As palavras que não refletem seu coração

11 Capítulo 11 - Vou falar 'eu te amo' um milhão de vezes


Notas iniciais
No hospital, todas ficam sabendo da gravidade do estado de Yuzu. Uma pessoa especial na vida da gyaru aparece e tem uma conversa breve com ela. O clima fica pesado entre Mei e as outras meninas. Depois de tanto tempo, a herdeira dos Aihara volta a pisar no apartamento, e encontra uma mensagem comovente.

Já se passaram quatro horas desde que a paciente deu entrada na sala de cirurgia. A cada pessoa que sai do corredor, todas as cabeças se levantam, na esperança de ouvir que Yuzu está bem e que vai sair de lá sem qualquer sequela. Algumas das meninas estão quase desabando de sono, mas não querem sair do local antes de receber informações sobre o estado da amiga.

Preocupada com o avô, Mei pede a ele que retorne para a mansão, enquanto ela deverá fazer companhia a Ume logo para receberem as notícias sobre a cirurgia.

— Vovô, não se preocupe comigo. Você precisa voltar e descansar, não é bom para você ficar esperando aqui até tarde. Eu devo ir com minha mãe até o apartamento, não quero que ela fique sozinha na situação em que está.

— Tudo bem, Mei, leve o tempo que precisar. Assim que você quiser voltar para a mansão, ligue e peça para o motorista ir te buscar. E, Ume-san — o presidente se dirige à mãe das garotas —, assim que souber de notícias de Yuzu, me avise. Caso haja algo que eu possa fazer, não hesite em me informar ou avisar a Mei. Sua filha salvou sua vida uma vez, então chegou minha vez de retribuir. Arcarei com as despesas que forem necessárias.

— Obrigada, Yasuo-san! Deixe a Mei comigo, cuidarei bem dela, e sei que ela também cuidará bem de mim e de Yuzu.

O velho Aihara vai embora e se despede da avó das Taniguchi, que também vai embora por insistência de Harumin, enquanto todas as outras garotas ainda tentam resistir ao sono. Os pais de Matsuri chegam e encontram a filha na cadeira de rodas, mas ainda não podem levá-la embora, pois a garota deverá ficar mais algum tempo em observação. Lá, eles reveem Ume, sua antiga vizinha, e acabam descobrindo que a amiga de infância de Matsuri sofreu ferimentos mais graves.

— Sinto muito, Matsuri, mas não temos autorização para levá-la. Você ficará mais um dia aqui, até que os médicos digam que está tudo bem contigo. O Inori vai ter que ficar com a babá ou ir para a casa da sua tia enquanto isso. — Diz a mãe da garota.

— Bem, mesmo que me liberassem agora, eu não iria com vocês, papai e mamãe. Eu ainda espero por notícias da Yuzu! Ninguém saiu da sala de cirurgia para nos dar notícias dela. Eu vou ficar aqui com Taniguchi-senpai e todas as outras enquanto isso. Ah! Falando nisso, essa é Taniguchi-senpai! Taniguchi-senpai, esses são meu pai e minha mãe.

— Oh, então você é a famosa Taniguchi-senpai de quem a Matsuri tanto fala! — Diz o pai.

— Sim, sou Harumi Taniguchi, amiga e colega de sala da Yuzu. Muito prazer em conhecê-los!

— Matsuri sempre fala de você, é Taniguchi-senpai isso, Taniguchi-senpai aquilo. Se não é a Taniguchi-senpai, é a Yuzu-chan ou a Nene. Mas ela sempre toca no seu nome toda vez que... — A mãe de Matsuri é interrompida pela garota.

— Gente, parem com isso, você estão me fazendo passar vergonha na frente da senpai! Estão falando o que ninguém precisa saber! Vocês querem sujar minha imagem na frente de todo mundo? —A garota de cabelos rosa está com o rosto corado.

“Ah, pronto! A quem você quer enganar, Matsuri? Seus pais não precisam sujar sua imagem, você é expert em fazer isso sozinha! E desde quando você tem vergonha na cara, garota? Seus pais não devem ter ideia do que a senhorita apronta no tempo livre!”, ironiza Harumin.

— Ah, é? E que tipo de assunto ela aborda quando fica citando meu nome? — A caçula dos Taniguchi olha de soslaio para a garota de cabelos rosa.

— Quando ela... — A mãe fala mas é cortada por Matsuri.

