As marcas da minha vida
2 Coração e Alma
Notas iniciais
Claro que não, embora seja quase impossível desviar de cada uma das gotas, se acontecer terá que ocorrer de uma maneira um pouco mais simples. Não pego um resfriado com tanta complicação.
Mesmo que tudo apontasse que a chuva em breve cessaria, meus pensamentos foram contrariados, a garoa logo estava pegando o impulso e ficando mais forte. Querendo ou não estar naquele frio congelante, citei:
– Acho que não, não sou muito vulnerável a resfriados.
Embora nada disso seja total relevante para o que o final estava reservando, lembrei com quem eu estava falando, e também lembrei que não desistiria fácil.
Ele logo notou a deixa para falar e avançou com seu comentário nem um pouco evasivo.
– Muita confiança no falar não acha – Ele sorriu sarcasticamente – Espero que não venha me pedir pra cuidar de você quando estiver doente.
– Mas se em algum caso eu estiver resfriado, você estaria lá para cuidar de mim? – Perguntei calmamente como se esperasse um não de resposta.
Não sei o motivo que me impulsionou para frente para comentar tal coisa, mas o que eu sabia era que a resposta definiria o que os meus pensamentos já estavam tramando, embora o conhecesse há tempos ainda podia afirmar que estava querendo conhecer cada vez mais, cada dia mais. E sem nenhuma prova pra confrontar tal ameaça deixava meus pensamentos seguirem rumo ao desconhecido, precisava de algo mais simbólico do que qualquer outra coisa, uma resposta, direta ou não, mas continuando a ser uma resposta, era tudo o que eu necessitava naquele momento.
E foi tudo o que eu recebi da melhor maneira que eu podia imaginar, tão direta que não acreditei nos primeiros segundos, e tão calma que um sorriso surgiu no meu rosto sem nem ao menos pensar em algo. Mas o que veio me silenciou por certo tempo.
– Sim, eu estaria lá pra cuidar de você, dia e noite sem cessar. – Um simples sorriso se formou em meu rosto e ele foi retribuído com um aperto mais forte em meus ombros.
– Então espero que cumpra a sua palavra se isso acontecer... – Retribui o sorriso. Era algo tão natural de se fazer que ás vezes eu mal podia imaginar que estava sorrindo até perceber que tinha alguém me retribuindo o mesmo.
Seguimos por alguns metros em total silêncio, podíamos escutar apenas o som distante de gotas caindo.
– Então baixinho... Sabe que quando chegarmos, a Joyce vai ter um treco depois de um ataque de fúria conosco né?
– Eu sei disso gigante, eu sei muito bem disso.
O caminho era longo, mas não árduo. O sol finalmente se mostrava por trás do imenso véu de nuvens ralas. Tão finas que se o vento soprasse um pouco mais forte, elas desapareceriam, mas não tão finas ao ponto de não conseguirem se juntar novamente e formar uma nova garoa.
O tempo estava tão suave que o menor movimento poderia estraga-lo. Mas mesmo pensando assim não impedia-nos de andar tão livremente sobre a área que desejássemos sem precisar nos preocupar. Era outros olhos, uma nova vida, um novo caminho. Não importava o quanto precisaríamos nos esforçar para um dia alcançar uma meta, ele sempre estaria ao meu lado e eu ao lado dele.
– O tempo é algo engraçado.
Ele tentou conter o riso, mas não conseguiu.
– Porque seria? – Disse tentando manter-se sério ao máximo.
– Porque sempre que tentamos entendê-lo, ele nos vem com novos enigmas. Desde como e por que nós existimos, até a razão primordial da criação do fogo. Logo isso me lembra de outra coisa interessante...
Comecei a andar sobre um caminho de madeira, sabia até onde ele me levaria, e aquele caminho era o ideal para falar o que havia passado pela minha cabeça.
– Posso saber o que é?
– Claro. Porque não deveria?
– Besta demais...
– Disse algo?
– Nada sobre nada.
– Foi o que eu pensei...
O caminho terminou, existia uma ponte nele para que todos conseguissem atravessar o rio sem ter nenhum problema ou até mesmo dificuldade. Mas existiam algumas pedras, e da mesma maneira era possível atravessar por elas.
– Acompanhe o meu raciocínio, ok? Se hoje fossemos chamados de filósofos pré-socráticos ou naturalistas, para melhor compreender, a qual elemento você acha que eu deveria me dedicar?
– Sempre amaste o ar não é mesmo?
– Tens razão. O ar... Pneuma, como diria Anaxímenes. A conclusão, aquilo que deu origem ao mundo e aos outros elementos.
Parei sobre uma das pedras. Tentei me equilibrar ao máximo. Estabilizei no ar nas pontas dos pés com os braços abertos.
– E se eu não gostasse tanto assim do ar...
– Você é fogoso, então fogo deve ser o seu elemento.
Ele riu de tal comentário, um comentário insolente que também me tirou algumas risadas.
– Heráclito afirmava que tudo muda, e que podemos confiar em nossas percepções sensoriais. E como sempre, existia um elemento que era a origem de todas as coisas.
– E dessa vez ele afirmou que era o fogo?
– Exato.
– Mas o seu não é o fogo? E muito menos o ar?
– Certamente.
– Qual nos resta?
– A água.
Segurei uma pequena pedra, girei a mesma e a arremessei. Quicou cinco vezes na água e afundou.
