POV: Nicole

Eu estava apressada. Apertava várias vezes o botão do elevador. Por sorte não tinha ninguém para testemunhar minha agonia.

A porta se abriu e o terraço já estava ocupado pelo helicóptero da Universidade. O jovem se retirou com um sorriso no rosto e a sua bagagem.

— Bom dia. — disse ele aos gritos devido ao barulho das hélices.

Eu cumprimentei com um sorriso simpático levando em conta minha insatisfação naquele momento. O acompanhei até o elevador.

— Muito prazer. — disse ele me entregando a carta de apresentação. — Sou o Isaac, seu novo estagiário.

— Sou a Dra. Nicole. Escute, o que aconteceu para que você tivesse que vir nesse estado?

— Está falando do helicóptero?

— Exato.

— Eu fui o único estagiário escalado para fora da cidade. Digamos que teve uma confusão. — respondeu ele com um sorriso tímido.

— E o que você fez pra ser despachado dessa maneira?

— Bom, é que me disseram que a senhora era a melhor, então como eu fui bem destacado na minha turma, eu... — ele ia continuar, mas o interrompi.

— Doutora.

— Como?

— Refira-se a mim como doutora, não senhora, inclusive, não sou casada.

— Não me admiro por que não. — sussurrou ele.

— Como?

— Oi? É... que... Eu aprendi na faculdade que psicólogos não são chamados de doutores, a não ser que tenham defendido uma tese de Doutorado, então se me permite corrigí-la...

O encarei com uma expressão séria que o fez interromper a fala.

— A senhora, quer dizer, senhorita, quer dizer, doutora... tem doutorado?

— Sim. E da próxima vez que tentar me corrigir farei com que esse estágio seja a sua pior experiência. Bem-vindo a hierarquia.

A porta do elevador se abriu e eu o acompanhei até o refeitório.

— Me desculpe, doutora. Eu não quis lhe faltar o respeito.

— E não quis mesmo. Bom, este é um local bem interessante do Hospital. O refeitório.

— Bem interessante. — ele desviou a atenção para a garçonete que estava entregando os pedidos.

— Você não pode estar falando sério.

— An.. O quê?

— Você está do lado de uma psicóloga renomada e está se distraindo com uma garota que só tem o ensino médio completo e olhe lá.

— Mas... Eu...

— Se quiser ter sucesso nessa vida. Precisa de foco.

— Tá bom, então, nós viemos almoçar?

— Viemos, mas eu acho que posso deixar passar. Não vou aguentar ver você babando na garçonete.

Voltamos ao elevador e subimos direto para o setor de Psicologia. Após sairmos apresentei os colegas de trabalho.

— Esse é o Frank, Rose, Steve, Ágata e esse é o Ronald. — apontei para o meu assistente que já estava se levantando. — Que já está pronto para me atualizar.

— Dra. Nicole. Você tem três ligações da diretoria, reunião às três e a consulta foi remarcada para daqui a vinte minutos.

— Quantas vezes já disse para não antecipar minhas consultas?

— Sinto muito, doutora. Acontece que se trata de Olívia Reynald.

— E por que não disse antes?

— Ah... quem é Olívia?

— Uma paciente, ela é filha de um dos benfeitores deste hospital, nem eu posso discutir com ela.

— E o que ela tem pra precisar de você?

Eu e Ronald o encaramos diante da pergunta dele.

— Quer dizer, quais são as causas dos traumas psicológicos da Olívia?

— Isaac, existe uma coisa chamada sigilo profissional e outra chamada "Não te interessa"! Agora venha, antes que eu te coloque de volta naquele helicóptero.