— Não falem nada! Papai e mamãe, vão logo para casa, o Inori está esperando com a babá! Taniguchi-senpai deve estar cansada da bobagem que vocês falam! Tchau, voltem apenas amanhã para me buscar! Meu celular quebrou, então vou ficar incomunicável com todos, viu? Agora, vão! — Matsuri tenta se levantar para empurrar os pais para a saída do hospital.

— Ok, já entendemos! Amanhã viremos te buscar depois do trabalho!

Harumin observa que a garota ficou nervosa quando os pais quase revelaram suas conversas. “Odeio admitir, mas até que ela fica uma graça envergonhada! Matsuri, sua peste, não adianta bancar a inocente na frente dos seus pais, nós já sabemos quem você é!”. A melhor amiga de Yuzu acha engraçado ver o demônio de cabelo rosa provando do próprio veneno, e já quer saber o que tanto Matsuri fala da “senpai”.

— O que tanto você fala de mim para os seus pais, hein? Tá inventando algo sobre mim, ou falando mal pelas minhas costas? Se estiver espalhando bobagem, eu vou...

— Você vai fazer o que, Taniguchi-senpai? Se afastar de mim? Eu sei que você não teria coragem de fazer isso, afinal você se importa tanto comigo, só não quer admitir. Eu... mhmhmhmgnng! — Matsuri tem a boca tapada por Harumin.

— Quieta! Mesmo no estado em que está, você não para de falar bobagem, né? Xiuu! A única coisa que eu quero ouvir agora é notícias da Yuzucchi, não suas brincadeiras sem graça! Nem depois de ser quase morta por um carro você deixa de lado esses seus joguinhos bobos, né? — Harumin está com as bochechas coradas depois do que Matsuri disse.

—______________________

— Yuzu!

— Quem está aí? Achei que estivesse sozinha!

— Sou eu, seu pai.

— Papa? Mas como assim? Meu pai morreu faz tempo, nem lembro mais como era a voz dele. Não pode ser ele.

— Yuzu, você era muito nova quando eu parti. Mas acredite, sou eu, seu pai!

— Pera aí... se você está aqui falando comigo, quer dizer que eu... MORRI?

— Você veio parar aqui só por alguns minutos, para conversarmos. Sua hora ainda não chegou, por isso você não consegue me ver completamente. Digamos que você está entre a vida e morte neste exato momento.

— Por que está acontecendo tudo isso? E-eu fiz alguma coisa errada, estou devendo algo para alguém, fui uma garota muito ruim? Me explica, por favor, papa!

— Soube que ultimamente você não vinha se sentindo bem, que sua vontade de viver estava cada diminuindo drasticamente. Você sofreu uma decepção enorme antes de vir para cá, e é como se uma parte sua quisesse morrer do que aceitar viver longe de quem ama. Fora isso, alguém muito ruim quis te ver morta, e causou um acidente grave que te fez vir até aqui. Uma soma de acontecimentos ruins, para simplificar.

— Papa! É que aconteceu tanta coisa desde que você partiu! Mama ficou mal por algum tempo, começou a beber muito por conta disso! Mas logo ela caiu em si e viu que seríamos apenas nós duas, e não se deixou abater. Ela tem trabalhado tanto, coitada! Muitas vezes só volta no dia seguinte, de tanto trabalho... Eu não posso reclamar, pois tudo o que ela tem feito foi pensando no meu futuro. Ela se casou novamente, e eu ganhei uma irmã mais nova, chegamos até a mudar de casa. É uma história longa e complicada, sabe? Eu... ganhei alguém muito especial na minha vida, mas situações que fogem do nosso controle têm atrapalhado nosso relacionamento. Nós nos desentendemos, e acho que... isso contribuiu para que eu viesse para cá.

— Eu sinto muito por ter partido tão rápido, Yuzu. Assim que cheguei a esse local branco, me disseram que meu tempo havia terminado, mas que você e sua mãe teriam novas companhias. Queria saber se essas pessoas seriam capazes de fazer vocês felizes, e me disseram que sim, então pude ir partir tranquilamente. No seu caso, disseram que você seria responsável por fazer outras pessoas felizes, sendo que uma delas em especial teria a vida completamente transformada. Se você partisse, seria um verdadeiro caos, a começar por sua mãe. E essa pessoa especial de quem você falou... ela estaria fadada a viver num sofrimento sem fim.

— Eu... sei disso. Mas estou em dúvida se essa pessoa especial ainda me quer por perto.

