A música alta e animada tocava do lado de fora do quarto, porém, dentro dele, não havia alegria. Sete mulheres humanas, de idades entre 18 e 34 anos eram mantidas no cárcere, obrigadas a serviços degradantes. Apesar do incômodo da festa que acontecia, sentiram-se gratas pela “noite de folga” que aquela celebração lhes tinha proporcionado.

Quando estavam prestes a dormi, um barulho vindo da parede as alarmou. Como magia, uma parede se abriu e duas jovens, de aparência humana saíram de dentro dela. Elas correram e gritaram de medo, acuadas no lado oposto aos das mulheres que acabaram de entrar.

— Eu sou Erika, essa é Iduna. Somos humanas da Terra como vocês e viemos salvá-las. – Algumas mulheres sorriram e o brilho voltou a seus olhos, mas outras desconfiaram, achando se tratar de outra armadilha. A mais velha dentre elas tomou a iniciativa na conversa, parecia se a líder daquele grupo.

— Como saberemos se são mesmo humanas? Já fomos enganadas outras vezes e perdemos companheiras. Não iremos com vocês se isso nos levar a morte.

— Não viemos para matá-las ou escravizá-las. Querendo libertar vocês, somos da guarda de Eel, defendemos e lutamos por justiça. – Erika tentava convencer a líder do grupo.

— Mika, vamos com elas. Mesmo que morramos, é melhor que continuar nesse inferno. – uma das mulheres suplicou a líder.

— Não cairemos nessa cilada. Vocês se dizem humanas, mas como podemos ter certeza, muito dos habitantes desse mundo tem aparência humana, mas não passam de monstros!

Iduna e Erika se entre olharam, sem saber como convencê-las a seguir o plano de fuga. Foi quando Iduna teve uma ideia.

— Somewhere over the rainbow, Way up high – Iduna começou a cantar. Uma música extremamente popular na Terra, para prova que era, de fato, terráquea. Erika seguiu e cantou junto. Algumas das mulheres seguiram a canção e logo, quase todas as mulheres estavam cantando, como uma súplica.

— Ok, vocês são terráqueas, mas como saberemos que querem nos salvar? – Mika ainda desconfiava. Uma das mulheres que estavam mais quietas, resolveu se manifestar.

— Foda-se você, Mika. Qualquer coisa é melhor que essa merda. Elas já provaram que são terráqueas e eu prefiro acreditar nelas e ter uma chance de sair daqui do que ficar mais um minuto nesse lugar. – Ela seguiu pela abertura na parede enquanto as outras a observavam. Uma a uma foram seguindo a primeira até que apenas Mika ficou no quarto. Iduna e Erika olharam para ela e ofereceram passagem, abrindo o caminho para ela passar. A mulher seguiu, a contragosto, mas parecia ser a única opção no momento.

Seguiram pelos túneis escondidos até a entrada da cidade, onde os guardas jaziam adormecidos. Iduna e Erika imaginaram se cortesia de Mayuri. Correram mais um pouco, noite adentro, até ouvirem os barulhos das montarias. Quando todas as mulheres chegaram junto ao grupo de resgate, viram que os rapazes já haviam terminado sua parte, tendo consigo os outros dois prisioneiros. Mayuri, Evelyn e Huang Chu tinham conseguido o dobro de montarias que tinham quando chegaram. Erika ficou impressionado.

— Uau! Nossas montarias deram cria? — disse, tentando aliviar a tensão do momento.

— Cortesia dos bandidos mais salafrário de Eldarya. – Huang Chu comentou. – É difícil atravessar o deserto a pé, com todas essas pessoas, precisaríamos de mais montarias. Além disso, deixando os bandidos sem locomoção, ganhamos distância mais facilmente. Agora todos montando, temos que correr antes que percebam nossa fuga. Vamos aproveitar a noite.

