Notas iniciais
Olhos de Nanquim tem o nome revelado (INTERNAL SCREAMS)

13 de novembro

Dormiu por 10 horas inteiras. Acordou, escovou os dentes e desceu para comprar cannéles e uma garrafa de leite, sentou-se desta vez na cama, afastou as cortinas diáfanas roxas com dourado e sentou-se no meio, comeu devagar, saboreou. Pensou nos Olhos de Nanquim e o corpo se arrepiou, teve que pressionar as coxas. Comeu e bebeu. Tocou-se, fazia tempo que não o fazia. Imaginou as mãos dele, o olhar penetrante, o cheiro de charutos caros, madeira e hortelã. Obteve prazer num nível grandioso, tomou fôlego, quase se arrependeu. Pegou o celular e discou o número da amiga antiga.
— Lotte? — perguntou Carmén, chorosa.
— Olá, Carmén. — disse Charlotte, também sentira falta da amiga. — Há quanto tempo, como está?
—!Dios mio! Charlotte! — quase gritou Carmén no celular, a voz embargada. — Cinco anos, cinco anos sem notícias suas! Oh, céus... E-eu vou bem, muito bem! E você? Podemos nos ver? Por fa...
— Misericórdia, Carmén! — exclamou Charlotte e riu. — Estou bem, vamos nos ver. Chame Dilliane, Maggie e Myriam, no mesmo lugar de sempre. Às 18h00min.
— Claro. Combinado! Até daqui a pouco.
Desligaram. Charlotte sentiu felicidade genuína e pura, fazia anos que não se sentia assim. Correu para tomar banho, lavou os cabelos e os deixou com cheiro amoras e creme, colocou o perfume de narciso. Passou uma maquiagem leve que não modificava tanto seu rosto, prendeu o cabelo em duas tranças atrás da cabeça e colocou algumas flores que mesma fez e um vestido leve azul escuro com decote em formato de coração, mangas curtas e saia rodada. Os pés ainda doíam e optou por um mocassim preto confortável. Chamou um táxi, pois já era 17h15 min. Levou 30 minutos. Carmén já estava no restaurante, linda como sempre. A pele radiante, os cabelos negros cortados estilo anos 20, o mesmo rosto em formato de coração e as formas voluptuosas (como dizia seu pai) muito bem distribuídas de forma que não afetassem sua saúde. Carmén sempre fora a mais cheinha das quatro. Nasceu diabética e dependente de insulina.
Carmén a abraçou com força tremenda, tinha cheiro de alcaçuz e rosas e estava linda em seu vestido vermelho que contrastava com a pele cor de oliva. Os lábios sempre pintados do mesmo vermelho do vestido, o mesmo sorriso gentil e acalorado. Logo mostrou a mão direita e no dedo um anel de ouro e ouro branco com um lindo rubi em formato de coração, estava noiva e extremamente feliz.
— Ah meu Deus Carmén, parabéns! — exclamou Charlotte e abraçou novamente, sentia falta disso. — Quando foi isso?
— Vamos nos sentar, Dilliane chegará atrasada e Myriam chega logo. — assim que sentaram, Carmén começou. — Faz oito meses, estamos juntos tem seis anos, você estava viajando e não pôde conhecê-lo e logo depois... Bom, você sabe. Ele é gerente em uma multinacional, nos conhecemos durante um almoço com tía Petúnia, quem diria!
— Amén, tía Petúnia! — concordou Charlotte, num espanhol perfeito. Falava inglês, romeno e francês fluentes também. — E quando ocorre o casório?
— No dia 13 de janeiro, você vem? — perguntou Carmén, ansiosa e lhe entregou o belo convite. — Gostaria muito que viesse.
— É claro que vou! Já perdi muitos momentos importantes na vida de vocês, não perderei este por nada!
— Oh, Lotte quantas faltas senti de ti!
E se abraçaram novamente, gritinhos agudos fez as duas se separarem e colocarem-se de pé, Dilliane e Myriam chegaram juntas e ambas se jogaram em Charlotte quase a derrubando e chamando a atenção de todos no restaurante.
— Oh mon Dieu! — exclamou Dilliane com seu sotaque carregado. — Como senti sua falta!
— Oras, deixe um pouco dela para mim, Dilli! — provocou Myriam, era 25 centímetros maiores que Charlotte (que tinha 1,60 metros) — Continua com cheiro de nanquim, ainda pinta?
— O tempo todo! — confessou Charlotte. — Vamos sentar e fazer o pedido e colocar tudo que aconteceu em nossas vidas em dia.
