Assassin's Creed: Elementary

13 As Faias Cor de Cobre I


Notas iniciais
Olá a todos!!! Esse capítulo funcionará como uma espécie de adaptação de um de meus contos preferidos, "As Faias Cor de Cobre", mas sem a participação de nosso querido Dr. Watson. Como estamos com um jovem Sherlock Holmes, ainda em início de carreira, teremos Evie Frye no lugar do bom doutor - e obviamente, vocês verão que a Evie não agirá exatamente da mesma maneira... Espero que gostem e boa leitura!!

Ela não vem.

O trem apitou uma última vez. O cobrador de bilhetes deu um último aviso aos passageiros. Na plataforma, àquela altura já vazia, Holmes notou que ninguém com a aparência de Evie Frye estava se aproximando da movimentada estação de Charing Cross. Deixando escapar um pesado suspiro, o detetive voltou ao trem.

Embarcando no trem com o olhar desanimado, Holmes foi até o compartimento que havia reservado. Ao abrir a porta, seus olhos subitamente se arregalaram.

-Miss Frye. – disse, tentando rapidamente se recompor. Evie, que estava sentada com um livro em uma das mãos, trazia um olhar claramente divertido.

-Pensei que o senhor não era de fazer uma dama esperar.

-Não quando a dama em questão usa a janela lateral. – acrescentou Holmes. – Ademais, folgo em vê-la. Já estava me lamentando de que minha proposta tivesse sido aterrorizante o bastante aos seus ouvidos a ponto de fazê-la declinar...

-Será preciso mais do que isso para me amedrontar, Mr. Holmes.

O trem logo começou a andar. Evie voltou à sua leitura de “A Civilização Romana e Seus Encantos Proibidos”, onde não pôde deixar de se culpar por ter deixado seu noivo Henry Green esperando, apesar de ter confiado a missão a Violet Fitzgerald. Apesar de ela estar muito interessada em saber mais sobre o arqueólogo sequestrado e também se Nigel estava certo quanto aos templários, Evie sabia que ajudar Holmes era fundamental para recuperar as cartas de Duleep Sigh. Um aliado poderoso como o marajá, ao lado dos Assassinos, era valioso demais para ser perdido por uma mera chantagem. Além disso, Evie confiava nas habilidades de Violet e na inteligência de Henry. A Irmandade estava em boas e seguras mãos.

-Creio que chegaremos a Manchester em algumas horas. – acrescentou Holmes, despretensiosamente, enquanto lia uma edição do “The Star”, que noticiava na primeira página um massacre acontecido em um bordel de Westminster, manchete esta que não prendeu a atenção de Evie.

Evie nada disse, voltando sua atenção ao livro. A leitura tornou-se cansativa, de modo que a Assassina preferiu deixa-la de lado por uns instantes e voltar seus olhos para a janela, onde pôde admirar brevemente a paisagem rural que se formava diante de seus olhos. As casas, pequenas e distantes uma das outras, espalhadas pela pastagem verdejante. Algo que tanto lhe lembrava a cada vez mais longínqua Crawley.

—Sabe, uma das maldições de uma mentalidade como a minha é não poder desviar a atenção do assunto especial com que está ocupada. – disse Holmes, repentinamente, arrancando Evie de sua distração. – Você olha para aquelas casas e impressiona-se com sua beleza. Eu as olho, e o único pensamento que me vem é o do isolamento e da impunidade com que o crime pode ser perpetrado ali. Estou convencido, Miss Frye, baseado em minha experiência, de que as vielas mais baixas e vis de Londres não apresentam maior número de pecados do que a mais linda e alegre paisagem do campo.

—Você me horroriza. – disse Evie, com asco.

Abnegada, Evie decidiu voltar à sua leitura anterior, mas antes que pudesse passar para a próxima página de seu livro, Holmes voltou a falar outra vez.

