As crônicas da Raposa e do Dragão
20 Rotinas, intrigas e juras
Ao atravessar os portões de entrada do QG, a caravana vinda do deserto de Yaqut finalmente pôde se dar ao luxo de relaxar. Sempre que Iduna retornava de uma missão externa, ela tinha a sensação de retorno ao lar quando atravessava aqueles enormes portões.
Ao chegar, a caravana se dividiu, a maioria foi direto para a sala do conselho dar o relatório da missão a Huang Hua, exceto Iduna, Erika e Mayuri que levaram os resgatados para o Refúgio, onde os civis ficavam. Mesmo a Guarda de Eel tendo alguns humanos em sua cidade, os resgatados ainda pareciam muito inseguros sobre tudo o que acontecia. Pareciam sempre alarmados e Erika temia que eles não se adaptassem a vida no QG.
— Sejam bem-vindos ao Refúgio, vamos cuidar de vocês e acomodá-los devidamente. – Uma senhorinha idosa, de um metro e quarenta de altura e feição sorridente recepcionou a todos. — Moças, venham comigo, rapazes, vocês vão com aquela mocinha ali. – A senhora apontou para uma mulher de meia idade. Erika apresentou a senhora idosa.
— Essa é a administradora do Refúgio, ela que cuida para que não falte nada a nossos cidadãos.
— Oh! Que cabeça a minha! Perdoem essa pobre velha que já viveu tanto que perdeu a educação. Eu me chamo Dina Martin – a senhora disse com um sotaque francês.
— Êtes-vous français? – uma das resgatadas disse, em francês, com os olhos brilhando em ouvir o sotaque de sua língua materna, mesmo que brevemente. Trocaram meia dúzia de palavras em francês e logo a senhora Dina continuou falando a todos.
— Estamos com falta de quartos individuais devido ao crescimento da quantidade de residentes. Espero que não se importem em dividir a moradia com outra pessoa. Claro que manteremos entre vocês. Venham, venham, me sigam. – A idosa foi a frente e os resgatados a seguiram parecendo baixar a guarda pela primeira vez, desde que Iduna as viu em Yaqut.
— Ninguém consegue resistir a Dona Dina. Ela é a simpatia em pessoa. – Mayuri comentou – Agora que todos estão sendo bem assistidos, vamos fazer logo esse relatório pra podermos descansar.
Iduna e Erika concordaram e as três seguiram para a sala do conselho, onde os demais já finalizavam o relato. Elas entraram sem fazer barulho e sem chamar a atenção.
-... Então, após o ataque, seguimos o mais rápido possível para as terras de Eel, a fim de ficarmos em segurança, – Nevra narrava – precisávamos sair do raio de ação do inimigo. Depois de mais meio-dia, conseguimos chegar sem mais nenhum incidente. – Finalizou.
— Apesar dos contratempos, a missão foi um sucesso. Estou orgulhosa de todos. – Huang Hua comentou. – Estão dispensados.
— Huang Hua, se me permite. – Erika disse levantando a mão. Huang acenou com a cabeça e ela prosseguiu na sua fala. – Estou preocupada com os resgatados que trouxemos. Acho que eles não se adaptarão aqui no QG. Apesar de ser seguro, eles parecem ter muita aversão a violência, mesmo que seja defensiva.
— É difícil imaginar um lugar melhor do que aqui para que eles fiquem seguros. – Feng Zifu disse, coçando sua longa barba.
— Eu sei, mas se eles não se sentirem confortáveis conosco, será questão de tempo até que fujam e acabem numa situação parecida com a qual os salvamos.
— E o que sugere como solução? – perguntou Huang Hua.
— Os Fenghuang estariam dispostos a recebê-los? Eles são um povo muito pacífico e espiritualizado. Acho que eles precisam mais de uma cura em suas almas do que em seus corpos. – Erika completou, expondo seus pensamentos.
— De fato é uma ideia interessante. Se a senhora me permitir, posso enviar uma mensagem para a vila e ver se podem acolher a todos que desejarem ir. – Feng Zifu sugeriu a Huang Hua e ela aceitou. Não havendo mais nada a ser comentado, todos se retiraram da sala do conselho e cada um seguiu um rumo.
Iduna e Erika saíram juntas da sala, cansadas de todos os dias dedicados a missão.
-Finalmente descanso! — Erika dizia enquanto esticava os braços pra cima, tentando aliviar a tensão. — Preciso encontrar o Leftan agora, estou morrendo de saudade. — Ela disse, acenando para Iduna e correndo para longe. A meio-kitsune achava fofo o jeito como Erika parecia uma menininha apaixonada quando falava de seu namorado.
