As crônicas da Raposa e do Dragão
18 Festejos
— É uma das melhores adagas que você vai encontrar em quilômetros. — Karen argumentava com um homem.
— É claro que é a melhor, não há mais nada em quilômetros daqui. — Ele recrutava com desdém.
A vampira manejou a adaga com habilidade, rodopiando a lâmina de uma mão para outra e finalizou com a mesma a milímetros da garganta do homem.
— Até a melhor arma é inútil nas mãos de quem não sabe manejá-la. Eu garanto, essa é uma ótima arma, lhe será muito útil. — Karen disse, afastando a lâmina do pescoço dele e virando o cabo para o comprado. Ele tomou a adaga na mão, analisou a lâmina por alguns instantes e entregou as moedas de ouro para vampira que lhe entregou a bainha da adaga, despedindo-se dele com um sorriso amigável.
Fazia 2 dias que a caravana de “mercadores” havia chegado em Yaqut, depois de passar 3 dias viajando pelo deserto após sair das terras de Eel. Eles se disfarçaram de mercadores de armas, pegando armas velhas do QG e dando uma embelezada para que parecessem de qualidade. O objetivo era resgatar os humanos, então a satisfação dos clientes era o que menos importava. Ao chegar, descobriram que muita coisa havia mudado na administração da cidade. O poder era dividido entre três figuras distintas: Kargo, chefe do mercado, quem quisesse vender no mercado, devia lhe pagar uma “taxa de serviço”, basicamente extorsão. Ele era um sátiro já com certa idade, mas ainda aparentava ser forte e sempre estava cercados por seus lacaios. Pentos, chefe da guarda da cidade, ele era irmão de Kargo e dava cobertura para as atividades dele. Ninguém ousava bater de frente com os dois, a não ser Gandin, uma jorougumo que administrava todos os bordéis da cidade. Era mulher da cintura pra cima, mas para baixo tinha o corpo de uma enorme viúva negra. Era temida por todos da cidade, não pela força física necessariamente, mas pela capacidade de sua rede de espiões e assassinos.
Quando a caravana dos guardiões de Eel chegou, tiveram que pagar para comercializar no mercado, pagar pela proteção e pela estadia na cidade. Apesar dos gastos, as vendas das armas iam bem, se fossem mercadores de verdade, o lucro valeria os gastos. Mas não era o caso, o foco da missão estava em libertar os escravos. A cidade estava lotada por conta do Festival a Loki. Considerado pelos mercadores como o Deus do Mercado Negro, já que, assim como era na Terra, Loki em Eldarya também era conhecido como o deus da Trapaça, o que era estranhamente cultuado pelos mercadores ilegais.
Nevra ia aos bordéis a noite, analisando o ambiente e tentando coletar informações. Mayuri também tentava conseguir informações nos bordéis. Ela eram a mais controlada do grupo, e essa missão exigia um grande grau de autocontrole. Eles chegaram a contratar serviços de algumas pessoas, mas nunca faziam nada, usando a desculpa de querer apenas companhia e alguém para conversar, o que, apesar de estranho, não era incomum nesse ramo. Pela manhã todos repassavam as informações que adquiriam no dia anterior.
— Conversei com algumas dessas moças, mas elas eram sempre simpáticas de mais. Sempre que perguntava sobre elas ou como foram parar lá, elas desconversavam, mas dava pra sentir que tinham muito medo de dizer qualquer coisa negativa sobre o “trabalho” ou sobre alguma superiora. — Nevra relatava durante a refeição da manhã.
— Acho que tive um pouco mais de sorte, apesar de reticentes, algumas delas deixaram escapar que são da Terra e que elas vivem juntas num só alojamento durante o dia, trancadas. Pelo que uma delas me indicou, era um quarto nos fundos do bordel. — Mayuri informou.
— Espera um minuto. — Karen abriu um mapa sobre a mesa. — Esse bordel fica no prédio da antiga pousada principal da cidade. — Ela apontou para um ponto no mapa.
— Sim, eu lembro da pousada, muitos figurões de outros reinos e emissários ficaram por lá. — Nevra completou, entendendo onde a irmã queria chegar.
— Tá, mas o que isso tem a ver com a história? – Huang Chu estava confusa, como a maioria dos presentes.
— Algumas dessas autoridades gostavam de serviços de entretenimento que não seriam bem-vistos pelo povo, dado a posição que ocupavam, se é que me entende. — Karen começou a explicar.
