Assassin's Creed: Elementary
18 Charles Augustus Milverton
Notas iniciais
O Big Ben badalava dez horas da noite quando Evie desceu do alto da Igreja de St. Harry. Pontualmente, a carruagem escura estacionou na calçada da Igreja, como ela havia recebido em um bilhete anônimo, mas cujo remetente ela conhecia bem. Sem qualquer licença, Evie entrou na carruagem, encontrando o próprio Holmes sentado ao banco dela.
-Tudo pronto? – perguntou o detetive.
-Sim. – disse a Assassina, com simplicidade e calma. Holmes limitou-se a fazer um meio sorriso e assentir. Evie percebeu que ele estava vestido completamente de preto – usando luvas, inclusive – e usava smoking, uma roupa elegante demais que destoava de sua vestimenta padrão, costumeiramente simples e bem cuidada. Parecia que havia acabado de sair de uma festa de gala. Ao seu lado, uma maleta média, mas aparentando estar bastante cheia por seu volume.
-Para Appledore Towns. – solicitou Holmes ao cocheiro.
-Quais serão os próximos passos? – perguntou Evie.
-Charles Augustus Milverton está no baile de Sir Vincent Crawford, um evento beneficente da realeza britânica. Creio que já deve ter reparado em minha vestimenta e tirado suas próprias conclusões sobre o que andei fazendo nas últimas horas, mas vou elucida-la, mesmo assim. Sim, eu estive lá. Cumprimentei o próprio Milverton, inclusive. Segundo o conhecimento de todos os presentes, neste exato momento eu estou com outras duas pessoas em uma sala de fumantes conversando sobre política e afins. – explicou Holmes, falando do último tópico com desdém, deixando Evie perceber que ele não gostava do assunto. – O fornecimento de meu álibi, entretanto, não me poupou de quinze minutos a conversar sobre a elevada tributação do chá chinês.
-Como pode presumir que seu álibi é confiável? Um deles pode contradizê-lo, dizer que você se ausentou...
Holmes riu. – São de minha inteira confiança, acredite. Aliás, um deles é inclusive um conhecido que temos em comum. Meu irmão, Mycroft, ou melhor, “Alfred Fleming”, como ele gosta de se apresentar às vezes.
Evie franziu o cenho. – Como é?! Mr. Fleming é seu irmão?!
-Sim, somos irmãos.
Naquele mesmo instante, Evie reparou mais na aparência física de Holmes, fazendo-a aceitar a explicação do detetive. Apesar de Fleming ser mais velho e também mais gordo, ambos tinham a mesma cor dos olhos, o mesmo nariz e até mesmo compartilhavam do mesmo formato de sobrancelha. Mais semelhanças físicas, ainda que discretas, que ela também tinha com seu irmão gêmeo Jacob.
-Você provavelmente o conheceu como sendo o chefe do serviço de inteligência britânico, mas acredite, meu irmão tem uma importância ainda maior do que ele gosta de se creditar publicamente. Por vezes, ele é o próprio Governo Britânico, algo que nem a Rainha deve perceber. Ou, se percebe, não vai admitir a ninguém. Mas deixemos de lado tal história e vamos voltar ao que interessa.
Holmes tirou do bolso um mapa, fazendo Evie sentar-se ao seu lado para lê-lo.
-Esta é Appledore Towns, a residência de Charles Augustus Milverton. No último mês, esta propriedade foi milimetricamente investigada por mim. Entradas, saídas, esconderijos... Nada passou despercebido por mim. Sei todos os pontos fortes e fracos desta residência que é, na verdade, uma verdadeira fortaleza sofisticada. Mas ao contrário de riquezas e tesouros, Milverton mantém trancafiado em seu cofre nada mais que segredos comprometedores de toda a Inglaterra. Como pode ver, são quatro andares bem vigiados, mas o cofre fica no segundo.
-Como conseguiu acesso a tanta informação? – perguntava Evie, curiosa.
-Eu me infiltrei na casa. Ofereci meus modestos serviços de encanador.
Evie riu. – Você?! Encanador?!
