Assassin's Creed: Elementary
19 Uma Dose de Verdade
Era madrugada alta, com a lua quase imperceptível pela cortina de neblina de poluição e as nuvens pesadas que pareciam preencher todo o céu de Londres, a prenunciar mais um dia chuvoso e cinzento. Enquanto caminhava pelos telhados, pulando entre os prédios para alcançar o trem-esconderijo dos Assassinos, Evie tentava colocar as idéias no lugar. Lamentou-se por não ter alcançado o professor. A Assassina começava a se arrepender por não ter impedido a transação entre Milverton e o estranho sujeito, que agora, estava livremente com uma Peça do Éden em sua possessão. Um homem, que decerto era um templário, apesar de seu nome não contar em nenhum momento na rede de templários britânicos que Evie tão bem conhecia. Talvez ele tenha adentrado à Ordem dos Templários recentemente. Ou talvez pertença a Irmandade de outro país. Tudo era possível.
Ainda assim, muita coisa a deixara inquieta. Milverton havia mencionado que um dos artefatos estava nas mãos dos Assassinos. Como isso era possível? Ela jamais se recordara de ter posto suas mãos em nada parecido com aquele objeto semelhante a um bastão, e mesmo que tivesse, certamente o teria reconhecido. O que só deixou espaço para um único nome...
Jacob!
Seu irmão sempre foi displicente e ignorante quando o assunto era Primeira Civilização. Teria sido Jacob tão descuidado assim, a ponto de ter realmente se apossado de uma Peça do Éden sem ter percebido do que se tratava, e pior, permitido que um objeto desse valor fosse parar nas mãos de seus inimigos? Evie urrou, incomodada. Se seu irmão gêmeo tinha sido tão tolo assim, ela não o perdoaria. Pois graças a essa displiscência, ela teria que lidar com um homem em posse de uma Peça do Éden e que cujas motivações eram totalmente desconhecidas e imprevisíveis. Isso lhe soava tão ruim quanto deixa-la nas mãos dos templários.
E ele a chamou de chave, ainda que tenha sido uma vez. Parecia um bastão, realmente. Mas chave? E para que tipo de porta? Eram tantas as perguntas sem resposta deixadas naquela noite que tornava a sensação de fracasso maior do que saber que Duleep Sigh estava agora livre de qualquer chantagem que pudesse inviabilizá-lo como aliado da Irmandade. O rosto de Evie mais parecia submerso em uma tempestade, repleta de rugas de preocupação e sobrancelhas franzidas.
Quando guardando sua bengala, a Assassina acabou surpreendida pela presença de seu noivo, Henry.
—Conseguiu obter a carta? – perguntou Henry, mais frio que o costumeiro.
—Ela foi destruída. – respondeu a Assassina.
—Problema resolvido então. Mas por que parece preocupada?
—Houve um imprevisto.
O semblante de Henry se seriou ainda mais.
—Imprevisto. – disse, com ênfase na voz. – É o que se espera, quando se envolve um civil em nossas ações. Por isso seu pai sempre disse, “jamais envolva um civil em uma missão da Irmandade”.
Evie bufou. – Pare de parafrasear meu pai, Henry.
—Por que devo parar, Evie? Por que agora os ensinamentos de seu pai não corroboram mais as suas ações?
A Assassina abandonou sua manopla, encarando Henry nos olhos.
—Se eu seguisse cegamente os ensinamentos de meu pai, jamais teríamos ficado juntos, para começo de conversa. E o imprevisto que eu mencionei não envolve as cartas de Duleep Sigh. Conseguimos acessar a residência de Milverton e as cartas foram destruídas, portanto não há mais ameaça alguma a Sua Alteza. Ainda mais agora que Milverton está morto.
Henry Green arregalou os olhos.
—Você o matou, então. – concluiu o indiano, sem demonstrar qualquer pesar com a morte de um chantagista. Evie negativou.
—É este o ponto a qual me refiro como imprevisto. Algo ainda mais sério aconteceu durante a invasão. Milverton voltou para casa antes do previsto e estava acompanhado de outro homem. Este homem o entregou uma maleta de dinheiro e em troca, Milverton o entregou um artefato. Uma Peça do Éden.
O Assassino surpreendeu-se.
—Uma Peça do Éden?!
—Sim. Inacreditável, não é? Outra Peça do Éden circulando por Londres... Pergunto-me quantas outras não devem estar escondidas nas casas desses figurões, adornando coleções...
—Incrível! Mas que Peça do Éden era essa?
—Eu não sei. Essa Peça do Éden era o tempo todo chamado por eles de Chave. E me parecia ser um fragmento, na verdade. Metade de uma chave, mas o sujeito misterioso já estava de posse da outra metade. Ele as uniu e... Sabe, algo estranho aconteceu. Era como se o artefato tivesse ganhado vida, mas ainda assim eu acredito que ele só serve para abrir algo. Parecia ser um bastão à primeira vista, mas...
