As cores
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Agora ***
— não vai falar nada, ruivinho?
Ele tinha aquele sorriso. O mesmo sorriso de sempre. É cômico. Cômico ao ponto de doer. Tão engraçado, porém tão triste... A Hanna, minha filinha aperta minha mão com força, chamando minha atenção ao puxar o coes de minha calça. Encaro-a com ternura.
— suba com a mamãe, querida. – peço deslizando as mãos por seus cabelos tão negros quanto á noite de hoje. Seus olhos me encaram com um brilho surreal, logo olhando fixamente para Grimmjow. Um sorriso divertido brinca em seus lábios. — papai, o moço tem um cabelo engraçado— comenta sorrindo.
— tem sim amor. – concordo. Subo o olhar para minha esposa Samantha que me faz uma pergunta silenciosa. – subo em um instante. – digo.
— certo. Vamos querida. – ela toma a mão de Hanna e sorri para mim, logo entrando no prédio.
Ele está aqui... Isso é tão surreal. Não mudou nada, até ainda tinge os cabelos nessa cor esdrúxula e tão linda, que lhe cai realmente bem.
"Não fale mal baka! Combina com a cor de meus olhos!"
Resmungava divertido. Sempre foi assim. Mas as coisas mudam. Elas sempre mudarão...
— oe! – balançou as mãos frente a meu rosto. O sorriso grande agora sumira, dando lugar aquela boca contraída, uma expressão um tanto indiferente. Olhei em seus olhos.
— o que está fazendo? – indaguei cruzando os braços.
— o quê? Não posso mais dar uma volta? – perguntou também cruzando os braços e bufando para mim. Tem no rosto uma expressão indignada. Suspiro. Descruzo os braços, tentando suavizar as expressões.
— claro que pode... – murmuro mais para mim que para ele. Ainda tem um biquinho nos lábios, as sobrancelhas arqueadas, o mesmo jeito que ele fazia birra no ensino médio. Logo sorri e encosta-se a moto que pilotava minutos atrás.
— não precisa ficar assim, ruivinho. Já entendi que passou. Só estou dizendo que... – parou. Bufou e me encarou rindo. Como sempre, tem uma piada. Uma piada que apenas ele ouve, apenas ele ri. – olha, só porque casou com uma americana e tem uma família, não significa que precisa me ignorar ou algo do tipo. – revirou os olhos e olhou para o lado, estando um tanto quanto emburrado. Suspirei.
— quem disse que estou ignorando você? Não tenho culpa se continua sendo o mesmo fanático por atenção de sempre. – retruquei voltando a cruzar os braços e olhar para o lado.
— fanático por atenção? – praticamente cuspiu as palavras, agora olha em meus olhos. Isso não é exatamente muito bom. – você que não atendia mais minhas ligações! – praticamente gritou.
— eu não tinha nada para dizer. – murmurei.
— Ichigo, já faz três anos. – Ichigo? Ainda no ensino médio eu descobri que quando meu nome mudava de “ruivinho” para “Ichigo” era o sinal de que ele está irado por alguma coisa, ou realmente está levando o assunto a sério. Para piorar, noventa por cento das vezes é alguma coisa que eu não sei. Como quando ele começou uma discursão pela última caixinha de leite do refeitório.
— o que você quer? Exatamente. – meu tom soa grosseiro e hostil. Pela décima vez, o vejo bufa e revirar os olhos.
— eu só... Merda Ichigo! – meu nome pela segunda vez... Meu coração bate mais devagar, um ritmo tão lento que parece está próximo a parar de bombear sangue. – esse não é você... – murmura negando com a cabeça. Ele não me olha mais nos olhos.
— não sou? Se fosse o “verdadeiro” eu, onde esse eu estaria Grimmjow? Em sua cama sendo fodido por você? Em sua sala de estar sendo alimentado por suas mentiras? — ri com sarcasmo e empinei o nariz, estando cheio de desdém.
— provavelmente só a primeira opção. – falou sério. Entreabri os lábios e fiquei imóvel. Continua o mesmo cara de pau que sempre foi. – talvez não na cama. A gente sempre gostou de inovar. Fodendo na cozinha, quem sabe? – sorriu. O sorriso sacana e irritante. Por que ele nunca tenta dizer algo plausível? Por que nenhum de seus atos merece ser ovacionados?
