Notas iniciais
Iniciamos aqui a comunicação com o leitor, estou vivo. Fim da transmissão.

Não importava quantas vezes repetiríamos aquela cena... Sempre que encontrávamos com ela, ela reagia irada. Mas isso acontece... Apenas quando estamos juntos...

– Para onde iremos?

– Quero ir dar uma olhada no rio, se não se importa claro. Apenas parar por ali durante alguns instantes. Nós levamos apenas cinco minutos para chegar, voltamos em quinze minutos. Nesse tempo ela estará calma.

– Compreendo, vamos. Não existe muito por aqui.

Continuamos a seguir tão levemente naquele caminho esverdeado, nenhuma árvore, plantas rasteiras. Suspirei. Era um novo tempo para mim. Era uma nova vida.

Escutei passos apressados, olhei de relance e percebi que o Klaus se aproximava, o garoto loiro era persistente nesse tipo de caso. Decidimos espera-lo.

– Quero conversar com vocês dois.

– Estamos ouvindo.

– Voltem.

– Estamos indo para o rio, você vem? – Usei meu melhor tom de descaso, era inútil continuar com conversas assim.

– Por favor... Clark?

– Não estou muito interessado no momento. Tente novamente mais tarde.

– Dois idiotas.

– Vai à frente baixinho, já te acompanho.

– O.K.

Não era a primeira vez que pedia para que ele seguisse só... Mas esperava que aquela fosse à última. Tentamos deixar toda aquela situação o menos constrangedora possível. Entreolhamo-nos, vimos que ele não estava mais ao alcance do olhar.

– Então... – Comecei calmamente, sabendo aonde ele iria me levar nesta conversa. Sempre acontecia. Era inevitável.

– Você sabe como isso vai terminar não é? – Assenti. – Então não preciso fazer nenhum arrodeio. Afaste-se dele.

– Se não precisava fazer nenhum arrodeio, logo descartou todo o nosso papo interessante? Já tinha até criado novas respostas.

– Não seja sarcástico. Não é hora nem lugar para isso.

– Interessante saber como a fragrância do mundo pode mudar de uma hora para outra não é mesmo?

– Você e o seu modo de tentar expressar as coisas do mundo com termos e comparações que ninguém ousaria.

– Mesmo? Nunca me consegui ver fazendo algo deste tipo...

Mas isso era porque eu o via fazer... Tentar contornar todas as situações daquela maneira, achar explicações totalmente descomunais. Ou até mesmo fora do contexto atual. Um pouco antes de entramos na casa, ele brincava com os filósofos pré-socráticos... Acho que posso ter sofrido certa influência que nunca reparei antes.

– Misterioso e perdido... Diga-me como a fragrância pode mudar...

– O aroma tende a mudar conforme o momento, nas guerras ele cheira a terror e morte, na paz, a falsidade e alegria. Aromas distintos e perceptíveis. Embora o que sentimos seja a falsa ilusão do que o mundo quer que tenhamos em mente.

– Está dizendo que nesse momento um aroma tomou conta deste lugar em que estamos?

– Exato. Compreende rápido!

– E qual seria? – Virou o rosto como um gesto de desprezo, seria mais fácil ter virado as costas, pararia de falar no mesmo instante. – Apenas por curiosidade, claro.

– Desprezo e infantilidade.

Tentei dar um sorriso, mas era impossível no momento. Ele por sua vez sorriu, ironicamente. A alegria que aquele sorriso esbanjava deveria ser um ódio petrificado daquele coração ambicioso.

– Você acabou de me mostrar um novo modo de menosprezar as pessoas. Obrigado. Agora preciso que volte comigo.

– Tranquilamente voltarei, deixe que ele descanse a mente um pouco.

– Não importa o quão à-toa ele é, precisamos que ele volte conosco.

– Primeiro, ele não é inútil. Segundo, não venha me dizer o que devo fazer ou não. E por último, procure o seu lugar. Eu não vou voltar, pelo menos não agora. Não depois dessa insinuação desprezível.

– Christopher, existe algo de errado com você nesses dias. Chegamos aqui na segunda, e agora no sábado é que eu realmente posso te dizer isso, você mudou. O que você quer talvez não esteja ao seu alcance. Ele... Ele não te pertence cara.

– Então quer dizer que não posso mais proteger quem está ao meu lado?

– Proteger ele de que? Ainda não encontro ameaça viva que possa encostar ele ou até mesmo atingir fisicamente...

– Tenho várias coisas a admitir. Ele é bom em lutas, é inteligente. Sempre disposto a ajudar os amigos e companheiro o suficiente para nunca voltar atrás. – Respirei fundo e continuei em um tom brando. – Mas não quero proteger do que existe ao redor de nós. Quero protege-lo de si mesmo, quero que ele direcione os pensamentos ruins dele para mim. – E em último ponto minha voz se assemelhava a um grito – Desconte a raiva do mundo em mim...

Diminui o tom de voz, não imaginei que estivesse tão alto. Ele poderia ouvir.

– Você o conhece tão bem quanto eu... Entenda...

Virei às costas para ele, pude escutar claramente passos se afastando e comecei a caminhar no mesmo caminho que o Clark havia percorrido. No final ele levava á um pequeno rio. Mesmo assim era bom vê-lo mais uma vez.

O rio que desagua os sonhos. Não simples sonhos, mas os meus sonhos. Ele riu timidamente. Você acreditaria em alguém que dissesse isso? Pois bem, eu acho que não. É tão estranho quando parece que todas as coisas cooperam para o nosso mal, e que as pessoas maldosas desse mundo são tão mesquinhas. E as soberbas? Não gosto de me referir a elas. Têm vontade própria para prosseguir? Realmente. Essa é a melhor maneira não é mesmo?

Ele havia me dito isso uma vez. O que eu tentava proteger... Era a mente dele... Não poderia deixar que ele se apaixonasse pela Joyce de tal maneira que reativasse os últimos sentimentos dele...

Avistei o rio. Parecia ter se alargado um pouco desde a segunda-feira, mas isso era devido ao fato que o barranco havia deslizado para dentro do mesmo. Ele podia ser pequeno, mas era fundo, e sua água, quase transparente, era de impressionar qualquer um. Já havíamos visto algumas cobras por ali. O que nos afugentava no mesmo instante. Embora o rio ficasse muito abaixo de onde ficávamos para olhar. Medo besta. Dois covardes em meio ao medo desenfreado de morrer envenenado.

Ele se encontrava no mesmo lugar de sempre, sentado, admirando a vista até onde a sua visão se estendia. Tão simples e inocente.

Eu quero proteger você da sua loucura interior...

Então será o meu guardião?

Até os confins da terra...

Sorriu tão desanimadamente que senti pena no coração, coloquei-me em seu lugar e vi, que ás vezes os sentimentos são mais destrutivos que as ações.

Notas finais
Ah, para dúvidas, esclarecimentos e tentativas de destruir suas especulações de como a história vai seguir, só me procurar. E então, o que acharam desde capítulo? *-*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.