Assassin's Creed: Elementary
15 As Faias Cor de Cobre II
Notas iniciais
Assim que a porta se fechou pesadamente, Holmes se agitou. Sentou-se a uma poltrona próxima a lareira. Esticando suas longas pernas em direção ao fogo, o detetive retirou do bolso do terno um cachimbo e um porta-tabaco. Estava preenchendo o cachimbo com tabaco quando algo veio a sua mente. Ele não estava sozinho ali.
—Se importa que eu fume? – perguntou, educadamente. Apesar de detestar o cheiro de tabaco, Evie não viu alternativa senão permitir.
—Não. – respondeu a Assassina, absorvendo a louca história contada por Miss Hunter. Não tardou até que uma cortina de fumaça se levantasse da poltrona de Holmes, que tinha o olhar perdido, focado nas chamas da lareira. Nada mais que o trepidar da lenha a queimar na lareira era escutado na sala daquele hotel. Era estranho para ela estar reunida com Holmes, um completo estranho aos seus olhos, e que apesar disso, demonstrava que sabia muito a seu respeito – mais do que a própria Evie gostaria.
—Você não tocou em seu jantar. – observou Evie.
—Não gosto de comer quando estou trabalhando em um caso.
No instante em que o detetive se calou, um pensamento veio à mente de Evie.
—Há quanto tempo não come?
—Um par de dias, talvez? Não tenho certeza.
Apesar de estar claramente abismada, Evie nada pôde dizer. Não era ninguém para recrimina-lo. Mas agora estava claro porque ele era tão magro e pálido, colocando seu organismo a duras provações. Isso provavelmente acontecia com frequência.
No entanto, Evie não pôde deixar de ver alguma... Vaga semelhança. Ela não ficava dias sem comer, mas quando absorta em uma pesquisa ou algo de seu interesse, Evie se desligava do mundo e das pessoas ao seu redor. A julgar pelo estado de Holmes, com o olhar perdido em pensamentos, ele deveria também agir assim, porém em um outro nível, mais intenso e perigoso.
—Há um detalhe que precisamos combinar.
—Do que se trata? – perguntou Evie.
—Nossa “incursão” à casa de Rucastle. Você provavelmente não está a par, mas a casa deles é cercada por um muro altíssimo, datado da Era Medieval. Essa peculiar família vive em nada mais que um pequeno castelo, eu diria. Pelo que andei pesquisando quando em Londres, esse muro é de um tipo de pedra lisa e gasta, que impossibilitaria uma escalada. Sem a presença da senhorita e de seu “aparato” aqui, Miss Frye, eu demandaria mais alguns dias para conseguir entrar naquela casa de modo imperceptível.
—Já entendi aonde quer chegar. – disse Evie, olhando para sua manopla.
—Exatamente. – disse Holmes, levantando-se da poltrona, porém com o cachimbo em mãos. – Esse seu mecanismo conseguiria suportar o peso de dois adultos durante a impulsão?
-Não. – admitiu Evie. – Com sorte, de um adulto e uma criança.
Holmes parecia decepcionado. – Que pena. Estive pensando em usar o eu “gancho”, ou seja lá como a senhorita chama isto, para escalarmos os muros da casa.
—Tenho uma idéia melhor. – disse Evie, caminhando até sua mala. Após vasculhar algumas coisas, a Assassina retirou uma manopla extra. Tomou a na mão, e com uma pequena chave de fenda, desmontou o que seria a lâmina, desacoplando-a da manopla. Fez o mesmo com o ejetor de veneno. Após uns bons minutos, por fim, a Assassina se levantou.
—Acho que servirá no senhor, Mr. Holmes.
—O quê? – Holmes parecia surpreso. – Mas...
—Não se preocupe. Retirei a lâmina oculta e o emissor de dardos para evitar acidentes. Só o que essa manopla tem é o gancho. Agora, estenda o seu braço.