Com muito gosto, desci minha mão em direção a sua face esquerda, porém antes mesmo que pudesse acertá-lo, uma de suas mãos segurou meu pulso em um movimento premeditado. Trinquei os dentes e com minha outra mão soquei seu tórax.
— continua o mesmo cabeça quente de sempre, não é? – arqueia uma sobrancelha e encaro seu rosto com fúria.
— não fale essas idiotices sujas assim! E se minha filha ouvisse? – reclamo indignado pelo modo indiscreto de Grimmjow, apesar de que já esperava um comentário assim vindo dele.
— o quê? Ela não pode saber que o cara que come a mamãe já foi comido um dia? – zombou fazendo meu sangue ferver.
— ora, seu!...
— você quem começou com a história de estar sendo fodido em minha cama. – disse com um sorriso meigo, o que me deu ainda mais raiva. Dessa vez não teve empecilho, e me pergunto se ele deixou de propósito ou realmente não viu minha mão se aproximando até acertar sua cara com um soco.
— não apareça mais! – rosno enfurecido, me afastando devagar. Enche-me de ódio vê-lo sorrir enquanto desliza a língua devagar pelo canto da boca, onde lhe acertei com o soco. Não chegou a sangrar, mas tem um tom mais avermelhado que o comum. Viro e me direciono a entrada do prédio.
— te vejo amanhã. – informa. Rosno de raiva e entro no prédio. Logo ouço o som de sua partida, o ronco da moto denuncia tudo. Sinceramente... Já não basta ele ter aparecido na porta de minha faculdade nessa última semana, agora também descobriu onde moro.
— quem era o rapaz querido? – Samantha pergunta no segundo em que passo pela porta. Suspiro e franzo o cenho.
— era só um ex-colega de classe. – digo tirando o casaco e sentando no sofá.
— ex? – ela senta-se ao meu lado. Encaro-a por alguns segundos e sorri.
— é. Estudamos juntos no ensino médio. – digo.
— o que ele queria? – me encher.
Antes ***
— qual é ruivinho! – resmungou cutucando meu braço. – eu te devolvo amanhã. – puxou a gola de minha camisa, o que me fez rosnar. Virei furioso e o empurrei.
— que barulhento! – resmunguei puxando minha camisa de suas mãos. – não vou te emprestar nada meu! Você vai alargar minhas roupas! – gritei.
Foi uma noite difícil. Uma maldita chuva torrencial decidiu tomar os céus no mesmo momento que ironicamente Grimmjow passava por minha casa, o que me obrigou a deixá-lo dormir aqui. Por mim o chutaria porta a fora, porém minha irmãzinha, Yuzu, se sensibilizou com a história e conseguiu me convencer.
Merda! Essa briga está sendo pior que a briga que tivemos ontem para ver quem dormiria na cama. Minha cama!
— não vou alargar nada! – puxou a camisa de volta. – você tem dois uniformes e mesmo assim quer que eu vista o meu sujo e molhado de ontem? Não seja egoísta! – resmungou fazendo uma cara emburrada.
— eu já disse que seu uniforme está seco! Ele só está... – meus olhos não acreditavam no que viam. Olhei mais uma vez para os quadris do azulado a minha frente, tendo os olhos arregalados.
— oe! – ele deu um tapa em minha testa. – para onde você está olhando? – arqueou uma sobrancelha e olhou para baixo logo tendo um sorriso. – tarado! Então você é desses, né?
— você está usando minha cueca! – gritei apontando para seu quadril, já que sua calça suja do uniforme está mais baixa que o normal e revela o tecido de minha cueca. Tenho certeza, já que ele trocou e roupa em minha frente e eu acabei por ver qual a cor da cueca que ele usava... não que eu estivesse o observando a trocar ou algo do tipo.
De modo indiferente ele olha para baixo, tendo um leve biquinho de canto. Com o indicador, puxa o coes da cueca e estala a língua.
— ah, peguei emprestado. – diz dando de ombros. – será que você não pode comprar peças mais folgadas? Ela está me apertando. – resmunga se referindo a cueca. Arregalei os olhos.
— não use minhas coisas sem pedir, baka! – esmurrei seu ombro. Ele deu alguns passos para trás e arqueou as sobrancelhas para mim, ainda estando em um tom um tanto desdenhoso.
— o quê? Dormimos na mesma cama, por que não posso usar sua cueca? – senti minhas bochechas queimarem.
