Notas iniciais
Só lembrando que os capítulos dos Olhos de Nanquim eles sempre vão ser mais curtos!!!!

12 e 13 de novembro, Ele

Ele a observou chegar, o sorriso que dera e como o afetou. Ele não sabia se fora a curva formosa dos lábios ou aqueles olhos de duas cores, o direito azul e o esquerdo dourado, jamais vira tal coisa. Não soube se foi os cabelos laranja acobreados ou a pele cheia de sardas ou se foi o jeito de dançar. Ele a observou a noite toda, até que ela o notou. Os olhos se fixaram, ele soprou a fumaça do charuto e viu pelos olhos dela que algo brotou ali e a fez estremecer suavemente, era puro deleite nos olhos dela, um prazer e uma fome devoradora, ele a queria, mas não se moveu. Alicia surgiu atrapalhando o momento que se esvaiu como a fumaça do charuto.
— Ah, querido, vamos dançar! — implorou Alicia, fazia dois meses que ela estava atrás dele. — Por favor.
— Acredito que Juan gostaria de fazê-lo, Alicia.
— Mas eu quero dançar com você. — disse fazendo beicinho.
— Não gosto de dançar, Alicia. Vim porque Juan e Miguel pediram, apenas por isso. Chame Angelique e Simone para acompanhá-la.
— Não sei por que ainda insisto.
Ele quase disse que também não sabia, mas manteve-se calado e voltou a olhá-la. Homens e mulheres vinham dançar com ela, uns tentavam beijá-la, porém eram afastados imediatamente, fechava a cara e dizia que não, dava para ver, estava ali para dançar e o faria a noite inteira. Ele fumou mais dois charutos e foi ao banheiro, bebeu dois conhaques e uma dose de uísque. Quando deu 06h03 min António Gonzáles foi recolhendo as bebidas, a mulher parou de dançar e suspirou, foi surpreendida por um homem duas vezes maior que ela, pegando-lhe pelo braço e dizendo algo, sua cara foi de ultraje e repulsa e puxou violentamente o braço para trás, disse algo, mas ele não ouviu. Tinha de impedir.
— Aqui está você, amor! — ele exclamou e colocou a mão em seu quadril, ele estremeceu suavemente e ele sorriu — Acatei seu pedido de vir sozinha e dançar em paz a noite toda, mas não me peça para deixá-la voltar para casa só.
— Oh, claro, meu bem. — Ela sorriu um sorriso completo e cheio de luz e beijou-lhe o canto da boca, despertando algo. — Vamos?
A voz dela tinha certa melodia, podia ouvi-la falar o dia todo sem querer implorar aos céus para que ficasse em silêncio. Saíram da danceteria e ambos pararam de sorrir, ela tinha cheiro de álcool, nanquim, tinta e narcisos. Ele não tirou a mão de sua cintura, ela não reclamou e o rosto permaneceu concentrado, ele podia sentir o cérebro dela em conflito, desejou saber ler mentes. Ofereceu um táxi, ela rejeitou. Ele a admirou ainda mais, os pés pareciam doer, mas ela permaneceu inabalável. Depois de 25 minutos, chegaram a uma rua pitoresca, cheia de apartamentos elegantes e bem decorada, ela se afastou e o encarou.
— Obrigada, é aqui. — disse ela, ele a contemplou.
— Fiz o que pensei ser necessário, bom dia.
Talvez tivesse soado meio rude, mas a expressão de desejo no rosto dela poderia fazê-lo rastejar para ela e dar-lhe até a alma. E ele não rastejava, sempre iria de pé e satisfazia-se de modo recíproco. Se ele a provasse, iria querer mais e mais e ela parecia uma mulher que não gostava de repetir coisas, tinha um jeito livre, podia-se ver no brilho do olhar selvagem, não queria ser domada. E ele nunca fora domador para nada além da própria vida.