As pessoas salvam a si mesmas
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu disse que era “NPC sem interação”, que vive sua vida sem se importar com o que o rodeia. E o oposto também acontece, o que me rodeia não se importa comigo. Até os babacas que gostavam de tirar sarro da cara dos outros, não me notavam. Eu estava conformado em viver o resto do meu 2º ano dessa forma, ou melhor, o resto do ensino médio. Ou talvez da vida.
Mas como alguém que viveu sua vida em total ausência de luz. Ao ver o sol pela primeira vez, não verá a vida da mesma maneira. A escolha mais sensata seria falar com ela, nem que fosse só um “oi” e depois sair correndo com o rosto vermelho. Não, como homem, eu deveria ter uma atitude mais firme.
Porém fiz a pior escolha que poderia fazer. A escolha de não fazer nada. Não para honrar meu título de NPC sem interação, mas porque não tive opção. Eu odiava a minha voz, achava ela muito feia. Aquele dia era uma segunda-feira, então já fazia dois dias que não falava nada. Quando em casa, sempre ficava trancado no meu quarto.
A solidão era minha companheira e o teto, a minha paisagem. Se eu não tivesse que ir a escola, provavelmente ficaria trancafiado em casa, completamente isolado da sociedade. Exceto pelos cumprimentos meio obrigatórios com meus pais como: bom dia, obrigado pela refeição…
O sinal anunciando o fim do intervalo tocou. Era hora de voltar para minha sala de aula. Dei uma última olhada nela, e me dirigi a minha sala me perguntando em qual sala ela estudava. Já era a segunda semana de aula, e essa foi a primeira vez que a vi. “Como uma joia tão brilhante como ela passou despercebida por toda uma semana?” me perguntei. Bem, isso é possível, não é como se eu ficasse olhando para todo mundo por quem passo.
Sempre fui bom em matemática e física, em outras palavras, sou de exatas. Gosto de coisas que envolvam cálculo e raciocínio lógico. Infelizmente a aula que me esperava era a de literatura. Não que eu não goste de leitura, o que não gosto é de um hábito particular dos professores dessa matéria. Pedir para um aluno aleatório ler em voz alta um trecho do livro que está sendo estudado.
Fui um dos primeiros a chegar, os meus colegas ainda estava entrando. Me sentei no fundo da sala próximo a janela, já que estava no segundo andar, a vista é agradável e o vento sopra livremente. Não sentei lá só por causa disso, aquele era meu lugar no mapa da sala. Cada aluno tem um lugar só seu. E se ele por acaso faltar, a cadeira deve permanecer vazia. E é assim que esteve a mesa a minha frente durante toda a semana passada.
“Espera, o que eu pensei agora a pouco? Era algo como: ‘porque aquela garota passou despercebida durante uma semana?’. Pelo que me lembro, a pessoa que deve sentar nessa mesa a minha frente é uma garota, e ela faltou por uma semana… Não me diga que…” pensei. Depois olhei para a porta, e ela estava entrando na sala.
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