— você quem não quis ir para o lugar da visita, no colchonete! – gritei apontando para o chão, onde um colchonete estava perfeitamente arrumando.
— você quem disse que não iria sair da cama! – resmungou cruzando os braços.
— claro que não! É minha cama! Você quem tinha de sair! – gritei.
— eu sou a visita! Você tem que ser educado e me deixar dormir onde eu quiser! – falou cruzando os braços.
— ninguém te convidou! Você ficou aqui de intrometido! – berrei arremessando o travesseiro em sua cara, o que o fez perder o equilíbrio ligeiramente e bater a cabeça na parede. Olhou-me trincando os dentes.
— ora seu maldito... – puxou a gola de minha camisa e rosnou como um animal selvagem. Encarei de volta com a mesma fúria.
— não puxe o dono da casa assim! – rosnei empurrando suas mãos.
— não arremesse coisas nas visitas! – rosnou de volta.
— onii-chan? – Yuzu abriu a porta devagar e ficou a nos encarar.
O clima no quarto está pesado e Grimmjow me segura pela gola da camisa.
— eu ouvir gritos. Vocês estão bem? – perguntou doce, mesmo vendo essa cena, ela gasta saliva. Empurro suas mãos e arrumo minha roupa.
— tudo bem Yuzu. – digo ainda fuzilando Grimmjow que dá de ombros e olha para o canto da parede.
— o café está pronto. – anuncia gentil, logo fechando a porta.
Tomamos café e seguimos para a escola. Grimmjow não para de resmungar por um segundo se quer.
— oe! – dei um tapa em sua mão. – pare de puxar as laterais de meu uniforme. Quer alargar ainda mais?
— mas está me apertando. – resmungou puxando novamente. Revirei os olhos.
— francamente... Você quem fez questão de usar minhas roupas. Lide com as consequências e pare de puxar! – ele revirou os olhos e bufou como uma criança birrenta antes de me obedecer.
Chegando a sala, Inoue foi a primeira a vir falar comigo. Ela olhava com olhos curiosos para Grimmjow que estava ao meu lado, infelizmente puxando as laterais de meu uniforme escolar. Olhando, até parece que os botões vão saltar da camisa, graças aquele tórax trabalhado... Não que eu esteja prestando atenção no tórax dele ou algo do tipo.
— Kurosaki-kun. – sorriu para mim e logo encarou Grimmjow mais uma vez.
— oi Inoue. – sorri. Pelo olhar da garota, tenho certeza de que quer perguntar, mas pela educação, sei que não dirá uma palavra sobre isso.
— I-chi-go!... – ouço um cantarolar e logo Rukia pula em mim socando minha cara.
— maldita!... – seguro meu nariz e a encaro ofegar. Parece brava.
— você não compareceu em minha casa para terminarmos o trabalho! Acha bonito me deixar esperando? – encarei-a com um sorriso forçado enquanto piscava freneticamente. Será que ouvi direito?
— m-mas estava chovendo. – retruco.
— sem desculpas! – grita enfiando o dedo em minha cara. Logo seus olhos se levantam para Grimmjow que se dirige até sua cadeira e deixa sua mochila lá.
— Grimmjow? – pronuncia Rukia em baixo tom, olhando-o com indiferença. – você não está meio... Apertado? – meneia com a cabeça para o uniforme.
— o que você acha? – pergunta arrogante sentando-se na cadeira.
Agora ***
Há essa hora, Samantha já deve ter pego a Hanna na escola. Estou saindo da faculdade e estou quase certo de que ele está novamente me esperando na saída.
— não acredito que falou para ele onde estou morando! – censurei Rukia pelo celular e ouço um suspiro.
— Ichigo... Eu estava pensando em você. Você conhece essa moça a pouco mais de um ano e até adotou uma criança. Eu não quero pensar que você se casou antes mesmo de terminar a faculdade para esquecer aquilo. – suspirei.
— Rukia... Não se preocupe comigo, está bem? Eu sei que tenho apenas vinte anos, mas casei com a Samantha porque gosto dela, e não posso ficar dando de cara com o Grimmjow todo sando dia. – se fez um silêncio.
— apenas... Apenas converse com ele, está bem?
— eu não tenho nada pra... – ouvir o bip que denuncia o ato de Rukia. Ela desligou em minha cara. O que diabos deu nela? Desde quando ela liga para as vontades de Grimmjow?
Suspirei e sai do prédio.
