Notas iniciais
Olha eu aqui de novo pessoal!

POV ISABEL

A noite chega sem que mais nenhum inconveniente tenha acontecido, Alice não disse mais nenhuma palavra desde a hora em que brigamos e eu também não puxei assunto. Sinto o cansaço se abater sobre meu corpo e bocejo.

Avisto um hotel na beira da estrada e decido passar a noite por lá mesmo, não é nada elegante e na verdade é bem nojento, mas é a única opção. Estaciono o carro e desço. Sem dizer nada Alice faz o mesmo. Apresentamo-nos na recepção e reservamos o quarto por uma noite.

Ao entrar no quarto sinto um cheiro azedo que creio que deve vir do mofo que encobre as paredes, não há nenhuma decoração nas paredes a não ser um pequeno espelho e, além disso, há somente uma cama no centro do quarto. No canto esquerdo há uma porta onde imagino que seja o banheiro. Vou direto a janela observar se nenhum carro nos seguiu até ali. Confiro todo o estacionamento e somente os carros que já estavam lá quando chegamos permanecem lá, suspiro aliviada.

– Para onde estamos fugindo? – Alice resolve se pronunciar.

– Eu ainda não sei, pro litoral talvez. – Digo pensativa.

Ela se joga na cama e encara o teto, permaneço em silêncio admirando a forma como ela sempre diz tudo o que pensa e mesmo quando ela tenta guardar seus sentimentos para si seus olhos entregam tudo. Eu, ao contrário, sempre fui cheia de mentiras e disfarces.

– Eu fico com a cama. – Ela grita de repente.

Faço uma careta, se ela pensa que eu ficarei no chão ela só pode estar muito enganada, decido não discutir por hora e entro no banheiro para tomar banho.

POV ALICE

Passei o dia inteiro pensando no que Isabel havia me falado, eu realmente teria que virar um monstro se quisesse sobreviver e tudo isso era culpa de meu pai. Ouço o chuveiro ser aberto no banheiro e penso o quanto minha vida havia mudado em tão poucas horas.

Eu estava no quarto com a mulher que havia tentado me matar mais cedo. Eu soube quando a vi encostada naquela árvore que ela era encrenca. Sinto meu estômago roncar e resolvo descer para comprar algo pra comer. Pergunto para a recepcionista onde tem algum mercado ou coisa parecida e ela me diz que tem um ali do lado mesmo. Checo meus bolsos e percebo que esqueci o dinheiro, refaço todo o caminho até o quarto novamente.

Ao abrir a porta do quarto encontro Isabel nua, sua pele branca a mostra me deixa desconfortável com a situação, reparo na curvatura de suas costas e repentinamente sinto uma vontade de percorrer aquele caminho com beijos. Balanço a cabeça para me livrar daqueles pensamentos e tampo os olhos.

– Pode olhar eu não tenho nada que você não tenha. – Ela diz séria.

– Ãh... Eu só vim buscar... O dinheiro para comprar algo para comer. Vai querer algo?

– Um sanduíche e refrigerante, por favor. – Ela fala cautelosamente com medo de ferir meus sentimentos mais uma vez.

Saio do quarto apressadamente sentindo-me constrangida demais com toda a situação. Desço as escadas ainda com a imagem do corpo dela em minha mente, ela é realmente muito misteriosa e muito, mas muito atraente o que é uma combinação bastante explosiva para garotas como eu que são atraídas pelo perigo.

Vou até o mercado e compro alguns pães a mais para o caminho de amanhã, refrigerante, e algumas besteiras. Olho ao redor procurando por alguém suspeito, aprendi com Isabel que todo cuidado é pouco. Não há ninguém a não ser o dono do lugar então me acalmo um pouco.

Pago pelo que comprei e me dirijo novamente até o hotel. Não presto muita atenção no caminho até que um homem aparece em minha frente.

– Oi princesa – ele diz lambendo os lábios – como é seu nome?

Nervosa eu me abaixo fingindo amarrar meus sapatos e pego a faca que havia escondido dentro da minha bota, escondo-a dentro da manga de minha blusa.

– Quem é você? – Tomo coragem de perguntar.

– Alguém que foi mandado para matar uma garotinha que se parece muito com você.

Ele sorri de uma maneira que me causa arrepios por todo o corpo, sinto medo daquele homem mais do que imaginei que pudesse sentir. Eu não sabia que outros viessem tão rápido, meu pai deve ter irritado bastante esse homem para ele querer tanto a minha morte.

