É claro que ao me recordar disso eu acho graça e penso o quão infantil fui apenas por curiosidade. Apenas para saber mais do misterioso Ratonhnhaké:ton. Mas também acho que eram nossos destinos e eu acreditei nisso. Não me arrependo de nada do que fiz por nós dois. Se é que posso nos chamar de nós dois.

Nos dias seguintes a aquele eu fiquei a observar Kanen'tó:kon, esse era seu nome e ele era um menino como outro qualquer. Suas bochechas eram redondas e seus braços um pouco mais volumosos do que deveriam. Além disso ele gostava de falar, com todo mundo e qualquer um, mas quando Ratonhnhaké:ton estava por perto, ele mais parecia uma sombra dele.

Olhando a distância, era engraçado como Kanen'tó:kon falava o suficiente pelos dois e Ratonhnhaké:ton na maioria das vezes respondia apenas meneando a cabeça e cedendo meia dúzia de palavras. Ele passava a maior parte do dia fora, com o grupo de caça e eu começava a ouvir os adultos dizerem que viam nele um futuro grande guerreiro. Por algum motivo isso me deixava feliz.

Contudo nem todos os dias ele chegava com um troféu sobre os ombros e como diziam os antigos, um dia era da caça e outro do caçador. De um jeito ou de outro, Kanen'tó:kon estava disposto a conversar todos os dias enquanto Ratonhnhaké:ton não demonstrava maior ou menor alegria de acordo com os ganhos do dia.

Pouco a pouco a aldeia voltava à sua rotina e as vítimas eram deixadas em paz no passado. Cabanas destruídas foram refeitas, colheitas perdidas começam a ser replantadas e as obrigações menos urgentes ganharam novamente espaço entre os Mohawk, entre elas brincar.

O motivo para que eu nunca tivesse notado Ratonhnhaké:ton antes era porque ele é três anos mais novo do que eu. Logo eu brincava com outras crianças, mais velhas do que ele. Minha mãe costumava dizer que apesar dos meninos geralmente crescerem mais do que as meninas, elas crescem mais rápido e se tornam mulheres mais rapidamente, enquanto um menino pode ser apenas um menino por muitos e muitos anos.

Certamente eu não entendia bem o que ela queria dizer na época, mas hoje eu vejo que é verdade. Ainda sim, deixei meus habituais colegas de brincadeiras de lado e fui até as crianças mais novas. Eles costumavam brincar próximos à aldeia e a brincadeira que mais se repetia era esconde-esconde. Quando encontrei Kanen'tó:kon correndo e rindo entre eles eu me aproximei dele, mas ele não me percebeu.

“Olá.” – o menino deu um pulo e quase caiu antes de se virar para ver quem havia cumprimentado.

“Olá, Konwatsi'tsiaienni.”

“Eu posso brincar com vocês?”

As outras crianças se aproximaram de nós, senti olhares curiosos especialmente sobre mim, afinal meninas mais velhas nunca se juntavam em atividades tão infantis de bom grado.

“Ah... Claro. Mas está com você.”

Olhei para cada um e não o encontrei. Talvez ele ainda estivesse escondido pensei e logo aqueles meninos se esconderiam também.

“Está bem.”

Eu me virei de costas para eles e fechei os olhos para iniciar a contagem enquanto ouvia os passos apressados deles atrás de mim. Folhas farfalhavam e galhos se quebravam sobre a pressa de encontrarem os melhores esconderijos possíveis dos arredores. E eu estava entediada, é claro. Cheguei ao fim da contagem e me virei.

“Prontos ou não, estou indo.”

Quantas vezes eu já havia brincado de esconde-esconde? Inúmeras vezes antes de aquelas crianças descobrirem alguns dos melhores lugares para se esconderem. Então meu trabalho foi de procurar no solo folhas amassadas e gravetos partidos. Além disso eu conhecia aquele espaço tão bem quanto eles, ou até melhor, em seguida só precisei lembrar-me de onde eu mesma me escondia.

Desse modo eu demorei uns cinco minutos até achar meia dúzia de meninos, sendo Kanen'tó:kon o último desses. Eles se aglomeraram insatisfeitos por terem sido achados tão rapidamente, mas eu ainda estava procurando por entre os arbustos quando ouvi um deles.

“Não tem graça. Ela é maior do que nós.”

“Isso não é nenhuma vantagem.” – foi Kanen'tó:kon quem respondeu.

“De qualquer modo foi muito rápido, ela já encontrou todos nós.”

“Não é verdade.” – eu respondi um pouco distante, enfiada em meio uma planta baixa e volumosa. – “Ainda não encontrei Ratonhnhaké:ton.”

“Ratonhnhaké:ton não está brincando conosco.”

Saí de entre as folhagens e encarei os meninos que faziam o mesmo comigo.

“Ele sempre nos encontrava muito facilmente. Tão rápido quanto você.”

“Então onde ele está?” – aproximei-me do grupo, mas minha pergunta era direcionada apenas para Kanen'tó:kon, pois era o único que eu sabia que poderia me responder.

Ele olhou para o alto e instintivamente o imitei, achando que encontraria Ratonhnhaké:ton bem ali, observando a todos naquela infantil brincadeira. Mas obviamente ele não estava lá e minha curiosidade foi saciada.

“Ele está pegando penas para a Mãe do Clã.”

“Penas?”

“Sim. Ele gosta de subir nas árvores.”

Sem mais nenhuma palavra eu os deixei. Estava levemente frustrada pelo tempo que perdi ali, mas logo passou quando me dei conta que Ratonhnhaké:ton estava se isolando ainda mais, a ponto de nem mesmo brincar com as crianças de sua idade. Ele era e ainda é muito diferente.As pessoas tinham maneiras diferentes de lidar com o luto e eu começava a acreditar que esse foi o meio que ele encontrou. Se afastar da aldeia e de todos, talvez em uma tentativa de manter as lembranças da mãe distante de seus pensamentos.

Naquela noite eu adormeci pensando que Ratonhnhaké:ton estava sofrendo sim, mas por algum motivo ele preferiu passar sozinho por esse momento de sua vida. Achei então que não era justo um menino perder a mãe tão precocemente e quanto a seu pai? Estaria vivo? E se estivesse, onde estava? Minha meta seguinte era conseguir as respostas para essas perguntas.

Notas finais
Primeira tentativa falha da Molly... Connor é um menino muito difícil, mas ela não irá desistir.