Pediram o de sempre e começaram a tagarelar sobre tudo que aconteceu nesses últimos cinco anos, Charlotte ouvia tudo atentamente e sempre observava as antigas amigas, Dilliane continuava com o mesmo ar francês, o nariz arrebitado, os lábios em formato de botão de rosa, as maçãs do rosto alta, o corpo magro com todas as medidas certas para sua estrutura óssea francesa e levemente esnobe. Os cabelos louros areia presos num coque desarrumado que lhe davam um charme que só ela conseguia estando perfeitamente arrumada e ainda assim com os cabelos daquele jeito. Myriam com sua pele dourada, quase da cor de bronze os olhos grandes e delineados, os lábios fartos e os seios mais ainda, tinha pernas grossas e era um pouco mais alta que Dilliane, mas o que Dilli tinha de postura arrogante e esnobe, Myriam tinha de delicadeza e um jeito cheio de floreios todo encantador. Elas eram muito diferentes, tanto em aspectos físicos como pessoais, mas tinha também muitos pensamentos iguais que amavam compartilhar. Charlotte sentiu que alguém a observava, olhou mais à frente e o viu, ela pensou ter desaprendido a respirar. Ele parecia ainda mais belo do que na noite anterior e esta manhã. Ele levou a taça de vinho aos lábios e tomou um gole, novamente as mãos de Charlotte coçaram em busca de um pincel.
— Charlotte, mon chéri. — estalou Dilliane, chamando-lhe a atenção. — O que está olhando? Oh, minha nossa!
— Controle-se, Dilli! — repreendeu Carmén. — Acho que conheço aqueles homens.
— Conhece?! — Charlotte, Myriam e Dilliane exclamaram em uníssono.
— Trabalham com meu Adam.
— Será que vão fazer uma despedida de solteiro a ele? — questionou Myriam, Dilliane bateu palmas e deu um gritinho. — Santo Deus, o que houve?
— Lembrei-me! Nossa despedida de solteira, quer dizer de Carmén! Fiz reservas na Boate da Vermelha, hoje às 22h30min.
— Dilliane! — exclamou Carmén.
— Aaah, mon chéri! Vai me dizer que seu amado Adam não irá ver umas mulheres semi ou completamente nuas antes de se casar!!!!
— Dilliane!
Então começaram a discutir, Dilliane logo dizendo que Carmén era uma puritana e mais dezenas de coisas das quais Carmén rebatia com afinco. Myriam e Charlotte se entreolharam sem saber o que fazer, pois Carmén começara a falar em espanhol e Dilliane em francês e o restaurante inteiro parecia ter parado de comer para observar a cena. Até que Dilliane disse algo que jamais deveria ter dito e que não deve ser repetido aqui e Carmén deu-lhe um tapa que ecoou pelo restaurante que jazia num silêncio fúnebre. As duas se encararam, os peitos estufados, então Charlotte gargalhou extremamente alto, como não fazia há tempos e Myriam a seguiu, então as duas que brigaram também riram e se abraçaram e pediram desculpas, tornaram a sentar e contar as coisas.
— Querida? — chamou um homem muito atraente de cabelos dourados e olhos verdes intensos. — Boa noite, meninas.
— Adam! — exclamou Carmén e ficou de pé, ele era duas cabeças mais alto que ela, mas isso não o impediu de dar-lhe um beijo que causou inveja em qualquer um que olhasse e todo mundo olhou. — Querido! — Carmén ficou tão vermelha quanto o molho de tomate do espaguete com almôndegas que pediram. — Deixe-me apresentar Charlotte.
— Senhorita Bedwyn, encantado. — Adam beijou a mão de Charlotte e a encarou fundo nos olhos. — A senhorita tem olhos bastante peculiares.
— Por favor, me chame de Charlotte. — e sorriu genuína. — Alguma coisa no DNA, são o que me diferem no meio destas três beldades.
— Você não fica para trás, posso lhe assegurar. — afirmou Adam e sua mão deslizou pela cintura de Carmén e deu-lhe um beijo no topo da cabeça. — Não me disse que estaria aqui.
— Nem você. — brincou ela e sorriu apaixonada. — Seus amigos o aguardam, vá, vá, vá!
— Querendo se livrar de mim? — provocou Adam, mordendo-lhe o lóbulo da orelha. — Nos vemos mais tarde.
E saiu, Carmén sentou-se, o rosto em chamas.
— Só eu senti a tensão sexual exalando por cada poro ou todas sentiram também?
— Acho que o restaurante todo sentiu! — zombou Charlotte.
— Oh, por favor! — exclamou Carmén envergonhada e cobriu o rosto rindo. — Ele é tão maravilhoso comigo.
— Ainda bem, senão arrancava as bolas dele. — disse Dilliane e complementou. — É melhor irmos andando, já são 21h15 min. E nos leve até a mesa de Adam para que possamos conhecer seus amigos.
— Dilliane! — exclamou Myriam.
— Oras, vai me dizer que o de olhos castanhos e jeito sensual não lhe chamou a atenção?
— Você é terrível.
— Acho que sou é muito delicada para um homem como aquele.
— Eles sabem ser gentis. — comentou Charlotte e todas as olharam. — O que foi?
— Prometa-me que amanhã quando estivermos todas jogadas no sofá de ressaca irá me contar todas as suas aventuras sexuais.
Charlotte revirou os olhos, mas acabou dando risada.