-Estou longe de ser um profissional excelente, mas consigo ainda me passar por um encanador medíocre. Afinal, faz parte do trabalho de um detetive saber de tudo um pouco.
-Está bem, mas você disse que ficou um mês estudando a casa. Esta residência estava com a tubulação tão ruim assim para requisitar um encanador durante um mês?
Evie percebeu que Holmes se corou ligeiramente, antes de responder.
-Precisei recorrer a uma tática menos... “Honrosa”, eu admito, para adentrar a casa incógnito. Comecei a cortejar uma das empregadas de Milverton.
Evie arregalou os olhos e se tornou boquiaberta, em choque. Holmes pareceu subitamente desconfortável por revelar sua “tática”, procurando se justificar em seguida.
—Foi estritamente necessário, especialmente porque precisava conhecer o terreno à noite e...
—Poderia me poupar dos detalhes, por favor? Obrigada. – pediu Evie, incomodada.
-Como queira. Bom, creio que agora já sabe como consegui este mapa, e mais ainda, creio que compreende porque ele é confiável. O que posso afirmar, com veemência é que Milverton mantém seu cofre no segundo andar, na biblioteca ao lado de seu quarto pessoal. Eu cheguei a vê-lo, inclusive. É um cofre Heinz de construção belga com um mecanismo de triplo bloqueio, uma tecnologia de ponta ao alcance de poucos. Algo que muitos ladrões seriam incapazes de abrir. O que não é meu caso, pois sei como faze-lo.
Evie parecia analisa-lo.
-Por isso disse que não conseguiríamos obter a carta.
-Sim. Abrir um cofre desta magnitude não está na alçada de vocês, Assassinos. Neste momento, só há duas pessoas em toda Europa que sabem como abri-lo: eu e um ladrão chamado Edgard Ramirez, que aguarda a pena capital.
-Presumo, então, que você aprendeu a abrir o cofre com este ladrão.
-De modo algum. – retrucou Holmes. – A empresa Heinz solicitou meus serviços para que eu tentasse arrombar o cofre. Apenas uma tática deu certo. Alertei a empresa, mas a mesma optou por fechar os olhos quanto ao meu aviso, temendo ter de refazer todo o projeto do cofre quando a tática que descobri era deveras complicada. Complicada, mas não impossível, porque Ramirez conseguiu. Não pôde comemorar muito, pois eu também ajudei em sua prisão, entretanto.
-Quanto tempo levará para abrir o cofre?
-Se meu processo não for interrompido, uma hora. Por isso sua presença faz-se necessária. Preciso de alguém de confiança para me dar cobertura enquanto eu abro o cofre. Não vou conseguir me concentrar se estiver preocupado em ser pego a qualquer momento.
-Certo. Mais algum detalhe?
-Sim. Sem mortes. Eu conheço todos os empregados daquela casa, até mesmo os vigilantes. Reconheço que nem todos são pessoas de bom caráter, mas no fim, eles não passam de empregados, e que só estão lá para levar o pão à mesa de suas famílias. Não precisam pagar pelos erros do patrão. Será que a senhorita é capaz de manter sua lâmina limpa esta noite?
-Se necessário for, eu utilizarei meios não letais.
-Ótimo.
Holmes assentiu, permanecendo em silêncio o resto da viagem à Appledore Towns. Quando a carruagem parou, Holmes tirou de seu bolso uma máscara de pano preta, que lhe deixava à mostra apenas os olhos. Naquele momento, Evie teve a ligeira impressão de que não era a primeira vez que o detetive recorria a tal método criminoso para alcançar seus objetivos.
Com o capuz de Assassina sobre a cabeça, Evie desceu da carruagem, ainda a tempo de ver Holmes dar uma generosa gorjeta ao cocheiro que, provavelmente, era o rendimento de um mês do pobre trabalhador. A residência estava completamente escura, dando um indicativo de que o dono realmente estava fora de casa.
Sem qualquer dificuldade, Evie pulou o muro, dando a mão para Holmes, tentando ajuda-lo a escalar o muro.
