Notas iniciais
Peço desculpas pela demora, aí segue mais um capítulo, espero que gostem. Com amor, eu.

A ambulância chegou em poucos minutos, eu escutava sua respiração fraca e lenta, o colocaram na maca e o levaram para dentro do veículo, eu fui acompanhando. Eles faziam o que podiam para mantê-lo vivo, o entubaram para que ele pudesse respirar melhor, no hospital iriam desintoxicá-lo. Era triste vê-lo daquele jeito, sei lá, ele parecia tão indefeso.

Logo que chegamos ao hospital, o encaminharam para a emergência, eu fiquei na recepção para preencher a sua ficha. A Vó e o Vô chegaram apavorados, a Vó apoiada em sua muleta veio apressando os passos.

– Onde está ele? Ele está bem? O que aconteceu?

– Calma, calma, ele vai ficar bem — eu tentava acalmá-la, mas eu não sabia se ele ia ficar bem, mal sabia se ele estava vivo naquele momento.

Eu enganchei no braço dela e a conduzi até alguns bancos que ficavam na sala de espera, busquei um copo d'água e a entreguei. Ela estava tremendo, o pânico era visível em sua expressão.

O Vô ficou na recepção preenchendo alguns dados mais pessoais, dados do tipo "qual era o grupo sanguíneo dele", não sei o que acontece em casos de overdose, mas acredito que transfusão de sangue não é necessária, mas quem sou eu parar dizer isso, minha ignorância em medicina é o mesmo nível que a ignorância do Finn em português, sei o básico do básico.

Eu estava preocupada, nós estávamos ali sem poder fazer nada, nada que pudesse ajudá-lo, seus avós ainda não sabiam que ele teve uma overdose de heroína, eu não contei a eles, disse que ele comeu alguma coisa estragada, e que agora ele estava com botulismo. Eles não faziam ideia do que era botulismo, e nem fizeram questão de perguntar, estavam mais preocupados com a questão de ele estar vivo ou não então apenas assentiram com a cabeça. Enquanto aguardávamos, Blaine e Puck apareceram, eles estavam apavorados.

– Onde ele está? O que aconteceu? — praticamente gritava Blaine enquanto andava em minha direção.

– Eu preciso vê-lo — Puck disse indo em direção a emergência, eu os puxei pelo braço e os levei lá fora.

– Ele... ele teve uma overdose — eu tentava explicar calmamente, embora por dentro eu estivesse tão preocupada quanto eles.

– Overdose? Como assim? — Blaine gritou assustado.

– Ei, ei ,ei... não grita, os avós dele não sabem que é overdose, eles pensam que ele está com botulismo por que comeu alguma coisa estragada.

– Ai ta bom, mas overdose do que?

– Heroína... — eu dizia cabisbaixa.

– Heroína? Ele nunca usou heroína! — desta vez quem gritou foi Puck.

– O que eu disse sobre gritar?! Sim, heroína, eu não sei de onde ele pegou isso, eu não sei quando ele começou a usar isso, nem o por quê, mas deu no que deu.

Eu me segurava pra não começar a chorar, era como se o dia 13 de Dezembro de 2013 tivesse voltado, só que dessa vez eu não estava acompanhando tudo através de notícias ou de redes sociais, eu estava vivendo aquilo.

– Ele vai ficar bem, não vai?

– Eu não sei Puck, eu não sei... — meu olho começava a ficar vermelho, eu queria tanto chorar era tudo minha culpa.

Blaine se aproximou e me abraçou, aquele abraço foi tão confortante, encostei minha testa no seu ombro, fechei os olhos e comecei a chorar.

– Ei, Rachel, não chora, não tem necessidade, ele vai ficar bem.

– Blaine, é tudo minha culpa, eu não consegui... é tudo a minha culpa!

– Não é não, calma, vai ficar tudo bem.

