Ashes for ashes
2 Um passado com espinhos
Notas iniciais
Senti calor ao acordar, o fogo da panela agora eram brasas, a luz do sol passa pela janela iluminando meu leito improvisado no chão dando destaque a menina perdida que parecia um tanto triste mesmo dormindo.
Olhar para ela me trás lembranças de quando era criança lá em New London, minha mãe da cozinha fazendo as coisas e meu avô xingando-a por eu ter nascido de um qualquer que ela conheceu. Acho que eu ter escolhido fugir não foi exatamente bom, mas nem de longe foi ruim, vai saber o que ele faria comigo depois.
Deixei o devaneio de lado segui até a oficina de Roy sem um objetivo, mas queria pelo menos ver como ele acordou.
Meu amigo velho e corpulento estava em frente a bigorna martelando uma barra que se negava a tomar forma, seu rosto suado pelo calor me notou e parou suas investidas contra o metal colocando-o no fogo.
— Dormiu bem, ruiva?
De vez em quando esqueço a cor de meu cabelo, mas sempre vai ter alguém para notar.
— Me senti nova depois dessa soneca.
— Soneca de uma noite inteira, menina, devia fazer isso com mais frequência.
— Eu sei ...
Puxei um caixote ali perto para sentar e de relance olhei para dentro da casa e lá notei uma marreta bem grande com a forma que lembra um sino. Usar um sino para bater não parece muito sagrado para mim.
— Aquela coisa enorme ali atrás da janela é sua?
Ele voltou sua atenção para barra de ferro que estava vermelha de tanto calor, colocou na bigorna e o martelo começou a trabalhar.
— Aquele é meu antigo martelo de combate da época da antiga caça as bruxas, pesa bastante e ainda funciona como um sino de igreja. Desde que fui dispensado não usei mais.
— Legal ... Por que não vende?
— Se você um dia tiver uma lembrança especial ligada a algo duvido que iria vender mesmo se fosse seu peso em ouro.
Não quis falar mais nada por ter aborrecido ele com aquele comentário, mas pelo visto ele também tinha assuntos a tratar.
— Já sabe como ajudar a menina?
— Sinceramente não, ela só surgiu nos arredores, é como se ela fosse invisível e ninguém estivesse esperando por ela de fato.
Lembrei de que os guardas estavam agitados com alguma coisa ocorrendo lá no Norte e não parecia coisa boa. Pensei na possibilidade de ela ser de lá e está fugindo, mas a segunda opção me assombrava um pouco.
— Roy, você já lidou com bruxas, não é?
— Já.
Ele não tirou a atenção do ferro que se rendia as marteladas, mas consegui ver que Roy ficou mais sério.
— Como sabemos se tem alguma por perto?
Ele parou tudo que estava fazendo com irritação.
— Bruxas são ardilosas quando querem, a nova geração delas não causa tanto problema quanto a de 30 anos atrás, mas todo cuidado é pouco.
— Você não respon ...
— Elas te enganam com o charme pra te usar de sacrifício, foi assim que a minha filha desapareceu.
Ok, isso foi muito de repente. Eu sabia que ele tinha abandonado a esposa pra caçar bruxas, mas não sabia que ele já tinha sido pai. Seu rosto agora tinha raiva, mas não era direcionada a mim e sim a alguma figura em seu passado.
— Eu cacei todas que tinham registro em qualquer canto, nenhuma sabia da minha menina e ficou por isso mesmo. Eu busquei por 15 anos e nem sequer rastro da minha menininha.
— Roy ...
— Ela teria quase sua idade.
A raiva foi substituída por frustração que se tornaram lagrimas no rosto dele. Roy não parecia perceber que estava chorando, estava perdido olhando para o nada enquanto aquela face endurecida pela idade mostrava um pouco de fragilidade.
Levantei e abracei Roy, comecei a enxugar seu rosto e só aí ele percebeu o que aconteceu, mas ao em vez de esconder a cara fingindo que nada aconteceu ele me abraçou de volta.
— Desculpa, amigão. Juro que nunca mais falo sobre isso.
— Não se preocupa, eu precisava me lembrar da minha Brenda.
Algumas horas depois
Fiquei esperando a menina acordar para fazer umas perguntas importantes, tá certo que ela pode não ter muita ideia de como voltar para casa, mas uma coisa útil pra localizar a irmã ou a mãe dela.
Prestando um pouco de atenção nela em especial na ponta dos dedos pude notar que eles estavam um pouco descoloridos, tipo, como se a cor da pele morena dela tivesse sido sugada dali.
No vestido dela tinha um bolso na frente do peito e de lá saia um pedaço de papel, sem dificuldade nenhuma puxei e comecei a ler mentalmente.
Zhira, no momento que estiver lendo essa carta provavelmente estarei sendo perseguida ou estarei morta.
Nada mais do nosso clã importa agora, apenas dei um jeito de ficar o mais longe daqui. Pegue sua irmã e dei um jeito de sair sem serem perseguidas pelos Alonne.
Nosso ultimo abraço foi sacrificado para dar essa chance a você e Zhule, tudo que lhe ensinei pode ser usado em outro lugar e acredito em sua sabedoria.
Que o pai de todas nós te ilumine.
Acho que a menina pode se chamar Zhule e Zhira pode ser a irmã mais velha que vem busca-la. Essa história de clã me parece estranha e a única coisa que me lembra é bruxaria.
Tirei esse pensamento da cabeça e devolvi a carta no bolso sem que ela notasse.
Pouco depois ela abria os olhinhos, uma coisa fofa de fato, com dificuldade ela ficou sentada no chão.
— Oi, dormiu bem, Zhule?
Com surpresa ela me olhava.
— Quem te falou meu nome?
— Você tem cara de Zhule.
Mentir um pouco meio que é incontrolável pra mim.
Zhule tirou a carta do bolso e me entregou.
— Você pode ler pra mim?
Peguei o bilhete e pensei seriamente em ler, mas não acho que dizer a uma criança que a mãe dela morreu seja uma boa ideia.
— Desculpa, não sei ler bem, entendo só uma palavra ou outra.
Ela não pareceu se importar muito, mas começou a olhar ao redor percebendo que não estava mais no porto.
— Onde eu to?
— Na casa de um amigo meu, lá fora estava frio e te trouxe para cá.
— Minha irmã não apareceu?
— Não, mas vou procurar por ela.
Ela ficou triste com isso, mas iria passar. Quando fui devolver a carta pude notar que tinha um desenho de um pássaro preto que lembrava um canário.
— Você sabe o que é esse passarinho?
Perguntei sem pretensão nenhuma, vai ver ela tinha desenhado.
— Esse é o brasão da minha família. Toda feiticeira precisa de um espirito guia e o canário da noite é o meu.
Merda, merda, merda.
Respirei fundo e fui ver se Roy estava longe o suficiente pra não ouvir. Ele estava do outro lado da rua conversando com outro cara.
Voltei para Zhule um pouco mais atenta pra ver se não era pegadinha da minha mente.
— Quando você fala feiticeira, tem outra palavra que seja parecida?
— Sim, minha mãe diz que somos Bruxas.
FUDEU DE VEZ.
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