As damas da neve e o anão
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Conforme previsto, chegamos na minha cabana ao anoitecer. Os vagalumes começaram a iluminar toda a floresta, os sons dos coachares dos sapos podiam ser ouvidos à distância e uma cigarrinha ou outra aproveitava para cantar.
Tudo estava do jeito que eu havia deixado: as galinhas dormiam em seus poleiros e os meus porcos repousavam em sua poça de lama. O local que eu construira para minha ursa, uma construção de madeira semelhante a um estábulo, estava vazio, o que era estranho já que a minha ursa era esse mago estranho, ou era o que ele dizia ser. Mas como se lesse o que eu pudesse estar pensando ele apenas sorriu e disse: — Não se preocupe, eu não me sentia incomodado em dormir lá. Era até confortável.
Quando entramos, pedi logo que ele se explicasse. Eu já não podia me conter em curiosidade então puxei uma cadeira para ouvi-lo. Se sentindo em casa, ele pegou uma maçã que estava em cima da mesa e começou a come-la (o que eu achei um grande abuso).
—Bem ... Por onde eu começo? Ah sim. Você quer saber toda verdade. Bem, como você sabe, seu pai foi o último dos anões da linhagem Barba Ruiva. Ele era um guerreiro imbatível, e já forneceu ajuda para muitos outros povos, inclusive os povos humanos, como você já deve saber.
— Sim, sim eu já sei! Agora pare de enrolar e desembuche! — Retruquei, visivelmente impaciente.
— Bom, em uma de suas últimas batatas, contra os orcs da Montanha Maldita, os anões perceberam que iriam perder a batalha. Os orcs tinham feito um pacto com Encantriz,onde ela lhes concedia mais poder em troca dos filhos dos anões para poder se alimentar. E foi ai que eu apareci. Como os magos e os anões eram parceiros de assuntos comerciais a muitos séculos, eu e meu mestre oferecemos ajuda para derrotar os orcs. E nós os derrotamos, usando a nossa magia. Na época eu era apenas um aprendiz. E em troca, seu pai deu permissão para que extraissemos da mina dos anões todos os elementos químicos necessários para desenvolvermos novos encantamentos.
—Certo. E ai? Onde que você cria pelo, garras e todo o resto?
—Zubart, você é impaciente como o seu pai, me deixe terminar! Bem... Conforme eu dizia, usamos nossa mágica e destruímos aquelas criaturas perversas. Porém quando achamos que nem tudo estava perdido, o rei dos Orcs aproveitou seu último suspiro para lançar uma flecha no coração de seu pai. Qualquer um obviamente teria morrido, porém meu mestre se compadeceu e utilizou tudo o que sabia para dar mais alguns anos de vida ao seu pai, pois tudo o que ele queria era criar você.
— Então está explicado porque meu pai vivia com tantas dores no peito. Ele me dizia que estava doente. — Olhei para o chão, me sentindo triste mas estranhamente revoltado. Porque ele não me contou a verdade? Eu sou seu filho!
— Ele estava morrendo. Não existe feitiço de imortalidade, Zubart. O único feitiço que meu mestre sabia era um que concedia apenas mais dez anos de vida à um ser vivo que fosse ferido fatalmente. Após isso o feitiço perde a sua validade. Só que Encantriz estava o tempo todo planejando vingança contra os deuses e uma vez que os anões derrotaram o seu exército, vocês foram jurados de morte. Por isso você é o último anão da linhagem Barba Ruiva. Antes de morrer, meu mestre visitou o seu pai e ele me pediu que eu fosse responsável por cuidar de você. Eu já era um mago completo, então meu mestre me pediu que eu assumisse a forma de uma ursa como uma forma de ter uma figura feminina ao seu lado, por assim dizer. E você sabe que na natureza, esses animais são conhecidos por serem muito protetores às suas crias. Você era apenas um menino, precisava de alguém. E como você sempre gostou muito de ursos, uma coisa levou à outra. — Ele sorriu para mim.
Ele caminhou até a janela e fitou a escuridão, observando os vagalumes oscilarem seu brilho.
—Vivemos tempos sombrios. Encantriz anda cada vez mais furiosa. E era ai que você entra. Meu mestre mandou que eu revelasse minha verdadeira forma à você e lhe contasse tudo na hora certa. E a hora chegou.
Ele estendeu a mim um pergaminho dourado, enrolado em uma fita feita de prata pura. Ao abri-lo , escrito em uma caligrafia impecável com uma tinta negra, estava aquilo que ele tanto falara ao decorrer do dia:
A deusa da confusão
Ao ápice do caos chegará
O último pequeno filho do fogo
Aquele que é munido de coragem, e não sucumbe ao perigo.
No Milionésimo ano do nosso Senhor
Munido da flecha espiritual dos sete dons
Vindos das sete filhas do Homem,irá desparar
Sabedoria para moldar
Sentimentos para envolver
Entusiasmo para acrescentar
E a Vagarosa para acalentar.
Até mesmo a Doente servirá.
A Ira para ferver
E quem dirá das Travessuras? Também servirá.
E a dama de lábios de serpente perecerá
E para sempre no mundo dos mortos será trancafiada.
"Que diabos é isso?" Pensei. Filho do fogo? Lábios de serpente? A flecha espiritual dos sete dons? Eu não estava entendendo absolutamente nada. Quando olhei para o mago, ele estava rindo.
— Do que diabos está rindo? Está me achando com cara de idiota?
— Estou apenas rindo da sua expressão. Não se preocupe Zubart, você entenderá a profecia. Ao ler com mais calma, perceberá que se trata de você. Amanhã precisamos partir. Acredito que as meninas devem estar prontas. Senão terei que explicar tudo de novo. Pedi ao Rei que não escondesse nada delas. São as sete princesas que o ajudarão, conhecidas pelos seus súditos como Damas da Neve por serem de pele tão alva quanto a mesma. Mas está tarde e não há nada a ser feito agora. Devemos repousar. Irei dormir lá fora como sempre. Esteja pronto, irei lhe chamar.
Porém, quando eu ia fazer mais perguntas,Dartan abriu a porta partiu para dormir aonde Ingra dormia e espantei-me ao ver que de fato ele assumia a forma de uma ursa. O desgraçado estava dizendo a verdade pelo menos nisso.
Não consegui dormir durante a noite inteira. Eu estava cheio de dúvidas. Porque meu pai me ocultou tanta coisa? Mas mal sabia eu que a minha vida iria mudar drasticamente na manhã seguinte.
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