—Mas é óbvia a razão. A opinião pública pode mais numa cidade do que a própria polícia. Muitos crimes são cometidos nesses lugares reservados sem que ninguém tome conhecimento deles. Se esta jovem que pede agora o meu auxílio tivesse ido para Winchester, por exemplo, nunca me preocuparia a respeito dela. É a distância que se torna perigosa. Todavia, penso que não é ela que está sendo ameaçada. Enfim... Quão tolo eu sou, a cacarejar sobre os problemas de Miss Hunter quando a senhorita sequer sabe do que está acontecendo... Não posso leva-la para Manchester estando em plena ignorância quanto aos fatos que me fizeram vir ao encontro de minha cliente com tamanha urgência. Permita-me que eu te explique o que aconteceu a Miss Hunter e você entenderá minhas razões para tal.

Evie pôs o livro de lado e ouviu atentamente o relato do detetive.

Holmes contou que, um belo dia, quando imerso em grande monotonia e sem casos para trabalhar, ele recebeu um telegrama de uma Miss Violet Hunter a respeito de sua opinião sobre aceitar ou não um cargo de governanta. Claro, o detetive leu o telegrama com grande ceticismo e fez graça dele à primeira vista, mas quando a jovem veio vê-lo em seu apartamento na Montague Street e expôs seu problema, a opinião do detetive sofreu uma grande transformação.

A jovem contou que trabalhava como governanta há anos, porém estava desempregada há meses e suas reservas já estavam cessando. Sem ter mais dinheiro para anúncios no jornal, Violet Hunter decidiu procurar uma agência de governantas muito conhecida chamada Westaway, no West End. Violet comparecia à agência uma vez por semana, sem sucesso em conseguir um emprego. Até que um dia, ela recebeu uma proposta de emprego bastante tentadora de um tal Jefro Rucastle, que assim que pôs os olhos nela, a julgou apta para o cargo. A jovem Violet Hunter, acostumada a receber 40 libras anuais, recebeu do misterioso sujeito a proposta de 100 libras anuais para cuidar de seu filho pequeno. Ao que tudo indicava, suas qualificações atendiam suas expectativas. O problema é que a proposta demandava um peculiar sacrifício à Miss Hunter.

-Cortar o cabelo?! – questionou Evie, abismada, enquanto ouvia a narrativa de Holmes.

—Devo dizer que ela tinha um belo cabelo castanho, de um tom avermelhado muito semelhante ao ruivo. O homem exigia um corte curto, na altura dos ombros. Por mais prática e pouco ortodoxa que seja, Miss Frye, a senhorita há de convir que mulheres de cabelos curtos não são aceitáveis em nossa sociedade.

—É verdade.

O detetive continuou, dizendo que a jovem Miss Hunter ficou assustada com a proposta e a recusou. Porém, arrependida, a jovem decidiu retornar à Agência, recebendo outra vez a proposta de Mr. Rucastle, porém com o ordenado ainda maior: 120 libras anuais. Entretanto, o corte de cabelo ainda era necessário.

-Foi desta forma que ela veio até minha casa. Apesar de eu adverte-la quanto aos perigos que esse emprego poderia proporcionar, por ser alto demais o salário e, aparentemente, baixa a contrapartida, a jovem já parecia decidida a aceitar. Tudo que ela queria era que eu teorizasse, conjecturasse, mas eu não tinha dados o bastante para isso. Como não pude dissuadi-la do contrário, pedi para que ela me comunicasse qualquer problema e eu iria a seu socorro, se necessário.

-Creio que há problemas a caminho, se estamos indo ao encontro dela com tamanha urgência.

-Sim. Veja por si só.

Holmes deu nas mãos de Evie um telegrama curto.

—“Esteja por favor no Hotel Cisne Negro, em Winchester, amanhã às cinco da tarde. Venha! Não sei o que fazer. Miss Hunter.” – disse Evie, em voz alta. – Pobre mulher. O que será que está perturbando-a?

—Tenho sete hipóteses, e cada qual explicaria os fatos como os conhecemos, mas só poderemos saber qual delas é a certa pelas informações que devem estar à nossa espera.