— Ela quer, sim! Mas isolada, longe dos amigos, não dará conta do recado. Quanto mais você pensar em morrer, mais longe dela você ficará. Por isso, não é adequado você ficar aqui. Você vai voltar para suas amigas, sua família e esta pessoa especial, porém não será nada fácil. Devido às circunstâncias que forçaram você a vir para cá, é muito provável que vários dos seus relacionamentos tenham que recomeçar do zero.

— O quê? Como assim, do zero? Significa que todas essas pessoas sumirão da minha vida ou que todos os meus amigos se afastem de mim? Ah, droga!

— Eu até gostaria de dizer, Yuzu, mas não posso te adiantar o futuro. Não tenho poder para isso. Você vai ter que... — A voz do pai de Yuzu vai ficando cada vez mais longe.

— Espera, o que está acontecendo? Papa, por que você está tão longe agora? Não consigo mais te ouvir! — O lugar todo branco vai dando lugar a um local escurecido e frio, e o corpo de Yuzu sofre um forte espasmo.

—______________________

Piiiiii... Piiiii... Piiii... Piiiii...

— O pulso dela voltou!

— Ufa, que alívio, ela já estava quase partindo.

— Parece que ela ganhou uma segunda chance, pois é muito difícil alguém nas condições dela sobreviver a uma operação tão complicada.

— Até agora eu nunca havia participado de uma cirurgia difícil como essa, ela veio aqui quase sem sangue. Por sorte, conseguiram estancar o pouco que havia sobrado.

— O mais difícil até agora conseguimos contornar. Mas depois dessa cirurgia, vai depender muito dela.

“Que frio é esse, tão de repente? Agora há pouco eu não estava sentindo nada, agora parece que meu corpo está gelado e dormente... Eu queria acordar, mas alguma coisa me impede de abrir os olhos.”

Piii... Piiii... Piiiii... Piiiii...

—______________________

Finalmente, para alívio das garotas e da mãe de Yuzu, a porta do setor de cirurgias se abre, e de lá sai um dos médicos que atendeu as vítimas do acidente. Logo atrás, a equipe de enfermeiros sai com a maca e vários aparelhos, levando a garota inconsciente para o elevador.

— Oh, não! Mei-chan, é a Yuzu logo ali! — Ume se levanta e tenta ir em direção aos enfermeiros.

— Para onde estão levando a Yuzu? — Mei se exalta e tenta correr até a maca.

— Calma, calma! Ela acabou de sair da cirurgia e vai ficar por um tempo na UTI! — O médico responsável acalma os ânimos de todos ali na recepção. Todas as meninas ficam ansiosas pelas notícias.

— Bem, agora que todas estão calmas... Olá, sou o dr. Yoshiyuki Minami, responsável pela paciente Yuzu Aihara. Quem de vocês faz parte da família? — o médico olha para todas as pessoas aguardando do lado de fora da sala de cirurgia, e nota a apreensão no local.

Ume e Mei sinalizam para o médico, enquanto todas as outras garotas na recepção olham para o trio logo à frente. O que vem em seguida cai como uma bomba para todas, cujos olhos estão vermelhos pelas lágrimas vertidas até agora.

— Yuzu sofreu um grave acidente de trânsito, tendo sido jogada a alguns metros à frente de onde ocorreu a batida. Com a força do impacto, o capacete não conseguiu proteger a região da cabeça, e a queda no chão causou um trauma craniano que teve de ser operado às pressas. A perna esquerda e os dois braços estão fraturados, e, além disso algumas costelas também quebraram e perfuraram os pulmões. Foi bem difícil operá-la, pois as condições em que ela se encontrava quase impossibilitaram sua sobrevivência. Quase no final da cirurgia, o coração dela parou, e tivemos que reanimá-la por quase 10 minutos. Por muito pouco, nós não a perdemos...

— Não, minha Yuzu!! Por quê? — as pernas ficam bambas e Ume cai de joelhos no chão, as lágrimas pingando no chão. Mei fica chocada com o fato de Yuzu ter quase morrido. — O que... vai acontecer... com ela agora... doutor?

— Infelizmente, está em coma induzido e respira por aparelhos, e o estado é bem delicado. Se ela conseguir sobreviver — e esperamos que ela consiga — ainda corre o risco de ter perdido parte da memória, mas isso de modo temporário. Ainda deve levar um bom tempo até Yuzu recuperar as forças, o corpo dela sofreu um impacto violento. Lamento muito, mas estamos fazendo o possível. Agora só resta acompanhar o estado de saúde, ver como ela reage ao tratamento. Devo dizer que as coisas só não ficaram muito piores porque conseguiram trazê-la o mais rápido possível.

