Assassinando um anjo
4 Capítulo 4
Notas iniciais
POV ALICE
Entro em minha casa sorrateiramente, estou indo até meu quarto quando passo em frente ao quarto de meu pai e escuto vozes. Encosto minha cabeça na porta para ver se consigo escutar alguma coisa.
– Então pode mandar o carregamento de hoje. Não. Não. Eu quero a droga modificada... Eu sei que ela mata mais rápido, mas o rendimento é maior. Chega! Eu estou ordenando.
Ouço a voz de meu pai que fala com alguém no telefone. Escuto seus passos sinalizando que a ligação havia terminado, corro na ponta dos pés até meu quarto e fecho a porta. Começo a pegar algumas peças de roupas e outros produtos que julgo serem de extrema necessidade, Isabel havia me aconselhado a não levar muita coisa, então eu realmente vou obedecê-la.
Escuto duas batidas leves em minha porta.
– Entre! – Peço.
Vejo meu pai entrar, ele tem olheiras de baixo dos olhos, antes eu acharia que era devido as inúmeras provas que ele teria que corrigir, mas agora eu sei que os motivos são completamente diferentes disso.
– Vai a algum lugar docinho? – Ele pergunta olhando minha pequena mala.
– Quando você ia me contar que é um traficante? – Jogo a pergunta.
Nunca fui uma pessoa que consegue esconder o que sente ou o que pensa, eu odeio segredos e por isso sempre fui um livro aberto.
Ele engole em seco e passa as mãos pelos cabelos, aquele gesto significa que ele está desconfortável com a situação eu herdei a mesma mania.
– Quem te contou?
– Não foi necessário ninguém me contar. Mas no momento em que tentaram me esfaquear foi o suficiente para eu perceber que havia algo de muito errado. Estou correndo risco de vida pai, e é tudo sua culpa. – Grito exasperada.
O olhar dele parece ferido, creio que ele nunca havia imaginado que o que ele faz pudesse me colocar em risco, porém, apesar de seu olhar fragilizado não consigo perdoá-lo, ele havia transformado minha vida em um completo desastre.
– Me deixa te proteger filha, você pode sair do país se quiser, nós dois podemos fazer uma viagem como fazíamos quando sua mãe ainda era viva, até eu resolver tudo isso. – Ele pede.
– Não fale da minha mãe. – Digo entredentes.
– Filha...
– Eu estou indo embora e se você mandar alguém me seguir eu juro que você nunca mais saberá de mim, pai. – Eu o ameaço.
Ele abre a boca para argumentar, mas eu pego minha bolsa e o deixo sozinho no que costumava ser meu quarto o meu lugar seguro, mas agora se tornara mais um lugar encoberto de mentiras de uma vida que nunca foi a minha.
Olho ao redor do que eu considerava meu lar e choro ao pensar que talvez eu nunca mais volte, pois a qualquer momento eu poderia ter um revólver apontado para mim e dessa vez alguém que tivesse coragem de engatilha-lo. Fico uns cinco minutos encostada na porta da frente sem coragem de realmente me despedir do lugar e no fundo sem conseguir me despedir de meu pai.
Finalmente crio coragem, seco as lágrimas do meu rosto, ergo a cabeça e dou uma última olhada no lugar, avisto meu pai no topo da escada chorando agarrado ao meu antigo ursinho, Dobby. Aquela imagem é quase o suficiente para me fazer ficar, mas eu me lembro de tudo que vivi e o quanto eu fui iludida.
E então eu saio, deixando para trás todas as mentiras que aquele homem que sempre fora meu herói havia me contado. Minha vida havia acabado, e agora uma nova Alice surgia, uma Alice que estaria pronta para qualquer um que viesse tentar me machucar.
Vejo Isabel encostada em sua moto, ela parece confortável com o nosso futuro destino e a confiança dela me fez ter certeza de que eu estava tomando a decisão correta. Ela esboça um sorriso de lado que a deixa incrivelmente linda, eu tento sorrir de volta, mas um soluço escapa de minha garganta.
Ela olha dentro de meus olhos e me abraça, surpreendendo-me com aquele gesto de conforto que eu imaginei que ela não fosse capaz. Percebo então que apesar de tudo que ela já fez ela tinha um coração bom, eu confiaria nela.
Logo ela se desvencilha do abraço e sobe na moto, eu a imito sentando-me na garupa. Coloco as mãos na cintura fina dela, inalando seu perfume ao me encostar em suas costas. Seu cheiro é inebriantemente bom.
Fecho os olhos aproveitando a sensação de não saber para onde estou indo. Essa será minha nova vida, uma vida de fugitiva.
