Notas iniciais
Tento relaxar, fecho os olhos “Isso, assim mesmo.” Ele fala na minha frente, abro um olho, e balanço a cabeça em negação mais uma vez. Ele coloca a mão em meu peito e uma onda de calor atravessa todo meu corpo, é a mesma sensação que sempre sinto quando ele me toca.

Após semanas com tentativas frustrantes de apagar minhas cores, estou prestes a desistir.

É sempre o mesmo problema, preciso respirar fundo e começo a me concentrar, mas quando faço isso, só sinto o cheiro do Stiles que está parado ao meu lado me observando, e o que era pra ser um nada envolta de mim, se transforma em um verde forte de raiva e angustia. Ele sempre tenta me acalmar e me manda tentar outra vez, mas é cansativo e inútil. Odeio meditar e não consigo me focar com ele por perto.

Não posso dizer que ele é totalmente ruim. Ele engraçado, inteligente e diferente. Acho que posso me acostumar a ter alguém por perto. Desde que esse alguém seja ele.

“Mais uma vez Derek.” Ele diz, e senta na minha frente. Olhando nos meus olhos. “Não é tão difícil.” É fácil pra ele falar.

“Por que pra você é tão fácil?” Pergunto quase rosnando, com as mãos em cada lado do rosto. Ainda sentado, em posição de meditação. Deus eu preciso das minhas ervas, meu violino, que ainda não arrumei uma corda nova pra ele.

“Porque já faço isso há muito tempo.” Ele responde ainda na minha frente com os olhos grudados em mim, subindo e descendo suas mãos, querendo demonstrar o devo fazer. “Agora pare de ficar verde, isso não é cor de alguém relaxado. Você parece o Hulk.” Não, ele não falou isso! Não está me comparando com um personagem fictício. Que só sei de sua existência por causa dele.

Reviro os olhos, e deslizo minha mão em meu rosto em aflição. “Isso não é justo, detesto o fato de você poder ver minha cor e eu não poder ver a sua.” Olho nos seus olhos, e ele se recua quando estendo a mão e aponto para o amuleto dele. “Tire, eu quero ver sua cor, estou em desvantagem aqui.” E como todas as vezes, ele fala ‘não, outro dia.’ Qual o problema de ver a cor dele? E mais uma vez, eu desisto. Não sou do tipo que insiste no erro. Mentira, tenho persistido nesse erro de meditação há tempo demais.

Tento relaxar, fecho os olhos. “Isso, assim mesmo.” Ele fala na minha frente, abro um olho, e balanço a cabeça em negação mais uma vez. Ele coloca a mão em meu peito e uma onda de calor atravessa todo meu corpo, é a mesma sensação que sempre sinto quando ele me toca. E como sempre eu tento ignorar, mas é inútil, eu adoro esse calor que ele me provoca. Merda se concentra. “Agora respire fundo.” Não posso fazer isso, com você na minha frente.

“Não dá Stiles, não com você aqui, eu não me concentro com você por perto. Seu cheiro está me matando.” É a primeira vez que falo do cheiro dele.

“O que tem meu cheiro Derek? Que cheiro eu tenho?” Isso eu não posso responder. Ele parece chateado, ou aflito. Ele se levanta. “Qual é o meu cheiro Derek?” Seu tom foi mais alto, e isso é estranho pra mim.

“Ei calma, desculpe, mas eu me concentraria melhor se estivesse sozinho, por favor.” Olho para ele, e Stiles não diz nada, só se vira e sai. Se passa alguns minutos e o cheiro dele é quase zero, o único rastro que se tem é o que ele deixou em minha camisa, que logo sumirá também.

Agora posso me concentrar, me acalmar, sozinho em silêncio. Demora um pouco, mas por fim estou relaxado e calmo. Respiro fundo e solto o ar bem devagar. Me concentrando em minha cor, permitindo que ela se esconda, a cada respirada, a cada minuto. Fico assim por mais ou menos uma hora e quando penso que mais uma vez não deu certo, olho para minhas mãos e nada, não vejo nada, estava totalmente limpa. Consegui, até que enfim.

Giro o corpo em felicidade, mas não tem ninguém. Stiles não está aqui. Preciso ir atrás dele, mas quase não sinto o seu cheiro. Tudo bem, eu posso encontrá-lo.

Leva mais tempo do que eu imaginava e não consigo achá-lo, será que ele está chateado comigo por ter expulsando-o do nosso lugar. Nosso? Meu lugar, não dele, não nosso, meu. Tudo bem, não faz diferença, não é como se ele tivesse ido embora. Espero que ele não tenha ido embora.

