As Quatro Sessões

3 Segunda Sessão - Olívia


Ao terminar de aprensentar o espaço para o Isaac, ele foi dispensado para desfazer as malas no seu apartamento. Estava no aguardo de Olívia Reynald quando o telefone tocou.

— Alô?

— Querida... — era meu namorado. — Acabei de chegar no restaurante, cadê você?

— Sinto muito, tenho uma paciente de emergência.

— De novo?

— Sim, de novo e quantas vezes for preciso.

— Por que você continua tendo essas atitudes?

— Eu não precisava ter essas atitudes antes de você me trair.

— Isso foi há dois anos.

— Pode ter sido há dez, mas continua sendo a pior experiência da minha vida e foi graças a você!

— Escuta, eu entendo que depois da gente voltar eu teria que aguentar suas frustações, mas agora dá pra perceber que você nunca vai me perdoar, não é mesmo?

— Eu estou com você, não era isso que você queria?

— Era o que eu queria, mas pelo visto é o que você nunca quis.

— Do que você está falando?

— Nada... nada.. só... não cancela o próximo almoço, tá bom?

Desliguei o telefone.

— Doutora Nicole. — chamou o Ronald.

— O que é?! — perguntei causando espanto com meu tom.

— A... paciente está a caminho.

Levantei imediatamente, arrumei o cabelo e a observei sair do elevador. Cabelo loiro, ondas de babyliss, olhos azuis por baixo dos óculos escuros que, por algum motivo, usa dentro de um hospital.

— Bom tarde, Olívia. — abri a porta para ela.

Entramos na sala, ela se sentou no sofá e começamos a conversar.

— Então, Olívia, como foi o seu dia?

— Foi bem até.

— O que aconteceu?

— O de sempre, eu acordei, tomei café, tomei banho, fiz pilates, tive aula de canto, saí pra almoçar e vim pra cá.

— Ótimo. — comentei. — E então, o que a trouxe aqui?

— Meu motorista.

— Sim, claro. Mas eu falo das razões por estar fazendo esta consulta.

— Isso é fácil, meus pais dizem que eu sou irritante e que você iria me consertar.

— Sério? E o que você acha disso?

— Uma perda de tempo. Inclusive, eu já sei como resolver isso.

— Me diga.

Ela tirou cem reais da carteira e olhou pra mim com uma expressão diferente.

— Escute. Nós não trabalhamos assim. — disse a ela imediatamente.

— Fala sério, quanto você ganha por sessão? Eu pago o dobro só pra fingir que me consulta.

— Primeiro, eu ganho bem mais do que isso aí. Segundo, eu não vou por em risco a minha reputação nem a minha dignidade aceitando sua chantagem.

— Como eu já disse. Isso é tudo uma perda de tempo.

— Saiba que o simples fato de você oferecer dinheiro para evitar falar sobre seus problemas já diz muito sobre você.

— Eu não tô evitando os meus problemas. Meus pais que não me suportam.

— E você acha que isso te afeta?

— Fala sério, para de me analisar! Eu não preciso de ajuda!

— E como pode ter tanta certeza disso?

— Porque eu nunca consegui agradar ninguém, então eu simplesmente desisti de tentar ser amigável. O problema não está em mim, mas em todo mundo que não sabe conviver com alguém como eu!

— Tudo bem. Agora sente-se. — ela tinha se levantado devido a tensão.

— Escute, isso talvez seja difícil de ouvir, mas se você se incomoda tanto em falar nesse assunto, então isso se tornou uma dor emocional. Mesmo que você não entenda ou não aceite, ela não vai ir embora tão fácil. Acredite, eu posso te ajudar. Só você sabe o quanto precisa se livrar disso.

Depois do meu discurso, ela permaneceu calada. Estava pensativa, ela sabia o que queria dizer, porém estava procurando o jeito mais fácil.

— Por onde a gente começa?

Preparei o meu caderno e caneta e começamos a conversar sobre a família dela. A sessão levou uma hora. Foi uma das sessões mais difíceis e empolgantes da minha carreira. Olívia não era uma paciente fácil, mas o seu caso é um dos melhores que já trabalhei.