Ascensão Arcana

5 Capítulo 05 - Novos Rumos


Após o fim dos testes, todos os alunos foram encaminhados a quartos provisórios, onde ficaríamos até que fossem divulgados nossos resultados, assim saberíamos em qual classe ficaríamos e qual seria o nosso rank.

De acordo com o que Carven me explicou mais cedo, após os testes os professores e o diretor decidiam o rank com base nos resultados individuais, todos aqueles do mesmo nível teriam o mesmo tipo de ensino. Atualmente existem 4 ranques dentro de Soldest:

Apolo, que era aquele direcionado para os alunos mais comuns, que tinham as notas 'normais' ou esperadas, que eram todos dentro da média, normalmente os alunos são enviados para esse rank de início e depois disso vão subindo com o decorrer dos anos. A média aqui era 30 para mana e 40 magia para os magos, 25 para aura e 30 em força para os espadachins.

Afrodite, aqueles que ultrapassaram as marcas normais, alunos que após algum tempo de estudo tiveram uma pequena iluminação e entendimento do mundo ao seu redor, normalmente eles possuem média de 50 para mana e magia, 35 para aura e força.

Calista, a partir deste ponto os alunos já são considerados magos responsáveis e pronto para saírem no mundo, alguns já conseguem inclusive criar sua própria linha de conjuração, pois seu entendimento de magia chegou no nível de um mago intermediário, a maioria se forma nesse rank. Para chegar aqui sua média precisa ser 60 para mana e 75 para magia, 50 para aura e 70 para força.

Zeus, classe intermediária dentro dos padrões de Soldest, aqui residem aqueles alunos que mais se destacam dentro da academia, sendo a nata de cada estilo de combate e não combate. Seus aprofundados estudos os levaram a terem um entendimento extraordinário da magia e do mundo ao seu redor, poucos conseguem seguir para esse rank no período letivo de 5 anos. Suas médias precisam estar no mínimo de 80 para mana e 90 em magia, 70 para aura e 80 para força.

Tudo depende de como você vai ser avaliado, além dos ranques também tem as classes as quais somos colocados. Os curandeiros, responsáveis pelos feitiços de grau divino, os elementais, aqueles que podem manusear algum tipo de elemento, os espadachins, que são a fronte do império, guerreiros que brandem a espada e possuem um poder destrutivo enorme devido ao uso da aura, que mesmo sendo diferente e incompatível com a mana, ainda possui caminhos e habilidades que eles podem desenvolver com suas armas e por fim, os espadachins mágicos, extintos a muitos anos, não se sabe o nível de poder que possuem, mas sabe-se que são perigosos, podendo destruir um império inteiro dependendo do seu nível de poder, visto que podem usar tanto as habilidades da aura quanto da mana.

De acordo com Pierre eu devo estar dentro da classe de espadachins mágicos, o que nesse momento não consigo concordar, sei que posso me fortalecer com mana e consegui reconstruir minha musculatura inteira com isso, coisa que apenas aqueles que usam aura conseguem fazer, mas fora isso é impossível eu usar algum tipo de habilidade que tenha ela como base, mas não adianta ficar pensando em coisas inúteis nesse momento, preciso encontrar o quarto que me mandaram, mas acabei me perdendo nesse lugar gigantesco, isso que dá ficar absorto em pensamentos desnecessários.

Estava bem no pátio central da academia, um chafariz enorme com cadeiras em sua volta ficava bem no meio daquilo tudo, a frente podia ver os portões de entrada e do outro lado o corredor que dava entrada ao interior da academia. Não poderia continuar andando, só iria me perder mais ainda, era melhor me sentar e esperar que Carven viesse a minha procura, poderia perguntar aos estudantes que andavam por aqui, mas imaginar ter que dialogar com algum deles me desanimava tremendamente.

– Richard? — Ouvi uma vez familiar logo atrás de mim. Ao me virar, me deparo com Joseph – Esse é seu nome, correto?

– I... isso mesmo – Deus, por que estava tão nervoso?!

– Me chamo Joseph Holver, é um prazer conhecer filho de Carven Soldest. Nossas famílias são amigas a bastante tempo, foi uma tremenda surpresa saber da sua existência — Disse ele abaixando a cabeça em respeito — Não digo isso para ofender, mas apenas como uma feliz surpresa que tive – Percebi um olhar diferente dele, algo parecido com desejo, o que me deixou incisivamente com medo, sabia bem o que acontecia quando me davam olhares desse nível.

– O prazer é meu Sr. Holver, espero que possamos nos dar bem no decorrer de nossa estadia nesse local – Precisava me manter calmo e não deixar que isso me abalasse, se mostrar fraco a frente dos outros é o mesmo que pedir para morrer.

– Não precisa ser tão formal comigo, dentro dessa academia todos os títulos são retirados, todos somos iguais, mesmo que seja de uma família marquesa, ainda se esse for o caso, você pertence ao ducado de Soldest, alguém de título inferior ao meu jamais poderia falar diretamente com o herdeiro de um ducado inteiro – Ele estava certo, tinha me esquecido desse detalhe dos títulos das famílias e que aqui dentro esses títulos em teoria não seriam de utilidade.