Eu gosto da Samantha, ela é minha esposa, e eu amo a Hanna. Estou muito feliz com minha nova vida, por que ele tem que aparecer e estragar tudo?
Já vejo seus cabelos azuis dançando conforme o vento. Está naquela pose de bad boy, encostado em sua moto e com os braços cruzados. Reviro os olhos e desvio caminho indo em direção a meu carro, que infelizmente está dois carros atrás de onde a moto de Grimmjow está estacionada. Não foi um desviar de caminho tão decisivo assim.
— yo ruivinho. – diz sorridente vindo em minha direção.
— pensei ter dito para não aparecer mais. – murmurei procurando minhas chaves.
— pensei ter avisado que te veria hoje. – sorriu novamente. Revirei os olhos.
— não tenho tempo. Minha família está me esperando. – dei uma ênfase pesada na palavra família, o que o fez torcer o lábio e arquear as sobrancelhas. Logo abri a porta do carro e antes de entrar, Grimmjow empurrou, fechando-a com força.
— família é? – perguntou rindo, sua mão ainda está segurando minha porta.
— sem cena! Sai da frente. – empurro sua mão e ele põe todo seu corpo entre a porta e eu, tendo um sorriso cínico nos lábios.
— Grimmjow... – rosno. Ele ainda tem aquele sorriso irritante. Como é possível?
— o quê? – se inclina um pouco e alarga ainda mais o sorriso. – sou mais da sua família do que aquelas duas. Nós nos conhecemos á cinco anos. Eu conheço você. Conheço melhor que aquela garota filinha de papai. – reviro os olhos.
— o que você quer? Estragar minha vida?
— não. Quero concertá-la. – murmura cruzando os braços. O sorriso sarcástico deu lugar a um meigo e sincero, o que é raríssimo. Reviro os olhos.
— concertar o que você estragou, certo? Esqueceu que foi tudo culpa sua? Esqueceu que você não falou comigo por esses três anos porque era orgulhoso demais para pedir desculpas? Acha que porque de uma hora para a outra você criou juízo eu vou te perdoar? – seus olhos estão arregalados. É Grimm-kun. Que tal ouvir um pouco de verdade? Ele abaixa os olhos ligeiramente e me encara.
— ruivinho...
— não Grimmjow. Você teve muito tempo para isso. Agora que tenho uma família, uma vida, você aparece para estragar! Agora não dá mais tempo. Pare de me procurar. –
o empurrei fazendo com que saísse da frente da porta do meu carro. Ele não demostrou relutância. Entrei e o vi ficar cada vez menor através do retrovisor. Cada vez mais distante. Talvez esse seja nosso destino de qualquer maneira.
Antes ***
Tive um desentendimento com Ulquiorra mais cedo. Tudo começou graças a uma caneta e terminou em uma enorme confusão. Nós nunca nos demos bem. Nunca fui com a cara dele e sei que ele nunca foi com a minha; por isso qualquer coisa era motivo para uma briga.
Hoje eu reconheço que em parte foi culpa minha, afinal fui eu quem deu o primeiro soco, mesmo sabendo que não ganharia uma briga com ele.
Eu estava certo.
Realmente o único soco que pude dar foi o primeiro, depois disso fui acertado vezes consecutivas por pontapés, socos e joelhadas, não tive tempo de bater de novo, já que estava ocupado de mais tentando me defender de todas aquelas investidas brutais. Quando já estava sendo atingido por uma vertigem, vi seus cabelos azuis. Nunca pensei que ficaria feliz por ver aquele idiota.
Rukia e Orihime ainda estavam encostadas a parede, apertando as mãos e tendo os olhares úmidos. Sei que elas queriam ter feito algo, mas sei que não havia nada que elas pudessem fazer. Sorri enquanto era arrastado para o canto da sala.
— Grimm... Jow... – murmurei ainda sorrindo.
— o quê? – a voz era forte. Mãos seguravam meus ombros. Minha vista fica nítida e vejo que não é Grimmjow e sim Chad.
— qual seu problema?! – pergunta Ishida, estando esse em minha frente.
— ele quem começou. – digo mesmo sabendo que é uma enorme mentira. Ishida sobe seus óculos e suspira.
— francamente... Vamos Sado, me ajude a levar esse idiota para a enfermaria. – diz cheio de moral, e Chad que estava atrás de mim me põe de pé, jogando meu braço sobre seu ombro.