Iduna foi direto para seu quarto, olhou para cama e quis se deitar, mas com toda a sujeira da viagem, achou melhor tomar um banho. Seu primeiro pensamento foi de tomar um banho de banheira bem demorado e relaxante, mas teve medo de dormir na água pelo cansaço. Resolveu tomar um banho de chuveiro para poder descansar o mais depressa possível. Quando se encaminhava para o vestiário dos soldados, sentiu alguém puxando-a por trás, levando-a para dentro de um quarto, fechando a porta do cômodo e a empurrando contra a porta fechada. Só conseguiu ver o rosto de Lance de relance antes dele beijá-la com paixão, um beijo que beirava o desespero. Iduna sentiu a adrenalina percorrer seu corpo e o cansaço passou num instante. Enquanto aquele beijo intenso rolava, Lance tirava as roupas dela com pressa, quase rasgando-as. Iduna tentou retomar o controle da situação e afastou Lance um pouco, na distância de seu braço.
— Calma, ainda nem tirei a poeira da viagem. – Disse ela recuperando o fôlego.
— Não seja por isso. – O dragão respondeu com um sorriso travesso. Tirou suas roupas, pois já havia tirado a armadura e puxou a meio-kitsune para o banheiro que tinha em seu quarto.
— Banheiro particular, que chique.
— Ser chefe de guarda tem suas vantagens.
Lance já foi levando Iduna para o box, aos beijos novamente e ligou a água. Ela descia morna e agradável, potencializando o calor que ambos sentiam. Em dado momento, a jovem agarrou o cabelo da nuca dele e puxou a cabeça dele levemente para trás e foi direto em seu pescoço mordiscando o mesmo. Ele gemeu com o prazer que sentia. O dragão segurou as nádegas dela, cada mão de um lado e a suspendeu no ar, encaixando seus quadris nos dela e apoiando suas costas na parede. A meio-kitsune entrelaçou suas pernas em volta dele e ele começou os movimentos rítmicos investindo seu quadril contra o dela. Depois de alguns minutos ambos chegaram ao clímax juntos, finalizaram o banho e se deitaram na cama.
— Eu estava louco de vontade do seu corpo a dias. Não consegui esperar nem mais um minuto. – Lance disse se aninhando com Iduna.
— Eu percebi. – Ela disse enquanto abraçava seu parceiro. – Mas agora eu preciso mesmo descansar. Posso dormir aqui?
— Não ouse se levantar.
O casal adormeceu abraçado e de tão cansados, dormiram até o dia seguinte.
A rotina voltou a vida de Iduna, treinava com seus discípulos e ajudava eles nas missões de patrulha e coleta. Fazia as refeições com seus companheiros e no tempo livre, lia sobre a história de outras nações de Eldarya. Durante o dia, ela e Lance não se viam muito, como chefe de guarda, ele era bem atarefado. Mas a noite, sempre dormiam juntos, as vezes no quarto dela, as vezes no dele.
Tudo seguia bem para a meio-kitsune, mas ainda algo a incomodava, os olhares indiscretos que davam a ela, provavelmente por causa de seu relacionamento com Lance. Um dia, ela foi ao refeitório mais tarde, para evitar olhares. Almoçava sozinha num canto discreto, quando duas mulheres apareceram e se sentaram na sua mesa. Uma tinha o cabelo azul e escamas em algumas partes da pele e a outra tinha orelhas compridas, como de coelhos.
— Oi, Iduna. É isso, né? – A meio-coelha falou e não deu chance de resposta. – Eu sou a Sisi e essa é minha amiga Hanna. A gente tem reparado em você a algum tempo, você tem andado muito com o chefe da guarda obsidiana. Provavelmente não te avisaram, então vou fazer esse favor para você: tenha cuidado com esse homem. Ele já foi inimigo do QG, quase destruiu tudo. – Ela falava com um sorriso debochado no rosto, o que irritou Iduna, mas esta manteve a calma e respondeu com um sorriso igualmente debochado.
— Engraçado, Huang Hua parece confiar nele. Não acho que ela colocaria alguém que é uma ameaça na chefia de uma guarda. Não deveríamos confiar nas decisões de Huang Hua?
