Notas iniciais
Bem vindo a mais um capítulo. Vou demorar um pouco pro próximo , mas logo sai.

Tamires saiu do hospital para o estacionamento. Dentre as quatro, ela era a única com seu próprio automóvel: Uma moto negra que ela idolatrava e morria de ciúmes. Somente ela podia subir na moto. Pilotou velozmente por quase uma hora no transito infernal de São Paulo para finalmente chegar em Guarulhos. Parou em um beco entre dois edifícios e puxou um cigarro do bolso traseiro. Fumar acalmava ela quando queria chorar. Não se permitia chorar desde criança, talvez isso estivesse errado, mas tudo na vida dela sempre fora errado mesmo. Assim que terminou o fumo, jogou a bituca em uma poça de água no beco sujo e ficou observando-a. Ouviu passos e viu dois trombadinhas que tinham por volta de uns quinze anos se aproximarem com malícia. Esperou chegarem mais perto. Eles olhavam a moto e ela enquanto puxavam seus canivetes. Antes que pudessem falar algo, anunciar assalto ou qualquer coisa do tipo, Tamires levantou a mão direita que estava escondida atrás da perna e mostrou uma pistola 9mm para eles.

—Dou dez segundos para vocês sumirem da minha frente. — Falou com a voz forte.

Os garotos colocaram os canivetes de volta em seus bolsos levantando as mãos em sinal de rendição e andaram de costas uns cinco passos antes de se virarem e correrem. Tamires colocou a arma de volta preso em baixo do vestido e seguiu viagem até seu tempestuoso destino.

Ela havia nascido ali naquele bairro sujo e movimentado. Morou em barracos, morou de casa em casa, morou como deu, junto com sua mãe, pai e seis irmãos. Conheceu Mirela aos 14 anos em alguma festa de amigos. Não mantiveram contato, mas de vez em quando se esbarravam pro causa dos amigos em comum. Entrou na rua da casa de seus pais e ouviu assobios e viu olhares. As casas naquela rua , apesar de pobres eram todas até bem arrumadinhas. A dos pais dela tinha uma aparência normal por fora, mas dentro havia sido toda reformada com o dinheiro que Tamires trazia para casa. Diferente das outras três, Tamires não conhecia elas desde novas, se conheceram aos 18 anos pela internet, e foi assim que Tamires entrou para o grupo.

Os pais de Tamires não se orgulhavam da filha. Sabiam que para conseguir tanto dinheiro assim do nada, ela só podia estar envolvida com coisas erradas. Recusavam o dinheiro dela na maioria das vezes, mas cinco bocas para alimentar e doenças para cuidar, acabavam por aceitar vez ou outra.

—Oi mãe. — Ela colocou a moto na garagem e deu um beijo na senhora magra de cabelos já esbranquiçados que estava encostada na porta observando a filha. — Como a senhora está?

—Como Deus quer.

—Tamires! — O irmão mais novo da menina apareceu na porta e correu abraçando-a.

Tamires pegou o irmão de cinco anos no colo e ele envolveu as pernas em volta do corpo dela. Esse era o irmão mais próximo dela, ele admirava a irmã como ninguém. Tamires sabia que quando crescesse mais e tivesse idade suficiente para entender que a irmã não era envolvida com coisas certas, ele não seria mais o mesmo.

—Oi Pedrinho. Como você cresceu. Como está a escola?

—Está boa, eu estou estudando muito para ser que nem você.

A mãe da menina e ela se encararam de forma dolorosa.

—Você vai ser bem melhor do que eu. — Tamires colocou a criança no chão. Voltou-se para a sua mãe novamente. — Onde estão todos?

—Paulo e Maria estão jogando videogame, os outros saíram. Seu pai está dormindo. — Ela falou entrando e sendo seguida pela filha. — O que veio fazer aqui? Está com cara de culpada. Você não vem nos ver faz três meses.

—Desculpa mãe, eu estava ocupada. -Não era mentira, ela decidiu começar uma faculdade e por isso estava organizando documentação e se planejando muito bem, como sempre fez,para poder começar assim que possível. — Vou dar uma sumida por um tempo.

—Grande novidade.

—Minha amiga esta doente, vamos viajar para uma última viagem antes de morrer. — A mãe olhou para ela assustada. — Ela tem uma doença terminal, aí vamos fazer isso.

—Sei.

A mãe ficou em silencio por um tempo observando a filha mais velha. Colocou café na mesa e mandou-a sentar-se. Tomaram o café em silêncio até ele ser interrompido pela voz dos irmãos de 12 e 13 anos entrando na cozinha.

—Você só venceu, porque eu deixei. — Paulo de doze anos falava para a irmã Maria.

—Tamires! — Maria abraçou a irmã. — Trouxe algo pra mim?

—Educação, menina. — A mãe reclamou.

Tamires abriu a bolsa e retirou uma caixinha embrulhada para cada um dos dois, sorrindo. Havia comprado um celular para cada um dos dois, havia alguns meses, mas ainda não havia entregado.

—Mãe, trouxe isso para a senhora.- — Ela tirou da bolsa um vale presente de dois mil reais em uma loja de eletrodomésticos e entregou para a mãe.

—Não precisa, Tamires. — A senhora devolveu.

—Mãe, a senhora sempre fala isso e sabe que nunca funciona. É seu e fim. — levantou-se deixando o papel na mesa. — Vou no quarto dos outros deixar os presentes.

Entrou no quarto das outras três irmãs que dividiam o mesmo quarto e colocou em cima da mesinha os três vales presentes de uma loja de roupa que elas amavam. Talvez dois mil reais em roupa parecesse muito, mas a família dela sempre soube quando usar algo assim. Sabia que as irmãs compraria o suficiente e guardariam o resto para depois.

Despediu-se da mãe em poucas palavras, deixou com ela três ingressos de um jogo pro pai viciado em futebol e abraçou os irmãos antes de subir na moto e sair dali. Não é que ela não gostasse da família, mas os pais sempre foram pessoas secas que não sabiam demonstrar sentimentos. Acabou que ela e as três irmãs que vinham após ela, ficaram iguaizinhas os pais, os três mais novos eram carinhos e gentis.

Deu uma última olhada na casa dos pais e foi embora de Guarulhos. Agora iria levar uma hora para chegar no bairro em que morava. Itaim Bibi ficava no mínimo à 40 minutos de distancia, mas com o horário de pico talvez ela demorasse mais um pouco. Planejou pelo caminho o que levaria para o Rio de Janeiro no dia seguinte e planejou seus passos nos próximos dias. Precisava pensar na personalidade que iria assumir nesse novo caso.

Notas finais
Qual sua personagem favorita?