Notas iniciais
Demorei, mas cheguei.


Ana entrou na sala já conhecida da casa de praia onde Lucas havia levado-a dias atrás. Tudo estava decorado com flores e algumas velas que cheiravam docemente. Ela sorriu sozinha parada à porta. Por mais estranho que Lucas fosse as vezes, ao menos ele era gentil quando queria. Ele apareceu atrás dela parecendo muito satisfeito com o resultado do seu trabalho.

—Gostou?

—Está maravilhoso. — Ela sorriu para ele, tentando parecer o mais animada possível.

—Espero que goste de vinho branco.

—Eu gosto.

Ana deveria evitar o alcool, mas como já estava morrendo mesmo, decidiu deixar para lá e aproveitar o — provavelmente — último homem com quem ela estaria. Lucas era gentil apesar de as vezes parecer impaciente e ter uma forte tendência a ser um homem controlador. Ela esperou sentada no sofá graciosamente.

—Você deve estar cansada. — Ele falava trazendo duas taças e oferecendo uma a ela.

—Menos do que achei que estaria.

—Fico feliz de ter me acompanhado até aqui. — Seu sorriso branco e sincero faziam-no parecer um modelo de capa de revista.

—Fico feliz por ter me convidado.

Lucas sentou ao lado de Ana e conversaram por longas horas. Por mais estranho que o rapaz parecesse as vezes para Ana, ele sabia conversar. Ela prezava bastante por isso. Apesar desse dote, ela podia perceber seu tom ciumento falando de determinadas questões e agressivo vez ou outra. Apesar dos pesares, Ana sentia-se bem quando conversava com ele. Isso quando ele não tirava longos minutos para se gabar de algo.

Lentamente ele colocou a mão direita na coxa esquerda de Ana que sentiu o corpo arrepiar. O perfume doce dele entrou nas narinas da moça quando ele aproximou para beija-la. Os lábios carnudos e macios dele se encontraram com os delicados dela. Ana não beijava ninguém há quase um ano, sentia falta daquilo e de mais. Se permitiu viver aquela noite.

Depois de duas horas, deitada no peito de Lucas na king size do quarto, ela sorria sozinha. Não estava pensando em morte pela primeira vez em meses e sentia-se feliz por isso. Sentia que ao invés de sobreviver, ela poderia viver realmente seus últimos dias.

—Ana.

—Oi.

—Você gosta de mim, não é?

Ana ficou surpresa com a repentina pergunta feita por Lucas. Ele não parecia o tipo de cara que precisava de afirmação sobre isso. Ficou confusa com o que exatamente ele queria dizer e onde queria chegar.

—Ana?

—Gosto. Eu estou aqui não estou?

Lucas levantou abruptamente, assustando Ana que antes estava deitada em seu peito.

—Eu estou falando sério, Ana. — Lucas estava sério. — Você me ama?

—O que? — Ana sentiu um calafrio e não sabia se tinha algo a ver com sua doença ou com aquele olhar no rosto de Lucas.

—Você me ama? — Ele falou mais alto.

—Nós acabamos de nos conhecer, Lucas.

Lucas levantou da cama e começou a andar de um lado para o outro furiosamente. Ana começou a sentir vontade de chorar. Ela não sabia o que estava acontecendo e esperava muito que fosse apenas um brincadeira de mau gosto.

—Você não vai brincar comigo, Ana. Não vai, entendeu? — Ele falava ainda andando de um lado para o outro.

— Lucas, do que você está falando? — Ana levantou-se enrolada no lençol branco e caminhou até Lucas. Ela não sabia o que mais deveria falar ou perguntar.

De repente Lucas avançou para Ana e a empurrou fazendo-a bater contra a parede de madeira atrás dela. Seus olhos exalavam fúria quando olhava para Ana. Segurou seus pulsos no alto da cabeça da menina que respirava ofegante sentindo que o coração sairia pela boca.

—Ana, espero que não esteja me enganando, eu ficaria muito decepcionado. — Ele soltou os pulsos da moça e ajoelhou-se em sua frente ficando com a cabeça apoiada na barriga de Ana. Esticou os braços e abraçou-a. — Gosto muito de você. Desculpa ter gritado.

Com o coração quase saindo pela boca Ana acariciou a cabeça de Lucas. A menina sentiu uma lágrima escorrer involuntariamente e a secou rapidamente antes que ele percebesse. Tentou controlar a respiração para que ele não notasse o coração disparado dela.

Lucas se levantou.

—O que quer comer?

—Ahn...

—Vou fazer tapioca.

—Está certo.

Lucas saiu do quarto e Ana permaneceu na mesma posição encostada na parede, sem saber o que deveria fazer naquele momento. O coração estava disparado, a boca seca e os olhos marejados. Correu até a suíte e lavou o rosto freneticamente. Não podia chorar, precisava se manter de pé e entender que foi só um surto dele e que ela não ficaria ali para sempre, precisava continuar no jogo se quisesse ganhar. Se encarou no espelho vendo as olheiras em seu magro rosto. As bochechas nem tinham cor como antigamente. Sabia que havia se metido em uma enrascada e não fazia ideia de como resolver isso.

A tapioca desceu rasgando junto com o copo de suco servidos por Lucas. O rapaz agia como se nada houvesse acontecido meia hora atrás e Ana fazia questão de demonstrar ter ignorado a agressividade dele e repentina obsessão por ela. Respirou fundo e continuou agindo como se nada estivesse fora do normal.