— Huang não sabe o que faz, nem todos concordam com essa chefia. Se afaste dele, antes que seja tarde. Sei que é muito bonito, sedutor e um grande gostoso... Mas ainda sim pode ser perigoso para você. – Por esse comentário, Iduna já conseguiu captar a intenção delas.
— Nossa, eu tenho muita sorte mesmo. Companheiras que se preocupam comigo, estou comovida, – O sarcasmo poderia ser sentido do outro lado do refeitório – mas não se preocupem. Já sou grandinha, sei me virar. – Iduna se levantou para tirar o prato da mesa, mas Sisi agarrou seu braço, quase fazendo a meio-kitsune derrubar o prato.
— Não entendeu o que eu disse, larga do Lance ou vai se arrepender.
Iduna olhou incrédula para a mão da coelha agarrando seu braço e com um movimento rápido se soltou, agarrou o pulso dela e o torceu, fazendo-a ajoelhar com a dor.
— Encoste em mim de novo e vai ter sorte se eu só torcer seu pulso. – Iduna a empurrou para trás. – E outra, acha que não percebi o que fez? Quer fazer a caveira do Chefe da guarda porque é a fim dele. Provavelmente tomou um fora e agora não quer que ele fique com mais ninguém. Melhore, seu lixo.
— O que diabos está havendo aqui? – Chrome chegou no refeitório e vendo a cena, quis entender o que acontecia.
— Essa louca me atacou sem motivo. – Sisi choramingou e agarrou o braço do lobisomem – Me defenda, Chrominho, afinal eu sou da sua guarda.
— Ei! Me solta! Eu tenho... – Chrome parou de repente, sentindo uma presença assassina. Ele empurrou Sisi para longe, para cima de Hanna. Quando virou para trás, Karen estava olhando para ele com olhar homicida e manuseando uma faca. – Karen, amor, não é nada do que você está pensando.
— Como sabe o que estou pensando, você lê mentes agora? – Ela disse, se aproximando e encostando a faca de leve na garganta dele. Iduna achou melhor intervir.
— Karen, eu sou testemunha, o Chrome é inocente. Essa sem noção que agarrou ele achando que ele a defenderia de mim. – O rapaz olhou tão agradecido que teria abraçado Iduna se não fosse pela sua namorada no recinto.
— E o que VOCÊ fez para ela. – A vampira quis saber.
— Essa vaca veio aqui para me fazer desistir do Lance, espalhando as histórias do passado dele. Aí quando ignorei o que ela disse, ela agarrou meu braço, então torci o pulso dela. Estava só me defendendo.
Karen olhou para a garota-coelho com desprezo e se aproximou bem devagar ao passo que Sisi ficava cada vez mais aterrorizada.
— Então é você que está espalhando as histórias do Lance novamente. Huang Hua já havia decretado que esse assunto morresse, mas, ao que parece, temos uma necromante aqui, insiste em reviver assuntos já mortos. — Karen chegou bem perto de Sisi e colocou a ponta da adaga no queixo da garota – E ainda por cima fica se insinuando para homem casado. Tenho vergonha de ter uma rapariga como você na minha guarda.
Lágrimas brotaram nos olhos de Sisi, Karen afastou a adaga e a garota-coelho se ajoelhou, coma testa no chão.
— EU SINTO MUITO, SENHORITA KAREN, EU ERREI.
— Levanta logo. — Karen disse com desdém. Sisi e Hanna foram saindo apressadas quando a vampira falou. — Ei! Não estão esquecendo nada. — Ela apontava para Iduna.
— Não preciso de desculpas delas, não aparecendo na minha frente já estou satisfeita.
— Desculpem-se! – Karen deu a ordem, ignorando Iduna.
— Me desculpe, senhorita Iduna! Eu errei! Nunca mais vou me intrometer nos seus assuntos. — Sisi curvou metade do corpo, se levantou e correu do refeitório junto com Hanna para não ser obrigada a passar por mais nenhum vexame.
— Karen, não acha que pegou um pouquinho pesado com a recruta? — Chrome disse, sem pensar e se arrependendo logo depois de proferir as palavras. A vampira virou-se para seu namorado com um olhar ameaçador.
— Não vai ser nem perto do que eu vou fazer com você. — Ela o puxou para fora do refeitório pela orelha, como se faria com uma criança travessa.
Com toda a cena passada, Iduna recolheu seu prato e o levou de volta ao balcão para a limpeza. Havia pouquíssimas pessoas no refeitório àquela hora, mas sabia que antes do jantar, aquela cena seria o assunto do QG. Passou o resto do dia na biblioteca, a fim de evitar olhares curiosos. Também não foi jantar no horário normal, esperando um momento que o refeitório estivesse vazio. Enquanto toma sua sopa, viu Lance entrando no refeitório, com um olhar preocupado. Ele se aproximou e se sentou junto dela.
