Notas iniciais
O que ele faz aqui? Por que me seguiu? Estou perdendo meus sentidos. Está tudo estragado por causa do cheiro dele. Me levanto indo em sua direção e pergunto “O que você quer?” e paro, reparando o erro que vou cometer se chegar mais perto.

Quando chego, me encosto na parede e deslizo até meu corpo atingir o chão. Estralo o pescoço e passo as mãos em meu rosto. Esse cheiro não sai, ele ficou muito perto de mim, grudou em mim só pode ser isso. Por que o cheiro ainda está tão forte?! É como se ele estivesse...

“Então é aqui que você se esconde.” Uma voz invade meus ouvidos, atravessando a sala toda e quase pulo de susto. O que ele faz aqui? Por que me seguiu? Estou perdendo meus sentidos. Está tudo estragado por causa do cheiro dele.

Me levanto indo em sua direção e pergunto. “O que você quer?” E paro, reparando o erro que vou cometer se chegar mais perto.

“Saber como você está. Me pareceu meio turvo na aula hoje.” O que ele quer dizer com isso, ele não me conhece. Não pode simplesmente me olhar e achar que pode me ler assim.

“Eu estou bem.” Menti descaradamente, se ele for místico vai reparar. Estou ferrado, ele vai saber que não é verdade. Ele me olhava um pouco desconfiado agora.

“Não, não está.” Ele baixa a cabeça, e se aproxima, e eu me afasto. É claro que me afasto, eu pareço um cachorro com medo de ser encoleirado, qual é o meu problema? “Sua cor está trêmula." Ele faz uma pausa. "Eu sou como você.” Oh Deus, ele realmente é místico.

Porque ele está preocupado comigo? E minha cor não está trêmula. Olho para minhas mãos, e sim ele está certo. “Como...” Eu não sei qual pergunta fazer primeiro. Como ele sabe minha verdadeira natureza... Como ele esconde sua cor... Porque ele faz isso...

“Pode perguntar o que você quiser.” Ele está cada vez mais perto. Agora ele anda por todo local, eu diria que parece entusiasmado. “Uau, isso aqui é incrível.” Fala enquanto observa cada canto. O meu território é um lugar escuro, mas em cada canto tem incensos, os cheiros são incríveis. Tem um puff gigante no chão e um som pequeno em outro canto. Um abajur no meio da sala que reflete um céu estrelado no teto. Gosto da sensação de estar fora. Mesmo que esteja preso nessas paredes.

Olho para ele enquanto caminha próximo a mim. “Como sabe o que eu posso ver? Como sabe que somo iguais?” Minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. E agora posso ver Stiles se virando para mim. Ele inclina sua cabeça de lado e solta um suspiro com sorriso no rosto.

“Eu pude ver como me olhou quando tentei te ajudar a pegar os livros, e o olhar não mudou com o passar dos dias.” É claro Derek, você é a pessoa mais discreta que existe. “É o mesmo olhar que está fazendo para mim nesse exato momento, total espanto. Então deduzi que você seria como eu. E que você não podia ver minha cor, acertei?” Ele parece tão calmo, tão tranquilo em sua resposta.

Não perco tempo em concordar, vou direto à outra pergunta. “Como você faz isso... Como esconde sua cor?” E posso ver quando ele para e me olha. Abaixa a cabeça e sorri.

“Posso te ensinar.” Grande. Alguém realmente disposto a me ensinar. Quando olho para seu sorriso bobo, me toco que devo estar radiante. Então me acalmo. É por isso que preciso aprender, demonstrações de emoções às vezes são vergonhosas.

“Isso seria realmente incrível.” Quando por fim me deixo levar, o convido mais adequadamente a entrar. Será que estou me saindo bem? É assim que se faz amizade, sendo educado e convidativo, certo? Acho que sim, porque logo seu sorriso aumenta e ele se senta em meu puff, agindo como se esse lugar fosse dele. Laura adoraria tudo isso.

Ele me olha de baixo, com um olhar de dúvida. “Me desculpe, acho que não tem outro por aqui, né?” Sério que ele me perguntou isso? Começo a questionar sua capacidade de observação.

“Não, isso aqui não é um clubinho onde recebo pessoas místicas para confraternizar.” Acho que fui rude demais. É agora que ele se levantar e vai embora, é agora que perco a chance de aprender como bloquear minhas cores. Mas ele não se levanta. Ele apenas se senta no chão e aponta para sua frente, me convidando a sentar e eu faço.

Nós olhamos por alguns minutos e pela primeira vez, eu o olho de verdade. Apesar do escuro que invade esse cômodo. Eu consigo vê-lo de verdade. Nossa, ele é lindo, sua pele é tão branca, suas bochechas são cobertas por pequenos pontos irregulares, cabelo castanho é todo arrepiado, sua boca é rosa e bem desenhada. Ele tem olhos tão grandes e estão a me olhar também. O que se passa na cabeça dele?

