Ascensão Arcana
6 Capítulo 06 - Montgard: O Berço da Mana
Um sonho?! Sim, parecia isso. Ao abrir os olhos, me deparei com um lugar impossível de descrever completamente, algo completamente diferente de tudo que já tinha visto. Sentia-me no meio de um mar confortável, mas ao mesmo tempo, embora submerso no oceano, parecia flutuar no céu. O ambiente era claro, com ondulações azuis radiantes que pareciam estar vivas. Conseguia sentir cada extensão daquele lugar; não parecia ter um fim exato, mas com certeza havia um começo.
— Então você conseguiu chegar aqui – O que era isso? Era uma voz, mas ao mesmo tempo não, parecia ecoar na minha cabeça como se pronunciasse as palavras, mas não soubesse como se falar – Creio que me 'ouvir' seja um pouco doloroso – Minha cabeça parecia prestes a explodir, era como se estivesse me preenchendo totalmente.
— O... o que é você? Onde estou? — Minha boca não abria e o som não saia, mas mesmo assim conseguia falar, o que era extremamente confuso, era como se aquilo não fizesse parte do que conheço ou que o mundo conheça.
— Não tenho um nome definido, sinto que não terei uma resposta para sua pergunta — Não tinha emoção, não conseguia sentir literalmente nada, nem mesmo indiferença, como poderia explicar isso? — Você entrou em um espaço que não deveria estar aberto nesse momento, mas aparentemente um terceiro forçou sua entrada.
— Quanto mais ouço, mais confuso fica, por favor, seja mais específico — Minha mente me dizia apenas para fingir não estar em dúvida, pois parecia que a resposta não seria algo que poderia realmente suportar.
— Todos no mundo possuem mana correndo em seu corpo, alguns com uma quantidade tão insignificante que se torna quase impossível de sentir ela, mas outros, conseguem produzir os milagres que conhece hoje, porém alguns são ainda mais especiais, assim como você. Esse é o berço de toda a mana existente, um lugar chamado de Montgard nos termos humanos.
Montgard, era o lugar que todos acreditavam estar a mana do universo, vários estudiosos importantes na história acadêmica do mundo estudaram incansavelmente para compreender como a mana fazia parte do nosso corpo, de onde ela vinha e por qual motivo aqueles que usavam aura não sabiam manipular a mana. Após diversos anos de estudos sem avanços, um pesquisador disse conseguir entrar no berço da mana, um lugar sombrio e sem nenhum tipo de luz, mas ao mesmo tempo que era confortável e quieto, também era sufocante e aterrorizador. Ele nomeou esse lugar como Montgard, apesar de sua descrição ser altamente utilizada como referência em estudos, não era isso que estava sentindo ou vendo aqui.
— Todos os seres humanos possuem uma visão diferente do berço de mana – Disse aquela 'voz'. Apesar de que apenas 3 seres humanos conseguiram acessar esse lugar em toda sua existência, você precisa ser amado pela mana para conseguir suportar esse lugar e me compreender.
— O... que é você? Por que te escuto apenas em minha mente?
— Acho que já respondi essa pergunta, não tenho um nome definido, mas se quiser algo para que possa compreender melhor, eu sou tudo e o nada ao mesmo tempo. Você não me ouve e nem falo pela sua mente, você apenas me sente conscientemente, isso te faz ter a ilusão de que estamos conversando, por esse motivo você não entende essa 'voz' que possuo – Isso é muito para a minha cabeça, que tipo de sonho louco é esse?! Lembro de ter tomado meu banho e deitado, devo ter cochilado um tempo e por causa dos incidentes do teste sonhado com esse absurdo – Acho que está tendo a ideia errada desse seu tal 'sonho'.
— Você consegue ler minha mente?
— Não existe isso de ler mentes nesse lugar, eu apenas estou sentindo você — Quanto mais eu ouço, mais minha cabeça não consegue entender essa loucura toda – Como disse, você não deveria ter conseguido acessar aqui ainda, dessa vez foi muito mais cedo que das demais, provavelmente um terceiro forçou a abertura de seus canais de mana e te guiou até aqui sem seu consentimento – Mais cedo que as demais? Como assim?! Eu nunca estive aqui antes — Não se preocupe com isso, não é algo que você precise saber nesse momento, mas tome cuidado, parece que uma divindade está interferindo no curso dessa vida. Temo que seja sua hora, caso contrário você pode correr riscos. Novamente, cuidado com aqueles que dizem serem seus companheiros, manipular a mente é algo simples para um ser superior, mas sendo você, acredito que consiga se desvencilhar.