ЛЛЛЛЛ

Já estava quase anoitecendo com o trem parou na estação de Manchester. Holmes e Evie desembarcaram, cada um segurando uma pequena mala. Não era muito diferente de Londres, notou Evie, que visitava a cidade inglesa pela primeira vez. Estava repleta de indústrias e sua atmosfera mais parecia negra de tanta fumaça. Havia, como de se esperar, pobreza por toda a parte, à medida que o cabriolé de aluguel avançava e a Assassina conseguia enxergar os trabalhadores a caminhar pelas ruas. Com a presença consolidada dos Assassinos em Londres, talvez não fosse má ideia ter a Irmandade a ocupar outras cidades inglesas. Mas ela precisava crescer, e muito.

—Bem, lá está a torre da catedral. O Hotel Cisne Negro fica bem próximo. Logo saberemos o que a Srta. Hunter tem a nos contar.

O Hotel Cisne Negro ficava na High Street, pouco distante da estação, e lá Holmes e Evie encontraram a jovem à espera. Era fácil nota-la, pois tal como descrevera Holmes, ela possuía o cabelo curto, incapaz de se ocultar pelo chapéu. Além de uma cor bastante exótica e que saltava aos olhos de qualquer um que passava por perto. Não à toa Holmes ressaltou bastante essa característica.

—Estou muito contente em ver que o senhor atendeu ao meu pedido, Mr. Holmes. E vejo que o senhor está acompanhado desta vez...

—Miss Hunter, permita-me apresentar Miss Evie Frye. Ela é uma... Colega.

A perturbação no olhar de Hunter chamou a atenção de Evie. Decerto, a mulher estava esperando uma denominação mais amável que “colega”. Sem fazer observações sobre o assunto, Miss Hunter convidou Holmes e Evie para jantarem no restaurante do Hotel Cisne Negro, após terem reservado dois quartos de solteiro.

O jantar já estava sobre a mesa quando a jovem começou a expor os recentes acontecimentos.

—Peço-lhe o favor de contar-nos o que lhe aconteceu. – pediu Holmes, que sequer tocou nos talheres. Evie deu a primeira garfada na panqueca de carne com batatas.

—Direi, mas terá de ser depressa, porque prometi ao Mr. Rucastle voltar antes das oito horas da noite. Tive licença dele para vir à cidade, mas ele nem imagina o que me fez vir até aqui.

—Conte tudo. — pediu Holmes, com o olhar atento.

—Em primeiro lugar, preciso dizer que os Rucastle não têm me maltratado. É justo que se diga isso, mas não os compreendo e estou perturbada a respeito deles.

—O que é que não compreende? – perguntou Holmes, num tom de voz calmo e com uma extraordinária paciência. Evie jamais o imaginara tão educado e gentil. Ele parecia ser outra pessoa quando estava com seus clientes.

Ou, talvez, ele só seja rude assim comigo...

—As razões da conduta deles, mas já conto tudo. Quando cheguei, Mr. Rucastle encontrou-me aqui e levou-me de carro para as Faias Cor de Cobre. É uma casa linda, como ele disse, situada nos seus próprios terrenos e pouco distante da estrada para Southampton...

A seguir, a jovem fez uma descrição detalhada da Casa, e também da estranha família Rucastle. Composta pelo casal, casado há sete anos, e pelo menino de quem Violet cuida. Violet também contou que Mr. Rucastle era viúvo e que a filha que agora está na Filadélfia era a única filha do primeiro casamento.

—Uma filha?! Er... Desculpe-me... – pediu Evie, ao notar que havia interrompido a conversa de ambos. Holmes não parecia incomodado com sua interferência.

—De modo algum, Miss Frye. – disse Violet, dispensando a desculpa. – Mr. Rucastle disse-me em particular que a filha dele foi embora devido à aversão que sentia pela madrasta, e, como a moça deve ter uns vinte anos, calculo como devia ser desagradável estar sempre na companhia da jovem esposa de seu pai.

—Deveras? E quanto à esposa dele?