Ele afastou meu rosto de seus ombros, olhou pra mim, passou os polegares em meus olhos, num movimento similar ao de um para-brisa e enxugou minhas lágrimas, me puxou pelos braços e voltamos para a sala de espera.

Esperar por notícias naquele lugar era angustiante e entediante; 1) Por que o lugar era todo monocromático, as paredes pintadas de branco e verde-água, as cadeiras verdes, o uniforme dos enfermeiros verde-água, hospital é um lugar muito deprimente; 2) Na única televisão que tinha só pegava o canal do boi, vamos concordar que esperar por notícias enquanto você vê um boi sendo leiloado é bem entediante e 3) Esperar notícias já é angustiante, você fica naquela expectativa de que um médico chegue e diga que esta tudo bem, mas você sabe que também existe a hipótese de o médico chegar e dizer que ele está morto, é muito angustiante, entediante, deprimente, eu nem tenho mais adjetivos para nomear isso o que eu estava sentindo.

Já se passava certa de uma hora desde que o Finn deu entrada com overdose naquele hospital, todos os bois do mundo já foram leiloados naquele canal, Puck e Blaine ficavam quietos apenas olhando para os próprios pés, a Vó bebia um copo da água a cada 5 minutos e ia ao banheiro a cada 20 enquanto o Vô ficava com o rosto apoiado nas mão, os olhos distantes da realidade.

Ouvi alguns passos vindo do corredor, todos erguemos a cabeça, finalmente um médico, ele apareceu na porta da sala de espera, eu corri até sua direção e antes que ele dissesse algo eu o interrompi.

– Doutor, antes que você diga algo, não há como você omitir essa parte de que ele teve uma overdose? — eu praticamente cochichava.

– Não, os responsáveis por ele têm que saber a verdade!

– Por favor, eles não podem saber que ele teve uma overdose, por favor, por favor, não tem como dizer que é botulismo?

– Ter, até que tem...

Revirei o olhos e bufei, por fim tirei uma nota de 100 dólares do bolso e coloquei em suas mãos discretamente.

– Por favor?

– O paciente teve botulismo, mas ele já se recuperou! — ele disse pra mim, dando um sorriso sádico. Eu. Odiei. Aquele. Sorriso. E. Ele.

Eu não acredito que eu tinha subornado um médico, um médico! E eu não acredito que ele tinha aceitado um suborno de 100 dólares, ou o salário dele era uma merda, ou ele só queria ganhar um dinheirinho a mais pra poder gastar em bares sem que a mulher dele desconfiasse. Esse foi o ponto mais baixo da minha vida, e garanto que o dele também.

Ele chamou os avós primeiro, eu fiquei na sala com o Puck e o Blaine.

– Como você fez? — Puck me perguntou.

– Fiz o que?

– Isso.

– Isso o que? — eu disse meio irritada.

– Essa coisa de não deixar os avós dele descobrirem.

– Eu já tinha ouvido falar de botulismo na escola, e aquele Médico Desgraçado aceitou um suborno de 100 dólares de uma menina de 15 anos — eu me irritei mais ainda quando falei sobre o médico.

– Que merda é botulismo?

– Botulismo é uma bactéria que é encontrada em certos tipos de alimento, quando ela vai pro seu corpo começa a cortar esses ligamentos que temos, tipo, você começa a perder os movimentos, dos braços, das pernas, até parar de respirar e morrer — explicou Blaine resumidamente me interrompendo.

– Ah ta, valeu, aparentemente eu sou único que não sabia disso.

– O Finn provavelmente também não sabe — eu disse e em seguida rimos, mas não por muito tempo, logo a preocupação tornou a nossa mente.

O Médico Desgraçado chamou meu nome e disse que eu podia vê-lo. Então o segui até entrar em uma ala da emergência, seus avós não estavam mais lá. O médico nos deixou a sós e eu caminhei lentamente até ele. Ele estava com uma daquelas roupas azuis que os hospitais geralmente colocam nos pacientes, havia uma coberta branca o cobrindo até a altura do peito, seus olhos estavam ligeiramente abertos, ele tomava soro.

