Assassin's Creed: Elementary
14 Diversificando os Empreendimentos
O trem andava devagar pelo bairro de Lambeth quando Jacob o alcançou, entrando com agilidade pela janela após saltar de seu gancho. O Assassino decidiu ser mais ousado desta vez e deu uma pirueta no ar, acertando em cheio a janela que estava aberta. Porém, o que o Assassino não contava era esbarrar com Violet assim que o fez, fazendo os dois Assassinos rolarem pelo chão da composição.
Ao passar acidentalmente por ali e ver os dois engalfinhados no chão, Henry Green corou-se, atordoado com o que acabara de presenciar.
-Oh. Acho melhor eu passar aqui em um outro momento...
-Não é nada do que está pensando, Henry. – disse a Assassina, visivelmente corada e um tanto irritada pela maneira como ocorria seus encontros com Jacob. O destino parecia conspirar para que todos eles ocorressem sempre de maneira tão patética e... Sedutora.
—É. Foi apenas um acidente. – disse Jacob, levantando-se do chão e ajudando Violet a se reerguer. – Violet tem o poder de me atrapalhar.
-E você tem o poder de aparecer nas horas mais inoportunas. Sua entrada nada educada neste trem poderia ter me machucado.
-Mas todo mundo entra no trem desse jeito!
-Eu não entro assim, como um elefante em uma loja de porcelanas...
-Parem agora, os dois. – pediu Henry. Ao ver o semblante um tanto emburrado do Assassino, Jacob se surpreendeu. Henry não era do tipo de se irritar por tão pouco.
-Ora essa, mas que bicho te mordeu, Greenie?
-Você o chama de Greenie? – questionou Violet, confusa com o apelido.
-Ele gosta. – justificou-se Jacob, espreguiçando-se no sofá e com um olhar divertido. Não havia nada mais gracioso do que irritar o sisudo Henry Green. O prazer se tornou ainda maior depois que passou a ser nada mais que o namorado de sua irmã.
-Não, Jacob, eu não gosto, mas aceito porque no fim das contas você jamais irá parar de me chamar assim. E não, nenhum bicho me mordeu.
Jacob parecia pensativo, observando Henry enquanto ele arrumava uma prateleira de livros. Notava a força com que ele posicionava os livros na estante, um tanto brusca demais para livros que tinham quase a sua idade. Jamais viu o sempre tão zeloso Henry Green tratar seus livros daquela maneira. Sinal de que...
-Foi a minha irmã, então.
-Sua irmã também não me mordeu.
-Poupe-me dos detalhes sórdidos do que minha irmã faz com você, Greenie. O que estou querendo dizer é que a minha irmã é possivelmente a culpada por essas... Nuvens negras pairando sobre sua cabeça. Ah, eu sabia! Olha como você franziu a sobrancelha e torceu o lábio! Você é um livro mais aberto do que esses que estão nas prateleiras... Você é um péssimo mentiroso, Greenie!
-Ah, Jacob. Pare de atormentar o Greenie... Digo, Henry. Dá para ver que ele está preocupado porque Evie acabou por não comparecer a uma missão que os dois haviam combinado juntos.
Jacob levantou as sobrancelhas em surpresa.
-Minha irmã?! Ela não é de deixar ninguém esperando. Onde ela está?
-Eu não sei. – explicou Henry, cansado. – Mas notei que a mala dela sumiu.
Jacob deixou escapar um assobio.
-Bom, ao menos é um indício de que ela não foi raptada ou está em poder de algum templário. Simplesmente resolveu dar um passeio de alguns dias...
-Você só está piorando as coisas, Jacob. – aconselhou Violet.
-Tudo bem, não está mais aqui quem falou... – deu de ombros o Assassino. – Mas olha, Greenie, como minha irmã não está aqui, creio que seja melhor eu te entregar isso.
Jacob estendeu ao Assassino o bastão que encontrou com Nichols, na casa de Mrs. Stapleton. Imediatamente os olhos castanhos de Henry Green se arregalaram, fazendo o Assassino rir com sua reação abobada diante da Peça do Éden.
-Onde encontrou isso? – perguntou o indiano, claramente maravilhado com o objeto, que imediatamente brilhou ao seu toque. Jacob deu de ombros, não muito disposto em compartilhar com o Assassino os detalhes da noite passada.
-Com alguém que já está no mundo dos mortos, Greenie. Enfim, eu sei que você e minha irmã adoram essas velharias, então achei melhor entregar a você. Já que Evie deve estar ocupada a essa altura, provavelmente conhecendo novos lugares, novas pessoas... Greenie? Para onde está indo? Vai me deixar falando sozinho, é? Nossa... Ele realmente está nervoso. Será que ele queria viajar também e ficou magoado?
