Assassin's Creed: Elementary
17 A Casa Vazia
O destino é estranho.
Mais uma vez, Evie se viu enredada em outro caso mirabolante e complicado sendo solucionado por Sherlock Holmes. A Assassina não conseguia deixar de se sentir irritada pelas maneiras arrogantes dele, mas ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais fascinada por seu trabalho. E lá estava ela, ao lado dele e de outros dois inspetores, curiosos demais com o desfecho do caso Ronald Adair para deixar o detetive sozinho com aquele que, segundo Holmes, era o atirador mais habilidoso do Império Britânico. E o que a morte de um pobre rapaz, de boa família e amante de jogatinas, poderia ter a ver com a morte de vinte e três franceses – templários, sabia Evie – naquele galpão em Lambeth? De qualquer modo, o misterioso atirador pairava como o estranho elo de ligação entre os mortos.
Lestrade só pensava na promoção que a resolução do caso Ronald Adair poderia lhe dar. Abberline, nas reclamações mais que sensatas de sua esposa e na carne assada requentada que lhe aguardava em casa. Quanto a Evie, imaginava se o arqueólogo Salvatti estaria em poder do atirador. Ela ainda não conseguia entender o que os templários queriam com ele. Revistaram a casa vazia, em frente ao prédio de Baker Street, e nada encontraram além de poeira e móveis revirados. Estava vazia há muito tempo. Nada surpreendente, visto que aquele sequer era o covil do atirador.
Já Holmes parecia fascinado com o letreiro do outro lado da rua.
-Eu poderia morar ali. – balbuciou levemente, diante das palavras “aluga-se”, dispostas sobre uma das janelas de uma simpática residência.
Evie riu.
-E se tornar de vez um detetive distinto e rico.
-Nem tanto. Vou precisar dividir o aluguel com alguém, se quiser morar em um apartamento em Baker Street. Meus casos não são o suficiente para bancar os luxos de uma morada no coração de Westminster.
-Não queira me fazer de tola, Holmes. Está nítido para mim que você é rico, de boa família. Poderia residir ao lado do Palácio de Buckingham, se quisesse.
-Que exagero, Miss Frye.
Pararam a conversa, tão logo perceberam o vulto do outro lado da rua se mover. Claramente, havia uma pessoa a janela, cuja presença era denunciada pela luz da lareira.
-Precisamos tomar cuidado para que esse atirador não faça outra vítima. – disse Lestrade, recebendo um assentimento de Abberline. Holmes riu levemente.
-Se o pior acontecer, só a Arte sofrerá um atentado. Pois senhores, atrás daquela janela está nada mais do que um boneco de cera, que afanei da faculdade de Medicina.
-Mas parece tão real... – embasbacou-se Abberline.
-Está com uma de minhas perucas, por isso o realismo. Aliás, pedi a senhoria daquele apartamento, uma mulher bastante prestativa chamada Mrs. Hudson, para mover o boneco de dois em dois minutos e dar maior... credibilidade ao nosso pobre voluntário.
—Quietos! Alguém se aproxima! – pediu Evie, recebendo imediato silêncio dos demais. Esconderam-se, cada um em um canto da sala. Aproveitavam-se da escuridão e do excesso de mobília antiga daquele apartamento abandonado para se camuflarem e assim, quem sabe, passarem despercebidos pelo atirador misterioso.
Ouvia-se o estalo no assoalho a cada movimento do sujeito. O silêncio daquela casa vazia fazia os passos sobre o assoalho velho ecoarem como um rugido. Cada vez mais perto, mais urgente.
Abberline e Lestrade tinham cada um seu próprio revólver em mãos. Evie fizera o mesmo. O único que permanecia desarmado era Holmes, munido com nada mais que uma bengala que achara jogada no chão e que agora improvisara como arma. Parecia bastante desejoso em usá-la, o que fez Evie sentir que ele precisava mais de cobertura do que os outros policiais. Estava com um mau pressentimento quanto a esse atirador.
E a Assassina estava certa. O atirador misterioso se posicionou próximo de uma janela – justamente a mais próxima de Holmes. Trazia em uma das mãos uma enorme sacola. Retirou algumas peças dela. Com enorme perícia, começara a dar forma àquelas peças metálicas, e em pouco tempo começou a desenhar-se naquela escuridão a fôrma de um rifle. Um belo e enorme rifle, tão singular a ponto de Evie jamais ter visto algo semelhante, nem mesmo em sua longa experiência como Assassina.