— E... espera, o que isso significa? Não estou entendendo nada.
Antes que ouvisse uma resposta senti como se fosse empurrado daquele lugar. Com a sensação de dor nas costas abri os olhos ofegante, olhando em volta percebi que estava no quarto provisório, sentia dores por todo meu corpo e minhas veias pareciam queimar, minha mana estava meio descontrolada, não sabendo para qual lugar deveria ir e isso estava me causando uma dor enorme. Senti que se isso continuasse acabaria desmaiando, precisava pedir ajuda, mas minha voz não queria sair. Olhei na escrivaninha ao lado da cama e vi um pequeno abajur de vidro, com muito esforço e sentindo como se estivesse sendo mutilado a cada movimento, consegui jogá-lo no chão, com o barulho ouvi a porta se abrindo e passos vindo em minha direção.
— Jovem mestre?! — A voz de Sebastian era de extrema preocupação — Céus, vou chamar o Duque, por favor aguente um pouco – Ele então saiu correndo do quarto, não sei se conseguiria aguentar, meu corpo estava muito quente.
— Mas que irresponsabilidade, deixando meu jovem príncipe desprotegido dessa forma — Não conhecia essa voz, minha visão estava turva pelas dores, mas sentia sua presença. Não conseguia falar nada e nem questionar quem era, mas ouvia com clareza ele dizer a palavra "príncipe", ele sabia quem eu era — Não vim para te machucar, pelo menos não hoje, parece que eles têm um plano diferente para você dessa vez, as coisas desandaram um pouco por causa de um certo alguém — Ele então se aproximou do meu rosto e pude sentir sua intenção assassina sufocante – Como eu queria fazer algumas coisas com meu jovem príncipe, relembrar de certos momentos da sua infância, que dias prazerosos.
Quem era ele?! Que merda está acontecendo aqui?! Ele é alguém que abusava de mim quando estava no palácio pelo que entendi, mas não consigo lembrar dessa voz, isso estava me deixando ansioso e mais desesperado do que já estava, se continuar dessa forma vou acabar morto não pela minha condição, mas por culpa dele.
— Essa expressão de medo, isso me traz ótimas lembranças — Disse ele acariciando meu rosto, suas unhas arranharam levemente minha bochecha – Sabe, as noites que passamos foram especiais, ainda mais para os guardas do palácio, seus irmãos também amavam, queria apenas ter continuado com tudo aquilo.
Sentia lagrimas escorrendo pelo meu rosto, o desespero e aquele sentimento de antes, aquela sensação nauseante, que me deixava ansioso e com extremo medo. Carven, eu preciso da sua ajuda, por favor, me ajuda, não quero voltar para aquilo, me ajuda.
— Quem é você?! — Ouvi a voz de Carven.
— S... so... co... rro – Tentei gritar, mas minha voz estava muito rouca para ser ouvida.
— Parece que nosso momento a sós terminou, mas não fique triste, eu vou voltar quando estiver dormindo – O medo percorria todo o meu corpo, se misturando com a dor que estava sentindo, por qual motivo isso estava acontecendo comigo?!
— Não deixem que fuja – Ouvia gritos e pessoas correndo ao meu redor, mas não conseguia entender mais nada, eu queria apenas não acordar mais – Richard, por favor, olha para mim – Sentia algo quente pingando em meu rosto, mesmo com toda a dor levei minha mão até o rosto de Carven. Ah! Eu novamente te fiz chorar, não queria ver você dessa forma – TRAGAM OS CURANDEIROS AGORA MESMO – Ele parecia estar em desespero.
— O que hou... — Essa era a voz de Joseph – Pelos deuses, eu vou ajudar – Não sei como ele iria me ajudar, mas alguns segundos depois senti meu corpo mais calmo, minhas emoções pareciam ter sido lacradas em algum lugar distante na minha mente e aquela dor estava indo embora aos poucos – Isso vai ajudar a controlar as coisas – Sinto minha visão voltar aos poucos, mas ainda me sentia cansado – Sei que não tem nada a ver comigo, mas quem tocou em você? — Ele parecia bravo, Carven também parecia estar com ódio em seus olhos, além de preocupação.
— Não se preocupe, eu vou pegar aquele desgraçado e fazer com que ele peça para morrer – Ele então se levantou – Joseph, cuide do Richard, eu já volto — Não vá, fique aqui, se algo acontecer com você não vou ter mais ninguém. Era o que queria falar, mas minha voz não saia.
