Ashes for ashes
3 Guerreiro Alonne
Notas iniciais
3 MESES ANTES DO ENCONTRO NO PORTO
Fortaleza do Alonne
Era possível sentir o sol entrando no meu quarto, o calor vindo dele banhava meus pés enquanto nossa oração era feita. Eu pronunciava a oração de Corvino sem muita atenção nas palavras, pois, eu as repetia todas as manhãs antes de descer ao pátio de treino.
O que tirou minha atenção mais do que de costume foi a presença de uma dama de ferro.
Elas são como as freiras do culto de Alvina, mas as damas de ferro são guerreiras como nós. Os guerreiros Alonne são acompanhados por uma ou mais damas de ferro e assim como nós elas não possuem um nome próprio.
De olhos fechados e de joelhos no chão, eu estava tentando ignorar a presença dela ali, mas ela decide começar a falar:
— Você realmente está rezando?
Eu ia me levantar para responder que não, mas ela me segurou com uma das mãos no ombro e a outra na frente de meus olhos.
— Por favor, não se levante. Mesmo com falsidade é melhor terminar.
— Se Corvino for deus da justiça não vai ser como mentir a um juiz?
Pude ouvir ela respirar fundo.
— Então comece do início, eu vou te acompanhar.
Ela se colocou a minha frente imitando a mesma posição, mas ela segurou minhas mãos para fazermos isso juntos. Ainda estava com os olhos fechados, conseguia sentir os calos nas mãos dela, o calor que emanava dos dedos dela e não podia me mexer muito para não parecer um ato ruim e ela me soltar.
Aqui estava bom e não queria perder.
Me concentrei na voz dela e foi seguindo sua oração concentrado mais em sua voz do que em sua mensagem, sinceramente imagino coisas demais só a ouvindo falar.
— Já pode levantar, sua oferta matinal está paga.
— Obrigado.
Abri meus olhos e vi a garota que orou comigo, como imaginei era “minha” dama de ferro, ela não parecia ter mais de 16 anos assim como eu.
— Se arrume, acho que alguma coisa grande aconteceu.
— Grande quanto?
— Parece que um clã inteiro de bruxas decidiu expandir o domínio delas, logicamente vítimas foram feitas além do que era permitido.
Nunca entendi direito por que elas podiam matar. Mesmo sendo poucos ainda são vidas.
Saímos do alojamento em direção a fortaleza, o caminho não era longo, mas ir de cavalo com certeza seria melhor, os grandes muros demonstravam sua imponência só pelo fato de ter uma grande entrada e apenas um grande paredão cinza.
La dentro eram possível ver as crianças de nossa irmandade treinando com os mais velhos, mais a frente tinha os ferreiros e os artesãos em suas funções e mais ao centro a torre onde nosso lorde nos aguardava para instruções.
No topo daquela torre estava nosso lorde, sua sala tinha o chão impecável que dava para ver o próprio reflexo nele, as paredes decoradas de pinturas de batalha inclusive a que mais se destacava era um homem no céu segurando um raio e no fundo um trono de madeira com touros talhados no apoio dos braços.
Eu e a dama nos ajoelhamos no chão com cuidado para não arranhar e como mandam batemos palmas para anunciar que estávamos prontos para instrução.
De uma porta a direita ele veio, com sua armadura cobrindo cada ponto de seu corpo, estranhamente, mesmo cobrindo a boca ainda era possível ouvir sua voz com muita clareza. Ele se senta no chão um pouco distante de nós e começa a falar:
— Jovem dama, deixou seu protegido informado?
A voz dele era grossa e imponente, eu olhava para ele diretamente, mas minha protetora não. Ela ficava com os olhos apontados para o chão como se o evitasse a todo custo.
— Não, quis deixar essa honra ao senhor.
— Isso de fato me agrada, mas não pode deixar seu protegido desprevenido de informações. Que isso não se repita.