Holmes o fez, estendendo seu braço direito para a Assassina, que atou a manopla firmemente ao seu antebraço. Mal movendo os dedos da mão, imediatamente a Manopla ejetou o Gancho, que em um piscar de olhos se conectou à mobília da sala de estar. Holmes sentiu algo puxá-lo, mas como se já esperasse por isso, Evie segurou seu braço.
—Acho que o senhor acabou de danificar a mobília do Hotel. – caçoou a Assassina, diante do olhar abismado de Holmes, que ainda analisava a manopla com curiosidade.
—Como se controla isso? – perguntou Holmes, num tom quase em pânico, enquanto Evie se deslocava até a mobília e retirava o gancho, preso à madeira.
—É uma contração do músculo do antebraço. Precisa controla-la, do contrário irá ejetar isso por acidente e acabar por machucar alguém.
Holmes demorou cerca de meia hora, até conseguir dominar plenamente o uso da manopla. Graças ao seu “treinamento”, parte da mobília foi destruída e seu braço estava levemente dolorido de tanto o gancho tentar “puxá-lo” do lugar, em vão. Dois vasos, uma cadeira e um criado-mudo estavam arrasados. Por fim, um funcionário do Hotel Cisne Negro bateu à porta, desejando saber o que estava causando os barulhos. Ao notar os objetos quebrados do quarto, o funcionário se enfureceu e disse que a destruição seria adicionada à conta. Holmes sequer se importou. Estava animado demais com a manopla para fazer qualquer objeção.
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Evie estava terminando de se vestir quando ouviu uma batida na porta. Era sete da manhã, um horário que a Assassina costumava acordar, mesmo quando passava horas a fio estudando ou perambulando pelos telhados de Londres. Deveria ser Holmes, ela pensou.
—Estarei te esperando na mesa do café. – disse ele, por meio da porta. Evie não entendia por que ele combinava ocasiões como jantar e café da manhã, quando o mesmo não comia absolutamente nada.
Depois de verificar suas munições e armas, Evie desceu e se juntou a Holmes no café da manhã do hotel. O detetive estava lendo um jornal local. Posto diante de si, uma mesa com torradas e café. Seu prato estava vazio, limpo da mesma forma que fora colocado na mesa, mas ao menos sua caneca estava preenchida com café até a metade.
—Dois casos de homicídios não resolvidos. Até que Winchester não é uma cidade ruim em matéria de trabalho. – disse o detetive, bebericando do café pela primeira vez.
—A julgar pela conversa de ontem, este caso está resolvido.
—Quase. – disse Holmes, pondo a xícara de volta. – Não podemos cantar vitória antes do tempo. A jovem Alice Rucastle ainda está em poder do pai. Tudo pode acontecer.
—Pensei que o alvo de sua preocupação fosse sua cliente. Afinal, é ela quem está te pagando. – disse Evie, preenchendo sua xícara com café e açúcar.
—Não. Eu não estou sendo pago neste caso.
—Não?! – a resposta de Holmes quase fez Evie engasgar-se. – Mas...?
—Por que eu estou aqui, você se pergunta? Bem, quando Miss Hunter veio me encontrar eu estava mergulhado completamente no tédio de minha existência, sem qualquer caso para trabalhar. Ademais, a jovem estava desempregada e, ao que tudo indica, nem deve receber o seu ordenado pelo menos de um mês trabalhado naquela mansão de horrores.
—Mas você está tendo gastos! Com a hospedagem nesse hotel, com a passagem de trem...
—Acredite em mim. O mesmo dinheiro que estou gastando agora para ajudar Miss Hunter neste pequeno problema seria aplicado em coisas menos... “Ortodoxas”. Mas vejo que a senhorita ainda está surpresa com o meu gesto. – acrescentou Homes, antes que Evie pudesse perguntar que coisas menos “ortodoxas” eram estas.