— Pode ir, não vou sair do lado dele, não importa o que aconteça — Com isso Carven saiu do quarto acompanhado pelos outros que vieram com ele, deixando eu e Joseph sozinhos — Não se preocupe, ele vai ficar bem – Ele acariciava meu rosto com carinho e preocupação — Descanse um pouco, quando acordar tudo vai estar resolvido.
Mesmo não querendo, por medo daquele homem voltar, acabei caindo no sono, tendo a segurança de que Joseph estava ali comigo. Dessa vez não tive qualquer tipo de sonho, apenas flashes de momentos em que acordava e voltava a dormir, Joseph, Carven e Pierre estavam a todo momento ao meu lado, mas não entendia suas feições preocupadas e nem suas palavras.
Ao abrir meus olhos percebi que ainda estava naquele mesmo quarto de antes, porém dessa vez meu corpo já não doía tanto quanto antes, apesar da fraqueza e tontura, consegui me sentar na beirada da cama, me sentia ofegante pelo pouco de esforço que tinha feito, não lembrava direito do que tinha acontecido, as lembranças estavam chegando aos poucos.
— Finalmente – Antes que conseguisse ver quem era, fui envolvido por seus braços ternos e cuidadosos – Eu fiquei tão preocupado – Carven novamente chorava, não entendia muito bem o motivo dele ser tão ligado a mim dessa forma e nem o como consegui me afeiçoar a ele em um período tão curto de tempo, mas sabia que poderia confiar nele.
— Obrigado por cuidar de mim – Apesar de doer um pouco, minha voz já estava menos rouca e era possível ouvir.
— Não precisa agradecer, fiz o que qualquer pai faria.
Ao ouvir aquilo certas lembranças que vinham lentamente vieram em peso e o sentimento junto delas também, eu nunca tive o sentimento de um pai, uma mãe e irmãos, nunca soube o que é ser amado pela família e ser cuidado por eles, mas ali estava aquele homem, que estava aos poucos colocando sentimentos quentes e reconfortantes em mim. O abracei de volta, com medo de que aquilo fosse um sonho e acordasse de volta no palácio, com medo de soltar e perder a única pessoa que me mostrou uma pequena parcela do que é ser amado e cuidado, do que é estar em uma família de verdade.
Não sei quanto tempo ficamos assim, mas ele continuou me abraçando enquanto minhas lagrimas escorriam sem controle, como uma criança nos braços de alguém que quer protegê-la, finalmente senti pela primeira vez o que era isso e o motivo de ter tanta inveja daqueles que tinham suas famílias os apoiando e amando.
— Se sente mais calmo? — Sua voz estava tremula, olhei e vi seus olhos inchados, provavelmente chorou enquanto estava desacordado e junto comigo nesse momento.
— Sim, desculpe ter preocupado você e ter feito você chorar.
— Não foi sua culpa, então não se desculpe por algo desse tipo, fico feliz que você finalmente está acordado – Senti que ele voltaria a chorar se continuássemos falando disso – Fiquei tão preocupado por que você não acordou por 2 meses, já não sabia mais o que fazer, os médicos diziam que não tinha mais nada de errado com você, mesmo assim você não acordava, foi desesperador – Sua voz transmitia a dor que tinha sentido naquele período e a preocupação. Precisava mudar o rumo da conversa, não queria ver ele sofrer mais.
— Então eu perdi 2 meses de aulas? — Disse em um tom mais descontraído, ele me olhou confuso, até dar uma pequena gargalhada, ver seu sorriso era melhor que qualquer outra coisa.
— Depois de tudo o que vem a sua cabeça são as aulas? — Ele parecia estar mais leve — Não se preocupe, todos foram avisados e o conteúdo o Joseph ficou encarregado de te repassar, ele tem estudado arduamente para conseguir te ensinar as coisas que está perdendo – Ele não precisava ir tão longe, sequer me conhece direito, como poderia se dar tanto assim por uma pessoa?! Talvez fosse seu jeito de ser bondoso e carinhoso com todos a sua volta? — Você arrumou um bom amigo nesse curto período, sinto até ciúmes de que ele possa roubar meu posto – Carven dizia com tom de brincadeira, mas estava realmente falando sério, o que me levou a rir da situação — Isso não é engraçado mocinho, mesmo não sendo de sangue, você é um filho que sempre desejei, não vou deixar alguém roubar seu coração de mim tão facilmente.
— Pela primeira vez me sinto feliz de verdade – Ele me olhou surpreso – Obrigado por ter entrado na minha vida – Pude ver as lagrimas em seus olhos novamente, até me abraçar de novo e dessa vez foi minha hora de ficar ali até que suas lagrimas parassem de cair, mas dessa vez elas eram de felicidade.
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