— Desculpe senhor.
Acho que o que ela me falou era a informação da operação, mas agora não sei se é outro assunto ou ela mentiu.
— Creio que já tenham ouvido sobre a expansão das bruxas recentemente, além do Abismo que é sua morada original elas pretendiam tomar as cidades mais ao norte assim como a 30 anos atrás. Existe algum motivo para isso, mas as bruxas são fieis demais a sua causa e jamais falaram alguma coisa que entregue seu real objetivo.
Nesse momento ergui a mão pedindo a palavra:
— Senhor, temos a localização exata da morada das bruxas?
— Sim.
— Por que não ... Tira-las da nossa terra?
— Quer dizer matar todas?
— Sim, senhor.
Seu rosto não aparecia, mas sentia o desapontamento vindo dele. O lorde se levanta e segue até a janela e ficou olhando para fora.
— Rapaz, os sapos no pântano te agradam?
— Não, senhor.
— Por que não os extermina?
Isso me pegou de surpresa. Não por se revelador, mas por parecer fútil.
— Existem muitos, seria perda de tempo.
— Tenho um motivo melhor, interessado em ouvir?
— Sim ..., senhor.
— Sapos comem mosquitos, esses por sua vez transmitem doenças, sem sapos teríamos as doenças do verão gerando mais vítimas.
— Se sapos são tão uteis por que pessoas não os tem em casa? Criaturas asquerosas como aquelas ninguém quer por perto.
Nesse momento eu me descontrolei, não havia notado que já estava em pé e a ponto de gritar com meu lorde. Minha dama estava perplexa atrás de mim e apostaria que ela queria me puxar para fora. Meu lorde se colocou a minha frente e minha vontade era de sair de perto, mas me faltou coragem de me mexer.
— Sapos demais em um lugar só embebedam o ambiente de seu veneno natural de defesa, não por sua culpa, mas sua natureza é cruel e exige que sejam reduzidos eventualmente. O trabalho de manter os sapos sob controle são das cobras tão venenosas quanto.
— O que isso tem a ver com as bruxas?
— Elas são tão antigas quanto esse continente, vários conhecimentos que nossos magos possuem foram ensinados por bruxas. Elas por sua vez precisam de sacrifícios vivos para manter antigas tradições, isso é uma coisa inevitável e da pra tolerar, porém quando passam da conta é necessário que gente como nós ou a igreja de Corvino intervenham.
— Um favorzinho aqui e outro ali perdoam um assassinato?
— Pensamento limitado como esse foi o que extinguiu a piromancia.
— GARANTO QUE ELAS ...
— CHEGA.
Eu levante a voz para ele. No momento isso me fez ter coragem, mas foi tomado no momento que ele gritou de volta. Eu não queria olhar para ele por que temia qualquer resposta vinda diretamente a mim. Fui estupido e minha Dama de ferro iria sofrer também.
— Jovem dama, se levante e olhe para mim.
Ela não demorou para se levantar, olhava para ela e vi que tremia como se já soubesse que o que viria.
— Minha jovem, esse rapaz está sob seus cuidados e o esse nível de discussão que ele foi preparado?
— Me perdoe.
— Você veio do convento de Corvino como a melhor oradora e não ensinou o básico?
— Me perdoe.
Ela ainda olhava para ele, mas agora estava chorando.
— Eu tinha um dever aos dois, mas como uma Dama incapaz de ensinar e um selvagem que não respeita a vida alheia não são capazes de fazer uma ordem simples. Os dois estão impedidos de seguir a qualquer lugar a não ser o alojamento e vão ficar lá até me provar que estão civilizados.
Horas depois naquela noite
Minha dama correu para o alojamento e se trancou no dormitório, ela não queria me ver.
De tudo que falei me arrependo de pouco, mas minha duvida ainda segue: Por que manter assassinas a solta?
Guardei meus pensamento para mim e fui dormir.
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