– Oi Rachel Ber — ele disse baixinho.

– Oi Finn — depois de tudo aquilo, agora eu sentia uma vontade enorme de bater nele, por quê diabos ele tinha feito aquilo?

– Você pode chegar mais perto eu não tenho nenhum vírus pegajoso — ele disse mexendo o dedo indicador vagarosamente, sem ao menos levantar a mão.

Fui chegando mais perto, estava com o sobretudo dobrado, em cima dos meus braços levemente cruzados, o coloquei em cima da cama, e segurei na borda que protegia os pacientes de caírem.

– Seus avós não sabem...

– É, eu notei quando eles falaram de uma tal de botulismo que eu nem sei o que é, só fui concordando com o que eles falavam — ele riu levemente, mas eu não retribuí, eu estava tão brava com ele — Obrigado, Rachel Ber.

Assenti com a cabeça, abri a boca, eu teria o xingado tanto naquele momento, mas eu não fiz isso, a fechei novamente, fiquei pensando no que dizer.

– Porquê? Porque você fez isso Finn, você podia ter morrido! — meus olhos se encheram da água, mas eu aguentei forte e não chorei.

Ele não disse nada, apenas ficou cabisbaixo, olhando para seus pés.

– Porquê? — eu perguntei novamente.

– Por que eu queria esquecer...

– Esquecer o quê? — ele não disse nada, continuou olhando para os pés.

– Esquecer o quê? — repeti, mas ele continuou olhando os seus pés — Anda Finn! Me responde!

– Eu não posso... não posso falar...

Eu respirei fundo, eu estava com raiva dele, raiva por ele ter quase se matado, por quase ter me deixado, não suportaria ver ele morto pela segunda vez, ele era tão estranho, por que ele não podia me dizer o por quê daquilo? O que era tão difícil que ele não podia dizer? Ele continuava um enigma. E eu sei que mesmo que eu passasse a noite toda lhe perguntando o porquê ele não iria me dizer, então respirei fundo e enxuguei o meu rosto. Eram tantos porquês e todos sem uma resposta.

– Foi horrível te ver daquele jeito, eu pensei que você estava morto, e aquela sensação de impotência estava tomando o meu corpo, sabe aquela sensação de eu querer te ajudar mas ao mesmo tempo não poder fazer nada?!

– Rachel Ber, você fez, você me salvou!

– Não Finn, quem te salvou foi esse Médico Desgraçado, eu só apertei algumas teclas do meu celular.

Eu ia saindo quando Finn agarrou o meu braço, eu me virei, ele estava olhando nos meus olhos, finalmente!

– Obrigado Rachel Ber por me salvar.

Eu via a gratidão no seu olhar, acho que o que ele estava me dizendo era verdade, vinha do fundo do seu coração, eu não pude ignorar aquele olhar, eu abri um pequeno sorriso, aliás, eu tinha o salvado, acho que eu consegui fazer um progresso nisso, mas salvá-lo de uma overdose não era tirá-lo das drogas.

– Tá — eu disse baixinho.

– Tá.

Ele me soltou, eu voltei ao meu caminho e saí do quarto.

Talvez eu não tenha fracassado, e se eu estava andando ali justamente para salvá-lo? Será que foi coincidência? O importante é que ele estava bem agora. A vida é intrigante, eu não acredito no acaso ou na sorte mas acredito nos porquês e poréns da vida, acredito que se eu estava ali é por que ele tinha me chamado. Acredito que eu tenha escutado o chamado dele, não o chamado da boca pra fora, mas o chamado do seu coração, do meu coração.

Notas finais
"O amor é o nosso estado natural quando não optamos pela dor, pelo medo ou pela culpa." -Willis Harman e Howard Rheingold. Reviews?