As vigaristas
1 Loft
Notas iniciais
P.s.: Os capítulos nunca passarão de muito mais que mil palavras.

Mirela sempre se pegava recordando de vagas cenas de sua infância da qual ela tinha muito orgulho e fazia bastante esforço para guardar as melhores lembranças de sua mãe. A lembrança que vinha na sua cabeça naquela noite era de uma roda de jogo de cartas em algum lugar do México. A menina não sabia bem o que estava em jogo naquele dia, porém lembrava-se da sua mãe junto de três homens e uma mulher, todos os homens fumavam e por isso o lugar cheirava a cigarro, álcool e poeira. Um dos homens gesticulava com uma arma na mão enquanto reclamava de algo, todos estavam de cara fechada. Mirela podia ver claramente a mãe sentada em uma banquinho de costas para ela, vestia um vestido justo e preto de renda, sensual e elegante com as costas nuas. Na mão direita segurava um leque de cartas e a mão esquerda estava apoiada em cima de uma arma em seu colo. Apesar de ter apenas quatro anos, a menininha sabia bem que aquilo não era um simples jogo entre amigos.
A moça colocou de lado todos os pensamentos sobre seu passado tão distante e levantou-se finalmente depois de longos minutos acordada. O colchão em que dormia ficava no meio de um enorme loft abandonado e consequentemente bem empoeirado. Mirela olhou em volta observando, além do colchão em que havia dormido, algumas caixas com coisas aleatórias pertencentes a ela, um fogão e um amontoado de lixo em um canto onde acumulava pacotes de biscoitos e coisas do tipo, que ela havia comido. Calçou o chinelo e se espreguiçou antes de se dirigir a uma das duas portas que haviam ali. Uma porta levava ao corredor do prédio velho e a outra levava ao banheiro. Foi até o banheiro e trancou a porta por dentro, mesmo havendo só ela de moradora ali. O cômodo era tão velho e acabado quanto o outro ou mais. A privada, a pia e a banheira eram velhas, imundas e rachadas. O lugar não fedia, mas era muito anti-higiênico, até porque fazia mais de dois meses desde que ela limpara alguma coisa. Mirela arrastou-se até a pia e encarou o armário pequeno que tinha apenas metade do espelho, abriu a porta quebrada e afastou a parte interna do espelho, revelando um pequeno teclado onde digitou alguns números. Silenciosamente atrás dela a banheira encardida moveu-se de lugar revelando uma escadaria escura para baixo, mas assim que a moça se aproximou uma luz branca acendeu revelando escadas limpas e com um porcelanato impecavelmente limpo.
Mirela observou em volta o seu outro loft que contrastava com o de cima. Todo clean e minimalista, além de uma atmosfera cheirosa e que esbanjava luxo. E era assim que ela mantinha uma vida dupla desde a morte de sua mãe. A luz entrava pela janela, e abriu-a e viu as cortinas esvoaçarem trazendo o cheiro de verde da cidade arborizada. Suspirou entediada. Passava das nove da manhã e ela sentia fome, foi então até a parte do loft que ela havia feito um quarto digno de princesa, abriu um grande armário que revelava um closet por dentro repleto de roupas, gavetas, cabides, calçados, bolsas e joias. Separou uma roupa e lingerie e foi para o seu banheiro, que diferente do de cima era totalmente iluminado, limpo e cheiroso.
Mirela costumava usar sempre as mesmas cores de roupa: Preta, branca ou vermelha. Desta vez optou por um vestido tubinho preto, tamanho midi de alças finas e uma sandália e bolsa da mesma cor. Finalmente escolheu seu acessório de sempre: Uma peruca. Desta vez um cabelo curtinho e preto. Se sentia sensual. Amava sua coleção de perucas, amava seu corpo, amava seu gosto para se vestir e se amava acima de tudo. Se admirou no espelho depois de passar um batom vermelho e lápis de olho preto e saiu pela porta de seu loft em São Paulo.
Sentada no banquinho e apoiada no balcão do refinado bar, tomando seu vinho, Mirela relembrava mais uma cena de seu passado. Não eram imagens clara, muitas das vezes, contudo algumas coisas eram cristalinas para sua memória. Desta vez ela podia ver sua mãe chegando de carona em um carro luxuoso para busca-la na escola pública.
— Minha querida, esse é o Simon. Ele vai nos ajudar, está bem? — Sua mãe sempre fora carinhosa, mas desta vez parecia ainda mais bondosa. Vestida de branco e com os cabelos sedosos caindo sobre os ombros, ela parecia um anjo.
Depois daquele dia elas ficaram por quase um ano com aquele homem que de repente chutou minha mãe para longe. Mirela era pequena demais para entender o que estava acontecendo, mas tudo indicava que sua mãe era a culpada do fim daquele relacionamento. Foi a partir dessa idade que a menina passou a seguir os passos da mãe, ao entender que quem não tem nada, tira de quem tem muito. Aprendeu que quem não tem cão, caça com gato. Ela só tinha seis anos, mas aprendia com facilidade o que a mãe ensinava e mais ainda o que observava.
Tomou outro gole significativo da bebida quente e observou seu reflexo no líquido. A pouca luz fazia ela se ver apenas como uma sombra. Reconheceu um cheiro de perfume masculino caro e como já era de costumo, manteve a postura sexy e olhou em volta sensualmente procurando o dono do perfume. Estava acompanhado por uma bela jovem, não que isso fosse problema para a jovem especialista em arrancar maridos das suas esposas, e principalmente: Especialista em arrancar dinheiro de homens tolos.
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