—Honestamente? Mrs.. Rucastle pareceu-me mentalmente tão vaga quanto o seu rosto descorado. Ela não me impressionou nem bem nem mal. É uma nulidade, mas é fácil notar que é apaixonada pelo marido e pelo filho. Examina tudo para que não falte nada, e ele é bondoso para com ela, apesar de seu tom impetuoso; em tudo, parecem formar um casal feliz, à sua maneira. Todavia, ela tem uma tristeza secreta, chora frequentemente. Tenho pensado que é a má disposição do filhinho que lhe pesa, porque nunca vi criança tão mimada e mal-educada. É pequeno para a idade, a cabeça desproporcionalmente grande. E passa a vida entre acessos de paixão desabrida e um grande mau humor, maltratando a todos os que são mais fracos do que ele; esse parece ser o seu único passatempo, e demonstra talento extraordinário para apanhar ratinhos, pássaros e insetos. Mas prefiro não falar nessa criatura, que aliás tem pouca ligação com a minha história. – disse a jovem Violet, percebendo que estava divagando.

—Gosto de todos os pormenores — observou Holmes — mesmo quando pareçam irrelevantes.

A jovem Violet suspirou. Lutava para ordenar as ideias.

—Eu tentarei narrar o que é importante. A única coisa desagradável na casa, que chamou logo a minha atenção, é a aparência e a conduta dos empregados. São dois, marido e mulher. Toller é o nome do homem. É branco, tem cabelos e barba grisalhos, e cheira sempre a álcool. Por duas vezes, desde que lá estou, vi-o completamente bêbado; todavia, Mr. Rucastle parece não se incomodar com isso. A esposa é uma mulher forte, muito alta e carrancuda, tão calma como Mrs. Rucastle, mas muito menos amável. Um casal desagradável, mas felizmente passo a maior parte do meu tempo entre o quarto do menino e o meu, que se comunicam a um canto do edifício.

A jovem tomou um suspiro, tentando alinhar as ideias.

—Durante uns dois dias após a minha chegada, a vida decorreu calma, mas, no terceiro dia, Mrs. Rucastle desceu logo depois do almoço e cochichou qualquer coisa para o marido. Foi então que Mr. Rucastle pediu que eu utilizasse um vestido azul pela primeira vez. Um belo vestido azul, por sinal.

—Sem dar qualquer explicação? – questionou Evie, curiosa, que já tinha terminado sua panqueca. A Assassina voltou seu olhar para o prato de Holmes. Intacto, e provavelmente frio.

—Sim. Pediram para que eu comparecesse à sala de estar, onde solicitaram que eu me sentasse a uma cadeira, de costas para a janela. Para minha surpresa, o Mr. Rucastle começou a contar-me histórias tão cômicas como jamais ouvi. Não podem imaginar como ele era engraçado, e eu ri até me cansar. Mrs. Rucastle parece não ter senso de humor, nem sequer sorriu; ficou com as mãos no colo, com um olhar triste e expressão ansiosa.

—Que curioso... – observou Evie, dando atenção à taça com suco de laranja. Holmes permanecia imóvel.

—Passado uma hora ou duas, voltei aos meus afazeres. Dois dias depois, o mesmo aconteceu. Como tempo, percebi que eles sempre evitavam que eu virasse meu rosto para a janela. E assim, eu me consumia com o desejo de saber o que acontecia atrás de mim, por isso, cometi a ousadia de esconder um espelho pequeno em meu lenço. Arrisquei uma olhadela, mas confesso que fiquei desapontada, pois não vi nada; porém, num segundo olhar, percebi que havia um homem na estrada para Southampton, de pequena estatura, barbado, olhando na minha direção. Há sempre gente passando naquela estrada, mas esse homem estava encostado à cerca que limita os nossos prados e olhava-me fixamente. Porém, quando abaixei o lenço, olhei para Mrs. Rucastle e vi que ela estava com os olhos fixos em mim, com um olhar penetrante. Nada disse, mas estou convencida de que ela adivinhou que eu tinha um espelho no lenço e havia visto o que se passava atrás de mim. Levantou-se imediatamente e avisou ao Mr. Rucastle que havia um homem inconveniente me olhando da estrada. Ele perguntou se era algum amigo meu. Negativei, e ele me pediu para que eu o acenasse, mandando-o embora. E assim o fiz.

