Maiara vestiu um longo vestido de manga ombro a ombro, vinho camurça. O vestido justo marcava todas as suas curvas e destacava seus cabelos ruivos de forma sensual. Ela desfilava pelo salão cumprimentando pessoas que nunca havia visto na vida, todos os convidados de seu agora noivo. A festa havia sido um sucesso aos olhos de todos, para ela havia sido um inferno. Osvaldo tratava a moça como se ela fosse um objeto, um prêmio ou uma aquisição cara no mercado. Ela odiava aquilo, mas sorria e beijava-o apaixonadamente sempre que achava que precisava. Sua raiva fervia toda vez que ele batia na bunda dela como se ela fosse uma coisa a se exibir aos amigos.

—Vou encontrar as minhas irmãs. — Ela sussurrou no ouvido do velho e ele consentiu sem prestar muita atenção nela.

Caminhou entre os convidados ricos e refinados querendo ir para qualquer lugar onde não encontrasse com ninguém. A mansão do Osvaldo estava servindo de local para o evento de noivado deles, então ela conhecia bem o lugar e podia se esconder onde quisesse. Assim que saiu do ambiente principal da festa, viu casais ou grupos de homens importantes sentados aqui e ali, conversando baixinho. Ainda não estava suficientemente longe de tudo aquilo. Continuou andando elegantemente pelos corredores da casa e subiu a primeira escada que viu — havia pelo menos três delas para sair do térreo ao primeiro andar. Ela sentia os olhos queimando, a ponto de chorar, na cabeça dela tudo estava muito agitado, muitos pensamentos e muito medo envolvido.

—Está com pressa? — Uma voz interrompeu os passos agitados da falsa ruiva.

—Bernardo? O que está fazendo aqui em cima?

—Não estava afim de testemunhar um romance tão falso como o seu com meu pai.

—Como ousa falar assim?

—Relaxa, eu só falo assim sobre isso, com você. Com todos os outros eu digo como o amor de vocês é lindo e me inspira. — Ele falava sério.

—Qual o seu problema?

—Meu? Eu não entendo qual o SEU problema. Você não ama o meu pai, ele não te ama. Eu sei que ele está com você pelo prazer de ter uma bela e jovem mulher ao lado dele para se exibir, mas fico impressionado com você. Quais são seus motivos?

—Como é que é?

—Relaxa. — Ele começou a andar em direção a ela vagarosamente.

—Me deixa em paz.

Maiara achava Bernardo um homem sexy demais para ela resistir. Ele tinha 11 anos a mais do que ela, e mesmo assim ela se sentia atraída pelos cabelos negros dele. Ou talvez fosse o sorriso branco que ele sempre abria quando via Maiara chegando. Ela então decidiu continuar andando para subir ao segundo andar. Conforme subia os degraus, ouvia os passos do homem atrás dela, mas ignorou. Pretendia se trancar em uma espécie de sótão que tinha ali na casa , onde não guardavam absolutamente nada , mas mesmo assim a empregada deixava sempre tudo limpo.

—Vai ao sótão?

—Porque está me seguindo? Como cabe pra onde vou?

—Toda vez que você vem para a casa do meu pai, você vai pra lá.

—Você está começando a me assustar, sabia? Falou sem desacelerar o passo. — Não é nada confortável saber que meu futuro enteado fica me seguindo pela casa como um lunático.

—Confesso que no início eu seguia mesmo, queria saber se você era de confiança.

—E?

—Você não é. Mas por algum motivo eu gosto de você, preferia que você encontrasse alguém melhor do que meu pai.

Maiara ignorou o comentário que ele mais uma vez fazia sobre ela merecer alguém melhor e abriu a porta que levava à escada do sótão. A porta não tinha chave então o "se trancar" dela era metafórico. Ela entrou e viu Bernardo parado a dois metros de distancia com as mãos nos bolsos da calça social observando-a sorrindo. Fechou a porta na cara dele e entrou.

Subiu as escadas segurando as lágrimas e se deparou com um ambiente limpo, porém desta vez com moveis. Havia uma estante de livros de madeira maciça preta, uma poltrona de leitura branca que estava posicionada de frente para a janela de vidro. No centro, entre os dois móveis, tinha um enorme tapete peludo branco. Maiara estava tão concentrada no que estava vendo que não ouviu a porta se abrir, só ouviu a voz de Bernardo já ao lado dela.

—Gostou?

—Você fez isso? Quando?

—Essa semana.

Maiara olhava em volta sem saber o que falar. ele estava observando-a a muito tempo, aparentemente e ela não sabia dizer se aquilo era fofo ou assustador.

—Obrigada.

Bernardo sorriu orgulhoso, deu meia volta e se retirou do quarto. Ainda sem entender muito bem porque Bernardo havia feito aquilo quando ele tinha tanta certeza de que Maiara era algum tipo de impostara, ela se sentou na cadeira fofa e relaxou por longos minutos sozinha. Quando finalmente decidiu voltar à festa, foi recebida por um velho sorridente que abraçou-a e cochichou em seu ouvido:

—Onde diabos você estava, vagabunda?

Um arrepio tomou o corpo magro de Maiara e ela sentiu uma onda de raiva subindo. Como ele ousava falar assim com ela? Ele se afastou do abraço ainda mantendo o falso sorriso. A festa estava um saco para ela e tudo que mais queria era que aquilo acabasse. Teve que aguentar longas horas intermináveis antes que pudesse finalmente se juntar às "irmãs" quando o ambiente já mantinha apenas os mais íntimos agora.

—É sério, eu mato ele numa boa. Sei quem usa venenos imperceptíveis até em autopsias.

—Nem brinca com isso. — Ana respondeu vendo a amiga chegar com cara fechada.

—Eu apoio. — Tamires deu sua opinião. — Vi ele passar a mão na bunda de pelo menos duas garotas e nenhuma delas estava gostando daquilo. Ele é um nojento.

—Precisamos de calma. Estamos em um momento difícil, as coisas estão acontecendo muito rápido e não estávamos preparadas para ir embora assim do nada. Acho que seria bom já escolhermos nosso próximo lugar de morada, identidades, e tudo o mais. Para caso precisemos sair correndo qualquer hora dessas. — Mirela assumiu seu papel de líder.

—Lucas me chamou pra dormir na casa de praia. — Ana se pronunciou.

—Você vai?

— Bom, não tenho nada a perder.

—Você está doente, Ana. Você tem a sua saúde a zela.

—Estou me sentindo bem, hoje. Então é...acho que não tem problema.

Elas ficaram em silêncio ao ver o rapaz de quem falavam se aproximando.

—Vamos? — Ele sorria e estendia a mão para ela que o seguiu.

Notas finais
Espero que esteja curtindo.