As linhas tortas do tempo.
12 Capítulo doze
Eu já estava há cerca de meia hora naquela maldita sala de espera, eram 10h30 da manhã do dia 3 de Janeiro de 2003, aquela bosta de televisão passando aquela bosta de canal do boi, eu não estava mais aguentando ficar ali. Finn ficou no hospital por 3 dias, praticamente tomando soro até ficar totalmente "limpo". Hoje era o dia da alta dele, eu estava esperando o Vô e a Vó, mas eles eram lentos demais, eu era a única de seus seus amigos que iria acompanhá-lo, por que o resto estava tendo aula.
Durante esses três dias, eu fui na biblioteca fazer algumas pesquisas, algumas pesquisas do tópico "clínica de reabilitação". Sim, eu ia convidá-lo para se internar em uma rehab, eu não podia deixar que aquilo se repetisse, era minha função não deixar aquilo se repetir.
Fiquei lendo Mr. Potter enquanto os seus avós não chegavam, eu estava bem no finalzinho do livro, louca pra terminá-lo. Eu não sei o que eu tinha na cabeça quando resolvi emprestá-lo, eu o-d-e-i-o poesia, e o livro era praticamente poesia pura, por isso não entendi nada, li apenas por ler. Eram cerca de 10h40 quando eu vi um fusca amarelo parando na frente do hospital. A Vó saiu se apoiando na bengala com um sorriso enorme no rosto.
– Oi Amiga do Finn! Tudo bem? — Ela disse já me abraçando.
– Oi Vó.
O Vô veio logo atrás e me deu um aperto de mão, logo seguiu até a recepção acertar as contas e a papelada.
– É bom uma das amigas dele estar aqui, isso deixa ele confiante.
Eu assenti com a cabeça. Não é que eu sou sem educação, eu apenas não estava com vontade de conversar, mas ela continuava puxando papo.
– Eu agradeço por você ter salvado ele.
Eu assenti com a cabeça e dei um leve sorrisinho, não que eu seja ingrata mas eu realmente não estava a fim de conversar, ainda bem que logo o Vô nos chamou e fomos até o quarto buscar o Finn, então o assunto acabou por ali.
Ele estava com a mesma roupa que usou na virada do ano, sentado em cima da cama. Ele se alegrou ao ver os avós e acho que eu também. Os comprimentou e logo escutei um "Rachel B!" não tão animado como antes.
– Oi Finn, que desanimação... — reparei que ele me chamou de Rachel B, mas resolvi não questioná-lo, não agora pelo menos.
– Não é desanimação.
Ele se apoiou na cama e levantou.
– Vamos! — ele disse aos avós, ele não estava animado, mas reuniu um resto de força e aplicou toda a energia que tinha para ir embora daquele hospital.
– Odeio esse lugar — ele disse baixinho pra si mesmo mas eu acabei escutando.
Entramos no fusca, o Vô dirigindo, a Vó no banco do passageiro e eu e o Finn atrás olhando pela janela, demorou uns 10 minutinhos do hospital até a sua casa. Ajudei-o a sair do carro, ele estava fraco e pálido, enganchei meu braço no dele e subimos as escadas. Na sala de estar o Finn disse:
– Eu preciso ir pra minha cama.
Apenas assenti com a cabeça e o ajudei a subir as escadas. Eu nunca tinha ido na parte de cima da casa dele, tirando o fato de que eu fui na casa dele apenas 2 vezes.
Era um corredor pequeno, o papel de parede era marrom e verde, um tom bem deprimente, na parede da direita tinha uma foto de família, o Finn pequenininho, acho que tinha uns 6 anos, a mãe o abraçando e a Vó e o Vô logo atrás, todos sorrindo em uma espécie de parque, é uma foto linda.
Haviam quatro portas, duas na parede da esquerda, uma na parede da direita e uma no final do corredor, ele me guiou até a segunda porta da parede da direita, parou na frente da porta, estava hesitante.
– Sabe o que é Rachel B, é que eu não tenho o costume de trazer visitas no meu quarto então, como só sou eu que vivo nele, eu não o deixo muito arrumado.
– E daí?
– E daí que ele está num estado lastimável.
– Eu não ligo, abre logo essa porta que eu tô cansada de ficar de pé.
Ele abriu, um leve cheiro de mofo exalou do quarto, típico do quarto de um garoto. Era pequeno, a parede era pintada de azul, havia uma janela com um pequeno feixe de luz entrando, devido as persianas estarem levemente abertas, havia alguns posteres de bandas na parede, logo acima da sua de casal, um guarda-roupa pequeno, e uma mesinha para estudos, era bem simples mas aconchegante, haviam algumas roupas jogadas na cama, e meias pelo chão, mas nada "lastimável" como ele disse.
– Ah Finn, não é tão mal assim.
Ele assentiu com a cabeça, mandou que eu entrasse e fechou a porta, foi logo pra cama e deitou, eu me sentei na cadeira que ficava junto com a mesa de estudos que só tinha alguns livro de matemática empoeirados e resto de comida.
