Assassin's Creed: Between Two Worlds
2 Um Pequeno Guerreiro
Inevitavelmente, dormi naquela noite com o olhar de Ratonhnhaké:ton na cabeça, imaginando como ele estava completamente só pela primeira vez na vida. Na manhã seguinte todos acordaram muito cedo, pois havia muito a ser feito para restaurar a aldeia e mesmo as crianças foram mobilizadas para ajudar. Minha mãe era muito boa em trançar coisas, por isso ela liderava um grupo de homens e mulheres que iriam reconstruir o teto dos lares queimados e tudo mais que pudesse ser feito trançado. Meu pai, por outro lado, saiu com um pequeno grupo atrás de madeira que seria usado como vigas e eu fui descascar milho, assim como todas as outras crianças com exceção de uma.
Quando entrei na grande cabana, onde algumas mulheres cortavam legumes e carnes, encontrei muito dos meus amigos e outras crianças de idades inferiores. Em minha busca, porém, não encontrei Ratonhnhaké:ton em canto algum. Sentei-me sem me preocupar em quem estava do meu lado e iniciei a tediosa labuta com os milhos. Tive esperança que o veria chegar tempos depois, talvez tivesse dormido demais e ninguém havia se preocupado em lhe acordar. Mas ele não veio.
Pensei então que enfim o garotinho se permitiu sofrer de luto pela perda da mãe e estava choroso em algum canto recluso, longe da vista de todos. Era plausível afinal e a ideia me fez crer que eu havia idealizado demais. Nenhum menino conseguiria se manter firme e forte depois de perder sua mãe. No fim eu só estava tentando me convencer que Ratonhnhaké:ton não era tão especial sim. Mas ele era.
No meio da tarde, minhas mãos já estavam cansadas e um pouco calejadas, e ele já não ocupava meus pensamentos. Tudo que eu queria era escapar daquela peneira e talvez brincar um pouco fora dos muros. Os grupos de adultos que deixaram a aldeia para realizarem tarefas na fronteira começavam a retornar e então aqueles que se encarregaram da caça adentraram os muros de madeira.
Um par de carcaças de cervo surgiu, carregados por homens fortes e viris. Os jovens guerreiros foram recebidos com alegria ao largarem os animais abatidos no chão, foi quando deixei o interior da cabana e observei toda a cena. De repente, logo atrás desses notórios guerreiros, Ratonhnhaké:ton apareceu não com um, mas três coelhos mortos por sobre o ombro.
Nenhuma outra criança havia partido junto aos responsáveis pela caça, na verdade, Ratonhnhaké:ton era o único não adulto do grupo. Um menino se aproximou dele animadamente, o estava felicitando pelo grande feito, mas ele nem ao menos sorriu. Ele nunca sorria. A Mãe do Clã foi a próxima a se aproximar e lhe direcionar algumas palavras. Com um breve menear de sua cabeça, Ratonhnhaké:ton lhe respondeu e se virou para entregar sua caça às mulheres que iriam preparar a comida em instantes.
Não foi surpresa que todas as crianças estivessem rodeando-o no minuto seguinte, inclusive eu. Olhos brilhantes por todos os lados e as vozes finas disparavam perguntas uma atrás da outra.
“Como conseguiu pegar três coelhos?” – perguntou um garoto maior do que ele, nitidamente desconfiado de tamanha façanha.
“Eu os peguei com armadilhas.”
Sua voz era serena e baixa, não estava nem um pouco abalado por ser o centro das atenções de todas as crianças da aldeia. Parecia até desinteressado em ter que responder tantas perguntas.
“Desde quando você caça?”
“Irá caçar mais amanhã?”
“Você tem um arco? E uma machadinha?”
Os olhos de Ratonhnhaké:ton alternavam de um questionador ao outro, não conseguindo ser hábil o suficiente para elaborar tantas respostas em tão pouco tempo. Vi então minha chance de falar.
“Ele está cansado, passou o dia na fronteira enquanto nós estávamos aqui descascando milho. Deixe-o em paz um pouco”
Nessa época eu era mais alta que ele e quase mais alta do que a maioria das crianças ali. Por isso minha voz recebeu devida atenção, reduzindo as intermináveis perguntas a meros cochichos. Pouco a pouco a pequena multidão se dissipou, restando apenas eu, Ratonhnhaké:ton e o primeiro menino que o abordou. Para minha insatisfação foi exatamente esse o menino que falou comigo.
“Konwatsi'tsiaienni...”
Esse é o meu verdadeiro nome, o nome dado pelo meu pai e minha mãe. É um nome bem grande mesmo para os padrões do meu povo, embora poucos me chamarem por ele hoje em dia. O meu povo acredita fortemente no poder dos nomes que damos aos nossos filhos, sendo nossos destinos muito influenciados por esse. O meu significaDeixem uma flor a ela. E meus pais o escolheram por me acharem um bebê muito bonito e delicado.
A boca do garoto estava levemente aberta e a situação teria sido engraçada se ele não tivesse me encarado sem piscar os olhos. Tentei ignorar sua surpresa e me concentrar em Ratonhnhaké:ton, mas ele parecia tão interessado quanto antes, o que certamente não me agradou muito, por isso insisti mais.
“Foi realmente muito impressionante o quê você fez. Meus parabéns.”
“Obrigado. Agradeço também pela ajuda com as outras crianças.”
“Eles são bem barulhentos às vezes não?”
Eu lhe cedi um singelo sorriso, queria me amostrar amigável a ele e me aproximar mais do menino que nunca sorria. Porém, novamente não foi ele quem me respondeu.
“É verdade. Você fala bem e é muito bonita.”
Meu olhar para o outro garoto provavelmente era mortal, mas ele era pequeno demais para entender e minha mãe gritou-me logo a seguir. Chamando-me para me juntar a ela antes de anoitecer. Eu não queria deixar Ratonhnhaké:ton naquele instante, queria conversar mais com ele, mas ele partiu para a grande cabana, seguido do menino que falava empolgado algo sobre como uma menina mais velha era agora amiga deles.
Confesso que o achei muito tolo ao acreditar que eu era amiga dele, mas enquanto os observava se afastar notei que aquele era de fato o único amigo de Ratonhnhaké:ton e que a princípio era o único também que ele fazia questão de manter. Os passos da minha mãe se aproximaram e sua voz reclamava por eu estar distraída e não lhe responder quando me chamou, mas minha mente estava tão ocupada que mal me lembro de suas palavras.
Se Ratonhnhaké:ton era alguém tão recluso e de difícil acesso, então eu apenas precisava seguir por um caminho mais demorado, mas também mais fácil. Se eu queria me aproximar dele, primeiro eu precisava me aproximar do outro menino. Com essa ideia que me estipulei a meta de descobrir o nome do único amigo de Ratonhnhaké:ton.
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