— Será que podemos vê-la? — Mei pergunta ao médico.

— Yuzu terá de ficar na UTI, onde uma equipe se reveza para dar suporte 24h aos pacientes. Porém apenas membros da família poderão visitá-la nos horários determinados pelo hospital, sendo cada visita restrita a duas pessoas e com duração máxima de 30 minutos. Como já passamos do horário estabelecido, posso autorizar apenas uma pessoa agora, por 10 minutos. Qual das duas se habilita?

Ume não pensa duas vezes e logo responde ao médico que irá até a UTI ver a filha. Mei queria muito ver como Yuzu está, mas sua consciência diz que ela não tem direito de visitá-la, não depois do que aconteceu na mansão de Udagawa. Pelo menos por enquanto, ela acha que é melhor não dar as caras.

— Eu vou. Q-quero ver m-minha filha...preciso tocá-la, v-vê-la com meus próprios o-olhos! Confesso que estou com receio de vê-la numa condição delicada, mas sendo mãe, eu preciso ter certeza de que ela está viva.

— Venha, me acompanhe. Sei que será difícil, mas peço que mantenha a calma, já que qualquer tipo de estresse no ambiente pode fazer muito mal à condição da sua filha e à senhora.

Os dois seguem então pelo corredor, sumindo das vistas das outras pessoas na recepção, até entrarem em um elevador. No segundo andar do hospital, numa sala de acesso restrito, os dois chegam à UTI. São vários leitos, um ao lado do outro, cada qual com seu maquinário: monitores de batimentos cardíacos, ventiladores mecânicos, desfibriladores, tubos e fios de alguma forma ligados aos corpos dos pacientes. Antes de entrar no ambiente cheirando a antissépticos e desinfetantes, Ume e o médico higienizam as mãos.

Algumas enfermeiras estão em volta de um dos leitos checando a medicação e ajustando os fios no corpo da paciente. O médico indica que a pessoa ali é Yuzu. Ume vai até o leito indicado e sente seu peito doer ao ver a condição da filha. Yuzu está com a cabeça enfaixada, um curativo acima do olho esquerdo e um colar imobiliza seu pescoço; o cobertor deixa à mostra apenas a parte do pescoço para cima.

A filha de Ume está imóvel, e os únicos sons que se ouvem são o bip contínuo do monitor e a respiração artificial provida por um dispositivo que está acoplado à boca da garota. Os cabelos loiros estão com alguns resquícios de sangue, os outros fios espalhados no travesseiro desconfortável. A mãe de Yuzu, num gesto lento, toca parte do rosto da filha com cuidado e começa a acariciar a pele que não está coberta pelas bandagens. Pouco depois, ela toca de leve a cabeça de Yuzu, tomando cuidado para não pressionar o local dos ferimentos.

— Yuzu-chan, por favor, resista! Já perdi seu pai, não posso te perder também! Por favor, não me deixe, eu sei que não vou aguentar... Você é uma garota forte, sabe encontrar um jeito para resolver qualquer problema, vai sair dessa também! Eu não sei o que aconteceu para você se envolver nesse acidente, nunca imaginei que um dia te veria numa cama de hospital, imóvel. Por favor, fique boa e volte para nós! Mei-chan não vai te perdoar se algo ruim acontecer! Ah, você não queria que a Mei-chan estivesse por perto? Ela está aqui no hospital, mas infelizmente só poderá te visitar amanhã!

Ume se abaixa e encosta sua cabeça na de Yuzu, na esperança de sentir algum movimento da garota. Nada de resposta.

—Minha filha, afinal o que você foi fazer na mansão do noivo da sua irmã? Eu sei que deve ter sido difícil ouvir a decisão da Mei, mas eu queria tanto que vocês tivessem resolvido isso com uma conversa. Mei-chan disse que vocês brigaram, mas ela não me disse o motivo. Nós três poderíamos tirar um dia para resolver tudo isso, fazer com que tudo volte a ser o que era antes, ou pelo menos algo próximo disso. Queria que as duas pudessem me contar seus segredos e sentimentos, desfazer esse clima ruim que ficou desde que se separaram... Espero que você acorde logo e faça as pazes com sua irmã.