POV ISABEL
Sinto as mãos dela apertando minha cintura como se eu fosse seu porto seguro, mal sabia ela que eu era o oposto disto. Se ela sozinha já era um alvo comigo seria ainda pior. Tenho certeza que o Sr. Mendes iria até o inferno para me procurar.
Pego a estrada que me levará até o entorno de Brasília, ficar neste lugar seria pedir pra morrer em questão de horas, a capital do país é muito pequena e não há como se esconder. Meu coração está acelerado e já sei que a esta altura Lucas deve estar desconfiado e com certeza mandou alguém atrás de mim. Ele não era do tipo que foge do dever e sei que não hesitaria em nos matar.
Depois de dez minutos que estamos nesse caminho percebo pelo retrovisor que um carro preto nos segue. Como eu já sabia que isso aconteceria consigo manter um pouco de calma.
Indico para Alice a parte de trás de minha calça onde eu deixe minha pistola. Ela pega e sem que eu precise ensinar ela engatilha a arma. Eu viro a esquerda, dando de frente com um beco sem saída. Alice pula da moto com rapidez e se prepara, ela mantém a arma apontada para o carro que também virou e que cada vez mais se aproxima.
Eu fico encantada com a confiança da garota. Eu havia me enganado terrivelmente ela não tinha nada de delicada. Ouço dois tiros e ela quase não se move com o impacto da arma. Olho para onde ela havia atirado, seu alvo foram os pneus. Ela não mataria só evitaria que morrêssemos.
Com o impacto o motorista havia batido no volante e desmaiado, abro a porta do carro e o tiro de dentro jogando-o no chão, reconheço Michael que é um dos capangas de Mendes.
– Vire-se! – Ordeno para Alice.
– Você vai matá-lo? – Ela pergunta horrorizada.
– Você acha que ele estava aqui para nos ajudar? Ele nos mataria sem hesitar Alice acredite em mim. – Digo como se estivesse explicando algo óbvio a uma criança.
– Você é igual a ele por acaso? Eu não acredito nisso Isabel, eu achava que você fosse uma pessoa boa! – Ela grita jogando a arma no chão.
Eu a ignoro, não seria por uma garota mimada que eu deixaria de fazer o que fui criada para fazer. Com um golpe só eu acerto o coração dele e em poucos instantes a vida dele se esvai. Levanto-me pegando nossas coisas e jogando no porta-malas do carro. Alice está de costas para mim com os braços cruzados.
– E agora vamos roubar o carro de um defunto? – Ela parece incrédula.
– Se você quiser ser uma pessoa íntegra e morta a escolha é sua, mas se vier comigo vai ser disso para pior. – Esclareço as condições para ela.
– Então eu não vou com você. – Ela permanece teimosa.
– Ótimo! – Digo enquanto entro no carro.
Giro a chave e começo a dar ré quando ela faz um sinal para que eu espere. Ela se senta no banco do passageiro e cruza os braços mantendo-se com a cara fechada. Olho mais uma vez para minha moto que tanto amo, me despedindo mentalmente.
– Era melhor queimarmos o corpo para que pensem que era você. – Ela diz ironicamente.
– Eu deveria ter pensado nisso.
Ela me encara de olhos arregalados. Vou até o porta-malas onde tinha visto um vidro com álcool. Encharco todo o corpo dele com o líquido e jogo um fósforo aceso. As chamas logo crescem lambuzando cada parte da pele do homem que já foi meu parceiro várias vezes, sinto-me realmente uma traidora como se estivesse acabado de matar um irmão. O cheiro da carne queimando torna-se insuportável e volto para o carro.
– Vamos embora logo! – Ela pede.
– Temos que esperar até que o corpo esteja todo queimado para garantir que fique irreconhecível. – Eu explico.
Uma lágrima desce pelo rosto dela, eu tento limpá-la, mas ela estapeia minha mão afastando-a.
– Você é um monstro Isabel, eu a odeio! – Ela grita.
Aquilo dói. Não queria que ela visse meu pior lado, mas se o preço para mantê-la segura for este eu estou disposta a pagar.
– Logo você será um monstro também.
Ela levanta a mão para estapear meu rosto, mas eu seguro com força apertando seu pulso. Seus olhos estão carregados de repulsa e acredito que os meus de raiva. Nunca ninguém havia levantado a mão para mim e eu odiei o fato de uma garota tão mimada tê-lo feito.
– Nunca volte a fazer isso de novo a não ser que queira ficar sem a mão. – Eu a ameaço soltando seu pulso.
Ela abraça os próprios joelhos e começa a chorar copiosamente, me odeio por deixa-la daquele jeito. Não sei o que dizer a ela. Finalmente dou a ré no carro e voltamos para a estrada, cada uma mergulhada em seus próprios pensamentos sombrios.
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