-Pensei que tinha visto um canil no seu mapa. – disse Evie, descendo.
-E há. São três Mastifs, enormes. Deveriam estar soltos há esta hora, mas hoje eu combinei me encontrar às escondidas com Aggie. Em dias assim, ela costuma soltá-los apenas quando eu vou embora.
-Esta “Aggie”... – comentou Evie, sutilmente. – É a tal empregada de Milverton?
-Sim. – disse Holmes, que não pôde deixar de notar um ligeiro desconforto na Assassina. Seria pela menção à empregada? Não. É bem possível que ela esteja concentrada na invasão que os dois tinham pela frente.
Andando agachados pelo jardim, procurando se abrigar pelos arbustos, Holmes e Evie caminharam até uma janela, possivelmente deixada aberta de propósito pela tal “Aggie” mencionada por Holmes. A casa estava completamente silenciosa, mas ainda era possível ver os clarões das lanternas dos vigilantes. Holmes e Evie caminhavam lado a lado. Prestes a dar um passo, Evie segurou o detetive pelo braço, ao perceber que havia um segurança recostado à parede. Fora da visão de ambos, mas não da Visão de Águia de Evie, capaz de ver além das paredes.
-Não podemos avançar sem sermos vistos. – disse Evie, cochichando no ouvido de Holmes, que se limitou a assentir. Outra vez, Evie se movimentou, ficando na beira de uma porta. Deixou escapar um assobio, baixo, mas alto o bastante para que chamar a atenção do segurança.
-O que foi isso? – perguntou-se o segurança, indo averiguar. Por resultado, recebeu uma forte pancada na cabeça com a Bengala de Evie. O corpo caiu sobre o chão, e imediatamente Holmes caminhou para arrastá-lo pela casa escura, deixando-o trancado dentro de um armário.
Os dois prosseguiram pelas escadas, finalmente acessando o segundo andar. Enquanto escondidos, depararam-se com mais seguranças fazendo a ronda da casa. Realmente, a Mansão de Milverton era bem protegida, Evie precisava dar o braço a torcer. Ela só viu segurança semelhante assim no Palácio de Buckinghan.
-Quando o assunto é a segurança de seu próprio empreendimento, Milverton não poupa dinheiro. – cochichou Holmes para Evie. Os dois prosseguiram nas sombras, evitando os seguranças. Finalmente, chegaram à biblioteca. Holmes caminhou até uma fileira de livros e retirou o que parecia ser um conjunto de livros falsos. Logo revelou-se um cofre imenso, de um tipo que Evie jamais vira na vida. Tinha espantosos três conjuntos de combinação.
Enquanto Evie observava, admirada, ao cofre de Milverton, Holmes retirava de sua bolsa o seu kit arrombamento. Abriu-se diante dos olhos de Evie três estojos com várias pinças e chaves enfileiradas, que a Assassina não fazia a menor idéia do que utilizar ali. Após retirar várias peças, o detetive suspirou pesadamente.
-Agora seremos apenas eu e essa belezinha aqui, Miss Frye. – disse o detetive, começando a fazer seu trabalho. Como parte do combinado, Evie voltou-se para a porta, ficando de vigilância nas proximidades da biblioteca. Após alguns minutos, Evie ouviu da janela a movimentação de uma carruagem. Curiosa, Evie voltou seus olhos para a entrada e viu uma carruagem com o brasão de Milverton estacionando. Um homem idoso e de óculos, que Evie identificou como sendo o próprio Milverton, desceu do veículo.
Estarrecida e com o coração disparado, a Assassina imediatamente procurou Holmes, encontrando-o a mexer no cofre, completamente concentrado.
-Holmes, Milverton está chegando!
O detetive sobressaltou-se, abandonando imediatamente sua tentativa de arrombamento e desfazendo o começo de seu trabalho, tentando deixar o cofre do mesmo jeito que encontrara. Holmes tentou guardar harmoniosamente suas peças de arrombamento, mas ao sentir a proximidade de Milverton com sua Visão de Águia, Evie se apressou e sem qualquer cerimônia tomou as peças remanescentes do detetive e as lançou desordenadamente em sua bolsa, fazendo Holmes deixar escapar uma careta de desgosto.
