As vigaristas
3 Ana
Notas iniciais

Aos sete anos de idade, a mãe de Mirela encontrou mais um alvo de suas tramas. O plano era aproveitar do luto do homem e conseguir tudo o que queria. Tudo saiu como o planejado. Primeiro usou seu dinheiro acumulado dos casos anteriores para colocar a filha na escola que a filha do homem frequentava, por coincidência eram da mesma idade então estavam na mesma sala. Mirela já era grandinha e já entendia que se quisessem viver sem esforços, precisava cooperar com a mãe, por isso não hesitou ao se aproximar de Ana Cristina.
Mirela sempre teve a impressão de que a mãe realmente se apaixonou pelo pai de Mirela, e de que ele era louco por elas duas, mas isso não mudou o fato de que ele as expulsou assim que entendeu o plano. Ana era novinha ainda, mas também já entendia o que estava acontecendo ali, não que ela reprovasse.
Desde que a mãe de Ana havia morrido quando ela tinha três anos, que o pai tinha o foco em ganhar muito dinheiro, mas estava sempre perdendo-o. Mirela aos sete anos ensinou à colega de classe, e logo após meia-irmã, que se ela queria se manter sempre bem na vida, deveria se aproveitar dos que muito tem. Infelizmente Ana seguiu o péssimo exemplo de Mirela, e quando seu pai morreu com ela ainda tendo 13 anos de idade, ela embarcou nessa vida com a amiga-irmã.
—Ei, tenho um plano. — Maiara sentou an ponta da cama e Ana endireitou-se deixando o computador em cima da mesa.
Mirela viu que a amiga assistia ao desenho favorito delas: Lilo e Stitch. Sorriu sozinha e encontrou o olhar de Ana que sorriu de volta.
—Então, qual seu plano afinal? -Mirela perguntou.
—A morte é certa. Para todas nós. — Ela falou sem papas na língua como sempre. — E a Aninha está sendo a primeira a ir.
—Sutil. — Ana riu.
—Achei que poderíamos extravasar antes que ela se vá. Sabe, verdadeiramente ser feliz com o que fazemos. — Ela sorria animada e não dava espaço para falas. — Sabe o velho que eu to tentando faz alguns meses? Ele já está no meu papo. Enfim, ele tem filhos, sobrinhos, netos...Todos muito gatos. Eu estava pensando na gente se aproveitar de cada um deles. Tem vários pra vocês escolherem o que quiser.
—Amiga, sua intenção é ótima, mas lembre-se que estou internada.
—Você está bem melhor do que antes, está mais fortinha, mais rosada... Você pode conseguir ficar de pé nos últimos dias.
—Eu consigo ficar de pé, numa boa. Eu consigo fazer qualquer coisa. O problema é eles me liberarem. — Ana resmungou.
—Querida, desde quando nós não conseguimos tudo o que queremos com uma boa quantia de dinheiro? — Ela riu.
—Eu estou dentro. — Tamires foi a primeira a concordar.
—Eu já estou entediada mesmo e sinto falta de vocês. — Mirela não ficou pra trás.
Ana sorriu alegremente por ver as amigas unidas novamente e com os mesmos objetivos.
—Combinado então. Deem um jeito de em tirar desse inferno e quero o mais gatinho da família.
Comeram e se divertiram bebendo o vinho que Tamires havia trazido escondido na bolsa de grife. Os assuntos das quatro amigas era sempre dos mais variados possíveis, mas não desta vez. Desta vez conversavam sobre como seria o novo esquema delas, precisavam ser rápidas, o bom é que Maiara já estava cozinhando o velho fazia quase seis meses e tudo que ele mais pedia para ela nas últimas semanas, era para participar ais da vida pessoal dele.
Ana estava empolgada, não apenas pelo fato de que sairia do hospital depois de dois meses naquele lugar tedioso e que cheirava a morte, mas também porque viveria a sua última aventura com suas amiga. Agora só precisava manter a compostura de pessoa saudável, para que não preocupar as amigas. Assim que as três amigas se despedira, Ana correu até o banheiro e vomitou tudo que haviam comido. Não aguentava muito tempo com a comida no estômago, se ela fosse pesada. Piorou misturado ao álcool. Respirou fundo e pediu para a enfermeira lhe trazer uma comida saudável.
As meninas haviam combinado de vir busca-la no dia seguinte, dariam um jeito e ela iria embora dali. Precisavam ir para o Rio de Janeiro, era onde o velho namorado temporário de Maiara estava. Elas iam mudar para o hotel em que Maiara estava "morando" fazia seis meses (bancada pelo velho, é claro). Tudo precisava sair como o planejado, ou acabariam por se meter em confusão mais uma vez.
Ana arrumou as malas , tomou banho antes de dormir e fez uma oração.
—Pai, sei que sou toda errada e também vivo mentindo e enganando os outros, mas sei lá. Não é algo tão mau, é? Só quero morrer logo e em paz. Não tenho mãe, não tenho pai, não sou uma pessoa muito boa. Já conheci muita coisa no mundo e estou pronta para partir. — Ela suspirou pensativa ainda de joelhos ao lado da cama de hospital. — Protege a Mirela de não se tornar igual a mãe dela. Amém.
Ela se levantou da modesta oração e se deitou na cama pensando sobre aquilo. Sempre amou Mirela e sua madrasta temporária, mas sempre teve medo de que se tornassem como ela. Era uma excelente golpista, fazia de tudo por dinheiro e fazia bem. Sabia exatamente cada passo com cada tipo de pessoa. Mas ela não tinha princípios. Ana lembrava muito bem do dia em que ajudou em um plano que mal sabia que era para matar a mulher do homem. Elas obtiveram sucesso, mas a consciência de Ana pesou naquele dia e nunca mais fora a mesma desde seus 14 anos de idade.
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