As Vidas de M
1 Margarida
Notas iniciais
Bom dia, raio-de-sol, orvalho da manhã, colibri encantado. Me chamo Margarida de Shasta, sou uma daquelas florezinhas de pétalas brancas e miolo amarelo. A mais simplória de todas, nem para chá eu sirvo. Minha irmã Camomila ficou com a função.
Mas você deve estar se perguntando: flores pensam? Eu não diria que todas, afinal, minha prima Dália se jogou no bueiro esses dias, achando que ficaria mais adubada. O que tem de beleza lhe falta em inteligência. Enfim... Sou tão pensante que, provavelmente, tenho mais “neurônios” que aqueles estudantes que passam correndo por aqui todo final de ano, atrasados para um exame chamado ENEM.
Sei que agora não estou na minha melhor forma, perdi três pétalas com o vendaval no final de semana. Sou delicada sabe. Estou despetalada! Ridícula! Aliás, absurdo mesmo é ter sido plantada ao lado das rosas. Elas se acham as rainhas do canteiro. Todas metidas com aquelas pétalas aveludadas e perfumada. São é um arranjo de falsidade e soberba. Para que todos aqueles espinhos? Aposto que não se garantem no pólen.
Mas voltando ao princípio. Por que não me colocaram com os cravos? Onze-horas, beijinhos... Sei lá! Eu suportaria ficar até do lado dos meus tios bobocas gigantes, os Girassóis, que ficam virando de um lado para o outro. A verdade é que estou revoltada, porque ninguém faz buquês com margaridas. Nós não temos um fim elegante ou romântico como as rosas xexelentas.
Sabe para que nos colhem?
Para arrancar nossas pétalas uma por uma, numa brincadeira estúpida que as adolescentes andam fazendo, um tal de “bem me quer, mal me quer”. Eu não sei o que o pobre garoto infeliz quer com você, praguinha do capiroto. Mas eu, com certeza, te desejo todo o mal!
Desgraçada!
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