—De todos os adjetivos que tenho em mente a seu respeito, Mr. Holmes, “altruísta” não é um deles.
Holmes riu levemente da afirmação de Evie.
—Adoraria saber todos os adjetivos que a senhorita tem em mente sobre mim.
Evie terminou de mastigar uma torrada para respondê-lo adequadamente.
—Acredite em mim. A maioria o senhor não iria gostar de saber.
—Está bem, então. Não responda. Deixarei que a senhorita tome seu café da manhã em paz. Quando terminarmos, iremos partir para a Mansão dos Rucastle e terminar logo com este assunto. Ainda há um problema nos esperando em Londres. Um problema dos grandes, cabe observar.
—Sim, há. – limitou-se a responder a Assassina, que mal conseguia enumerar todos os problemas que a aguardavam em Londres.
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O cabriolé fretado deixou Holmes e Evie a uma distância segura da Mansão do Rucastle. Ao descer do veículo, Evie notou que Holmes não havia exagerado quando comparou a Mansão a um castelo medieval. Sem dúvida, a julgar por seus opulentes muros de pedra, a construção fora algo do tipo, em épocas passadas.
—Enorme, não é? – acrescentou Holmes, como se pudesse ler os pensamentos de Evie. – Precisamos ser rápidos quando atravessarmos o muro. Ninguém poderá nos ver.
—E quanto ao cão de guarda?
—De acordo com Miss Hunter, não será um perigo por hora. Ele só é solto à noite. Mas se formos detectados, certamente os funcionários soltarão o animal. Ele é provavelmente um mastim, por isso precisamos ficar ainda mais alertas. E uma observação, Miss Frye: vamos tentar agir como máximo de discrição possível. Devemos nos lembrar que estamos aqui representando Miss Hunter e...
—Na verdade, “o senhor” está aqui. – interrompeu Evie. – Eu não represento ninguém além dos Assassinos.
—Que seja. De todo modo, isso é só um detalhe. Nossas ações aqui respingarão imediatamente em Miss Hunter. Por isso, devemos a ela total discrição. Eu pedi que a senhorita carregasse um revólver carregado, mas vamos agir de modo que o mesmo não precise ser utilizado. Entendeu?
Apesar de se sentir a receber ordens, Evie sabia que Holmes estava certo. Se alguém da Mansão Rucastle morresse ali, durante a incursão deles, Miss Hunter seria apontada imediatamente como culpada ou cúmplice. A pobre jovem tinha uma vida inteira pela frente para pagar por um crime desses.
—Agora... – disse Holmes, esticando o braço para o muro. – A parte mais difícil.
—Espere. – impediu Evie. – Deixe-me fazer isso primeiro.
Com a destreza de quem já tinha experiência no assunto, Evie ejetou o gancho de sua manopla e em questões de segundo escalou os altos muros da Mansão Rucastle. Do alto do muro, ela notou um Holmes a observá-la, abismado.
—Sua vez. – disse a Assassina, com um tom de diversão na voz.
Apesar de estar claramente sendo caçoado, Holmes não estava furioso com isso. O detetive esticou o braço e ejetou o gancho, tal como fez Evie. Porém, sua escalada deu-se de um modo mais desajeitado. Seu pé escorregou na pedra do muro e por milímetros, ele quase caiu do topo, se não fosse por Evie segurá-lo pela mão.
—Peguei você. – ela disse, puxando o detetive de volta para o muro. Arfando pelo susto de ter quase caído de uma altura considerável que poderia ter sido fatal, o detetive agradeceu a Assassina pela assistência.
—Poderia ter sido um pouco melhor.
—Obrigado pela sinceridade. – retrucou o detetive. – Como iremos descer?
Holmes notara um fato que lhe deixara momentaneamente impressionado. Enquanto o detetive tentava se equilibrar de modo desajeitado no muro, Evie se equilibrava com uma facilidade desconcertante. Caminhar e saltar entre muros, paredes e janelas deveria ser como respirar para ela.