Agora o cheiro está fraco, mas sei onde encontrá-lo. Ele está assistindo ao treino de lacrosse do colégio.

Nunca vim para esse lado do colégio, nunca tinha sido necessário, até hoje. Posso vê-lo vibrando na arquibancada e sei que ele sentiu o meu cheiro, porque agora, Stiles está virado para mim com um grande sorriso no rosto. Quando ele finalmente me vê, seu sorriso diminui e ele se levanta para me encontrar.

Não estamos muito longe do campo e dar arquibancada.

“Você conseguiu.” Ele está sério agora. Pensei que ficaria feliz.

“E você não parece contente com isso.” Ele apenas levanta e desce os ombros. “O que foi? Agora você vê o quanto é frustrante olhar para alguém e não ver cor?” Ele morde os lábios e abaixa a cabeça.

“Não, estou contente por você... Conseguiu o que queria... Parabéns.” Ele se vira e começa a caminhar novamente. O que foi isso? Onde ele vai.

“Stiles espere, onde você vai?” Por que ele está agindo estranho assim?

“Vou voltar para o treino. Imagino que você queira voltar a ficar sozinho agora.” E continua a andar.

“Então, nos vemos depois?” Ele agora para por completo, gira seu corpo um tanto exagerado e seu sorriso voltou. É sério, ele é muito confuso. Ele se aproxima de mim outra vez.

“Sério, ainda quer me ver? Pensei que depois de conseguir anular suas cores você não precisaria mais de mim. Sabe, pelo fato de você não ter amigos, falar pouco e gostar de ficar sempre sozinho. E você sempre está com esse olhar de estressado. E eu sempre tenho impressão que te tiro do sério, quando começo a falar demais. E fiquei pensando que esse era um dos motivos por ter me mandando sair, para você se concentrar melhor. E tem...”

“Stiles!” Ele se cala e me olha como um filhotinho, com seus olhos grandes. “Você está falando demais, e sim muitas vezes me tira do sério, mas não é motivo suficiente para eu não querer te ver mais. Quero dizer...” Isso vai ser difícil. “É... você é legal. E acho que podemos ser amigos.” Passo a mão pelo cabelo e olho para longe, para evitar esse brilho que está saindo dos olhos de Stiles. “Então nos vemos depois.” E me retiro.

“Claro.” Escuto ele falando atrás de mim.

Semanas se passam, virando meses e tudo ficou mais suportável para mim no colégio. Ainda odeio esse lugar, mas não tenho necessidade de fugir. Desde que conheci Stiles não tenho ido em casa. Assim recebendo várias ligações de meus pais preocupados, porque não estou aparecendo. Ainda não contei o motivo, mas tenho certeza que Peter já o fez, e não ligo.

O que era um cômodo somente meu, em um porão mal iluminado, escondido de todos virou, nosso lugar de encontro. Onde tinha um puff, tem dois e ele fez o lugar ser mais sua cara. No começo não gostava, mas Stiles bate o pé e diz que o lugar também é seu. Por breves momentos me arrependo de ser amigo dele.

E seu cheiro que me deixava louco, hoje é como um escudo para os outros. Sempre que ele está por perto não sinto mais o cheiro de ninguém, somente o dele. E as cores, passei a ignorar. Comecei até a me conviver com humanos. Humanos amigos de Stiles, Allison e Scott e não são tão chatos assim.

E as nossas próprias cores, é como se não precisássemos delas. Olho para ele e já sei como ele se sente, com cor ou não. E ele me enxerga da mesma forma. Tenho ficado em constate aflição quando Stiles não está por perto.

Estou sozinho agora e começo a tocar meu velho violino, o som invade meus ouvidos. E tenho certeza que atinge o quarto ao lado, porque minutos depois Stiles está em minha porta. Não preciso nem sair do meu lugar e abri-la, ele entra sem ser convidado. Stiles é assim, espaçoso, sempre fazendo de todo lugar seu território.

“Ei. Posso ficar aqui um pouco? Allison e Scott estão...” Ele faz movimentos com a mão, querendo demonstra o que eles estão fazendo no quarto ao lado. Apenas dou um leve sorriso e começo a guarda meu violino. “Não, continue.” E tem isso, ele adora me escutar tocando. Continuo e o olho. E claro, ele continua conversando. “Essa é nova, nunca ouvi.” Sinto minha pele queimar.

