As sombras da floresta sem fim
3 Diálogo sob o luar
Notas iniciais
Se alguém caminhasse seguindo a margem do lago à esquerda da clareira da druida, dentro de meia hora encontraria uma pequena cabana improvisada entre as árvores. Uma pequena construção de madeira cuja população máxima fora de três pessoas em outros tempos. Interiormente, abrigava uma cama, uma lareira de pedra e caixotes com os pertences do Ranger. Fora construída pelos ancestrais de Arne, os primeiros rangers da floresta sem fim, após terem sua presença aceita e permitida pelo druida vigente da época, era apenas um refúgio pouco utilizado, apenas para dormir, se alimentar e escapar da intempérie na floresta, pouco importante para os caçadores que podiam passar dias a fio dormindo sob a copa das árvores, perseguindo suas presas pela floresta.
Perto da cabana, às margens do lago, se encontrava a oficina de Arne. Nada mais era do que um telhado de palha impermeabilizada, sustentado por vigas que protegia mais caixotes (estes contendo materiais para criação e reparos do equipamento do caçador), uma fornalha, uma mesa de trabalho e uma pedra de amolar circular. Ferramentas pendiam do teto, presas em cordas com ganchos sobre a mesa de trabalho, prontas para serem utilizadas sem que o dono precisasse procurar por elas em gavetas ou caixas.
Três dias haviam se passado desde a visita de Arne à cabana de Luna. Ao ir embora, o rapaz tinha ido diretamente à oficina, se dedicando a uma rotina de trabalho intensiva. Fazia flechas e as estocava em caixotes antes vazios, tornando isso a única atividade de seu dia e noite, até que desmaiasse sobre a mesa por conta do cansaço, apenas para acordar alguns minutos depois e retomar seu trabalho, sendo esses os únicos momentos em que se permitira dormir nesses três dias. Sua alimentação consistia em correr até a cabana e pegar tiras de carne seca e beber um pouco da água cristalina do lago.
O incessante liberar de fumaça da fornalha podia ser visto de longe, como uma sinalização. Mesmo à noite, era possível ver o brilho do fogo como um chamariz de qualquer margem do lago, e esse brilho do fogo trazia também a sombra de Arne ocasionalmente, como um fantasma que deixava a jovem Druida preocupada em sua clareira, dia após dia vendo a oficina em funcionamento sem pausa.
POV Luna
Naquela noite, me sentei às margens do lago com os pés na água fria. Mais uma vez, pude observar o brilho amarelo da fornalha de Arne às margens do lago. Três dias inteiros sem descansar, a esse ritmo ele poderia até mesmo morrer em conta de exaustão... Argh! se aquele garoto sabia fazer algo, isso era me deixar preocupada.
Me apoiei na grama e me inclinei para trás, olhando para cima. Sem nuvens e sem muitas luzes que pudessem ofuscar minha visão, estrelas e constelações inteiras brilhavam no céu, iluminando a noite com sua fria e pálida luz, as mesmas estrelas das quais aprendi os nomes desde que era criancinha.
Atrás de mim, ouvi o farfalhar das folhas nas árvores, estas agitadas por uma gentil e fria brisa. O vento trazia a mim um cheiro que, junto do som das folhas secas sendo quebradas sob passos suaves, me trazia um sorriso. Falei sem precisar me virar para olhar.
– Não conseguiu dormir, velho preguiçoso? — falei, fitando o reflexo da lua na água parada do lago.
– Sua inquietação é transmitida pelo nosso vínculo mental, pequenina — meu guardião se sentou ao meu lado — e é uma noite bela demais para desperdiçá-la com tantas horas de sono.
– O que acha que está acontecendo com Arne? — perguntei, virando o olhar para Orion. O olhar do lobo estava fixo à lua.
– Algo aconteceu em sua ida à cidade. A floresta está sob ameaça — ele virou a cabeçorra pra mim, imagino que percebeu minha confusão — ele está fazendo flechas, mais do que usaria em um ano inteiro, como se pretendesse usá-las pra defender algo, e fica murmurando algo como "não é o bastante".
– Consegue imaginar algum motivo para ele ter escondido isso de nós?
– Imagino que ele tenha o feito para não te assustar — Orion se deitou no chão como uma esfinge, dobrado quase como um "c". Aproveitei a oportunidade para deitar-me, apoiando minha cabeça em suas costas enquanto ele me envolvia. O calor de seu corpo e a maciez de seus pêlos negros sempre me acalmavam.
– Ele pode se matar se não descansar, amanhã vou colocá-lo pra dormir — falei com um sorriso em meus lábios enquanto acariciava os pêlos de sua nuca. Ele levantou a cabeça e me encarou.
– Sinto que teve alguma idéia, pequenina.
– Folhas da árvore-vida possuem uma seiva diferente de seu tronco. Essa, quando seca, forma uma resina que pode ser raspada, se tornando um pó que induz o sono caso inalado ou ingerido.
– Eu nunca soube disso. Como descobriu? — ele me encarou com seus olhos negros, interessado. Fiquei feliz por saber mais que ele.
– Um livro de um druida bem antigo, no fundo do baú. Vou acordar cedo pra colher as folhas e preparar o pó — sorri, satisfeita.
– Então deve ir dormir, criança. Seu dia será longo amanhã — ele voltou a observar a lua.
– Orion, me conta uma história? — murmurei contra o pelo dele. Sob mim, sua barriga descia e subia com sua respiração. Ele colocou a grande cauda sobre meu colo, me envolvendo completamente.
– Sempre conto, pequenina. O que seus ouvidos desejam desse velho lobo? — Eu sempre gostei dos momentos em que ele agia de tal modo. Sendo criada desde bebê pela Druida, não conheci minha família original. Orion era minha figura paterna, o único que eu tinha para sentir como era ter um pai.
– Conte-me porque você tanto olha para a lua — com a cabeça dele próxima de minhas pernas, acariciei desde o espaço entre suas orelhas até seu pescoço.
– Posso dizer que olho para a lua ao pressentir tempos turbulentos, para procurar por orientação.
– O que sabe de tempos turbulentos, velho preguiçoso?
– Sei muito de tempos turbulentos, minha doce criança. Posso te contar muitas histórias da floresta sobre tais tempos, tempos sobre os quais você mesma ainda não leu em seus livros.
– Tempos turbulentos são histórias para outro dia, velho lobo. Hoje, quero ouvir sobre a lua — bocejei, me aconchegando enquanto senti o sono chegar.
– Ouvirá sobre uma bela dama, a deusa da lua. Acho que vai gostar, pequenina. Ela tem seu nome.

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