—Está vendo aquele monte de feno ali? Pois bem. Nos lançaremos sobre ele. – disse Evie, caminhando com notória agilidade para perto do feno, certamente usado para alimentar os cavalos da propriedade.
—Miss Frye, tem certeza? Esse muro... Ele deve ter cerca de 10 metros de altura...
—Não se preocupe, Mr. Holmes. O feno irá amortecer a nossa queda. Basta que o senhor se lance do modo correto.
—E poderia me dizer que modo “correto” é esse?
—Observe.
A Assassina deu um impulso, projetando-se ao ar com os braços abertos. Holmes atemorizou-se, mas tudo que pôde ouvir foi o som abafado do feno, e Evie saindo ilesa, apenas com um pouco de feno agarrado ao cabelo. Sua primeira observação foi de que a Assassina espertamente fez uma pequena acrobacia ainda no ar, lançando-se contra o feno de costas.
—Agora entendo porque sempre encontro feno nas suas roupas. – murmurou Holmes, preparando-se para fazer o mesmo. Após dar um suspiro, finalmente o detetive caiu. Porém, não com a mesma graça que Evie. Ao sair do feno, ele notou que seu chapéu havia simplesmente “voado” durante seu salto.
—Não foi tão ruim assim. – disse Evie, enquanto Holmes procurava por seu chapéu em meio ao feno.
—Ao menos não quebrei uma perna. – observou o detetive, com diversão. – Agora, vamos encontrar Miss Hunter. Creio que ela está esperando ansiosamente por nós dois. Mas vamos prosseguir com cautela. Podemos ainda correr o risco de encontrar algum empregado dos Rucastle.
—Se encontrarmos, eu irei fazer uma imobilização não letal. – assegurou Evie.
Holmes e Evie caminharam até os fundos da casa, que parecia calmo e silencioso. Adentrando à ala dos empregados, Holmes acabaram encontrando uma agitada Miss Hunter, a subir as escadas. Após ter sua atenção chamada discretamente, Miss Hunter se dirigiu aos dois, feliz em vê-los.
—Arranjou tudo? – perguntou Holmes.
Ouviu-se uma pancada ruidosa, vinda dos aposentos de baixo da casa.
—É a Mrs. Toller, na adega. O marido dela está roncando no tapete da cozinha. Aqui estão as chaves dele, que são iguais às do Mr. Rucastle.
—Muito bem! – exclamou Holmes com entusiasmo. – Agora nos mostre o caminho e depressa veremos o fim deste problema.
Acompanhados de Miss Hunter, Holmes e Evie subiram apressadamente, abriram a porta principal e atravessaram o corredor até a porta que Miss Hunter indicou.
Holmes cortou a corda e removeu a barra de ferro. Depois experimentou as várias chaves na fechadura, mas sem efeito. Não se ouvia um som sequer vindo de lá de dentro, e aquele silêncio provocou uma nuvem de desapontamento na fisionomia de Holmes.
—Espero que não tenhamos chegado tarde demais — disse Evie.
—Julgo que devemos entrar antes que a jovem morra. Agora, Miss Frye, ombros à porta, vamos ver se entramos já.
Era uma porta velha, que cedeu logo à força unida de ambos. Juntos, Evie e Holmes correram para dentro do quarto. Estava vazio. A única mobília que ali havia era uma cama pequena de solteiro, uma mesinha e uma cesta de roupa. O quarto estava vazio, a claraboia estava aberta e a prisioneira havia fugido.
—Houve algo de mau aqui. –disse Holmes, com o semblante entristecido. –Aquele bruto adivinhou as intenções da Miss Hunter e decerto carregou sua vítima.
—Mas como?
—Pela claraboia. – apontou Evie. – Já veremos como ele o fez.