Olho para o lado e vejo Grimmjow com uma cara feia conversando com Ulquiorra. Eu estava certo. Tinha certeza de ter visto seus cabelos azuis dançando frente a meus olhos. Então ele quem afastou Ulquiorra de mim?
Ishida e Chad me levam para a enfermaria onde sou tratado imediatamente. Sei que o canto de meu lábio sangra e sinto uma dor latente abaixo de meu olho, sem contar as dores nos músculos da barriga, cintura e ombro. Sou medicado com um comprimido para dor e tenho meus ferimentos faciais tratados.
— sinceramente... – Ishida novamente arruma os óculos e cruza os braços. – apenas alguns segundos de briga e você acaba assim? Isso tudo aconteceu apenas no intervalo de tempo que levantamos para apartar, no segundo em que você deu o primeiro soco. – zombou, porém não riu. Fiz careta e me perguntei por que ele não pode ficar quietinho como o Chad que apenas observa a tudo.
Eu sei que foram poucos segundos até apartarem, mas eu já estava tonto. Eu sabia que não ganharia uma briga com ele, mas não fazia ideia de que perderia tão feio.
— Kurosaki-kun! – Inoue entrou com os olhos úmidos e veio até minha cama. – eu fiquei tão preocupada. – suspirou parando ao meu lado. Rukia vem logo atrás. Encara-me por alguns segundos antes de dar um tapa em minha cabeça.
— idiota! – grita. – o que deu em você?
— não faça isso Kuchiki-san! – censura Inoue delicadamente. – o Kurosaki-kun ainda está machucado. – diz meiga. Rukia cruza os braços e suspira.
— oe, ruivinho. – Grimmjow entra com uma cara fechada e os braços cruzados. – você tá legal? – pergunta.
— o que você acha, oxigenado? – pergunta Rukia com cinismo. Ele a encara com aquele biquinho e sobrancelhas arqueadas, estala a língua, logo olhando para mim.
— tô legal. – falei.
— Jaegerjaquez-kun... – murmura Inoue tocando os dedos e tendo as bochechas meio avermelhadas. – obrigada por impedir o Ulquiorra-san. – diz sorrindo. O azulado não diz nada, apenas ergue as sobrancelhas e assente.
— tenho que ir Kurosaki-kun. – avisa se aproximando. – fique melhor. – pede com um sorriso antes de sair da enfermaria.
— eu vou com a Orihime. – informa Rukia dando uma tapa em minha cabeça. – não se meta em mais confusões, baka!
— itai... – acaricio o lugar onde ela bateu.
— quer que a gente te leve em casa? – pergunta Ishida olhando para o canto da parede, tentando ao máximo fingir que não se importa, mas tem aquelas ruguinhas entre as sobrancelhas.
— sem problemas. – confirma Chad assentindo devagar.
— eu levo o ruivinho. – Diz Grimmjow de modo indiferente. Ishida arruma os óculos e suspira.
— certo. Vê se não se mete em mais problemas. – diz e ambos saem da enfermaria. Levanto da cama e me espreguiço um pouco. Tudo dói levemente. Sinto o peso do olhar daquele azulado sobre mim, tenho certeza de que se eu levantar o olhar ele vai está me encarado. Encaro-o. Óbvio que eu estava certo.
— que foi? – pergunto já me sentindo incomodado por seu olhar. Ele continua, parece indiferente até que ouço uma risadinha, encaro-o e arqueio as sobrancelhas. Logo ele está rindo descontroladamente de modo debochado. Elaboro uma cara de tacho e o encaro gargalhar apontado para mim.
— olha só pra você – diz ainda rindo – seja grato por eu ter aparecido e te salvado. – faço cara feia e cruzo os braços. Como ele é chato.
— maldito... Foi para isso que veio aqui? – perguntei.
— também. – diz ainda rindo. – anda. Vou te deixar em casa. – joga a cabeça para o lado e me encara, ainda tendo um sorriso debochado.
O caminho para casa foi silencioso. O tempo todo Grimmjow esteve com as mãos nos bolsos da calça e olhando apenas para á frente.
Chegando á minha casa, paramos. Ele cruza os braços e me encara.
— entregue, ruivinho. – diz com um sorriso. – quando precisar de minha proteção basta chamar. – pisca para mim. Trinco os dentes.
— quem precisa de sua proteção?!