—Como o que encontramos?
—O quê?! – surpreendeu Evie. Imediatamente, Henry se recordou de que a Assassina nada sabia da descoberta.
—Claro. Você não sabe do bastão que seu irmão Jacob me entregou porque simplesmente não estava em Londres na ocasião.
—E você não me contou porque simplesmente estava mais preocupado em discutir comigo quando cheguei de Winchester. – retrucou Evie.
—Não inverta os meus erros em favor de seu comportamento nos últimos tempos, Evie. – por fim, o Assassino suspirou, denotando cansaço. – Para atualizá-la, sim. Sim, nós encontramos um bastão, que não sabemos exatamente o que é ou o que faz. E sim, é uma Peça do Éden. Dada a forma como reagiu em nossas mãos, não poderia ser outra coisa.
O indiano voltou suas atenções a gaveta de Evie, onde sabia que estava guardado. Dedicou-se em alguns minutos, a vasculha-la. Fechou-a bruscamente, com o semblante confuso e temeroso.
—Não é possível...
—O que foi, Henry? – perguntou Evie, preocupada.
—Ele... Ele estava aqui! Eu vi quando Violet a guardou nessa gaveta!
—Você deixou uma Peça do Éden em uma mera gaveta destrancada? – questionou Evie, a essa altura enfurecida. – Porquê não guardou no cofre, Henry?!
—Eu esqueci... – admitiu o Assassino, massageando as têmporas. – Eu estava muito preocupado com você e acabei não...
—Nem ouse, Henry! – pediu Evie. – Nem ouse usar a minha ausência como desculpa para o seu erro grotesco!
Foi a vez de Henry se indignar.
—Erro grotesco?! Você não tem qualquer direito de me criticar, uma vez que sequer estava aqui para tomar qualquer atitude a respeito!
—Quer saber? Essa discussão não vai me levar a lugar algum. – retrucou a Assassina, indo até uma de suas gavetas. Retirou suas armas e munições e a guardou. Sempre fazia isso quando passava longas horas no trem. Decerto pretendia uma noite completa de sono – ou o que restava dela – para descansar.
—Vou fazer algo mais útil do que discutir com você em vão. Em vão porque sei que você já formou sua opinião sobre mim: que eu quebrei meus deveres para com a Irmandade para passar um dia fora de Londres com um civil.
A verdade doía, sabia Henry. Mas a dor era indescritível quando saía dos lábios de uma pessoa que ele tanto se importava.
—Um civil que não é qualquer civil, mas um detetive que sabe tão bem dos negócios Assassinos e Templários quanto eu e você. Um civil que me ajudou a salvar a reputação de seu amigo Duleep Sigh, inclusive. Se me ausentei e tive que deixa-lo sozinho naquela incursão contra os templários franceses, foi porque eu não tive escolha. O tempo estava se esgotando e ele precisava ajudar sua cliente em Winchester. Não estávamos em condições de dispensá-lo como aliado.
Henry não parecia conformado.
—É verdade que já nos aliamos com muitos civis. Muitos mesmo. Mas nenhum deles sabe quem verdadeiramente somos. Não como este homem. Temo, Evie, que você esteja depositando muita confiança nele.
Evie nada respondeu, fechando a porta do trem e deixando Henry do lado de fora de seus aposentos. Claramente iria dormir e não o queria por perto, de tão irritada. Talvez fosse melhor assim. Talvez uma boa noite de sono a faça retomar o juízo. Saber que Evie estava dormindo naquela cabine, ainda que brigada com ele, era melhor do que imaginá-la em qualquer outra missão envolvendo o tal detetive bisbilhoteiro. Apesar de sempre admirar Evie quanto a sua inteligência e perspicácia, Henry sentia que sua noiva parecia um tanto... Distante. Como se estivesse gostando mais de ajudar Holmes a resolver seus casos do que de sua vida como uma Assassina.
-Virando uma coruja, Henry?
Era Jacob, notou o indiano. Seu hálito cheirava a cerveja barata, sinal de que já começara a beber em algum pub e resolveu tirar aquela madrugada para praticar seu esporte preferido: irritá-lo. E para completar, Henry estava de péssimo humor. Jacob parecia ter o dom de sempre aparecer nas horas mais inoportunas.
-Só estou um pouco ocupado.
—Eu escutei vozes alteradas, Greenie. Eu presumo que minha irmã irá dormir de calças hoje, mas como ela faz isso sempre, isso não deve ser um problema para você.
Piscando nervosamente e já um tanto ruborizado, Henry decidiu desconversar.