O homem começa a se aproximar de mim com uma pedra em uma das mãos, jogo as compras no chão e então eu corro de encontro a ele colocando todo meu peso no impacto, esbarro contra ele fazendo com que se desequilibre dando-me tempo de enfiar a faca que eu trazia na mão bem fundo em seu estômago.

Vejo os olhos dele se esbugalharem quando ele sente a lâmina perfurá-lo e sinto o sangue quente dele escorrerem por minhas mãos, eu o golpeio mais uma vez para garantir.

Eu não havia planejado feri-lo daquela forma, mas no calor do momento a adrenalina tomou conta de mim. Foi uma decisão que tive que tomar, ou era a vida dele ou era a minha.Agora entendo um pouco mais o comportamento de Isabel ela realmente só faz o que precisa para sobreviver. Sinto como se eu já estivesse começado a me transformar em um monstro.

Seu corpo cai por cima de mim fazendo com que eu me desequilibre, empurro-o e ele despenca no chão. Meus olhos ficam presos no corpo inerte que está em minha frente. Olho para minhas mãos e vejo seu sangue me deixando suja e marcando-me como uma assassina. Sem conseguir controlar as lágrimas começam a descer pelo meu rosto e me deixo chorar compulsivamente.

Sinto braços me envolverem de maneira protetora, era Isabel. Encosto minha cabeça em seu peito e ela me envolve calorosamente.

– Eu matei um homem. Eu matei um homem. – Eu digo repetidas vezes.

Ela segura meu rosto entre suas mãos e me obriga a olhar dentro dos olhos, extremamente pretos, dela.

– Você fez o que tinha que fazer, eu nem consigo imaginar o que ele teria feito contigo, eu não me perdoaria se ele te fizesse algum mal. A culpa foi minha por te deixar sozinha.

Eu não consigo dizer nada. Eu queria dizer a ela que a culpa não era dela, mas os soluços escapam de minha garganta a todo instante, não consigo tirar a imagem do rosto dele quando seus olhos perderam o foco. Mal percebo Isabel me ajudar a voltar para o quarto, quase não sinto quando ela me ajuda a tomar banho, e não dou a mínima enquanto ela me deita na cama e me deixa no quarto sozinha.

Não sei quanto se passa até que ela volta, eu não havia mexido nem um músculo, estou inerte a tudo que acontece ao meu redor.

– Bem, eu já resolvi tudo com o corpo. Limpei toda a bagunça, eu sugiro que durma logo porque iremos partir bem cedo pela manhã. – Ela diz enquanto fecha as cortinas.

Percebendo que não irei responder ela começa a se preparar para dormir, pega alguns travesseiros e começa a forrar o chão, creio que ela só vai aceitar aquilo por eu estar tão fragilizada naquele momento.

Sinto algo estranho eu não a quero longe, eu quero que ela fique perto de mim e cuide de mim.

– Dorme comigo. – Eu peço.

Os olhos dela encontram os meus, e vejo algo tão rapidamente que mal me dou conta do que é, quase como se ela estivesse feliz pelo meu pedido, mas rapidamente ele coloca a máscara de durona mais uma vez.

Ela se deita ao meu lado de frente para mim. Eu a encaro de volta ficamos ali uma de frente para a outra nos olhando por alguns minutos até que tomo coragem para falar:

– A culpa de nada disso é sua Isabel. Me... Desculpe-me por mais cedo, você não é um monstro.

– Alice... Doce Alice, você estava certa eu já não tenho alma. – Ela diz sombriamente e vejo por um breve instante suas feridas abertas.

O que terá acontecido a ela para que ela se tornasse essa mulher tão quebrada?

Ela permanece em silêncio quando eu me aconchego em seu peito, ela me envolve com um braço e beija levemente o topo de minha cabeça. E então sem aguentar mais eu finalmente caio no choro.

– Eu nunca mais vou deixar você passar por isso. Eu te prometo que você nunca mais terá que fazer algo assim, eu salvarei sua alma. – É a última coisa que escuto antes de adormecer.

Notas finais
Queria agradecer a Tayna Jacintho que favoritou a história. E gostaria de pedir gentilmente que me digam qual a opinião de vocês sobre o desenrolamento dos fatos. Beijos e até mais!