A caravana seguiu com o véu da noite os escondendo. Havia 9 montarias, cada guardião levava consigo um resgatado, à exceção de Mayuri. Evitavam viajar durante os períodos mais quentes do dia, parando em oásis que Nevra e Karen conheciam, por terem vivido naquele deserto. Evitavam as rotas mais usadas pelas caravanas, seguindo caminhos mais compridos para evitar se encontrar com os soldados de Yaqut. Perceberam as patrulhas aladas de mascotes e Mayuri e Iduna se revezavam conjurando magias de ilusão. Não era a especialidade delas, mas Koori havia ensinado um pouco a elas, em caso de emergência, o que veio a calhar. Depois de 4 dias viajando pelo deserto, acreditavam que em meio dia já estariam nas terras de Eel. Depois disso, mais dois dias e chegariam no QG. Os guardiões estavam aliviados por não ter havido nenhum problema na viagem de volta, mas os resgatados ainda relutavam muito em confiar em seus salvadores. Toda vez que paravam, ficavam afastado dos guardiões, ou sentados no canto oposto de onde os mesmos estavam. Interagiam o mínimo possível, somente com Iduna e Erika, que já haviam se mostrado terráquea. Os rapazes resgatados também ficavam isolados. Iduna não julgava, com o histórico de abusos que eles sofreram, não confiaram em outro faeiry nem tão cedo. Pararam no último oásis antes de saírem do deserto, descansando as montarias e aproveitando para fazer uma refeição rápida e se reabastecerem de água. Faltava uma hora para o pôr do sol, pararam a esse horário para aproveitar a claridade do dia e preparar a refeição com fogo e sem chamar a atenção, já que, com a claridade do sol, o fogo não se sobressairia na paisagem. Após servir a refeição a todos os resgatados, Iduna se sentou abaixo de uma palmeira, admirando o sol que já baixava no horizonte. Em circunstâncias normal, teria se perdido em pensamentos admirando aquela paisagem, porém tinha que ficar alerta, ainda poderiam ser atacados por bandidos ou criaturas do deserto. Lance se sentou ao seu lado sem dizer nada, ambos se olharam e era nítido o cansaço e o stress que aquela missão empunha a todos, não só a eles. Lance pegou na mão de Iduna e ela entrelaçou seus dedos nos dele. Momentos de carinho entre os dois estavam bem escassos nos últimos dias, então aproveitavam qualquer oportunidade, mesmo que mínima para terem algum contato. Lance encostou sua cabeça no ombro dela e disse.

— Ainda falta dois dias. Eu só queria um banho e dormir até semana que vem.

— Entendo sua dor, eu também me sinto um trapo. Só quero dormir na minha cama macia até o cansaço acabar. Mas tenho medo de entrar em coma. – Iduna disse, fazendo uma piada. Lance deu uma risada baixa, parecia cansado até para rir.

Depois de meia hora de sol posto, a caravana recomeçou a jornada. Faltava pouco para chegarem as terras de Eel. De repente, atrás da caravana surgiu aves imensas, lembrando águias. Elas eram montadas pro faerys vestidos como guardas de Pentos, uns dos chefes atuais da cidade de Yaqut. Eles começaram a atacar, lançando flechas e ataques mágicos na caravana.

— ATENÇÃO! FORMAÇÃO DE ATAQUE! Karen, Huang Chu, Evelyn, protegem os humanos! Mayuri, Iduna, Erika, foquem no ataque a distância! Lance, você e eu pegamos quem se aproximar! – com as ordens dadas, todos tomaram suas posições para a batalha.

Havia cinco aves, portanto, cinco alvos a serem abatidos. Iduna desenhou o ideograma de vento (風) e criou um tornado de areia, a fim de derrubar os inimigos, Mayuri tentava acertar os guardas com flechas e Erika lançava bolas de energia luminosa. Aos poucos elas foram derrubando as aves e os guardas um a um. Três deles sobreviveram a queda e seguiram com o ataque, mas Lance e Nevra os abateram facilmente.

— Depressa, vamos sair daqui, não sabemos se há mais soldados vindo! – Nevra deu a ordem e todos correram para as montarias. – Mayuri, Iduna, crirem uma ilusão para não sermos visto até entrarmos nas terras de Eel. Mesmo estando noite, não vou arriscar outra ‘visita’ surpresa.

Os humanos resgatados ficaram paralisados de medo pelo ataque, mas logo tiveram que se recompor, para saírem da área do conflito. Cavalgaram durante toda a noite, sem descanso, e mesmo após entrarem nas terras de Eel, ainda levaram mais meio-dia até poderem se dar ao luxo de descansar. As montarias estavam exaustas, os viajantes cansados, mas finalmente estavam seguros. Agora faltava pouco para chegarem no QG. Durante essa parada, uma das resgatadas chegou perto de Iduna e Erika, com cautela, quando elas estavam dando de comer as montarias.

— Moças – ela não lembrava seus nomes – todos os que moram nessa cidade para onde estão nos levando são como vocês, quero dizer, guerreiros.

— Nem todos, há muitos civis por lá, mas como é nosso QG, há muitos soldados também. Mas é bem seguro. – Erika respondeu, tentando parecer amigável. A jovem agradeceu a atenção e voltou para seu grupo. Pareceu que contou a elas sobre a informação que havia recebido e os resgatados pareceram ficar tenso. Aquilo não passou despercebido por Iduna.

— Erika, será que o QG é o melhor lugar para eles ficarem? Eles parecem nervoso perto de pessoas belicosas.

— Realmente parece que ficaram desconfortáveis ao saber que temos guerreiros no QG. Temos que pensar o que seria melhor na situação deles. – As companheiras continuaram conversando e cuidando das montarias.

Após o descanso, retomaram a viagem. Agora parariam apenas quando chegassem no QG de Eel.