-Possivelmente. – disse Violet, com o semblante neutro enquanto observava o Assassino indiano sair do trem. O objeto acabou sendo deixado pelo Assassino em cima da poltrona de Evie. Ao pegar nele, o bastão também interagiu ao toque de Violet.
-Vou guarda-lo, para que não caia nas mãos erradas. – disse a Assassina, colocando-o em uma das gavetas de Evie. Jacob deu de ombros.
-Melhor, senão a minha irmã vai abocanhar o seu fígado. E quer saber? Vou parar de me intrometer nessa briguinha de namorados e fazer algo mais útil. Você deveria fazer o mesmo. Está perdendo o seu tempo aqui, Miss Fitzgerald. Sua estadia em Londres estaria sendo muito melhor aproveitada se me ajudasse com os Rooks, por exemplo. Ou saísse para beber comigo uma noite... – insinuou Jacob, fazendo a Assassina rir.
—Vou pensar em sua oferta.
—Pense com carinho. Pode sempre me encontrar em Devil’s Acre. – disse o Assassino, aproveitando a baixa velocidade do trem ao se aproximar de uma estação para saltar. A andar pelos trilhos, sentia o olhar de Violet sobre seus ombros. Riu, estranhamente. Não queria admitir, mas desde que colocou seus olhos em Violet, a achou incrivelmente atraente. E algo lhe dizia que a Assassina pensava o mesmo, apesar de seus encontros soltarem mais faíscas do que um trem desgovernado. Faíscas de amor, pensou o Assassino com um sorriso fácil.
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Ao contrário de sua última visita, Jacob optou por uma entrada convencional, acessando o bordel pela porta da frente, desta vez como proprietário da casa. Havia um Rook na entrada, fazendo a segurança do lugar. Música animada e risadas femininas preenchiam o ambiente, mas o Assassino percebeu em meio à névoa de suor, perfume e tabaco barato um odor... “Diferente”.
Concentrado no odor, Jacob caminhou pelo bordel, ignorando os sorrisos provocativos de algumas prostitutas e os clientes mais exaltados. Quanto mais subia as escadas, mais forte se tornava o cheiro. O Assassino, então, fechou seus olhos. Ouviu tudo ao seu redor. Em meio a gemidos e respirações irregulares, ele ouviu resmungos inquietos, palavras incompreensíveis...
O som e o odor forte eram provenientes de uma porta em específico. Sem cerimônia, Jacob a abriu. Assim que o fez, o Assassino se arrependera do que fizera. Não era uma visão agradável. Aquela era, claramente, uma difamada Sala de Ópio. O cheiro da droga imediatamente invadiu suas narinas. Não acostumado ao cheiro do narcótico, Jacob tossiu. O ambiente, completamente fechado, estava nebuloso de tanta fumaça. Os homens presentes naquela sala, cada um com seu cachimbo, pareciam alheios à sua presença ali. Na verdade, pareciam completamente alheios ao Universo, com os olhos estáticos, a boca aberta e balbuciando divagações em inúmeras repetições.
Assustado com o que presenciara em seu estabelecimento, Jacob fechou a porta.
—Harry Carter está? – perguntou Jacob a uma prostituta de pele morena.
—Harry? Sim, ele está com a Chelsea... Olha, eu não faria isso, eles estão meio ocupados e...
Jacob ignorou a prostituta, indo até a porta do mesmo quarto onde ele encontrara Chelsea e eu amigo Harry. Para seu espanto, não era Harry que estava ali, mas um homem de idade engatinhando no chão enquanto uma prostituta montava em suas costas, como se ele fosse um cavalinho. A abertura da porta, ainda que por breves segundos, fez os dois soltarem gritos de histeria por serem flagrados. Ainda furioso, Jacob se movimentou para tentar a outra porta, mas foi detido pela prostituta.
—Eles também não estão nesta porta. – pediu a mulher. Jacob rolou os olhos.
—Se você não me disser onde está Harry e essa tal de Chelsea, eu vou abrir cada porta desse bordel até encontra-los.
A prostituta bufou, derrotada.
—Tudo bem. Mas não diga que fui eu quem te contou. Quarto andar, terceira porta à esquerda.
Seguindo as instruções da prostituta, Jacob foi até o quarto andar, procurando a terceira porta à esquerda. Ao abri-la, encontrou seu amigo Harry apenas em ceroulas, amarrado à uma cama enquanto a prostituta Chelsea, usando um espartilho, tinha à mão um chicote. Horrorizado, Jacob arregalou os olhos. Acreditando que seu amigo estava em perigo, Jacob correu para ajuda-lo, agarrando-se a Chelsea e a desarmando.
—Jacob! Pare com isso! – pedia Harry, impedido de ajudar Chelsea, pois estava algemado à cama. Lançando o chicote longe, Jacob tomou a compostura.