– Que seja, sinta-se livre para se referir da maneira que desejar, não vou lhe impedir. Agradeço também por ter me ajudado naquele momento, ouvindo sua voz agora tenho certeza disso.

– Ajudado? Não sei do que está falando – Disse ele com um sorriso desentendido no rosto – Mas fico feliz que seus resultados tenham sido tão extraordinários e sei que vai abalar a estrutura magica quando foram divulgados.

– Agradeço suas palavras complacentes, mas creio que devo me retirar para os aposentos provisórios, disseram que os resultados são divulgados amanhã pela tarde – Queria me afastar, estava me sentindo ansioso perto dele – Te vejo por aí Sr. Holver – Com um andar meio desajeitado, me virei e apenas segui na direção contrária, sem prestar atenção para onde estava indo, só queria me afastar dele.

– Richard – Disse ele, se aproximando com um sorriso travesso – Creio que os alojamentos ficam do lado oposto, a não ser que você prefira voltar para a mansão da família Soldest na cidade – Quando prestei mais atenção, percebi que ele estava indo em direção à saída. Um calor repentino subiu ao meu rosto, e pela primeira vez senti uma vergonha tão intensa que me faltaram palavras. – Interessante – Continuou ele, se aproximando ainda mais, seus olhos fixos em mim com uma intensidade desconcertante, antes de soltar uma risadinha de deboche – Creio que, mesmo sendo filho de um dos professores e neto do diretor, ainda deve desconhecer a estrutura da academia – ele comentou, com um tom irônico. – Posso te guiar até lá, se quiser.

– Olha só quem vejo aqui – Exclamou uma voz ao longe, quase como um alívio para que eu não precisasse dizer mais nada. – Se não é meu querido amigo de longa data, Joseph! – Olhei em sua direção e vi uma menina aproximadamente com 17 anos, cabelos loiros cacheados e longos, olhos verdes e pela forma que se portava parecia ser alguém de um alto status.

– Infelizmente nos encontramos aqui, para o meu desgosto, Sophia Catesfilde – Ele a olhava com repudio e ela com satisfação pela sua reação.

– Bem, já que encontrou sua amiga de longa data, temo que terei que me retirar, vejo vocês por aí – Por favor, não falem comigo, só deixem que eu saia normalmente, minha bateria social já está esgotada.

– Richard, vá pela direita, quando encontrar uma torre de marfim vire à esquerda e você vai encontrar uma grande mansão no centro do jardim – Disse Joseph, essa deveria ser a direção dos quartos provisórios, receber essa informação me deixou ainda mais desconcertado.

– Agradeço novamente sua gentileza Sr. Holver.

– Qual seu nome? — Inferno, é tão difícil assim ver que apenas quero ir embora?

– Não te interessa! — Disse Joseph, sem rodeios, com um tom cortante que deixou claro que não havia espaço para discussão — Além disso, eu acabei de mencionar seu nome, você é surda por acaso?! — Não sei qual é o problema deles, e realmente, não me importa. Vou me manter bem longe disso — Pode ir Richard, essa aqui não vale o seu tempo tanto quanto eu.

Apenas ignorando totalmente os dois, que continuavam discutindo no mesmo local, segui as instruções de Joseph, que acabaram me levando até a mansão onde ficaria por esse momento. Sua fachada era algo nível de uma família condal, um jardim perfeitamente aparado, com flores únicas, a mansão deveria ter no mínimo 5 andares, andei até sua porta de entrada, que era tão luxuosa quanto o restante, dois servos estavam de prontidão ali, como se esperassem os alunos. Sem nenhum tipo de ordem, assim que me viram chegando, eles abriram as portas.

O interior era ainda mais surpreendente, no lado esquerdo a área era imensa e toda aberta, com livros espalhados em estantes feitas em mogno, com um lustre de cristal no centro daquele ambiente e vários sofás espalhados perfeitamente sobre o lugar, dando ao ambiente o nível de sofisticação da nobreza e o de intelectualidade da academia, na parte da direita existiam 6 portas, todas fechadas e no meio duas escadas que iam diretamente para os andares superiores, dava para ver que as escadas subiam até o último andar, tendo saídas especificas para cada um. Pode parecer exagero algo tão luxuoso para uma mansão de quartos provisórios, porém aqui também é onde iria ser o abrigo dos herdeiros e filhos de famílias nobres de todo o império, menos que isso seria como uma falta de respeito para a prestigiosa academia Soldest.

– Com licença Senhor – Disse um dos mordomos ao se aproximar, sua voz tão controlada quanto sua postura impecável. Ele parecia ter cerca de 20 anos, com cabelos castanhos espetados e olhos da mesma cor, que refletiam uma indiferença calculada, quase como se seu olhar fosse moldado pela disciplina. Seu rosto era perfeitamente esculpido, como se tivesse sido esculpido por mãos experientes, criando uma expressão serena e distante, que transmitia respeito, mas também certa distância – Me chamo Sebastian, sou um dos encarregados pelos alunos, tanto nesse recinto quanto no decorrer do período letivo – Continuou ele, fazendo uma reverência quase imperceptível — O Duque Pierre solicitou que acompanhasse seu neto pessoalmente, creio que seja o senhor, correto? A descrição do Duque foi bem distinta e específica.

