Ashes for ashes

6 Amor materno


Notas iniciais
NEW LONDON Foi uma promessa de ser a maior cidade portuária no reino que acabou como uma vila de agricultores sem muito futuro. O porto dessa cidade minúscula serve para atracar e reabaster navios pequenos que desejam desbravar os mares rumo ao novo mundo.

Não quis continuar lendo, isso já foi o suficiente para ver o quão fundo eu estava me metendo nessa história de bruxas. Viagem no tempo é uma história fantástica demais para mim e sinceramente duvido que isso termine de uma forma otimista.

O sono estava me alcançado e não demoraria a amanhecer, em meu rumo para casa pensei em como esconder o livro para ler depois e em que lugares ele não seria chamativo.

Sai do porto em direção a feira que em plena escuridão da madrugada era iluminada por tochas e fogueirinhas próximas dando visibilidade à barraca próxima. As pessoas andavam por ai cheias de moedinhas que não fariam falta alguma.

Catar moedas solta em bolsas é tão fácil para mim que as vezes já estou com a mão lá dentro sem perceber.

Depois de uns minutos já tinha o suficiente para comprar uns repolhinhos a mais para o ensopado.

No fim da feira ficava o barrado de Roy e a oficina dele, entrei com cuidado para não acordar nenhum de meu companheiros de teto. Roy estava estirado em um canto próximo da porta, no outro lado estava Zhule perto do fogo como sempre e era lá que eu iria me aconchegar.

Tirei meu gibão para embrulhar o livro, fiquei apenas com uma blusa leve e minha calça. Coloquei o livro embrulhado de baixo da minha cabeça e colei meu corpo na Zhule pra deixar ela mais aquecida.

Ela havia acordado, mas não virou para me olhar.

— Mamãe? Você veio me buscar?

— Desculpa, mas sou a Triss.

Ficou um silêncio por uns segundos, ele só foi quebrado quando ele começou a segurar um choro que já estava entalado na garganta.

— Não chora, ela vai aparecer.

— Por que ela me abandonou?

— Ela não fez isso por querer, as coisas estão difíceis.

Foi dai pra pior, ela começou a não segurar mais e o choro ficou mais alto. Deixei ela ficar assim por um tempo para extravasar o que ela tinha no peito, quando ela tinha se acalmado um pouco mais virei ela na minha direção e olhei seu rostinho molhado pelas lágrimas.

— Zhule, sua mãe teve que tomar uma decisão difícil, te levar seria perigoso e por isso ela te deixou aqui.

— Ela te falou?

— Não, eu sei dessas coisas.

— Ela disse que sou burra.

— Quando ela falou isso?

— Todo dia.

Ok, as coisas podem não ser tão simples quanto eu esperava.

Essas últimas 3 semanas eu fiquei com a ideia da mãe de Zhule ter deixado ela para trás na tentativa de despistar os tais dos alonne, mas o que não pensei foi na possibilidade dela ter sido abandonada de propósito.

E a carta? Nela dizia sobre uma Zhira, onde ela está?

A menina estava se segurando com mais força dessa vez antes de continuar nossa conversa aos sussurros.

— Sua mãe também te abandonou?

— Não, Zhule, fui eu quem fugi.

— Ela te batia?

— Não ...

As lembranças começaram a tomar minha mente.

Naquele barraco lá em New London viviam 2 pessoas que um dia foram ricas e naquele momento eram pobres.

Minha mãe aceitou a situação melhor que meu avô, ela se virava com o que estivesse a disposição, desde enfermeira até agricultura. Já o velho se negava a admitir que o dinheiro se foi e espalhava para todos que seus dois filhos trariam a sua fortuna lá da capital em centenas de carroças.

Os dois filhos eram militares importantes na capital e mandavam seus ganhos para o pai cuidar das contas, mas depois de um golpe de estado os dois foram executados.

Minha mãe se chamava Tania, uma mulher com um cabelo ruivo longo que chegava na cintura, seios avantajados e um quadril curvilíneo feito para amar. Ninguém casaria com uma mulher viúva de traidor, mas alguns teriam interesse em pagar por alguns momentos com aquele corpo.

Eu nasci como a última coisa que faltava para desgraçar aquela família de vez.

Minha mãe me batizou de Tisha, ela tentou me dar a infância mais tranquila que ela podia conseguir, mas o velho fazia questão de destruir qualquer ilusão que eu tivesse de ser feliz.

Ele me chamava de putinha e sempre que tinha vontade me batia.

Quando completei 11 anos eu não aguentava mais. Tentei convencer minha mãe a ir embora, mas ela dizia que não podia deixar o velho louco sozinho, pois ele morreria sem ninguém.

A última coisa que ela me falou ficou na minha mente por anos: “Não interessa o que você seja, saiba que eu te amo.”

— Triss, não chora.

Quando me dei conta Zhule estava secando meu rosto com a manga do vestido. Acho que eu estava divagando demais sobre o passado.

— Desculpa, eu tava pensando em um negocio meio ruim.

— Sobre sua mãe?

— Também.

Ficamos ali daquele jeito até a menina dormir novamente.

Eu cheguei a conclusão que a Zhule era o destino dando uma nova chance para mim e o Roy. Ele vai ter a chance de ser pai, coisa que foi usurpada dele. Eu já estive no lugar dela, uma criança desamparada no porto de Bárbara esperando o mínimo de compaixão.

Zhule, se sua mãe não aparecer eu fico com você até que você possa se virar sem mim.

Não me interessa se você é uma bruxa ou mesmo o diabo, um dia eu quero que você olhe para mim e saiba que te amo.