A mãe de Yuzu fica em silêncio e gasta o restante dos dez minutos observando o rosto da filha.

—______________________

Todos as outras que estão na recepção ficaram chocadas com o estado de Yuzu, principalmente as meninas que ajudaram a loira a chegar à mansão dos Udagawa. Harumin, Matsuri, Nene e Shiraho choram, cada uma consolando a outra. Himeko, também em lágrimas, está em pé e com um olhar de preocupação em relação a Mei, que está sentada e com o rosto coberto pelas duas mãos.

Logo que recebeu a notícia do acidente por meio de Harumin, Himeko soube imediatamente que o plano de fazer Mei desistir do casamento com Udagawa não havia dado certo, devido ao intervalo curto entre a chegada da gyaru na mansão até a comunicação do acidente. A herdeira dos Momokino já sabia que o coração de Mei não era o mesmo do tempo em que eram crianças, mas não imaginava que a conversa com Yuzu teria durado tão pouco. Ela se pergunta sobre o que teria acontecido de tão grave na mansão para causar a saída rápida da loira do local.

O arrependimento e a culpa chegam como um golpe no estômago em Mei. Após ouvir sobre a gravidade do estado de Yuzu, cenas do que se passou na mansão do noivo surgem na sua cabeça. O momento em que a loira abre a porta e encontra Mei; Udagawa pedindo para que as duas conversassem sozinhas; a discussão que terminou com Yuzu ferida e indo embora; e as cenas do local do acidente, com as motos destruídas e um carro incendiado.

A ex-kaichou disse palavras horríveis para a gyaru, palavras que não poderiam ter sido ditas porque não refletiam o que ela realmente sentia em seu coração. Com o intuito de se afastar de Yuzu, Mei teve de apelar para um lado cruel, negando à loira qualquer chance de resolverem isso com a ajuda das outras amigas. A herdeira dos Aihara sequer pensou na possibilidade de contar aos pais sobre o relacionamento das duas, com o receio de que fossem vistas como aberrações.

A ojou-sama se lembra do que escreveu no “Livro de Estratégias para ser feliz com a Mei”, que Yuzu criou como um guia para o relacionamento das duas. Enquanto Yuzu sofria por ter revelado o relacionamento com Mei para Mana e Kanami, duas antigas amigas, a herdeira tratou tudo como um de seus desafios à frente do conselho estudantil. “Somos duas irmãs postiças que estão namorando. Como os outros aceitarão isso, é algo sobre o qual não temos controle. Não há uma resposta certa, apenas fazemos o que queremos fazer.” E logo depois, naquele mesmo dia, Yuzu a presentou com um anel. A gyaru, após a discussão na mansão dos Udagawa, retirou o acessório e pediu à Mei que esquecesse o presente, já que em breve ela receberia uma aliança do noivo.

E agora, como seguir em frente, sabendo que tudo o que deveria ser dito não foi? Como seguir adiante com o casamento, conforme os planos do avô, quando a pessoa com quem você gostaria de passar o resto dos seus dias está entre a vida e a morte?

Y-Yuzu, e-eu não queria... eu s-sou uma covarde... mesmo eu tendo escrito na carta... que não queria mais te ver, você foi atrás de mim. Quando eu disse que te odiava... e-eu não estava d-desejando seu mal... Eu só queria... que você seguisse seu caminho sem mim, que você esquecesse de mim... fosse livre e feliz. Eu fui... não, EU SOU extremamente estúpida por ter contribuído para que isso acontecesse! Por favor, não me deixe! Me perdoe! Mei fala, esperando que Yuzu ouça o seu pedido.

Matsuri ouve as palavras da herdeira dos Aihara. Tudo o que a menina de cabelo rosa sente no momento é o sangue ferver: como, depois de ter feito de tudo para ajudar no romance das duas, depois de Yuzu ter feito das tripas coração, Mei teve a audácia de expulsar a gyaru da vida dela, de humilhar a loira na mansão dos Udagawa? Como o gerente permitiu que tamanha crueldade atingisse Yuzu? Matsuri está quase partindo para a briga, mas Harumin percebe a tempo e segura a cadeira de rodas.