-Precisamos sair depressa. – cochichou Holmes.
-Não dá mais tempo, ele já está no corredor.
-Mas como é que...?
Holmes não conseguiu terminar sua resposta, pois Evie o puxou pelo braço outra vez, fazendo-o se esconder atrás de uma cortina, naquele momento o melhor esconderijo disponível na biblioteca. Mal haviam se escondido, a porta se abriu.
-Espero que este não seja mais um de seus blefes.
Holmes reconheceu a voz de Milverton. Ele e Evie eram perfeitamente capazes de distinguir sua forma roliça pela sombra projetada na cortina. Os dois assistiram Milverton abrir, com extrema facilidade o cofre e, após breves segundos, ver o chantagista retirar dali um objeto. Era uma espécie de bastão, que Evie logo reconheceu pelos seus adornos como sendo uma Peça do Éden. Pensou em detê-lo imediatamente, mas para estarrecimento de ambos, mais alguém adentrou à biblioteca, forçando Milverton a fechar o cofre bruscamente.
-Eu não te disse para esperar na sala?
-Já disse, estou com pressa.
Uma voz masculina, firme, respondeu a Milverton. Holmes distinguiu a silhueta de um homem alto, magro e de cabelos curtos, com um nariz fino. Decerto mais um chantageado desesperado, pensou o detetive.
Milverton riu.
-Escute uma coisa... Quem dá as regras aqui sou eu. No momento, eu estou com a Chave que você tanto deseja. Eu dei meu preço, dei um prazo, e até o momento você não cumpriu com o combinado.
-Você pareceu bastante apressado quando deixou que parte do Artefato parasse nas mãos dos Assassinos, deixando-o nas mãos de seu cúmplice, amante daquela vadia da Mrs. Stapleton. Agora, não está mais em condições de barganhar muito, já que está apenas com metade da Chave em seu poder.
-É verdade. Mas entenda, precisei fazer isso apenas porque você não estava me levando muito a sério. Ou pensa que não sei das duas tentativas de sequestro à minha pessoa na última semana? Ou mesmo nos três homens que vi rondando minha casa?
Um suspiro, vindo do homem misterioso.
-Aqui está, como prometido. Trezentas libras.
Milverton exclamou, indignado.
-Mas isso é...
-Metade do que combinamos? Sim, afinal tudo que tem a me oferecer é metade de uma chave. Mas estou disposto a ignorar sua petulância em tentar me pressionar, em nome de nossa parceria.
O homem colocou uma pesada maleta sobre a mesa. Milverton abriu, deixando um assobio estarrecido.
-E me parece que valeu a pena abandonar o banquete para atendê-lo.
-A chave, Mr. Milverton. – pediu com um tom frio o estranho. Assentindo, o mestre chantagista entregou o fragmento da Peça do Éden em suas mãos, o que fez Evie cerrar os punhos e tentar pensar em uma maneira de tomar daqueles dois sujeitos.
Ficou sobre o ar uma mão estendida. De Milverton para o homem misterioso. Nenhum aperto de mão trocado. Sinal de que os negócios não estavam de todo encerrados, ou foram encerrados de um modo amargo. O homem misterioso riu, em uma risada macabra demais para o gosto de Evie. Logo a Assassina compreendeu sua reação, ao vê-lo retirar do bolso de seu paletó um bastão semelhante. Era nítida a abismação e assombro de Milverton, ao ver os dois objetos se encaixarem e o objeto se iluminar brevemente com uma estranha luz. Parecia bruxaria, mas não para Evie, que já presenciara o estranho poder que emanava das Peças do Éden.
-Como pode ver, eu já consegui contornar esse... Pequeno contratempo que sua audácia provocou em meus assuntos.
—M-M-Mas... Como? Estava com aquele Assassino, eu tinha certeza!