– Tales de Mileto afirmava que a água é o principio de todas as coisas.
– E você concorda com isso?
– Sim. Afinal de contas, em tudo encontramos água.
– E se você é a água. O que eu sou?
– Não te classificaria como um simples elemento.
– Então como o que me classificaria?
Saltei para o outro lado do rio, a última rocha era um pouco mais afastada desta beira.
– Anaximandro.
– O que tem ele?
– Você se encaixa perfeitamente com ele. Não um elemento. Mas os mundos seriam infinitos em sua perpétua inter-relação...
Silenciamo-nos por alguns longos minutos. E deixamos que o som dos poucos pássaros na distância fossem os únicos a serem ouvidos.
O que será que estão fazendo neste momento?
– Ei...
– O que? – Respondi sem muito ânimo.
– Nada de ser filosofo aqui dentro. Essas suas respostas loucas podem causar confusão.
Rimos um pouco e paramos na porta de casa, entramos esperando que o tempo estivesse do nosso lado e todo mundo estivesse dormindo.
– Vocês não acham que já chega de sair altas horas da noite e só voltar no outro dia? – Ela tentou parecer calma e serena, quando na verdade estava demonstrando uma expressão de raiva e desgosto. Ninguém queria dizer isso para ela.
Não parecia que todo mundo estava dormindo.
– Não me sinto incomodado com isso... – Ele disse com uma expressão serena.
E ele não queria aumentar a conversa.
– Muito menos eu... – Prossegui de forma pacifica com ela.
Sorrimos, deixamos tudo de lado e continuamos a andar até o quarto. O que foi totalmente errado para o momento.
Ela arremessou uma panela na nossa direção, a mesma chocou-se com a porta no momento em que ela estava fechando.
– Porque está com tanta raiva deles Joyce?
– Não deveria estar?
– Só acho que os dois são grandinhos o suficiente para cuidar do próprio nariz. Não precisam de alguém como você querendo controlar a vida deles como se fossem cachorrinhos...
Péssima escolha de palavras...
Ela arremessou tudo o que estava ao alcance de sua mão, e as coisas que não estavam próximas o suficiente, ela dava um jeito de aproximar o suficiente para agarrar e arremessar contra mim.
Todos temiam ao que ela podia fazer quando estava irritada. Coloquei-me entre o sofá e ela. Os dois haviam acabado de voltar por causa do barulho.
– O que está havendo?
Não era impossível de notar que o Clark estava realmente interessado em saber. Ele tem 1.76 de altura, olhos azuis, corpo atlético, cabelos pretos. Alguém que se enturmava fácil, e era por isso que estava conosco nessas loucas férias de verão. Dezessete anos, mal dava para acreditar nisso...
– Ela deve estar de TPM como sempre, vamos embora Clark. Há coisas melhores para fazer do que observar esse Godzilla destruir a sala de estar...
Christopher, 19 anos, corpo atlético, olhos verdes, cabelos vermelhos como fogo. Pensei que era tintura, até ver que aquilo tinha durado longos anos. Um pouco ignorante e bruto. E totalmente desinteressado com assuntos alheios.
– Sumam os dois daqui.
Joyce disse com uma voz fria e calculada. Ela queria mata-los naquele momento. Eles saíram da sala. Não sem se permitirem lançar um olhar questionador para mim antes disso.
Depois miraram nela, ela parecia agora aflita, um pouco inerte no próprio mundo. Eles fecharam a porta para sair novamente da casa. Estamos aqui há apenas três dias, e tudo parecia caminhar tão bem. Detesto quando não estão todos reunidos. É impossível manter a ordem assim.
Ela olhou para mim com olhos pensantes. Sem nunca se desviar do que realmente queria. A garota loira finalmente demonstrava algum sentimento. Logo ela falou, removendo uma mecha do rosto para trás da orelha.
– Isso tudo vai acabar apenas em amizade, não é?
– Senti uma pontada de ciúmes vindo dessa sua pergunta. O que tanta receia sobre eles?
– Eu cresci junto com eles, eu estive comemorando cada conquista deles. São os meus melhores amigos, e... Eu não sei como reagiria se eles estivessem juntos...
– Então... De qual dos dois você gosta?
Por um breve momento todas as vozes se silenciaram. Ninguém sabia que ali ocorria está conversa, mas por alguma coincidência, nenhum som foi feito. Era como se estivessem esperando a resposta para poder voltar ao som ambiente.
– Porque acha isso?
Hesitação, ela realmente achava que em algum momento ninguém perceberia?
– Acho que em breve vou descobrir quem é... – Levantei-me, e andei até a varanda. – Só espero que não se decepcione e isso não atrapalhe a amizade de vocês.
Observei-os se distanciando lentamente. Devo ir busca-los? Sim... Parece que é necessário nesse momento.
– Joyce... Irei atrás deles. Avise ao Pietro e a Clarisse quando voltarem que podemos nos atrasar.
– Certo... Cuidado Klaus – Deixou que os olhos buscassem algo no chão. Ou apenas desviar o olhar.
Preocupação e medo. O que ela realmente acha que está acontecendo por aqui?
Segui o mesmo caminho que eles, por um segundo olhei para trás e vi que ela havia parado de fazer tudo para me olhar. Desculpe, o tempo é algo incontrolável até mesmo para nós.
Abri a porta e me atirei no mundo...
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