—Acabei de salvar sua vida, seu idiota! Essa mulher, ela...
—Claro que não! Nós estávamos nos divertindo, só isso!
Jacob franziu o cenho, confuso. – O quê?!
—Isso mesmo, seu palhaço. Nos divertindo. – disse a prostituta, se envolvendo em um robe de seda. – E você atrapalhou tudo.
—Como assim?! Você está todo machucado, Harry. Isso não pode ser divertido.
Harry estava corado, vermelho como um tomate, percebeu Jacob.
—Isso é apenas uma brincadeira, Jacob. Chelsea, por favor, tire minhas algemas.
A prostituta obedeceu, pegando da mesa uma chave e libertando Harry das algemas. Diante de um confuso Jacob, Harry começou a se vestir, sendo seguido por Chelsea, que fez a mesma coisa.
—Agora, será que dá para me explicar o que faz aqui? Onde é o incêndio?
—Incêndio? Ah sim. Está se referindo ao incêndio de ópio que está acontecendo lá na sala do segundo andar?
Naquele instante, Harry engoliu em seco. Jacob conhecia seu amigo. Sabia reconhecer quando ele estava encrencado.
—Eu posso explicar...
—Sério? Por que acredito que não há explicação, Harry. Quando se uniu a mim e aos Rooks, eu havia te explicado que nós não lidamos com venda de ópio.
—Vocês também não lidavam com prostitutas e ainda assim...
—Isso é completamente diferente. – interrompeu Jacob.
—Em quê?! Nós somos bandidos, Jacob. Você e eu. O mundo se resume a uma linha tênue, traçada na moralidade. A partir do momento que você a atravessa, tudo é permitido.
Tudo é permitido. Naquele momento, Jacob se lembrou do Credo dos Assassinos. Nada é verdade, tudo é permitido. Quantas vezes não retrucou seu próprio pai usando o Credo para justificar suas ações irresponsáveis e caóticas? Seu velho pai insistia em dizer que ele distorcia o Credo em benefício próprio, e que um dia a vida o faria ver tudo da maneira correta. A um preço alto. Jacob não conseguia ignorar a sensação de que este dia chegou.
—Não existe senso moral em bandidos, Jacob. Você mata, espanca, rouba, extorque... Por que não vender ópio?
—Isso vai completamente contra os princípios dos...
Ao botar que o próprio Jacob se silenciou, interrompendo a si mesmo, Harry cruzou os braços, impaciente.
—“Dos” quem?!
—Ninguém. Ninguém de seu interesse, Harry.
Harry deu um passo à frente.
—Sabe, acho que já passou da hora de você me contar o que você e sua irmã fazem exatamente da vida. Porque dá para perceber que vocês não são pessoas normais. Desde criança, Jacob, você sempre foi habilidoso. Não só o seu pai, mas todas as pessoas que frequentavam a casa dos Frye eram... Particularmente estranhas. E olha que estamos falando de uma cidade pequena como Crawley. Vocês tem um modo de vida estranho e estão cercados de gente estranha. Vocês pertencem ao quê, afinal? É alguma seita religiosa?
Para pasmo de Jacob, Harry levou sua mão às costas do Assassino e puxou seu capuz. Por instinto, o Assassino tentou se esquivar do amigo, em vão.
—Por que todas as suas roupas tem que ter um capuz? E o que significa, afinal, esse símbolo gravado no seu cinto? Notei que sua irmã tem as mesmas coisas também. O que é tudo isso, afinal? Seriam exigências de alguma organização ultrassecreta?
—Não tente inverter o jogo, Harry. Isso não muda o fato de você ter desrespeitado minha ordem e utilizado uma propriedade dos Rooks para venda de ópio. Eu não vou aceitar isso. Se você não fosse o meu amigo, eu te expulsaria dos Rooks ou coisa pior. Mas vou te dar um voto de confiança.
—“Voto de confiança”?
—É. Você vai acabar com a venda de ópio imediatamente.
Harry deu uma gargalhada. Jacob permanecia sério.
—Eu disse alguma piada?
—Acaso soube, Jacob? Consegui pagar o salário dos Rooks e também alguns fornecedores essa semana. E sabe como? Com a venda de ópio de apenas alguns dias. Sim, isso mesmo. Ópio dá dinheiro. E muito, muito dinheiro.
Jacob ficou calado, analisando as palavras de Harry.
—O suficiente para tirar os Rooks da crise?
—Sim.
O Assassino suspirou, fechando os olhos como se estivesse prestes a dizer algo contra a sua vontade.
—Quanto tempo?
Harry pareceu surpreso.
—Quanto tempo o quê?
—Quanto tempo até que as contas estejam equilibradas o bastante para que os Rooks não precisem mais vender ópio?
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