— Eu não te vi o dia todo, mas ouvi uma história entre você, uma recruta da Sombra e a Karen. Já ouvi 3 versões dessa história; na primeira você dava na cara de uma brownie coelho e ela saia correndo chorando; na segunda a Karen cortava a garganta dela e fugia com o corpo; e na terceira você a Karen fazem a recruta se curvar e reconhecer vocês como rainhas do QG. Confesso que essa é a minha versão favorita, pelo absurdo. — Iduna pôs a mão na testa e fez uma cara de derrota, os boatos eram piores do que ela imaginava. Lance segurou sua mão livre com carinho e lhe disse. — O que aconteceu de fato? Me conta. — A meio-kitsune respira fundo e começa a relatar.
— A causa de tudo foi uma brownie, essa parte está certa. Mas o que aconteceu foi que ela estava me incomodando, fazendo intriga de você, falando do passado e tal. Quando ela viu que não ia cair no papinho dela, ela agarrou meu braço. Eu revidei torcendo o pulso dela. O Chrome chegou para tentar saber o que estava acontecendo. Ela se insinuou para ele e a Karen ficou puta da vida. Deu uma ameaçada na recruta que fugiu depois de se desculpar. E foi isso, ninguém morreu de fato. Depois do acontecido, eu imaginei que ia ser uma fofoca só no QG, então me enfurnei na biblioteca. Você sabe o quanto eu amo chamar a atenção. — Iduna disse sarcasticamente.
— É... eu sei. — Lance ficou com o rosto deprimido. — Todo esse problema por causa do meu passado... Sinto muito você ter que sofrer por isso.
— Acho que não é exatamente isso. Eu acho que mesmo que você não tivesse toda essa bagagem, os eventos teriam sido os mesmos. Essa tal de Sisi parecia muito mais tentar me separar de você do que temer pela minha segurança. Será que você não deu um fora nela ou coisa assim?
— Teve uma brownie coelho que se declarou para mim uma vez, mas isso faz mais de 1 ano. Será que é ela? Mas ela ainda está ressentida depois de tanto tempo?
— Provável.
Eles se levantaram da mesa e seguiram para fora do prédio principal do QG, a fim de aproveitar a noite fresca no jardim da árvore centenária. Iduna adorava aquela árvore, a fazia lembrar de casa. Ela inspirou, sentindo o cheiro doce do perfume das flores, e espirou devagar, aproveitando o frescor da noite. Havia vagalumes voando pelo ambiente, dando uma aura ainda mais mágica ao local.
— Às vezes eu esqueço como esse lugar tem coisas tão bonitas. Essa árvore é maravilhosa.
— Não tanto quando você. — Iduna ficou vermelha com aquele elogio inesperado. Lance se aproximou devagar e deu um beijo terno em seus lábios. Ele abraçou a cintura dela e ela passou seus braços por seu pescoço, encostaram suas testas, apreciando a presença um do outro. Depois de alguns minutos desse jeito, Lance disse. — Se eu tivesse nascido no seu mundo, será que nos encontraríamos?
— Não tem como saber...
— Eu gosto de acreditar que sim. Eu poderia ter sido amigo do seu irmão e te conheceria quando ainda fosse uma menininha. Mas claro que você se apaixonaria por mim de cara. — Iduna fez uma careta simulando bronca. — Mas eu só te notaria quando ficasse mais velha e aí ficaria nas suas mãos.
— Talvez tenha acontecido desse jeito, em algum universo paralelo. Mas certamente eu te amaria em todas as realidades. — Iduna falou tão naturalmente que só se deu conta quando viu a cara de Lance olhando para ela, totalmente surpreso.
— Você disse isso mesmo? Não estou delirando?
Apesar o rosto vermelho por causa da declaração espontânea, Iduna não voltou atrás nas suas palavras.
— Não é delírio seu. Eu te amo, Lance. — O dragão a abraçou como se temesse que ela fugisse ou mudasse de ideia e a beijou com todo o sentimento que tinha. Quando se afastam um pouco, ele também declarou.
— Eu também te amo, Iduna.
O amor deles estava selado com aquela jura. Os vagalumes dançavam ao redor do casal e nada mais importava para ambos, além daquele instante mágico.
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