Evie subiu para o telhado, com relativa facilidade que impressionou Miss Hunter, mas não Holmes, que já conhecia suas habilidades.
—Ah! Aqui está a ponta de uma escada, perto da calha. – apontou a Assassina.
—Mas é impossível, a escada não estava aqui quando os Rucastle saíram — disse Miss Hunter, confusa.
—Ele deve ter voltado para colocá-la. Digo-lhe que é astuto e perigoso. Não me surpreenderia se ouvisse seus passos subindo a escada. Creio, Miss Frye, que é melhor preparar o seu revólver.
Mal Holmes pediu, apareceu à porta do quarto um homem gordo e abrutalhado, com um pau pesado na mão. Miss Hunter gritou e encostou-se à parede ao vê-lo, mas Sherlock Holmes deu um pulo e enfrentou-o.
—Canalha... – disse Holmes, detendo-o pelos ombros com extraordinária força. – — Onde está sua filha?
O homem olhou ao redor e depois para a claraboia.
—Eu é que deveria perguntar-lhe isso! – disse o homem, com o olhar exalando fúria. Antes que Holmes pudesse perguntar mais qualquer coisa, Mr. Rucastle soltou-se de Holmes e o empurrou contra uma parede. Evie pensou em detê-lo, mas lembrou-se do conselho de Holmes: uma ação discreta e sem mortes ou feridos. Apenas em último caso. E como aquele homem não havia ferido ninguém, não era momento de algo mais drástico. Ajudando Holmes a se levantar, Evie pôde ouvir os passos pesados e apressados de Mr. Rucastle pela escada, a gritar por toda a casa.
—Ladrões! Espiões e ladrões! Apanhei-os em flagrante! Estão em meu poder agora. Hão de pagar por isto!
—Ele foi soltar o cão! – exclamou Miss. Hunter, apavorada diante da possibilidade de ter de enfrentar a fera que fazia a guarda da casa.
—Tenho o meu revólver — respondeu Evie, tentando tranquiliza-la. Holmes não pareceu gostar da hipótese.
—É melhor fechar a porta – disse, por fim –, e vamos descer todos juntos.
Mal chegando ao vestíbulo, ouviram o ladrar de um cão e depois um grito de agonia e um horrível barulho de algo sendo rasgado. Um homem de idade, com o rosto vermelho e cambaleando, saía de uma porta lateral. Holmes e Evie notaram que estava bêbado, mas os latidos pareciam imediatamente ter retirado de seu estado de embriaguez.
—Meu Deus! – gritou ele. – Alguém soltou o cão, e ele não come nada há dias! Depressa, depressa, ou será tarde demais!
Holmes e Evie saíram correndo até o ângulo da casa, com Toller atrás dos dois. Logo avistaram o cão esfomeado, com o focinho enterrado na garganta de Rucastle, que se contorcia e gritava no chão. Seus gritos de dor eram apavorantes.
Evie sacou sua pistola. Enquanto mirava com a arma, a Assassina percebeu que aquele seria um tiro difícil, talvez o mais difícil de sua vida. O cão e Rucastle não paravam de se mexer, o que tornava a pontaria extremamente difícil. Após longos trinta segundos, que pareciam uma eternidade, finalmente Evie Frye disparou, acertando a cabeça do cão. Morto, o animal caiu, mas com os dentes ainda presos às dobras do pescoço do homem.
—Belo tiro. – elogiou Holmes, correndo para perto de Rucastle.
Retirando o cadáver do cão de cima de Rucastle, Evie pôde ver a gravidade de seu ferimento. O cão havia dado severas mordidas no rosto do idoso. Seu nariz e lábio estavam seriamente lesionados e seu rosto era uma mistura de sangue e carne que chegava a dar náuseas. Holmes ajudou a Assassina levá-lo para dentro de casa, deitando-o no sofá. Holmes mandou que Toller, cuja bebedeira já havia passado, fosse até a cidade chamar um médico. Evie fez o que pôde para aliviar as dores de Rucastle, aplicando no homem parte de seu própria medicamento curativa. Entretanto, aquilo era meramente paliativo. Ele precisava de um bom médico.
