As vigaristas
4 Maiara
Notas iniciais

Assim que saiu do hospital, Maiara passou em sua loja de bolos que ficava bem perto do hospital ali no Jardim Europa. O bairro nobre atraia uma clientela refinada, nada com o qual ela não estava acostumada. Assim como Ana, Maiara veio de uma família rica, mas diferentemente da amiga, ela nunca teve afeto pela família. Adotada aos três anos, sempre fora tratada como se fosse uma intrusa na casa. No dia que o padrasto passou a mão nela pela primeira vez aos 11 anos de idade, a menina mudou drasticamente. Essa foi a primeira família que ela deu um pequeno golpe e fugiu com quase metade da herança deles aos 14 anos de idade.
Foi assim que conheceu Ana, fugindo. Ana escondeu Maiara na casa em que morava junto com Mirela e a mãe, acabaram todas ficando unidas. Que sorte Maiara teve. Diferente de Ana, Maiara era violenta quando precisava, aprendeu a não deixar homem nenhum fazer o que quisesse dela, e sabia se defender muito bem. Ninguém diria isso, se olhasse para a menina de vinte anos. Alta, corpo de modelo, magrinha, peito e bunda de tamanho médio, postura elegante, coberta de joias e roupas cor de rosa e branca. Típica patricinha, mas sabia bater como nenhuma das suas amigas sabiam.
Depois de passar instruções para seus empregados na loja, explicou que faria uma breve viagem e deixou a loja nas mãos deles. Chamou um táxi que não demorou muito a chegar e fez o trajeto de quinze minutos até o bairro vizinho , Vila Nova Conceição, onde morava desde que conseguira uma boa quantia para adquirir uma casa ali. Sua casa mantinha seus pertences, apesar de muita coisa ter sido levada ao hotel em que estava ficando no Rio de Janeiro. Entrou na casa com objetivo já em mente, pegou uma mala preta enorme e colocou dentro dela tudo que julgava importante para aquela nova missão com suas amigas. Estava animada pois não via a hora de terminar tudo com o velho chato com quem estava no momento.
Assim que terminou tudo, desceu com a mala para o andar de baixo discando o número de um taxista. Abriu a geladeira e bebeu um copo de água cheio.
—Agora sim a brincadeira vai começar. — Sussurrou para si mesma pensando no quanto poderiam tirar daquela família.
Mais quinze minutos e Maiara já estava no Jardim América. No seu chaveiro principal continha várias chaves, pertenciam as casas de cada uma delas e ela não hesitou em abrir o portão da enorme casa de Ana Cristina. A casa estava empoeirada e escura devido ao longo tempo vazia. Novamente objetivada, ela foi até o quarto da amiga e separou três de suas malas grandes para organizar tudo para a viagem. Aquilo demoraria, e mesmo ocupada, a sua mente vagava para um passado distante.
Maiara divagava sobre a sua casa quando morava com os pais adotivos. Com três filhos seus, e todos mais novos do que ela, Maiara sempre soube que achavam que tinham cometido o maior erro da vida deles adotando-a. Achavam que não poderiam ter filhos, mas logo em seguida da adoção vieram os gêmeos. Pouco depois a mais nova. Ela sempre teve a certeza que não era amada, as vezes até odiada. Quando conheceu Ana, já tinha passado por muita coisa na vida, já tinha visto coisas que nunca imaginou serem possíveis vindas de um ser humano. Logo ela estava agindo como eles também. Chegou a pensar que ela havia nascido para o mal. Ana a convenceu de que infelizmente o meio em que vivemos nos influencia. Ela acreditava que a vida fácil era a melhor forma de viver, e convenceu Maiara de que o que ela havia feito pegando o dinheiro dos falsos pais, tinha sido a melhor coisa de sua vida até então.
Mas Maiara nunca conheceu alguém melhor naquilo do que a mãe de Mirela. A senhora que mudava de nome todo santo dia, se chamava Madalena, quando Maiara a conheceu. Madalena ensinou como andar, como falar, como se mover, como enganar, como sorrir. Sua copia fiel era Mirela, com certeza. Todas ali tinham talento, mas sem duvida alguma Mirela se sobressaia. As vezes Maiara sentia um pouco de inveja por não conseguir casos tão bons quanto os da amiga, mas logo colocava na cabeça que Mirela era melhor do que ela nisso porque nasceu nesse meio, já ela havia começado apenas aos 14.
As três moravam em São Paulo e haviam se conhecido ali, mas quando a policia começou a procurar pela menina por causa do dinheiro levado, tiveram que fugir. Mudaram-se então as três junto com a mãe de Mirela, que agora se chamava Margarida, para a indonésia. Dos quinze anos aos dezessete moraram naquele lugar, foi quando adotaram a prática das perucas. Todas rasparam a cabeça e com todo o dinheiro que tinham, compravam sempre as melhores perucas.
Quando voltaram para o Brasil aos dezessete anos de idade, foi porque já tinham se metido em confusão no outro país. Um bilionário que gastou horrores com elas, queria agora acabar com a vida das moças. Foram direto para o Acre, a fim de se manterem escondidas e discretas. Eram todas profissionais no que faziam, agora. O que não sabiam era que a mãe de Mirela iria se envolver e algo muito diferente desta vez.
As memórias de Maiara foram interrompidas pelo som de seu celular tocando. Terminou de fechar a mala e pegou o celular colocando-o no ouvido e apoiando o ombro para segura-lo enquanto continuava fechando todas as malas.
—Oi querido! — Atuou.
—Oi minha princesa. — O velho do outro lado do telefone falava manso. — Estava pensando se aceitou o meu convite de conhecer meus filhos.
—Bom, eu pensei bastante e conversei com as minhas irmãs, elas podem ir junto?
—Suas irmãs?
—Lembra que eu te contei sobre ter irmãs? Então, pensei que eu poderia apresenta-las a você também.
—Será um prazer conhecer sua família.- O velho estava feliz do outro lado.
—Quer que eu mande passagens pra elas? — Ele queria agradar.
—Você faria isso? Estou sem tempo de ir resolver isso, estou resolvendo coisas da minha loja.
—Não há problema. Farei.
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