— Ora, sua estúpida Mei! Por sua causa, Yuzu-chan está lutando para sobreviver, depois de ter sido humilhada e se humilhado várias vezes por sua causa, sua desgraçada. Sua família não vale nada! Você pode ter todo o dinheiro do mundo, porém coragem é algo que você nunca vai poder comprar, idiota! Todas as outras meninas aqui ajudaram a Yuzu a chegar à mansão do gerente para te encontrar, fizemos de tudo para que você não descobrisse e estragasse o momento. Mas o que a pobre menina rica fez? Tratou a minha onee-chan tão mal e acabou com as esperanças da coitada, e agora vem pagar de arrependida!

Mei fica abalada com as palavras ditas por Matsuri, mas não reage aos insultos da garota de cabelos rosa. Ela apenas olha para o chão e escuta calada.

— Até sua amiga Momokino nos ajudou a chegar ao local onde você e o gerente estavam, porque ela também não estava aguentando te ver infeliz durante esse tempo todo longe da Yuzu-chan! Momokino e Shiraho-senpai mobilizaram os motoristas delas, e Taniguchi-senpai acionou a irmã dela e a Maruta para nos levar de moto. Viramos uma equipe para ver vocês duas felizes novamente, mas a toda certinha da Mei Aihara achou melhor garantir a herança do vovô dela indo ao altar com qualquer rico que o velho escolhesse!

Ao saber que Himeko teve papel no encontro, Mei levanta a cabeça e direciona um olhar de desgosto e decepção para a amiga de infância. Momokino fica triste pela reação da ojou-sama e espera esclarecer o ocorrido o quanto antes, mas sabe que quebrou a confiança que Mei havia depositado nela por todos esses anos.

Com o intuito de evitar uma confusão na recepção, Harumin pede a ajuda de Nene para afastar Matsuri dali. A garota de cabelos rosa é levada de volta para a enfermaria pelas duas, mas tenta resistir.

— Taniguchi-senpai, Nene! Me deixem ir dar uma surra naquela herdeirazinha de quinta! A Yuzu saiu da mansão do gerente como se tivesse sido enxotada! E ainda por cima, saiu com um dos braços machucados, por isso ela não conseguiu colocar o capacete direito! Agora, todas nós corremos o risco de perder a Yuzu-chan para sempre!

— Matsuri, aqui é um hospital! Você não vai armar nenhum escândalo, entendeu? Seu corpo não está em condições de fazer nada, e criar confusão com a kaichou não vai ajudar a Yuzu em nada! Se você quer partir para a briga com a kaichou, faça longe daqui e numa outra ocasião! — Harumin perde a paciência com Matsuri, segurando firme o braço da garota.

— Taniguchi-senpai, você está me machucando... aliás, machucando a pessoa errada! Você tem que me ajudar a dar estragar o rosto daquela desgraçada ali na recepção!

— Não, Matsuri, pare de gritar! Yuzucchi está em estado grave e tudo o que você pensa agora é em vingança? Por favor, não, não agora... respeite todos aqui, todos estamos sofrendo pela mesma pessoa! Já é muita desgraça para um dia só! Poupe-me de mais problemas!

— A Mei... A Mei não merece sofrer pela Yuzu-chan! O avô dela nem considera Yuzu parte da família! Olha o que aconteceu, tudo o que fizemos para ajudar as duas, NÃO DEU EM NADA! Todas as vezes em que essa desgraçada tentava impedir Yuzu-chan de se aproximar dela e ajudá-la, minha onee-chan insistia e acabava resolvendo tudo! E quando viu que a Yuzu-chan não serviria para os planos dela para herdar a Academia Aihara, ela simplesmente descartou minha onee-chan como um lixo qualquer! — Matsuri desaba no choro enquanto despeja sua raiva sobre Mei.

— Matsuri, por favor, escute Taniguchi-senpai, deixe sua raiva para lá, pelo menos enquanto Yuzu-senpai estiver aqui. Nós todas trabalhamos juntas para ajudar Yuzu-senpai a convencer Mei-san a desistir do casamento. Não deu certo, mas pelo menos ajudamos de todas as maneiras, e a senpai pelo menos pôde ouvir a resposta da boca da irmã dela. Agora, temos que juntar todas as nossas forças para fazer Yuzu-senpai ficar boa! Ofender e causar escândalo não vão adiantar! — Nene agarra o colarinho de Matsuri, que se cala. Uma enfermeira vem e leva Matsuri para um quarto na enfermaria, livrando as duas outras garotas de ter que lidar com mais um problema.

—______________________

Passos são ouvidos no corredor, e médica aparece e para na frente de todos, com algumas anotações numa prancheta. Todos os olhos se voltam para ela quando os nomes são anunciados.

