Tamires foi importunada durante todo o caminho de volta sobre ela e Marcelo. Ela sabia que estava empolgada demais com o rapaz, coisa que não deveria. Ela era a mais nova naquilo tudo e por isso as outras três sempre se preocupavam em lembra-la sobre quem eram elas naquela história. Golpistas não se casam, golpistas não se apaixonam, golpistas não conhecem o amor. Elas tentavam manter isso em suas mentes, mas se fosse realmente verdade e elas não conhecessem o amor, o que sentiam umas pelas outras afinal?

—Se você se apaixonar, eu mesma mato você antes de morrer. — Ana alertou virando-se para trás no banco do táxi.

—Eu só estava socializando, não é isso que devemos fazer? — Ela reclamou, mas logo voltou o assunto para Maiara. — Vocês acreditam que aquele velho insuportável já esta falando da festa de noivado? — Ela tirava os brincos e colar jogando na bolsa. — Quer que aconteça semana que vem. A Mai tentou colocar para no mínimo mês que vem, mas não adiantou.

—Eita! -Mirela pensou rápido. — Precisamos nos adiantar então. As coisas estão diferentes dos planos. — Ela parou de falar vendo o motorista observa-las curiosamente. — Vamos conversar amanhã melhormente.

Ana começou uma nova crise de tosse naquela madrugada e vomitou pelo menos duas vezes. As duas amigas acompanharam-na silenciosamente sabendo que nada do que falassem seria de grande utilidade ou conforto. A madrugada foi turbulenta e todas sentiam medo de quanto tempo Ana tinha pela frente, contudo nenhuma delas falou do assunto.

Quando o dia amanheceu, Ana se sentia bem melhor apesar de ter dormido mal. Respondeu as mensagens insistentes de Lucas concordando em sair no fim do dia com ele para a casa de praia. Combinaram de ficar aquela noite por lá e ela torceu para que estivesse bem o dia todo e a noite também. Tamires observava a amiga ajeitar uma pequena mala para a noite enquanto se vestia para irem almoçar juntas. Ela havia chamado Marcelo para jogar na noite anterior, mas ele não respondeu e isso havia chateado-a de certa forma. Mirela havia saído para um passeio sozinha pela orla da praia e ainda não havia chegado então as duas amigas iriam comer sem ela. Não haviam recebido notícias de Maiara ainda, mas provavelmente estava furiosa com o pedido de casamento, mais o fato de ter que dormir com o velho. Não que ela nunca tivesse dormido com ele, afinal foi assim que o conquistou de início, mas ela evitava ao máximo essa intimidade.

Maiara havia ido dormir o mas rápido possível na noite anterior então quando o dia amanheceu ela já estava de pé logo ás sete da manhã. Pegou um vestido de tecido molinho que havia deixado na casa da última vez e vestiu-o saindo do quarto. Foi até uma área da casa que ela já conhecia e sabia que ninguém nunca ia lá. Na verdade o velho morava sozinho na mansão então todas as vezes que Maiara estivera ali, estava sozinha se não contasse por ele. Caminhou observando as decorações empalhadas pela casa e pegou um pequeno apito de prata pendurado na parede ao lado , colocando-o no bolso do vestido e continuando o trajeto até a área verde escondida nos fundos da casa.

Maiara sentou-se em um canto do chão e encostou a cabeça na parede. Ouviu a porta de vidro que ela acabara de fechar se abrindo e ficou surpresa com isso. Afastou a cabeça para olhar quem vinha e viu Bernardo vindo em sua direção sorrindo para ela. Revirou os olhos e voltou-se a encostar-se na parede. Bernardo sentou de frente para ela com as pernas esticadas ao lado das dela.

—Vi você vindo para cá, espero que não se importe com minha companhia. É meu lugar favorito da casa.

Ela sorriu fingindo não ligar e ficaram em silêncio observando as borboletas que voavam ali. O silencio era constrangedor. O homem fechou os olhos e recostou a cabeça na parede. Maiara aproveitou para observa-lo. Diferentemente do pai e dos dois irmãos, ele tinha os cabelos negros e não loiros. Ela lembrava de uma foto que Osvaldo havia mostrado da falecida esposa, Bernardo era idêntico a ela. Sem querer se pegou observando os longos cílios dele e a boca rosada. Fechou os olhos e preferiu parar de admirar a beleza daquele homem.

Quando finalmente Mirela decidiu voltar para o hotel, já passava do meio dia. Ela queria almoçar, se não fosse por isso teria ficado andando pelas ruas até anoitecer. Estava se sentindo impotente e não conseguia pensar em nenhum plano para adiar o noivado indesejado de Mariana. No fim das contas não teve nenhuma ideia e voltou vagarosamente ao hotel. Assim que se aproximou do prédio viu um conversível pink estacionado e fez cara de desprazer. A cor era irritante e parecia um carro de uma típica patricinha de filme clichê americano. Um loira platinada estava em pé de braços cruzados ao lado do carro, ela parecia furiosa e impaciente batendo o pé de braços cruzados. Mirela passou pela jovem sem olha-la, mas de repente uma mão com unhas pontudas agarrou seu braço puxando-a de volta.

—Ai. — Mirela reclamou vendo a loira de unhas cor de rosa puxa-la com raiva. — Ficou maluca?

—Reconheço sua cara amarela. Você é a Mirela não é? Irmã da Maiara.

—Eu te conheço por acaso? — Mirela não reconhecia a menina de canto nenhum.

—Eu sou sobrinha do cara que Maiara está tentando casar. Mas escute aqui queridinha, eu não caio nessa. Minha irmã me contou que vocês ontem estavam arrastando as asinhas de frango de vocês para cima de toda a nossa família. — Mirela não conseguia levar a sério a menina que estava vestida da mesma cor do carro dos pés a cabeça.

—Desculpe, ainda não sei quem é você. -Na verdade ela havia reconhecido sim a menina depois que ela falou que era sobrinha de Osvaldo.

Esta era a mais nova da família. Priscila era um ao mais nova do que as meninas, na ficha que haviam recebido dela, ela estava com os cabelos curtos e roxo, fora que se vestia como uma periguete, desta vez ela estava mais para patricinha descolada, de tênis e um macaquinho de tecido fino.

—Estaremos de olho em vocês, aproveitadoras. Não pensem que vão conquistar a família toda. se depender de mim, farei da vida de vocês um inferno.

Mirela se aproximou lentamente da menina que pareceu assustada mesmo tentando não demonstrar.

—Belo carro. — Mirela falou em um tom que a garota se sentiu desconcertada sem saber ao certo o que aquilo significava. Mirela seguiu seu caminho para o hotel sem dizer mais nenhuma palavra.

A frase dita por ela em relação ao carro não tinha nenhum significado escondido, ela apenas quis demonstrar que pouco se importava com o que a jovem havia acabado de pronunciar. E pelo jeito havia funcionado, uma vez que Priscila havia se mantido em silêncio.