—Entenda, Mr. Milverton, eu não sou um homem a ser subestimado quando o tópico são as coisas que almejo. Eu simplesmente as busco e as consigo, não importando quão grande os obstáculos se colocam diante de mim. O senhor é um homem sórdido, Mr. Milverton, mas devo reconhecer, é também um homem brilhante. Construiu uma fortuna por meio de chantagens e calúnias, forjou uma reputação com medo e difamação. Uma pena que nossos caminhos tenham se cruzado desta forma.
Para surpresa de Holmes e Evie, o sujeito misterioso sacou um revólver e atirou à queima roupa sobre o peito de Milverton, fazendo o velho chantagista cair no chão. Estarrecida com o conteúdo da conversa, Evie tentou agir, mas Holmes a deteve, afinal o sujeito ainda estava com uma pistola carregada na mão e Evie seria um alvo fácil. O sujeito misterioso tomou o envelope que Milverton havia retirado do cofre e saiu correndo dali, deixando a mala com dinheiro para trás.
Sozinhos outra vez na sala, Holmes e Evie abandonaram seu esconderijo. A Assassina quase exclamou um palavrão, ao perceber que deixara escapar um homem carregando nada menos que uma Peça do Éden. Ia reclamar com Holmes, mas não havia tempo para isso. Gritos já eram escutados pela casa, decerto dos empregados, assustados com o som do disparo. Evie foi até a janela, com o intuito de saltar daquele prédio e alcançar o sujeito, mas ele já estava embarcando na carruagem, ao longe. Impressionou-se sobretudo com sua altura, o que explicava a velocidade com que corria. Mas ele olhou para a janela, e assim Evie pôde ver, ainda que escassamente, seu rosto. Um rosto que a Assassina tentou memorizar.
-Ainda bem que eu estava em um bom ângulo para ver a senha do cofre. – disse Holmes, abrindo imediatamente o cofre. Evie ficou estarrecida com o desespero do detetive, cujas mãos chegavam a tremer à medida que inseria cada número da senha. Com o cofre já aberto, Holmes começou a retirar pilhas e pilhas de papéis e ateá-los à lareira.
-O que está fazendo? – questionou a Assassina.
-Salvando vidas!
Percebendo que o detetive estava destruindo, na verdade, todos os objetos utilizados por Milverton para fazer suas diabólicas chantagens – e possivelmente as cartas indiscretas de Duleep Sigh -, Evie imediatamente trancou a porta e a bloqueou com uma cadeira, indo então ajudar o detetive.
-Afaste-se. – ela pediu, sendo obedecida por ele. Imediatamente, Evie atirou na lareira uma garrafa de uísque, fazendo as chamas da lareira se elevarem. Ambos ainda estavam na metade dos papéis quando os empregados chegaram a porta da biblioteca. O cofre era imenso e estava abarrotado de papéis, em sua maioria cartas e fotografias, de todos os tipos imagináveis. A porta estava em vias de ser arrombada quando terminaram.
Largando a lareira para trás, já bastante alimentada, Holmes e Evie pularam a janela, caindo rolando na grama do jardim. Notaram que estavam muito longe do muro e que latidos de cães já eram escutados.
-Por aqui! – disse Holmes, sendo seguido por Evie. Ambos começaram a correr, em direção ao muro. Evie foi a primeira escalar, com uma facilidade que parecia correr em suas veias. Holmes, menos prático que ela, começou a escalar com mais dificuldade. Evie o puxou pela mão para ajuda-lo, mas sentiu que algo começou a puxá-lo para baixo.
-Te peguei! Ladrão! Ladrão! – ela ouviu a voz de um homem. Logo, a Assassina notou que um dos seguranças da casa deteve Holmes pelo calcanhar. O detetive esperneava, tentando se soltar de seu captor, mas não conseguia. Por fim, Evie atirou contra o segurança uma faca, que acertou seu ombro imediatamente, fazendo o homem gritar de dor e finalmente soltar Holmes.
Já do lado de fora de Appledore Towns, Holmes e Evie correram para a estrada, onde um cabriolé vazio os aguardava. Evie tomou as rédeas do veículo.