Com delicadeza, o atirador inseria munição, e com uma manivela, parecia ajustar alguma coisa na arma. Posicionou seu rosto na mira telescópica. Moveu-se pouco. Mal parecia respirar, inclusive. Era como se fosse um caçador, sentiu Evie Frye cada vez que seus olhos pairavam sobre ele e sua postura. Estava tão familiarizado com aquela arma que era como se ela atuasse como uma extensão do seu corpo. A Assassina não parava de se perguntar quantos já não estiveram por trás daquela mira...
Até que veio uma respiração profunda, que fez as costas do atirador se elevarem em uma longa inspiração e, por conseguinte, todo seu corpo se enrijecer, tal como pedra. Um barulho estalado foi ouvido. Foi o disparo, não tão silencioso assim quando se está tão próximo da arma, mas silencioso demais para uma arma. O barulho da janela estilhaçada do outro lado da rua, inclusive chegava a ser mais alto que aquele estalado.
Todos os homens se moveram, revólveres em mão, a apontar ao atirador, que ao perceber-se acuado, jogou sua própria arma contra eles. Dois disparos foram efetuados, mas a esmo. Infelizmente, a escuridão e suas roupas escuras favoreceram o atirador a desaparecer. Mas antes que pudesse alcançar as escadas, teve pelo caminho Holmes. O detetive tentou dete-lo, mas foi empurrado contra uma cômoda, que se desmanchou com o impacto de sua queda. Sabendo que não ia alcança-lo a tempo de evitar sua fuga, o detetive ergueu seu braço e disparou o gancho de sua manopla. No limiar da escada, o atirador teve o ombro acertado pelo gancho, o que o fez paralisar de dor.
Evie rolou os olhos. Jamais usou seu gancho como arma, em momento algum, por um simples motivo: a impulsão.
Foi tudo tão rápido que Abberline e Lestrade sequer compreenderam o que de fato aconteceu naquela casa vazia e escura, mas por alguma razão estranha o detetive simplesmente pareceu voar contra o fugitivo, e os dois rolaram escada abaixo. E para completar, nenhum deles entendia porque Miss Frye ria tanto.
-Você está bem? – perguntou a Assassina a Holmes, engalfinhado com o atirador misterioso.
-Sim, o patife amorteceu minha queda. – disse, tentando levantá-lo do chão.
-Não toque em mim, desgraçado! – pediu o homem, furioso, dando um tapa sobre a mão de Holmes, que estava sobre seu braço.
Aproximando-se dos dois com um lampião, Abberline e Lestrade surpreenderam-se com a identidade do habilidoso atirador, agora não mais tão misterioso assim.
-Coronel Moran?! – questionou Lestrade, primeiramente pálido pela surpresa e depois vermelho como um tomate de tanta raiva.
-Ele mesmo, senhores. Coronel Sebastian Moran, um veterano de guerra e o maior atirador de elite já produzido pelo Império Britânico. Além de ser um exímio caçador de tigres, vale ressaltar. Mas dessa vez, o velho coronel tão acostumado a montar armadilhas para seus tigres na Índia não pôde escapar da armadilha que preparei para ele essa noite!
O homem bufou com a provocação de Holmes. Chegava a tremer de raiva.
—Você chegou a testemunhar no tribunal, disse que não sabia quem era o assassino de Ronald Adair! Todos acreditaram em você por causa de seu prestígio militar! Facínora, desgraçado...
—Deixe os xingamentos para depois, Lestrade. Por hora, preciso que o Coronel Moran nos esclareça o que ele fez com o arqueólogo Salvatti.
—Eu não sei do que você está falando...
—Oh, mas você sabe muito bem, Coronel. Entretanto, vou descrever para o senhor alguns detalhes, caso a memória esteja falhando. Um galpão em Lambeth, vinte e três mortos à tiros, franceses...
Moran voltou seus olhos para Evie. Parecia ciente de quem era ela.
—Não sabia que uma Assassina estava agora contratando detetives...
O Coronel imediatamente recebeu um soco no estômago. De Abberline.
