Está chovendo, e apesar de abrigado, alguns respingos de água começaram a me molhar. Estou com frio e com medo. A fome já não é mais meu pior pesadelo. Os carros passam jogando a água das poças nas pessoas que andam pela calçada. Elas xingam, balançando seus guarda-chuvas.

Observo a luz dos faróis refletindo na lâmina d’agua sobre o asfalto, formando uma tela de pintura desfocada. De repente, um ursinho de pelúcia cai na minha frente e uma criança se agacha para pegá-lo. Me aproximo cuidadosamente, mas a mãe do pequeno ser humano me enxota para dentro de meu tubo de concreto.

As lágrimas vêm novamente aos meus olhos, meu focinho gelado começa a escorrer. Choramingo baixinho e adormeço, sonhando com o dia em que alguém me socorrerá.

O dia seguinte amanhece com um céu limpo e iluminado. Espreguiço-me, ouvindo a cacofonia das lojas e conveniências abrindo, até que o cheirinho de pão fresco faz meu estomago roncar desesperado. Caminho até a padaria e fico esperando, sentado na entrada.

E lá vem o senhor rechonchudo com aquele chapelão branco. Se não fosse por ele, acho que eu já não estaria mais aqui.

— Olá, amiguinho. Ainda por essas bandas?

Dou um latido e pego meu pão recheado com linguiça. Ele afaga minhas orelhas e eu abano o rabo em resposta. Mas ele tem razão. Já estou aqui por muito tempo, e nada mudou. Talvez esteja na hora de seguir caminho e procurar outro abrigo.

Volto para meu tubo de concreto a fim de saborear minha comida, antes que os gatos do beco veiam arranhar meu focinho novamente. Mas então sou surpreendido por um menino sujo e mirrado, chorando enrolado em seus trapos, ocupando boa parte do meu esconderijo.

Quando me vê, seus olhos úmidos fitam o pão que acabei de largar no chão, e seu estomago ronca da fome. Assim como o meu. Seguro o alimento com as patas e rasgo um pedaço com os dentes, entregando-o ao menino. Ele não hesita. Agarra a comida e a devora em questão de segundos.

Termino de comer minha parte e tento me aproximar. Ele não reage, mesmo que a tensão em seus músculos finos seja visível. Há pouco espaço para nós dois dentro do tubo, mesmo assim, me acomodo vagarosamente entre suas pernas magrelas.

De repente, sinto um afago gentil atrás de minhas orelhas, e toda a tensão do pequeno ser humano se esvai.

— Vou te chamar de Mike – ele diz.

Talvez ainda não seja hora de ir embora.

Acho que não faria mal ficar um pouco mais.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.