– Sim, sou eu -Respondi, fazendo um gesto leve com a mão, como se quisesse diminuir a formalidade — ão precisa se dirigir de maneira tão formal comigo, Sebastian. Sinta-se à vontade para falar normalmente. Aqui, nossos títulos não significam nada. Mas, poderia me informar como exatamente foi essa descrição do Duque? — Não quero chamar atenção, apesar de ter feito todo aquele alvoroço no teste. Então, preciso saber o que ele tem falado de mim para os outros. Assim posso agir com mais cuidado e evitar qualquer tipo de desentendimento

– Me desculpe se isso soar rude, senhor — Ele disse, visivelmente desconcertado com a situação. Sua voz vacilou ligeiramente, como se as palavras pesassem em sua língua — ou dizer exatamente como o Duque descreveu — Ele deu uma pequena pausa antes de continuar, como se criasse coragem para repetir, era algo tão ruim assim? — Meu neto é alguém excepcional, vai ser reconhecido pela sua força e sua beleza delicada, alguém que brilha tanto quanto o...

– Chega, apenas pare – Hoje estava conseguindo ter emoções que nunca senti antes, essa vergonha toda, isso está fazendo com que meu corpo queime como se estivesse em chamas, são sentimentos novos, mas que me fazem querer correr e me esconder – Apenas me leve até os aposentos por favor.

– Sim senhor – Ele respondeu, parecendo segurar uma risada. Mesmo sendo discreto, era impossível não perceber o sorriso contido, o que me deixou ainda mais desconcertado – Para alunos do seu calibre — Ele continuou, sua voz mais controlada agora — Os aposentos que disponibilizaram foram o do quinto andar.

Segui Sebastian até as escadas, onde subimos 5 lances de escadas, em cada andar tinha dois corredores, separando a ala feminina da masculina. Ao chegarmos no quinto andar, seguimos pelo corredor da direita e fomos até o último dos quartos, ao abri-lo vi algo que nem mesmo na minha infância na família imperial tinha, como vivi basicamente trancafiado dentro de um quarto quase abandonado no sótão do palácio, nunca tive acesso aos luxos da nobreza. O quarto era algo excepcional, sua decoração clássica e sofisticada, uma cama que dava quase o tamanho de uma carruagem inteira, uma lareira envolta de estantes com cadeiras a sua frente, um guarda-roupas com os melhores materiais e uma varanda com vista para todo aquele jardim.

– Isso não é demais para um lugar provisório? — Pensei alto.

– Como o jovem mestre já sabe, aqui vai ser o lugar que todos os filhos de família nobres e até a própria realeza de pequenos reinos vão ficar até o momento da divisão de classes, a academia Soldest presa pelo conforto e classe, então menos que isso não seria tolerável e mancharia a imagem da academia e de sua família jovem mestre.

– Sim, eu sei, apenas pensei alto – Mesmo sabendo disso, ainda era absurdo tudo isso, apenas esse guarda-roupa, se vendesse, daria para alimentar 100 família inteiras por pelo menos 10 anos.

– Mas tenho que adverti-lo de algo jovem mestre, esses aposentos são meramente momentâneos, cada rank tem seu próprio local e a depender do seu nível ele pode ser superior a essa ou comparável a uma casa de um camponês pobre — Então aqui tinha esse tipo de diferenciação de poder?! — Creio que vá ser explicado na cerimônia de iniciação dos calouros, mas o luxo só é dado àqueles que possuem o talento, a academia olha o título apenas diante dos quartos provisórios.

– Entendi, obrigado pela informação, pode se retirar agora, quero tomar um banho e descansar por alguns minutos.

– Claro jovem mestre, irei preparar seu banho em alguns instantes – Disse ele indo em direção a uma das portas que tinha naquele quarto enorme.

Apesar de querer dizer que não era necessário, simplesmente não tinha forças para continuar conversando ou questionando nada. Eu só queria ficar sozinho, para conseguir colocar minha mente em ordem. Este dia havia sido um caos absoluto.

Segui em direção à varanda, que dava para o jardim da mansão. Ali perto, vi Joseph, e logo percebi que ele parecia estar de mal humor, provavelmente a conversa com sua amiga não tinha sido das melhores. Depois de alguns segundos, perdido em meus próprios pensamentos, notei que ele estava parado no meio do jardim, me encarando com um sorriso no rosto.

Quando percebi que estava sendo observado tão insistentemente, virei abruptamente e voltei para dentro do quarto, o coração acelerado. O que diabos estava acontecendo comigo hoje?!

– Jovem Mestre, seu banho está pronto – Disse Sebastian, sua voz suave e educada – Adicionei algumas ervas calmantes na água para te ajudar a relaxar – Ele fez uma leve reverência e, sem pressa, caminhou em direção à porta.

Segui para o banho, determinado a ficar ali por pelo menos algumas horas. Minha mente estava um turbilhão, e meu corpo, completamente tenso. Precisava urgentemente de um momento de paz para me acalmar.