— Algum familiar ou amigo de Mitsuko Taniguchi e Kayo Maruta? Estou aqui só para atualizar o quadro de saúde das duas.

— Ah! Eu estou esperando notícias das duas! — Harumin levanta o braço.

A médica chega perto de onde Taniguchi está e dá as informações sobre o estado das duas jovens.

— Mitsuko Taniguchi fraturou a perna e o ombro, ambos do lado esquerdo. Além disso, ela fraturou algumas costelas com a queda, mas por sorte os pulmões não sofreram nada. Provavelmente ela terá de ficar internada por alguns dias, para monitoramento. Já Kayo Maruta fraturou a perna direita e o braço esquerdo, além de uma contusão no pescoço que exigirá o uso de um colar cervical. No geral, as duas precisarão de repouso e não poderão se mover sozinhas por algumas semanas. Não notamos nada de grave nos exames, porém vocês só poderão visitá-las a partir de amanhã, quando elas estiverem acordadas.

— Oh, ainda bem! Os Maruta estavam a caminho daqui, vou avisá-los sobre o estado da filha antes de eles chegarem. Obrigada, doutora.

No mesmo momento em que a médica retorna ao expediente, Ume volta da UTI e vai até a recepção falar sobre Yuzu para as outras meninas. Ela percebe uma certa tensão no ar, com um clima estranho entre as garotas.

— Ah... aconteceu alguma coisa aqui? Vocês todas parecem tensas...

— Não, mamãe, não aconteceu nada. É apenas impressão sua. — Mei tenta disfarçar.

— Oh, já que você diz...

— Ume-san, e como está a Yuzucchi? — Pergunta Harumin.

— Ela... está praticamente imóvel, recebendo ajuda de aparelhos para poder respirar até que os pulmões e a cabeça estejam em boas condições. Mas é muito chocante ver a Yuzu, que sempre esteve cheia de vida, ligada a tantos fios e máquinas. Eu mal consegui ver o rosto da minha filha! Não tem como saber quando ela sairá do coma... Os médicos dizem que agora depende dela... E o risco de ela não aguentar é alto... Não sei mais como vou enfrentar os próximos dias, naquele apartamento vazio.

— Mas não há nada que possa ser feito? — Himeko pergunta.

— Meninas, enquanto a Yuzu estiver na UTI, o máximo que vocês poderão fazer é torcer para que ela melhore para sair do coma. Infelizmente, apenas a família poderá visitá-la durante esse período. Eu e a Mei poderemos manter vocês informadas.

— Hmmm... Aihara-san? Será que você poderia me informar também? Gostaria de visitar a Yuzu assim que ela estiver melhor. Eu prometi a sua filha que estaria esperando aqui do lado de fora. — Megumi pede a Ume para informá-la sobre atualizações do estado de saúde da gyaru.

— Claro, Megumi! A Yuzu vai adorar ter uma nova amiga! Por favor, me passe o número do seu telefone!

Enquanto isso, Mei está concentrada em seus próprios pensamentos, receosa de que Yuzu não a perdoe por tudo o que aconteceu. “Tudo o que a Matsuri disse é verdade. A Yuzu reuniu toda a coragem para me fazer desistir do casamento, e eu a tratei da pior maneira possível. Agora ela está aqui, em cima de uma cama de hospital e inconsciente. Como vou encarar o vovô, Udagawa-san, mamãe e todas as outras? Quando a Yuzu acordar, ela não vai me querer por perto, nunca mais”.

— Mei-chan? Você me ouviu? — Ume tenta chamar pela herdeira dos Aihara.

— Ahn? Desculpe, eu estava pensando em um monte de coisas... O que você disse, mamãe?

— Todas iremos embora. Você vem comigo, não é?

— Sim, eu irei com você.

— Você não vai se despedir das outras meninas?

Mei olha para o chão, enquanto todas as outras notam que não há clima para falar com a ojou-sama. Ume percebe que o clima está pesado.

— Acho melhor irmos direto para casa, precisamos descansar. Podemos logo pegar um táxi? — Mei pede e Ume chama por um carro na entrada do hospital. Todas as outras meninas vão para casa, sendo levadas pelos carros de Himeko e Shiraho.

—______________________

Koichi estaciona e chega à recepção, onde encontra a irmã esperando num dos bancos próximo à entrada.

— Megumi! Vamos!