Estavam todos ao redor dele quando a porta se abriu, dando entrada a uma mulher alta e magra.
—Mrs. Toller! – exclamou Miss Hunter.
—Sim, senhora. O Mr. Rucastle soltou-me antes de subir atrás de vocês. Ah, senhorita, que pena não me ter contado o que planejava fazer, porque eu lhe diria que estava perdendo o seu tempo.
—Ah! — exclamou Holmes olhando fixamente para ela. – É evidente que Mrs. Toller sabe mais deste caso do que qualquer outra pessoa.
—Sim, senhor, eu sei e estou pronta a contar tudo.
—Então faça o favor de se sentar e vamos ouvi-la. Há diversos pontos que, confesso, ainda não consegui compreender.
—Já contarei, e tê-lo-ia feito antes se pudesse sair da adega. Se for caso de polícia, não se esqueça de que sou sua amiga e da Miss Alice também. Ela nunca estava contente em casa, desde que o pai se casou de novo. Faziam pouco caso dela e nunca lhe permitiam dizer nada, mas sua vida piorou muito depois que conheceu o Mr. Fowler na casa de uns amigos. Sei que a Miss Alice herdara alguma coisa com todos os direitos, mas era tão calma e paciente que nunca fez objeção alguma e deixava tudo nas mãos do Mr. Rucastle. Ele sabia que podia fazer o que quisesse do que lhe pertencia, mas quando apareceu um casamento e viu que o marido viria a exigir que tudo passasse para as suas mãos, achou melhor acabar com o assunto. Queria que ela assinasse um papel, para que, casada ou não, ele pudesse utilizar-se do dinheiro dela. Atormentou-a tanto com o assunto, até que ela teve uma febre que lhe atacou a cabeça e ficou às portas da morte durante umas seis semanas. Finalmente melhorou. Estava magra como uma sombra e com os cabelos cortados, mas, apesar de tudo isso, o jovem não desistiu, continuando-lhe fiel.
—Ah! – disse Holmes –, creio que o que nos acaba de contar esclarece bem as coisas, e já posso deduzir o resto. Mr. Rucastle, então, empregou este sistema de “prisão”?
—Sim, senhor.
—E trouxe Miss Hunter de Londres para ver se acabava com a desagradável persistência do Mr. Fowler.
—Foi isso mesmo, senhor.
—Mas o Mr. Fowler, sendo homem perseverante, como todo marinheiro deve ser, bloqueou a casa e, tendo-se encontrado com a senhora, conseguiu com certos argumentos, provavelmente monetários, convencê-la de que seus interesses e os dele eram os mesmos.
—Mr. Fowler é um cavalheiro bondoso e generoso – disse Mrs. Toller calmamente, como se a propina que recebera para ajuda-lo sequer tivesse existido.
—E desse modo conseguiu que seu marido não bebesse mais e fosse arranjar uma escada para ser utilizada logo que o Mr. Rucastle saísse.
—Sim, senhor, foi assim mesmo.
—Estou certo de que devemos pedir-lhe desculpas, Sra. Toller – disse Holmes –, porque acaba de esclarecer muito bem tudo o que era enigmático para nós. E agora estão chegando o médico e a Mrs. Rucastle. Portanto, Miss Frye, creio que é melhor acompanharmos Miss Hunter até Winchester, pois julgo que nossa presença aqui torna-se desnecessária. O caso passou das nossas mãos para outras.
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Passava de meio-dia quando Holmes e Evie retornaram para o Hotel, após deixar Miss Hunter em Winchester. Ainda era necessário encerrar a conta do Hotel e reunir seus pertences. Mas, para surpresa de Evie, o próprio Holmes sugeriu que almoçassem antes que apanhassem o próximo trem para Londres. Evie, que estava com fome, achou a oferta bastante adequada, visto que eles teriam uma viagem de mais de três horas pelo caminho.