“É sim, apenas permaneça quieto e escute.” Nunca diria que fiz essa música pensando nele. A verdade é que eu nunca seria capaz de dizer que estou apaixonado por ele. É, Derek Hale se apaixonou. Isso foi um tanto ridículo e incomodo no começo. Foi o momento mais confuso que tive que enfrentar, mas depois de ver Allison e Scott agindo um com o outro. Os beijos que eles davam, todas as trocas de carinhos e apelidos bobos, percebi que queria isso com Stiles. E no mesmo momento, pensava que isso não seria possível, porque Stiles só me vê como amigo. E se eu tentasse algo, se eu o beijasse e se isso estragasse nossa amizade? Não é isso que dizem? Posso sobreviver tendo ele só como amigo. Eu acho.

Ele está inclinado em minha cadeira, de olhos fechados e braços cruzados. É difícil segurar a vontade de beijá-lo. Paro de tocar e ele abre os olhos. “Porque parou? Estava me fazendo dormir. Você toca tão bem.” Ele pega meu violino e o coloca entre seu queixo e ombro. “Eu queria poder tocar assim.” E começa a arranhar o arco nas cordas. Deus isso é terrível.

“Por tudo que é mais sagrado, pare.” E tiro o violino de suas mãos. “Você é péssimo nisso.” Stiles se levanta e começa a fuçar em minhas coisas. Ele sempre faz isso, nunca tem nada de novo para ele olhar, mas ele insiste em mexer.

“Se você soubesse dar aula.” Ele vira pra mim. “Eu não seria ruim.” Ótimo, culpe o professor pela falta de talento. Ele anda mais perto e senta outra vez na cadeira, enquanto sento na cama. Passa sua mão no cabelo e para na nuca. Ele quer me perguntar algo. “Eu sempre quis saber por que o violino é tão importante pra você. Ele é tão velho.” Ele sabe que não gosto que falem que meu violino é velho “Quero dizer, ele é tão vintage.” E sorri.

Jogo os pés no colchão e cruzo os braços atrás do pescoço. “Quando eu tinha 5 anos, fugi de casa para correr na floresta mais próxima e tropecei em algo, era o violino. Lembro de voltar pra casa todo sujo com ele de baixo dos braços. Com o tempo aprendi a tocar sozinho e quando eu estava tocando era o único momento em que eu me sentia calmo.” Até te conhecer.

Ele faz uma cara boba. “Você deveria ser uma criança adorável.” E solta uma grande gargalhada.

“Cala boca.” Falo enquanto jogo um travesseiro nele, que o faz cair da cadeira. Como alguém pode ser tão desajeitado assim? “E você, porque usa esse colar?” Seu sorriso some por completo. Acho que falei algo errado.

“Era da minha mãe.” Sua voz saiu tão baixa que quase não escuto. Ele nunca fala da mãe. Sempre de seu pai, que é o Xerife de onde ele mora, que adora whisky e que nem sempre pode visitá-lo, mas nunca de sua mãe... E pela falta de alegria em seu rosto posso imaginar o porquê.

“Você está bem?” Pergunto só para ter certeza, mas sei que ele não está.

Um curto aceno confirma que sim, e continua. “Eu uso esse medalhão porque era dela, a âncora dela. Quando ela morreu...” Ele se cala.

“Você não precisa falar, se não quiser.” Mudo minha posição e fico mais próximo dele.

“Está tudo bem.” Ele diz, sinto que não é verdade, mas se ele quer falar, não vou impedir. “Quando ela morreu, eu e meu pai ficamos perdidos, eu fiquei tão triste e deprimido que minha cor foi se apagando aos poucos. Tentava de todas as formas me alegrar, para animar o meu pai, mas sempre que eu me olhava, eu estava quase apagado... E olhar o meu pai do mesmo jeito, não era fácil.” Stiles faz uma pausa e me olha. “Um dia, como todo os outros mexendo nos pertences dela, eu achei esse colar e me lembrei de quando ela me ensinou a canalizar e meditar. Eu fiz isso usando algo que era dela, que me acalmava. Desde então eu quase nunca o tiro.” Posso ver seus olhos começando a pesar em lágrimas, mas ele acaba de falar e dá um grande sorriso.

Ficamos conversando por mais algumas horas. Quando percebo, ele está dormindo em minha cama, mais uma vez. Stiles tem passado mais tempo em meu quarto do que no dele de verdade. E não posso dizer que acho ruim.