—E o que aconteceu? – perguntou Evie.

— Isso se passou há uma semana, e desde então não mais me sentei junto à janela, nem pus o vestido azul. E nunca mais vi o homem na estrada.

—Continue — disse Holmes. — Sua narrativa está sendo muito interessante.

—O senhor há de achá-la um tanto desconexa, e pode ser que haja pouca ligação entre os diversos episódios de que falo. No dia da minha chegada, o Mr. Rucastle levou-me a uma cocheira que fica perto da porta da cozinha; ao aproximar-me, ouvi o barulho de uma corrente sendo arrastada, como se fosse um animal grande movendo-se. Ele me apresentou como sendo seu cão de guarda. E fez questão de me avisar que eu não deveria pôr o pé fora de casa à noite, seja qual for o motivo, pois isso poderia me custar a vida.

—Ele claramente queria te amedrontar, Miss Hunter. – observou Evie. – Decerto ele está a pensar que a senhorita chegou a alguma conclusão.

—É o que penso, também. Mas isso não é tudo. Como o senhor sabe, Mr. Holmes, eu cortei o cabelo e guardava-o no fundo da minha mala. Uma noite, depois que a criança foi para a cama, ocupei-me a examinar a mobília do meu quarto e a arranjar meus pertences. Há uma velha cômoda, da qual as duas gavetas superiores estavam vazias, mas a grande, de baixo, permanecia fechada. Enchi as duas com a minha roupa, mas ainda faltava lugar para o resto, e fiquei aborrecida por não poder usar a outra gaveta. Achei que talvez a fechadura estivesse quebrada ou que tivesse sido fechada por acaso; por isso, peguei minhas chaves e experimentei abri-la; a primeira chave que usei serviu. Havia uma só coisa dentro, e o senhor não pode imaginar o que era. A minha trança. Peguei-a e examinei-a bem. Era da mesma cor e grossura. Mas então lembrei-me de que era uma coisa impossível. Como podia meu cabelo estar guardado na gaveta? Com as mãos trêmulas, abri a mala e virei o conteúdo: lá no fundo estava o meu cabelo. Juntei as duas tranças e olhei: eram idênticas. Que coisa estranha!

—E o que fez? – perguntou Holmes.

—Tornei a colocar o cabelo na gaveta e não disse nada aos Rucastle, julgando que tinha cometido um erro ao abrir aquela gaveta.

—Fez bem. – disse Evie.

—Obrigada, Miss Frye. A senhorita é muito gentil. Sou observadora por natureza, e não me custou habituar-me à casa. Há uma ala, que parece não ser habitada, que tem uma porta que se abre para os aposentos dos Tollers, mas que está sempre fechada. Um dia, quando subia a escada, vi Mr. Rucastle saindo por aquela porta, de chaves na mão e um olhar que o fazia parecer uma pessoa muito diferente do homem jovial a que eu estava habituada. Tinha as faces vermelhas, a testa franzida de raiva e as veias nas têmporas inflamadas pela cólera. Fechou a porta e passou por mim apressadamente, sem uma palavra ou um olhar sequer.

—Interessante. – observou Holmes. Evie notou que ele estava com os olhos fechados e semblante sereno, parecendo trancafiado em um universo próprio de sua mente, mas não completamente alheio ao que era dito ao seu redor.

—Isso despertou a minha curiosidade; portanto, quando fui passear com o menino, dei uma volta por aquele lado da casa. Havia quatro janelas em fila, três das quais estavam imundas e a quarta, tapada com tábuas. Aparentemente, estava tudo abandonado. Enquanto passeava de baixo para cima, Mr. Rucastle veio ter comigo com os seus modos habituais, alegre e jovial. Perguntei sutilmente sobre as janelas fechadas. Ele alegou que aquele local era reservado a revelar suas fotografias. Falou como se estivesse brincando, mas não havia zombaria nos olhos dele quando olhou para mim. Vi suspeita e aborrecimento, mas nada de brincadeira.

