Ashes for ashes
4 A cor púrpura
Depois que a Zhule entrou na minha vida as coisas mudaram, eu passei a morar com Roy e o mesmo gostou disso.
Acho que ele sentiu falta do sentimento de ser pai. Zhule tinha um cantinho só dela perto do fogo, um montinho de peles que eu consegui por ai serviam de colchão no chão onde nós duas passamos a noite.
Meu velho amigo contava histórias para ela todas as noites, com um brilho nos olhos como nunca havia visto em todos esses anos, esses dias eu lembrei que nossa primeira conversa sobre Zhule era se devíamos entrega-la aos guardas e hoje depois de ver ele acariciando o cabelo da menina enquanto ela dormia eu duvido que ele ainda cogita nessa ideia.
Ao mesmo tempo essa cena doce se tornou amarga ao lembrar que aquela menina era uma bruxa e Roy passou anos massacrando vilas inteiras dessa mulheres.
A carta de Zhule esta comigo para evitar que o velho cruzado a encontrasse, não sei como ele reagiria. Talvez ele nos mande embora, matá-la e quem sabe depois dessas semanas ele deixe a velha magoa para trás.
No fim é melhor guardar essa duvida para mim e segui com a vida.
Nessa noite Roy contou a história do governante da tempestade: Um homem no meio de uma guerra estava prestes a ver o irmão ser atacado por um inimigo, em uma oração rápida ele implorou por algo forte para atacar, como se o mundo tivesse parado ele viu um raio prestes a cair o pegou e começou a jogar no exército adversário.
Roy se levanta e pega a panela do fogo e coloca na mesa.
— Vem jantar, Triss.
— Opa! Tem o que hoje?
— Sopa de repolho.
Peguei minha tigela e fui até a panela, repolho não é uma coisa que eu goste, mas não tenho o hábito de negar nada.
Olhando a “sopa" pode notar que a coisa tava ficando feia. Aquilo era um pouquinho de repolho com um caldo bem ralo no fundo.
— Roy, eu falei que quando precisar de dinheiro eu consigo.
— Não preciso de nada, dei a melhor parte para menina. Ela ta crescendo, precisa de força.
— E você? Vai ficar com a cara branca se não comer direito.
Nem esperei ele falar nada, peguei um saquinho de moedas que consegui hoje e joguei na mesa. Já o velho teimoso só olhou sem encostar.
— Você não está na sua melhor fase, não é?
— Eu sei, desde que ela apareceu eu parei de passar a noite pulando de muro em muro. Não quero chamar atenção desnecessária, sem contar que o pessoal que embarca no porto não tá na melhor. Esse negócio que rolou com as bruxas ta fazendo uma galera fugir.
O velho parou de comer e olhou novamente à Zhule, toda vez que ele faz isso me deixa preocupada, parece que toda hora ele vai falar que descobriu alguma coisa.
— Será que a mãe da Zhule também foi vítima das bruxas?
Pensa direito, Triss. Ele tá na cara da resposta e quer coisa ele pode perceber.
— Acho que não. O que as bruxas fariam com uma adulta?
— Muita coisa ...
Nessa hora ele levantou e foi até um armário que ficava perto daquele martelo que parecia um sino, de lá ele tirou um livro com capa de couro.
— ... De acordo com as instruções da época que servi aos cruzados, as bruxas costumavam capturar mulheres jovens para fazer rituais como o primeiro abraço ou mesmo gerar novas bruxas.
— Como assim gerar? Elas engravidavam essas mulheres?
— Se fosse assim elas ao menos ficavam vivas.
Ele colocou o livro na minha frente em uma página com um desenho bem detalhado e nojento, parecia um pote quebrado no chão com vísceras dentro e percebi que era uma pessoa quando reconheci um cérebro com os olhos pendurados.
— Que nojeira é essa?
— Um ritual de nascimento de bruxas. Elas sequestram meninas desde bebês até jovens para arrancar as vísceras e colocar em um pote cheio de barro, depois de vários tipos de feitiços uma criança começa a tomar forma. Aposto que foi isso que aconteceu com a minha filha.
— Por que elas não podem parir uma criança que nem uma mulher normal?
Roy pegou o livro e colocou de volta no armário e se sentou a minha frente.
— Talvez o útero delas não funcione, pode ser que assim elas tenham crianças poderosas e também pode ser por crueldade.
— Vamo falar de outra coisa?
— Melhor mesmo, se a Zhule ouvir pode ficar assustada.
Foi assim que nosso assunto morreu, ninguém quis falar nada. Terminamos de comer e meu amigo foi para seu canto para dormir.
Eu decidi sair um pouco para pensar.
Meu medo s aumentou, na minha mente não saia a imagem daquele pote e principalmente pensando na Zhule saindo de um deles.
Minha menina não passa de um cadáver vivo.
Cheguei no porto onde encontrei a bruxa pela primeira vez e tomei sua posição.
Minha mente foi tomada por mais pensamentos e dessa vez foi uma possibilidade da irmã dela ou mesmo a mãe voltar atrás da garota, essa que notei já ter me apegado demais.
De repente o vento chamou minha atenção para um canto, do outro lado do porto, um portão que levava para uma área residencial mais rica. Segui andando como se o vento me levasse, as ruas limpar e bem feitas eram bem aconchegantes, os guardas passavam com frequência fazendo eu ter que passar de cabeça baixa.
Uma sensação estranha em baixo do meu queixo me fez olhar para cima, como se um toque suave quisesse me mostrar um lugar, uma janela sendo iluminada por uma cor púrpura um pouco escura que me atrai para lá.
Verifiquei se estava sendo vigiada por algum guarda e comecei e me apoiar nas saliências da parede para subir. Durante a escalada fui olhando para rua pra não ser emboscada e minha preocupação não passou nem quando eu Já estava dentro da casa.
Aquele era um quarto escuro que não tinha nada que emitisse luz e o que iluminou o meu caminho era o luar que vinha da janela que entrei. Fui catando as coisas menores que fui vendo por perto e já me preparava para fugir.
De novo a sensação, dessa vez como carícias e meu rosto que me fez olhar para trás, o toque foi mais forte e dava para sentir melhor. Era uma mão áspera como de um homem com as mãos calejadas pelo trabalho, um toque sem malícia que me fez querer ver o autor.
Não existia ninguém ali, mas a iluminação purpura estava fraca em cima de um livro em cima de uma mesa no lado de uma cama.
Fui devagar para não fazer barulho com medo dos donos da casa surgirem.
Quando coloque a mão naquele livro a luz sumiu não permitindo ler o que estava na capa, mas o que eu tinha certeza era que ele foi feito com capa de couro e pesava muito.
Depois disso eu segui meu caminho para fora, já na rua eu segurava o livro contra meu peito como se aquilo fosse a coisa mais importante da minha vida.
Quando me dei conta já havia voltado ao porto na mesma posição que a Zhule.
Finalmente olhei o item que estava nas minhas mãos. Um livro grosso de couro marrom com varias formas estranhas na capa e seu título no meio.
A FILOSOFIA DA VIAGEM NO TEMPO.
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