— Ufa, ainda bem! Depois de tudo o que aconteceu hoje, eu vou precisar dormir bem.

— Mas o que aconteceu contigo? Essas roupas estão manchadas de sangue!

— Ah, esse sangue não é meu, eu apenas ajudei a socorrer uma garota enquanto o resgate não chegava.

— E a sua bicicleta?

— Eu dou ela como perdida, já que eu tive que largá-la no local do acidente. A essa hora, a polícia deve ter catado e recolhido com os destroços do acidente. Mas ela já tava velhinha mesmo, então...

— E o que aconteceu com todo mundo que estava envolvido no acidente? A mamãe viu o noticiário, mas não deram muitos detalhes sobre o que ocorreu.

— Quem causou o acidente morreu no local carbonizado. E as garotas sofreram bastante. Três delas escaparam com fraturas, mas a que ajudei estancando o sangue corre o risco de morrer. É triste, pois antes de ser socorrida, ela me confundiu com a irmã dela. Acho que as duas têm algum tipo de assunto não resolvido e acabaram brigando feio antes de uma delas sofrer o acidente. A Yuzu, como é chamada essa menina que está em estado grave, está na UTI em coma induzido. Pedi à mãe dela que me informasse sobre o estado de saúde nos próximos dias.

— Que situação triste. Imagina se a irmã morrer antes de resolver o conflito com a outra?

— Sim, mas senti que havia algo diferente no caso das duas. De repente o clima entre a irmã da Yuzu e as outras garotas ficou tenso. A Yuzu estava querendo ver a irmã o tempo todo, mesmo antes de ser operada. Não é uma briga comum entre irmãos.

— E o que seria uma briga comum entre irmãos? Se é que isso existe.

— Não sei te explicar, mas fiquei curiosa para saber o que aconteceu entre as duas. Espero que a Yuzu se recupere para me explicar.

—______________________

Ume e Mei chegam ao apartamento exaustas e logo se sentam no sofá, uma sem saber o que dizer a outra. De repente, a mãe se levanta e vai até a geladeira pegar uma lata de cerveja.

— Você não deve ter comido nada até agora, não é, Mei-chan? Eu acho que deve ter algo aqui para você.

— Sim, eu não tive tempo para fazer uma refeição na mansão do meu avô. O que você tiver está de bom tamanho.

— Ah... — Ume engole o choro quando abre o congelador. — A Yuzu... ela havia feito o curry que você adora, mas ela fez mais do que precisávamos, daí sobrou um pouco e ela congelou. Vou colocar ele para esquentar...

— Eu agradeço.

— Mei, vá tomar um banho quente. Pegue algum pijama da Yuzu no guarda-roupa. O curry ainda vai demorar para descongelar, então é melhor aproveitar para relaxar um pouco.

Depois de tanto tempo, a herdeira dos Aihara entra no antigo quarto e se surpreende por ver um espaço vazio onde as coisas dela ficavam. Desde que Mei saiu do apartamento, Yuzu ainda mantinha as esperanças de ter a garota de volta, por isso achou melhor não ocupar o espaço extra. Kumagoro está em cima da cama, no lado que era da ojou-sama. Todo o espaço que Mei deixou estava lá, intacto, esperando a ocupante original voltar.

A garota abre a gaveta do guarda-roupa e escolhe um pijama. O perfume da gyaru se espalha pelo ar, trazendo lembranças e lágrimas. Na mesinha de chão, os livros e cadernos com os exercícios estão espalhados como uma prova de que a loira vinha se dedicando muito aos estudos. Mei se abaixa e dá uma olhada nos materiais, até se deparar com uma folha em especial.

"Mei, quando será que você volta? Assim que você pisar de novo em casa, vou te dizer ‘eu te amo’ um milhão de vezes, mesmo você sentindo o mesmo e não tendo coragem de falar isso para mim!”

— Yuzu...

Notas finais
Olá! Desta vez, não demorei muito! Obrigada a tod@s por lerem esta fanfic! Fiquei até animada para fazer outra sobre Citrus, mas seriam one shots, uma série de histórias curtas sem seguir uma ordem ou um único enredo. Além disso, talvez eu crie uma fanfic sobre Bloom Into You (Yagate Kimi ni Naru), só que eu vou precisar reler o mangá. Acho que devo demorar um pouco mais para lançar o próximo capítulo, pois tive que apagar uma grande parte do texto para reescrever. Até lá, leiam as outras fanfics, mostre seu apoio aos autores! ;)