando alcançou a superfície. Nunca o ar foi-lhe tão estimado como agora. Carregava um desmaiado Sherlock Holmes para fora do Poço. Apesar do susto do afogamento, ele respirava.
-Volte para essa fonte e pegue a Maçã.
Evie ouviu o desengatilhar de um revólver. Era Moriarty.
-O senhor não me dá ordens.
-Cale-se, Assassina. Estou com a vantagem aqui. Faça o que eu mando ou eu mato esse... Esse homem que você tanto se esforçou em retirar das profundezas desse poço. Seja lá quem ele for.
Evie arregalou seus olhos, segundos depois.
-Espere... Homem?! Acaso não sabe quem é ele?
-Como poderia saber? Você lançou-se a fonte e o retirou das profundezas. Isso é tudo que me recordo.
-Mas é claro que não! – assustou-se Evie. – Foi o senhor quem o empurrou!
-Eu não empurrei ninguém.
Evie observava Moriarty, com o semblante confuso. Nem mais se importava com o revólver apontado para o seu rosto. “Ele parece não saber mais quem é Sherlock Holmes. Não o reconhece diante dos olhos.”
Como se... Como se Holmes tivesse sido apagado de sua memória.
Então é isto. O Poço do Esquecimento não só apaga as memórias de quem bebe de suas águas. Ele também pode fazer a pessoa ser apagada da memória de quem a conhece. Tal como aconteceu com o membro da Irmandade de Edward Kenway.
Mas por que eu ainda me lembro dele?
—A senhorita claramente é louca, mas isso não importa. Tudo que preciso é que retire a Maçã do fundo do poço e... Argh!
Evie ejetou sua lâmina e a penetrou no pé de Moriarty. Saltitando de dor, o professor recebendo um mortal golpe na garganta. Caiu sobre o chão, esguichando sangue e formando uma poça avermelhada, que seguiu-se em uma trilha a gotejar sobre o poço. Ironicamente, Moriarty e a Fonte que tanto desejava tornaram-se um só, com a água resplandencente tornando-se turva com seu sangue.
Evie suspirou fundo. Arrastou Holmes para longe do poço. Subitamente, seus olhos voltaram-se para onde Adler havia sido deixada inconsciente. A ex-Assassina não estava mais ali. Decerto aproveitou a preocupação de Evie com o afogamento de Holmes para fugir.
Ao arrastar o detetive, Evie percebeu-o começar a despertar.
—Evie.. – ela o ouviu balbuciar. Era estranho, sentiu Evie, ouvi-lo dizer seu nome. Ele sempre a chamava de Miss Frye, e sempre com suas maneiras pomposas beirando ao irritante. Holmes tossiu um pouco, cuspindo um pouco de água. Seus olhos semicerrados começaram a voltar ao normal.
—Pensei que iria morrer. – disse, ainda aparentando estar em choque. Levantou-se e desabotoou o colarinho, deixando a gravata arregaçada. Tentava acalmar-se.
—Está tudo bem agora. O professor Moriarty está morto e Miss Adler fugiu.
—Não me surpreendo. Adler certamente irá retornar à América, ao menos até as coisas pela Europa se acalmarem. Quanto à Moriarty... É uma perda inestimável ao mundo, mas não posso me queixar de seu fatídico fim depois que ele me atirou para a morte.
Evie percebeu que Holmes parecia com o olhar perdido diante de uma parede.
—Agora entendo porque há ratos aqui... – balbuciou o detetive.
—Como?!
Os olhos da Assassina voltaram-se para uma fileira de esqueletos recostada a uma imensa parede. Todos trajavam típicos trajes de legionários romanos, a Assassina logo reconheceu de seus estudos. Usavam espadas e elmos.
—Soldados romanos. O que faziam aqui, se este era um lugar sagrado aos druidas? – perguntou-se Holmes. Evie o respondeu.
—De acordo com os estudos de Salvatti, os romanos estavam atrás de uma fonte mística, protegida pelos druidas. Diziam que era o Poço do Esquecimento, mas os romanos acreditavam que era algo muito mais poderoso. O Poço da Imortalidade, por exemplo. Uma legião romana foi enviada para rastrear, mas não retornaram.
—Creio, então, que encontramos essa legião perdida. Olhe só...
Holmes passou seus dedos em uma parede. Havia uma gravação nela. Não era uma pintura, mas uma gravação feita pelo atrito de algum objeto. Palavras em Latim formavam-se nela.
—Sabe o que está escrito?
—Graças a minha formação em Direito, sim. Está em Latim. Um tanto rudimentar, mas ainda compreensível a alguém de nossa época. Lerei em voz alta.
“Eu, o Comandante Cássius Longinus, venho proferir meu fracasso com essa expedição. Sequestramos alguns druidas e o forçamos, através de tortura, a entregar a localização do Poço Mágico. Comandei minha legião até este local. Fomos guiados por druidas até aqui, e apresentados ao Poço. O druida contou-me que o Poço conferia imortalidade a quem bebesse de suas águas. E eu bebi. Fui o único a fazer isto. Caí em desgraça. No instante seguinte, nenhum dos meus homens me reconhecia. Disseram que eu era um impostor, um farsante infiltrado pelos druidas. Tentei me defender e acabei me ferindo. Tentei argumentar, mas todos pareciam confusos. Os druidas aproveitaram-se do momento e foram embora, trancando a mim e a minha legião neste lugar. Sinto minha vida se esvaindo graças ao ferimento que recebi. Sei que em breve estarei morto, e também sei que em breve, meus homens estarão mortos. Fomos abandonados aqui. Minhas mãos estão sujas com o sangue de meus homens, e graças à minha arrogância. Que os deuses tenham piedade de mim.”
—Uma morte terrível. – concluiu Holmes, enquanto Evie observava atentamente o detetive, tentando encontrar uma forma de explicar o que estava acontecendo. Mas não foi necessário.
—Eu bebi a água. – concluiu Holmes. – Involuntariamente, ingeri destas águas enquanto me afogava. Mas você ainda lembra de mim. Sinal de que....
—Holmes... Moriarty não se lembrava de você.
O detetive arregalou seus olhos cinzentos.
—Não... Mas então, porque você ainda se lembra de mim?
—Eu não sei. – confessou Evie. – Talvez.... Talvez porque eu tenha te resgatado. Estava próxima demais de você, quando você bebeu do Poço. Não pude te esquecer por isso, eu acho.
O detetive parecia nervoso.
—Talvez o efeito não seja válido para todos, mas... Mas apenas para as pessoas presentes no momento em que eu bebi a água. Não é mesmo? – após um minuto em silêncio, Holmes inalou profundamente. – Não vou ficar aqui, conjecturando se estou amaldiçoado por essas águas ou não.
—Para onde você vai? Holmes!
O detetive subiu rapidamente as escadas, desaparecendo dos olhos da Assassina.
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