– Por que esse cansaço todo?
– Quando você passa 3 dias no hospital tomando soro e vomitando tudo o que você tenta comer, acho que é normal ficar cansado assim — rimos.
Fizemos uma pausa, eu observava aquele quarto que merecia uma faxina, tudo estava empoeirado.
– Então agora eu sou Rachel B?
– Sim, agora você é Rachel B — ele conversava comigo olhando para o teto.
Não pude deixar de sorrir abobalhadamente, era legal agora estar mais íntima dele, era o que eu queria na verdade.
– Finn, eu preciso conversar seriamente com você.
– Fale.
– Onde você arranjou aquilo?
– Da pra falar mais baixo? — Ele cochichou e eu assenti com a cabeça. — Um amigo meu falou que era legal, eu experimentei e gostei, só que eu gostei muito.
– Que amigo? — Ele ficou mudo, eu sabia que ele não ia falar. — Você foi pegar isso aquele dia que você me encontrou com as sacolas de compras?
Ele não disse nada, só assentiu com a cabeça. Merda! Se eu tivesse ido na casa dele, ele não teria pegado essa merda, e agora estaria tudo mais do que bem. Tudo minha culpa, eu só faço merda!
– E por que você usou tanto?
– Ai, sabia que essa conversa ia tomar esse rumo — ele bufou e revirou os olhos. — Será que podemos não tocar nesse assunto?!
Ai ta bom, eu não ia discutir com ele, não falei nada, ficamos um tempo em silêncio, então eu me levantei, aquele quarto estava abafado, tirei o meu sobretudo e pendurei na cadeira, andei em direção a cama e parei na frente dele.
– Finn, eu vou falar agora tudo de uma vez, eu estava pensando se não seria melhor você se internar em uma clínica de reabilitação.
Ele arregalou os olhos e sentou na cama, ficou olhando para as mão por um momento, sua respiração estava acelerada então ele começou a falar sem parar, parecia estar desesperado.
– Não Rachel B, você não pode fazer isso comigo! Meus avós não podem saber, eles não podem saber que eu uso drogas, não que o cigarro não seja uma, mas eles não podem saber que eu uso essas coisas pesadas, por favor Rachel B, não fale nada pra eles, eu faço qualquer coisa pra que eles nunca saibam disso, seria uma vergonha sem tamanho eles descobrirem que o neto vagabundo usa drogas, por favor, por favor.
– Ei, ei, ei... Calma!
Andei de um lado para um outro, eu não ia mandá-lo pra rehab, mas antes de eu tomar alguma iniciativa eu tinha que por na cabeça dele a ideia de que ele TINHA que largar as drogas, e isso só foi possível sob uma ameaça. Ele ficava olhando pra mim, esperava uma resposta, eu ficava pensativa, mas na verdade já tinha tudo pronto, eu só queria assustá-lo um pouquinho.
– Finn, você não quer ir pra rehab, e nem eu quero que você vá, mas você vai ter que largar das drogas de um jeito ou de outro, você é quem escolhe.
Ele bufou, colocou a mão nos cabelos, os coçou um pouquinho, bufou mais um pouco, olhou para o lado balbuciou um "merda!", e em seguida disse:
– Eu não consigo sozinho.
"Eu não consigo sozinho." Como ele era frágil, eu o idealizei a minha vida toda como um cara determinado, forte, que eu pensava ter conseguido largar das drogas quando na verdade ele era só um garoto inseguro. Eu preferia a minha idealização de um Finn Hudson, mas eu estava começando a gostar do verdadeiro Finn Hudson.
– Ei, você não vai passar por isso sozinho, eu vou estar sempre ao seu lado, e garanto que alguns de seus amiguinhos também.
Ele levantou a cabela e me fitou com o olhar por um milésimo de segundo, logo ele encostou as costas na parede e pegou o Sangue Quente, ainda com ele fechado em seu colo, me disse:
– Obrigado Rachel B.
Era aquele mesmo tipo de obrigado que ele usou no hospital, eu sabia que ele estava agradecido, por que acredito que eu fui a primeira pessoa a acreditar que ele era capaz.
– Tá — eu disse de volta, era legal ser grossa com ele, era o meu jeito de fingir não dar a mínima, e eu sei que ele gostava que eu fosse grossa com ele, por que toda vez que eu falava um "tá" ele rapidamente dava seu sorrisinho no canto da boca.
Eu me levantei e peguei meu sobretudo, o coloquei.
– Hum... eu já vou indo — eu disse abrindo a porta do quarto. Agora ele estava lendo o livro, não me disse nada, meio ingrato ele, mas eu aguento.
Sai do quarto e fechei a porta, estava andando pelo corredor e escutei um "tá" vindo de trás da porta, aquilo me animou.
Ele era tão estranho e tão igual as vezes. Igual no sentido de querer ser, ou até mesmo ser o bad boyzinho que não liga pra nada, mas diferente por que no fundo eu sabia que ele ligava pra tudo. Só não queria admitir.
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