Ele limpa a garganta. Ótimo. O encarava como um louco outra vez. “Qual origem de seu nascimento? Digo sua linhagem.” Stiles perguntou. Será que respondo? Laura disse que nossa origem é a mais difícil de esconder as cores. Ignoro meus pensamentos.

“Terra.” Deve ter algum fundamento, senão ele não perguntaria. Ele continua me olhando com seus grandes olhos castanhos. “Isso é importante?” Pergunto após um minuto que ele leva para processar minha resposta.

“Na verdade um pouco. Você tem um ótimo espaço aqui pra concentração, canalizar a sua energia e apagar sua aura.” Agora fiquei confuso. “Tudo que precisa fazer é se acalmar, e meditar.” Ele só pode estar brincando, meditação, sério?

Reviro os olhos. “Isso é besteira.” Só pode ser. Perdi as contas de quantas vezes meus pais me obrigaram a meditar para treinar meu olfato e isso nunca funcionou pra mim. Não consigo me manter parado, quieto, só respirando lentamente, enquanto meu corpo relaxa. Isso não me relaxa, me estressa mais.

Nenhuma das minhas palavras rudes parecem tirar a alegria dele. Pelo menos eu penso que ele esteja alegre, sempre mostrando os dentes e curvando os lábios para sorrisos para tudo que eu falo. “Você também precisa de um amuleto feito por você, com algo que você goste muito e que te relaxe, para ser banhado na terra... Para que possa ser sua âncora e segurar a sua cor.” Ele fala e encolhe os ombros. Ok, isso realmente é mais difícil do que eu pensava.

“Isso é sério?” Realmente estou duvidando da capacidade dele. Ele apenas balança a cabeça em resposta e retira de dentro de sua blusa um colar, com uma cor gasta, na ponta a um vidro oval com água dentro, ele o balança de um lado para o outro, depois o coloca outra vez dentro da blusa. Esse é o amuleto dele. “Como aprendeu tudo isso?” Pergunto.

Seu sorriso diminui. “Com minha mãe.” Ele fala se levantando, olhando pra mim, seus olhos estão brilhando e não consigo saber se ele está triste ou feliz. Parece que o dois, se isso for possível. “Então, consegue pensar em algo? Algo que possa ser seu amuleto?” Consigo. Mas não tenho certeza. Me levanto também.

“Acho que sim. Vamos ao meu quarto.” O vejo me seguindo. Será que isso vai funcionar mesmo? Minha confiança estava diminuindo mais a cada minuto.

Chegando ao meu quarto, ele se encontrava atrás de mim e o arrependimento bate outra vez. Meu quarto vai cheirar a ele agora. Giro meu corpo e dou de cara com ele. Olhando para todos os lados. Será que mando ele sair? Não, seria rude demais até para mim. Não quero falar sobre o cheiro dele. Olho para todos os lados, pego meu violino, e posso sentir o olhar dele sobre mim. Tenho certeza que estou completamente rosa, porque ele se vira.

“Você não tem um colega de quarto?” Ele pergunta, olhando para minha prateleira de livros onde deveria ter uma outra cama. Em seguida olha pra minha cama, que é maior do que deveria ser e penso o quanto ela é inútil.

“O cheiro e cores de humanos me incomodam.” Falo enquanto tiro a corda de meu violino. "Como você aguenta?” Pergunto sem nem perceber que estou sendo social.

Ele senta em minha cama e olha para baixo. É sério isso, ele está deixando seu cheiro em todos os lugares, como se já não fosse forte o suficiente com ele aqui do lado, com paredes nos dividindo. “Meu pai é humano, eu sou um mestiço.” Merda. Acho que o ofendi, devo pedir desculpas?

“Oh. É... nem todos... os humanos tem cheiro ruim... Você sabe...” Me enrolei todo. Eu não sei fazer isso. Mas ele está mais relaxado, acho que fiz certo.

“Está tudo bem Derek, não me ofendi.” É a primeira vez que ele fala meu nome e não posso evitar o pequeno sorriso que se forma em meus lábios. E eu nem ao menos sei o porquê.

Estamos escondidos no jardim da escola. Enrolei minha corda de violino para se ajustar ao meu pulso, após tê-la deixando na terra enquanto escutava Stiles falar e falar. Deus como eu ele fala, quase não acompanho seus lábios em cada movimento. Tenho que admitir que gosto de ouvir ele conversar. Me perco em suas palavras, sobre filmes, jogos de lacrosse, videogame, quadrinhos e essas coisas que eu particularmente não entendo nada, mas acho tudo interessante. Me fez perder totalmente a hora.

Fico pensando se o fato dele ser mestiço, é o motivo do aroma dele ser tão peculiar e difícil de se distinguir.