-Essa foi por pouco. – admitiu o detetive, arfando. – Quase fomos pegos pelos empregados. Seria complicado escapar, e mais ainda, passar completamente incógnito diante de uma plateia como aquela. Ainda bem que deu tempo.
-Você se arriscou apenas para atear fogo a todo o arsenal de chantagens de Milverton. Confesso que não esperava vê-lo arriscando seu próprio pescoço para salvar a pele de desconhecidos, Mr. Holmes.
-Me chame de Holmes, por favor. Acredito que o tempo de formalidades entre nós já passou.
-Está bem, Holmes. De todo modo, eu estou surpresa.
-Você vê, mas não observa, Frye. – disse Holmes, tirando do bolso um cigarro e fósforos, e dando início ao seu fumo. – Quanto tempo nós dois demoraríamos para encontrar as cartas que desejávamos? Atear fogo foi a melhor alternativa que encontrei.
Evie parecia pensativa.
-Quer mesmo que eu acredite que não foi um gesto altruísta de sua parte?
O detetive deu de ombros, continuando a fumar. Evie voltou a falar.
-No calor do momento, você disse que estava salvando vidas.
-As vidas de meu cliente e de seu associado. – explicou Holmes, não convencendo plenamente a Assassina.
-Por que sempre tenho a impressão de que você quer passar uma imagem de homem frio e impassível de erros, quando na verdade, não é nenhuma dessas coisas?
Holmes riu. – Mas que absurdo, Frye. Não me levar por passionalidades é requisito necessário para meu ofício.
-Você estava claramente preocupado com a segurança dos empregados de Milverton. Além disso, há também Miss Hunter.
Holmes ergueu uma sobrancelha.
-O que há com Miss Hunter?
-Eu sei que você escreveu a um diretor em Walsall recomendando os serviços dela. Isso demonstra que sua indiferença quanto ao destino dela após o caso era, no mínimo, algo fingido.
Holmes suspirou.
-Da próxima vez, tomarei mais cuidado quando for escrever na sua frente. – brincou Holmes, demonstrando a Evie que agora, ele sabia que ela conseguia ler conteúdos de cabeça para baixo. – Deveras, eu te subestimei.
Para abismação de Evie, o detetive começou a gargalhar de euforia. Algo que mais parecia uma comemoração.
-O que foi isso? – ela o questionou, não deixando de rir de sua atitude incomum. Afinal, embora ele fosse jovem, era sempre sério e sisudo. Holmes suspirou.
-A irresistível sensação de um caso encerrado. Não do modo que eu planejava, é claro, mas encerrado. Creio que esta é a sensação que se passa em sua mente também, não?
-Não exatamente. – admitiu Evie. – Milverton estava com uma Peça do Éden o tempo todo, não só uma, mas pelo menos duas. E uma delas foi parar nas mãos dos Assassinos e eu não faço idéia de qual Irmandade ele estava se referindo. E atormenta-me saber que isso só aconteceu porque ele quis mostrar ao chantageado do que ele era capaz.
-Peça do Éden? – perguntou Holmes, confuso.
-É uma longa história, Holmes. Mas o que posso dizer é que tenho plena certeza de que o homem que assassinou Milverton é um Templário. Droga!
-Acalme-se, Miss Frye. Terá ainda sua chance com aquele acadêmico.
-Isso não me alivia nem um pouco e... Espere... Como sabe que ele é um acadêmico? Esta é mais uma daquelas suas deduções absurdas, é isto?
Com um sorriso vitorioso estampado no rosto, Sherlock Holmes estendeu à Evie um pequeno cartão, preso entre seus dedos.
-Milverton chegou à biblioteca trazendo este cartão em mãos. Na alta sociedade, é costume um visitante de alta estirpe dar aos empregados seu cartão de visita, como uma apresentação formal. Decerto Milverton recebeu este cartão enquanto nosso visitante aguardava na sala de estar. Por sorte o tomei antes de escaparmos.
Evie tomou o cartão em suas mãos e o leu.
James L. Moriarty
Professor de Física Avançada
Universidade de Londres
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