Evie notou que as mãos de Miss Hunter estavam trêmulas. Pela primeira vez, trêmulas. Mesmo de olhos fechados, Holmes parecia ter notado a hesitação e medo em sua voz.

—Continue, Miss Hunter. – pediu Holmes.

—Bem, Mr. Holmes, desde aquele momento compreendi que havia qualquer coisa a respeito daqueles quartos que eu precisava saber, e fiquei curiosa por ir lá. Não era simples curiosidade, embora, naturalmente, tenha o meu quinhão dela; senti como que um dever… Que algum benefício adviria do fato de eu ir lá. Falam do instinto feminino; talvez tenha sido isso o que me encheu desse sentimento. Esperei, portanto, uma ocasião para passar pela porta proibida.

A voz de Violet estava ainda mais trêmula. Apesar disso, a jovem continuou.

—Só ontem me apareceu a oportunidade. Toller e sua mulher vão sempre lá, e uma vez vi-o carregar para lá um saco de roupa. Ultimamente ele tem estado sempre bêbado, e ontem também isso se deu. Quando subia a escada, vi que a chave estava na porta: ele a havia esquecido. Os Rucastles estavam no andar térreo, e o garoto com eles. Girei a chave e entrei; havia um corredorzinho à minha frente. Virando o corredor havia três portas em fila; a primeira e a terceira estavam abertas, cada uma dando entrada para um quarto vazio, empoeirado e desconfortável e...

A jovem tomou um suspiro. Homes e Evie esperaram.

—A porta do meio estava fechada, atravessada do lado de fora por uma larga barra de ferro e fechada a cadeado de um lado. Na outra extremidade estava amarrada por uma corda grossa. A porta estava trancada, mas não havia chave ali. Essa porta correspondia à janela tapada; todavia, percebi por uma fraca luz que vinha por baixo da porta que o quarto não se encontrava de todo às escuras. Evidentemente, havia uma claraboia de onde vinha essa luz. Enquanto estava no corredor, imaginando que segredo havia atrás daquela porta sinistra, ouvi de repente passos no quarto e vi uma sombra que ia e vinha. Um terror enlouquecedor se apossou de mim ao constatá-lo, Mr. Holmes. Meus nervos, já abalados, falharam de repente, virei-me e corri como se a mão de alguém me segurasse por trás e me puxasse o vestido. Corri pelo corredor e pela porta diretamente para os braços de Mr. Rucastle, que estava à espera do lado de fora.

Descomposta, Violet Hunter tomou outro suspiro, até voltar a falar.

—Ele me perguntou o que havia me assustado, com uma voz adocicada demais. Menti, dizendo que o local era muito empoeirado e silencioso. Ele pareceu não acreditar. Por fim, perguntou-me “Sabe por que mantenho aquela porta trancada?”. Disse que não sabia. Ele respondeu “É para evitar que pessoas que não têm esse direito entrem lá. Ouviu?”, disse, ainda sorrindo. Tentei contornar, dizendo que não sabia. “Bem, agora a senhorita sabe, e se puser de novo os pés além do limiar dessa porta…”

Com o olhar mortificado, Violet retornou a narrativa.

—Então o sorriso de Mr. Rucastle transformou-se num arreganhar de dentes, e ele fitou-me com um olhar de demônio e disse “Eu a atiro ao meu cão de guarda.”

Holmes, que àquela altura já havia aberto seus olhos, trazia um olhar sério.

—Fiquei tão amedrontada que não sabia o que fazer. Arremessei-me para dentro do meu quarto, passando por ele sem olhá-lo, e não me lembro de mais nada até que me achei em minha cama, tremendo da cabeça aos pés. Depois lembrei-me do senhor; não podia continuar vivendo lá sem procurar um conselho. Tenho medo do homem, da mulher, dos empregados e até da criança. São horríveis, a meu ver. Se pudesse levar o senhor até lá, tudo estaria bem. É verdade que eu podia ter fugido da casa, mas minha curiosidade era quase tão grande quanto o medo. Logo, decidi-me e mandei-lhe um telegrama. Pus o chapéu e a capa, desci até a agência telegráfica que fica a menos de um quilômetro da casa, e no regresso senti-me muito aliviada. Agora que lhe contei minhas aventuras, Mr. Holmes, daria muito para que o senhor me pudesse dizer o que significa tudo isto, e, acima de tudo, o que devo fazer.