— você. – sorriu debochando de mim. Ah, esse maldito...
— não parecido de nada seu! Seu... Seu... Seu smurf oxigenado! – gritei me sentindo o mestre dos insultos. Grimmjow fez uma cara de tédio arqueando as sobrancelhas, parece meio emburrado.
— esse azul combina com o azul de meus olhos. Baka! – resmungou.
— essas lentes não enganam ninguém. – zombo. Se antes eu me sentia bom, agora me sinto ótimo. Ele franziu as sobrancelhas, tem um cenho de raiva.
— oe! Meus olhos são naturalmente dessa cor! – resmunga descruzando os braços apenas para enfiar o dedo em minha testa.
— claro que são. – digo sorrindo, mesmo sabendo que ele realmente tem esses lindos e naturais olhos de cor azul.
— cale a boca cabeça de cenoura! – diz se referindo a minhas madeixas ruivas. Cabeça de cenoura? Ele poderia ter escolhido um insulto ainda mais infantil que esse?
— cabeça de cenoura? Ha! – ri – eu ouvia essa no primário. Quantos anos você tem? Cinco? Sinceramente você não...
Sou calado. Meus olhos parecem estar prestes a saltar. Encaro seu rosto colado ao meu, a expressão relaxada e olhos fechados enquanto me beija ternamente. Agora tem os braços cruzados. O corpo inclinado para frente.
Meus lábios foram tocados... Foram tocados por ele... Devagar o garoto se afasta. Levo os dedos até meus lábios e os toco levemente.
— você fala de mais. – diz sério, ainda com os braços cruzados. Ele acaba de me beijar!
— você... Você roubou o meu primeiro beijo... – murmuro ainda estático. Grimmjow da de ombros e suspira.
— pelo menos você calou a boca. – diz indiferente. Ainda toco meu lábio inferior com as pontas dos dedos.
— você me beijou... – murmuro olhando em seus olhos. Ele arqueia as sobrancelhas e faz aquele biquinho. Não tem como eu ser ainda mais incisivo que isso.
— beijei. – concorda pendendo a cabeça para o lado.
Se esse olhar que brilha no azul distante não fosse tão ingênuo seria sacana. Viro para entrar em casa, dou passos lentos em direção á porta até que ouço sua voz:
— não vai me convidar para entrar? – viro e encaro seu sorriso sínico. Ainda tem os braços cruzados. No rosto, uma expressão divertida. Como ele pode se divertir com isso? Devo está completamente rubro. Sinto minhas bochechas e orelhas queimarem de vergonha desde a hora do beijo que esse cretino me roubou.
— claro que não, b-baka! – gaguejo envergonhado.
Ele solta uma risada.
— n-não ria! Não tem graça! – censuro seu ato, minha voz diminuiu significativamente a cada palavra. Não estou apto para ficar conversando com ele, já que esse canalha parece muito bem divertido enquanto estou aqui, queimando de vergonha.
— tem sim. Você está vermelho da ponta do queixo a raiz do cabelo. – zomba. Piada de gente ruiva? Que mau gosto! Que tipo de cara não ficaria vermelho após ter seu primeiro beijo roubado, sendo que o ladrão é outro cara? Acho que deveria socar a cara dele. Provavelmente essa seria a atitude de qualquer outro homem. Mas por que ao mesmo tempo quero que ele me beije de verdade? O beijo que ele me deu foi casto e simples. Apenas um leve colar de lábios. E merece um soco por isso! Não merece? Claro que ele merece!
— no que está pensando, ruivinho? – indagou sorrindo. – se calou de repente. Quer outro beijinho? – arqueia uma sobrancelha. Tem aquele olhar divertido. Como ele pode ser tão incisivo? Chega ao ponto de ser inconveniente. Sinto meu rosto queimar.
— b-baka! Pare de dizer essas coisas! – entro rapidamente e fecho a porta.
Ele sorri. Um sorriso esnobe, o tipo de sorriso que desenha os lábios de um egocêntrico cafajeste. Os pés parecem um tanto relutantes em deixar o local. O vento balança aqueles cabelinhos esdrúxulos e lindos. Os olhos tão fora do comum cintilam a luz do fim de tarde. Os lábios murmuram um “tchau ruivinho” até que decide ir.
Apos imaginar como fora sua partida; abro os olhos estando encostado á porta.
Foi assim que imaginei que ele agiria antes de ir.
Fale com o autor