—Como ousa chamar Miss Frye de assassina, seu verme? Não permitirei que a ofenda dessa forma! – disse Abberline, sem perceber o olhar aturdido de Evie Frye. Por um momento, a Frye temeu que o atirador revelasse sobre a Irmandade. Mas ele não o fez, decerto porque a existência dos Assassinos poderia parecer absurda demais a dois oficiais da Scotland Yard, ainda mais contados rapidamente.
—Vamos lá, Moran! Confesse! Quem te contratou para matar os sequestradores de Mr. Salvatti? E o que o seu empregador poderia querer com um pobre arqueólogo?
—Acha que contarei assim tão fácil, Holmes? Pois você é um tolo se pensa que eu arriscaria meu pescoço em falar sobre ele. Justo ele, que tem olhos e ouvidos por todo o lugar... O maior planejador de todos os tempos, o organizador de todos os demônios, o cérebro controlador do submundo, um cérebro que pode ter criado ou estragado o destino das nações — esse é o meu empregador! E você jamais conseguirá derrota-lo, Holmes! Jamais!
Uma coronhada desferida por Lestrade o silenciou.
—Desgraçado de merda... Com todo o respeito, senhorita. – disse o inspetor, tentando voltar a compostura, a Evie Frye.
—Bom, senhores. É isso. Prendemos o homem. Agora, se nos permite, uma papelada daquela nos aguarda na Scotland Yard... É hoje que chego em casa quando o sol raiar. Vou dormir por uma semana no sofá, tenho certeza.
—Por isso prefiro a solteirice. Ninguém me esperando em casa senão meu cachorro Tobias. Que na verdade nem me espera, pois tudo que faz é dormir, comer e peidar.
Enquanto os dois inspetores carregavam um desmaiado Sebastian Moran, Holmes e Evie nada mais tinham a fazer ali. Entretanto, o detetive parecia interessado na arma do crime.
—Uma belíssima adição à Scotland Yard. Pena que nenhum dos oficiais saberá usar isso. – disse Holmes, contemplando a arma ainda montada.
—Parece que mais um crime foi resolvido, mas meus problemas continuam. Ainda não sei o que os templários franceses pretendiam com Mr. Salvatti e CAM continua com as cartas do Marajá.
Deixando a arma recostada à parede, Holmes aproximou-se de Evie.
—Não vejo um horizonte tão turbulento assim, Miss Frye. Agora que sabemos quem é o atirador, tudo se torna mais fácil. Irei pedir aos Irregulares para investigar os últimos passos do shiraki. Tenho certeza de que as crianças irão localizar cada buraco que esse sujeito esteve.
Evie parecia confusa. – Espere... Mas que crianças?
—Minha pequena força especial. Meninos e meninas do submundo de Londres. Olhos e ouvidos que ninguém presta atenção, mas que presta atenção a todos. Eu sempre emprego os Irregulares quando quero seguir ou localizar alguém. São perfeitos, pois são invisíveis à sociedade. Basta que eu chame a Clara e...
—A Clara O’Dea também trabalha pra você?! – surpreendeu-se genuinamente Evie. Achava que a menina fosse fiel aos Rooks. Holmes riu de seu espanto.
—Mas é claro. Uma menina muito esperta, com espírito de liderança. Espero que tenha um futuro brilhante. Tenho certeza de que ela saberá coordenar as crianças e localizará o esconderijo de Sebastian Moran. E uma vez que o localizar, teremos pistas do paradeiro de Mr. Salvatti, ou com sorte o próprio Mr. Salvatti, pois acredito que Moran cuidou pessoalmente de seu cárcere. Agora, quanto a CAM... Amanhã cedo irei acertar os últimos ajustes de nossa incursão e resolver um último problema. Investiremos na Mansão de Milverton na próxima noite.
—Mas é o dia em que o prazo se encerra.
—Eu sei perfeitamente disso, mas Milverton nada poderá fazer até a meia-noite. Há honra e cumprimento de palavras mesmo entre os mais sortidos canalhas, Miss Frye, e um chantageador asqueroso como CAM também tem suas regras. Mas não se preocupe, antes do badalar da meia-noite a senhorita estará de posse de sua carta. Você tem a minha palavra.
Fale com o autor