Não só o convite surpreendeu Evie, mas também o tamanho do apetite de Holmes. Se durante toda a estadia, o detetive demonstrou grave resistência a fazer qualquer refeição, no fim dela Holmes demonstrara enorme disposição para almoçar, provavelmente despejando sua fome contida sobre o almoço no Hotel, que consistia em uma vitela com verduras que, por mais simples que fosse, era devorada pelo detetive como um Manjar dos Deuses.
—Pobre Miss Hunter... Pergunto-me o que será dela agora... – balbuciou Evie, após terminar sua refeição.
—Ela é uma mulher extraordinária. Tenho certeza de que encontrará algo mais adequado do que ser governanta naquela casa.
—Acha que Mr. Rucastle irá acionar a polícia e denunciar Miss Hunter pelo acontecido em sua casa? Afinal, ele ficou seriamente ferido... Pode desejar vê-la punida por sua intromissão.
—Impossível. – disse Holmes, com veemência. – Não há como denunciar o que aconteceu nesta manhã sem omitir o fato de que ele mantinha a própria filha em cativeiro. Miss Hunter escapará dessa, e ilesa. Quanto à Miss Rucastle, eu espero que ela esteja longe daqui com o seu pretendente. Acho que esse caso não poderia encontrar um melhor desfecho.
—Tem razão. Eu só sinto muito por Miss Hunter... Pobre mulher... Voltará à fila dos desempregados.
—Miss Hunter não é mais problema meu.
Ao perceber que Evie fechou seu semblante, o detetive tentou se justificar.
—Um caso encerrado é uma página virada, Miss Frye. Uma página virada, permanentemente virada. Nossos caminhos se separarão. Mas deixemos de lado tal conversa improdutiva. Afinal, ainda temos o infame CAM pela frente. – disse Holmes, tomando sua taça de vinho.
Ambos terminaram seu almoço em silêncio. Enquanto a sobremesa não chegava, Evie percebeu que Holmes colocou sobre a mesa um bloco de anotações. Ignorando o doce de morango, o detetive pôs-se a escrever. Ao percebê-lo com o semblante pensativo, Evie não conseguiu ignorar sua curiosidade em saber o que afinal ele escrevia ali. Seria um diário?
Por sorte, a Assassina havia aprendido a ler documentos de cabeça para baixo. Um conhecimento que seu irmão Jacob menosprezava, mas que em momentos como aquele mostrava lá sua utilidade. Enquanto o detetive escrevia ao papel, os olhos de Evie desvendavam, ainda que lentamente, seu conteúdo.
Caro Mr. Doherty,
É bem possível que meu nome não seja de seu conhecimento, mas acredito que o nome de Agnes May deve trazer algo à sua memória. Pois bem. Fui o detetive contratado por sua filha fora do casamento para conseguir indícios de sua paternidade. O senhor provavelmente deve se lembrar do escândalo que sua filha prometeu fazer caso o senhor não entregasse ao menos um terço de todos os seus bens a ela. Graças às minhas negociações, Miss May se contentou com apenas 10%, preservando assim o seu casamento e também seu cargo de Diretor do conceituado Colégio para Meninas de Walsall.
Circunstâncias do destino me fazem procurá-lo novamente, desta vez em conjunturas profundamente diferentes. Represento não mais os interesses de sua filha Miss May, mas de outra mulher, chamada Violet Hunter. Tal jovem tem passado desmerecidamente por profundas tribulações em sua vida. Posso dar-te minha palavra que a mesma possui refinado grau de educação e conhecimento, sendo plenamente apta a assumir uma cadeira no corpo docente de professoras de seu Colégio.
Atenciosamente,
Sherlock Holmes
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