—Jacob, onde você esteve? Sua irmã acaba de voltar da Mansão de Milverton e não mencionou sua participação em retomar as cartas de Sua Alteza.
Jacob parecia surpreso. Claramente não fazia ideia de que Evie havia ido tão longe no caso do chantagista. Na verdade, havia até se esquecido do pobre Duleep Sigh e suas cartas comprometedoras, de tão ocupado com os Rooks.
-Ela conseguiu as cartas?
-Elas não são mais um problema.
O Assassino sequer parecia aliviado. Ainda assim, resmungou de sua irmã. Mais por força do hábito do que por irritação genuína.
-Como sempre, minha querida irmã me deixando de fora da diversão. Mas para descobrir quem era o maldito CAM, eu prestei. Ao menos ela não poderá dizer que eu não ajudei com coisa alguma. Quer saber? Nem vou me retirar mais. Esta noite, vou beber uma cerveja a mais, em comemoração.
Henry Green apenas balançou a cabeça, enquanto se retirava para se juntar a Evie e também dormir. Então, recordou-se da porta trancada. Olhou para o sofá, entristecido. Teria que servir por aquela noite.
Enquanto ajeitava uma almofada, ouviu um assobio. Era Jacob.
-Parece que a discussão foi mais séria do que pensei... Ela te fez dormir no sofá!
Exausto das piadinhas, Henry encolheu-se, fechando seus olhos e ignorando as risadas de seu cunhado inoportuno. Enquanto Evie dormia em seu quarto, ansiosa pelo que a manhã poderia lhe trazer, Jacob planejava uma “bebedeira de comemoração”. Como duas pessoas que nasceram do mesmo ventre poderiam ser tão diferentes?
—Nossa, mas parece que todos decidiram se tornar criaturas noturnas hoje. – exclamou Jacob, ao ver Violet Fitzgerald chegar ao trem-esconderijo.
—Do que está falando? – perguntou a Assassina, sem entender.
—Posso saber o que uma senhorita tão distinta como você faz ainda acordada a essa hora? – caçoou Jacob, com uma voz afetada e forçadamente sensual.
—Não, não pode. – ignorou a Assassina, rolando os olhos. De Jacob, ouviu uma risada.
—Calma, estava só brincando um pouco. É que eu dificilmente a vejo acordada a uma hora destas, só isso. Deve ser porque livros dão sono e fazem dormir cedo.
A Assassina riu, debochadamente.
—Livros dão sono E inteligência, mas é difícil que uma pessoa como você entenda isso. Mas ao menos os meus hábitos saudáveis me privam de ter a cara amassada e repleta de olheiras como a sua. Aliás, para onde está indo?
—Nada de especial. Vou ao “King’s Head” distribuir alguns socos naquele ringue.
-“King’s Head”?
-Sim, é um pub de Westminster. Nunca ouviu falar dele? Também, o que mais eu deveria esperar de alguém que está trabalhando apenas com a minha irmã? Aposto que sabe o título de todos os livros que existem nesse trem, mas não sabe o nome de um dos pubs mais famosos de Londres.
Violet riu, de modo gracioso. Por algum motivo, Jacob se sentiu... Ligeiramente balançado com sua risada. Ele a achou sonoramente musical, a ponto de ser capaz de ouvi-la rir por horas sem se cansar.
-Há certa verdade em seu argumento, apesar do exagero de suas palavras. – admitiu a Assassina.
-Então? Que tal ajudar a combater o “exagero de minhas palavras” e juntar-se a mim em uma andança pelo submundo londrino? Pode ter certeza de que não encontrará um guia turístico melhor do que eu.
O Assassino encarava Violet com um sorriso genuíno. Era impressão dela ou ele estava se mostrando mais... “Amigável”? Com o tempo, a hostilidade de seu primeiro encontro tinha se abrandado. De insuportável, sua presença havia se tornado tolerável, e depois mais que aceitável, a ponto de receber um convite para sair. Será que...?
Deixe de tolices, Violet. Ele só está querendo ser gentil porque aceitou que você faz parte dos Assassinos de Londres.
-Pois muito bem. Vamos.
Fechando os olhos em fingimento, Henry os reabriu, ao ver que os dois já haviam partido do trem. Riu graciosamente. No fundo, esperava que Jacob e Violet pudessem se acertar. Ela era responsável, inteligente e bastante comprometida com a Irmandade. Um compromisso sólido como um casamento poderia ser a pitada de juízo que faltava a Jacob. Casamento?! Talvez ele estivesse indo longe demais, pensou Henry. Ou talvez, tudo que queria era um pretexto para que pudesse partir o mais rápido possível de Londres com Evie, pois a Assassina jamais teria coragem de deixar Londres na guarda de Jacob. O que quer que fosse, algo lhe dizia que eles precisavam se apressar.
Fale com o autor