Sem tocar em seu jantar, Holmes levantou-se e andou de um lado para outro na sala, de mãos nos bolsos e com uma expressão de gravidade no rosto.

—Toller ainda está bêbado? – ele perguntou.

—Sim, eu ouvi sua esposa comentar sobre isso antes de vir para cá. Quando isso acontece, ele costuma começar a trabalhar só na tarde do dia seguinte.

—Ótimo. E quanto ao casal Rucastle?

—Passarão a manhã em um velório de um conhecido. Eles não levarão a criança, de modo que terei de ficar cuidando dela durante o dia.

—Há uma adega com boa fechadura?

—Sim.

—Agiu como uma jovem corajosa e ajuizada, Miss Hunter. Seria capaz de fazer mais uma coisa? Não o pediria se não soubesse que a senhorita tem uma coragem excepcional.

Evie quase pigarreou de surpresa. Holmes era capaz de fazer elogios?

—Sim.

—Chegaremos às Faias Cor de Cobre amanhã, às nove horas. Os Rucastles terão saído, e Toller, esperamos, ainda estará incapaz de agir. Há só a Mrs. Toller, que poderia dar o alarme. Se pudesse mandá-la para a adega sob qualquer pretexto e trancá-la lá, facilitaria muito as coisas.

—Eu o farei.

—Excelente. Quanto ao caso... Miss Hunter, não há dúvidas de que a senhorita está participando de uma cruel “encenação”.

—Eu também concordo com Mr. Holmes, Miss Hunter. Se me permite observar, a senhorita foi trazida aqui para representar o papel de alguém, e essa pessoa está trancada naquele quarto. Por isso tem recebido tantas ameaças. – acrescentou Evie.

—Miss Frye tem razão. – concordou Holmes. – E só pode ser a filha de Mr. Rucastle. A senhorita só foi escolhida por se parecer com a jovem Rucastle na altura e na cor do cabelo. O dela havia sido cortado, talvez por causa de alguma doença, por isso o seu devia ser sacrificado também. Para dar maior verossimilidade ao papel.

Assentindo, Evie acrescentou.

—O homem na estrada sem dúvida deve ser algum amigo dela, possivelmente alguém com interesse amoroso por ela, mas como a senhorita usava o vestido dela e se lhe assemelhava tanto, ele deve ter se convencido, pelas suas risadas e pelos seus gestos, de que Miss Rucastle estava contente e já não queria suas atenções.

—O cão é solto à noite para que não possa haver qualquer comunicação do homem com ela. – completou Holmes. – Tudo isto está claro. A coisa mais séria é a disposição da criança.

—Como?! – perguntou as duas jovens, confusas.

—A disposição dessa criança é excessivamente cruel, e isso deriva do seu sorridente pai ou, como suspeito, da mãe, o que é um mau presságio para a pobre jovem que está em seu poder.

—Tenho certeza de que os senhores têm razão, Mr. Holmes e Miss Frye. – exclamou Miss Hunter. – Mil coisas me fazem crer nisso. Oh, então não percamos um momento em socorrer essa pobre criatura...!

—Mas precisamos ser prudentes, pois estamos lidando com um grande velhaco perigoso. Não poderemos fazer nada até amanhã. Creio que já é tarde, Miss Hunter. A senhorita precisa ir. E por favor, não tente qualquer coisa em nossa ausência. Amanhã, esta farsa será encerrada. A senhorita tem a minha palavra.

Notas finais
Podem esperar que não teremos nessa história um desenrolar igual ao do livro, então esperem por boas surpresas nos próximos capítulos! Até a próxima!!