— Por isso foram criadas passagens por dentro das cavernas internas de Yaqut. Para que eles pudessem usufruir dos serviços de “entretenimento adulto”, mas sigilosamente, e esse quarto onde as prisioneiras estão era o quarto principal, o maior de todos e, provavelmente, por causa do tamanho eles devem ter achado uma boa ideia torná-lo um alojamento. — Nevra complementou. — E eu duvido que eles soubessem das passagens secretas pelas cavernas. Nem mesmo todos os vampiros de Yaqut sabiam sobre elas.
— Pois é. Nós mesmo só descobrimos por acaso, porque sempre explorávamos as cavernas.
— Eu vou verificar essas passagens hoje. Karen, venha comigo. O resto continuem com o disfarce no mercado. O festival será daqui a 2 dias, temos que ter tudo planejado para a fuga. — Após isso, todos trataram de terminar duas refeições e seguiram com seus afazeres.
O dia passou num marasmo. Iduna quase já estava se acostumando com a vida de mercadora, mas sempre mantinha em mente sua verdadeira missão, salvar os humanos escravizados daquela cidade. Durante uma pausa para comer um lanche, ela conversou com Evelyn.
— Temos que salvar todas as pessoas daquele bordel. Uma vida como essa deve ser horrível.
— Se fizermos tudo certo, vamos conseguir com certeza. A parte difícil vai ser atravessar o deserto novamente. Eu odeio o calor. — Evelyn divagava.
— Mas até que você está lidando bem com o calor.
— Isso foi graças a Mayuri. — A elfa mostra uma pedra com uma runa escrita que Iduna não entendia. — Essa é uma pedra que teve magia incorporada nela, no caso, magia de gelo. Mantendo-a perto de mim, ameniza o calor em volta.
— Tipo um ar-condicionado portátil.
— Um ar-condicio-que?
— Eu esqueço que coisas triviais pra mim são novidades para vocês. Ar-condicionado é um aparelho terrestre usado para esfrias ambientes quentes de forma artificial.
— E vocês humanos insistem quem não existe magia no seu mundo.
— Mas não é magia, é ciência.
— É só um nome diferente pra mesma coisa. — Ambas riram um pouco, mas logo voltaram para o mercado.
Enquanto as moças bancavam as mercadoras, Lance permanecia atrás delas, como o segurança da barraca. Ele e Iduna trocavam olhares e sorrisos discretos, mas a jovem lamentava que não havia tido muito tempo para os dois naquela viajem, mas tendo em mente a missão que deveriam executar. No final do dia, uma nova reunião foi feita para delinear do plano de resgate.
— Nevra e eu verificamos as cavernas. As passagens estão intactas, graças ao Oráculo. Fiquei algum tempo ouvindo-as conversando, elas têm muito medo dos faeirys, principalmente os que não se parecem com humanos. Acredito que, como primeiro contato, Iduna e Erika devem ir. Vocês são da Terra, podem se conectar com elas e ganhar sua confiança. Nós as levaremos pelos túneis e vocês as resgatam.
— Até aí tudo bem, mas como vamos sair da cidade com uma caravana tão grande sem chamar a atenção? – Indagava Huang Chu.
— Já estamos trabalhando nisso. – Nevra tomou a palavra. – Mayuri, Evelyn e Huang Chu iram na frente e manterão as montarias a postos. Eu e Lance resgataremos os homens, enquando Iduna, Karen e Erika resgatarão as mulheres. A cidade estará um pandemônio, se formos discretos, só notarão que fugimos quando estivermos a quilômetros daqui. Sairemos a noite, aproveitando a escuridão.
— Espera. Como sabemos que não vão dar falta dos humanos logo quando o bordel abrir a noite? – perguntou Iduna
— Segundo a tradição, durante festa de Loki, nenhuma negociação pode acontecer, deve-se apenas festejar, logo, bordéis, e lojas de armas estarão fechadas. Provavelmente, manterão os humanos trancados até de manhã, quando a festa terminar. Teremos esse tempo para o resgate. – explicou Nevra.
Todos assentiram, concordando com o plano. O dia passou com uma tensão no ar, os guardiões viam a movimentação para os festejos da noite, enquanto eles preparavam seus equipamentos, magias e poções para seus próprios “festejos”.
Ao por do sol, se ouvia o som da música alta e o crepitar da grande fogueira na praça central. Era hora de agir.
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