As Quatro Sessões
4 Horário de Almoço
POV: Nicole
Depois de uma sessão que atrasou os meus planos eu me rendi a almoçar no refeitório do hospital. Eu não costumava passar por aqui esse horário, só tomava um café de vez em quando, mas a minha fome falou mais alto.
Sentei na bancada e rapidamente fui atendida pela menina que desviou a atenção do meu estagiário mais cedo.
— Boa tarde, o que vai querer? — perguntou ela.
— Um bife acebolado com salada e arroz integral, sem macarrão, por favor.
— A caminho.
Enquanto a minha refeição estava sendo preparada pensei no que meu namorado estaria fazendo agora. Com certeza, discutindo com a possível amante dele sobre como eu fui egoísta hoje. Vocês devem estar se perguntando: Então por que você namora esse cara? A resposta é simples, sem ele eu não tenho com quem me sentir superior fora daqui. Eu chegaria em casa, sentaria no meu sofá e comeria doces para alimentar meu vazio. Pois é, eu não quero me imaginar sendo assim.
Depois de um tempo, senti um cheiro de queimado, era o meu bife. A garçonete estava enviando mensagens no celular enquanto a carne estava exalando fumaça!
— Com licença. — disse com uma voz firme, porém discreta. — Não acha que tem algo de errado?
Ela olhou pra mim com um olhar perdido. Assim que reparou o que estava acontecendo entrou em desespero, desligou o fogo e me pediu desculpas, porém eu estava sem condições de ser gentil. Mesmo assim, evitei causar confusão:
— Com licença.
Saí enfurecida e sem olhar para trás. Mesmo assim ainda estava com fome. Fui a uma máquina de alimentos e peguei um amendoim para não desmaiar antes de chegar em casa. Quando cheguei no térreo percebi que estava começando a chover. Eu vim de carona com meu namorado e estava numa péssima hora para ligar pra ele. Fiquei na porta do hospital tentando pedir um Uber e depois que finalmente tinha conseguido baixar o aplicativo, percebi que deixei minha carteira na minha sala. Enfurecida subi novamente, quando entrei no setor e destranquei a porta, comecei a observar o ambiente e cheguei a conclusão de que era lá que eu iria ficar durante o horário de almoço. Depois dessa correria, nada como uma sala de terapia vazia pra descansar. Infelizmente, falei cedo demais.
— Doutora Nicole, você por aqui? — disse o meu assistente, que estranhou minha presença naquele horário.
— O que você quer? Eu tive uma manhã cheia e resolvi ficar aqui.
— Tudo bem. Vai precisar de alguma coisa.
— Sim. — exclamei. — Quero que saia, obrigada.
Ele se calou e se retirou. Não demorou muito, Isaac passou pela sala e reparou em mim que estava sentada na cadeira e lendo um livro.
— Doutora Nicole? — perguntou ele confuso.
— Eu mereço. — resmunguei. — E você? O que quer?
— Achei que iria almoçar em casa.
— Mudança de planos.
— Ah... Legal... — ele ficou na porta como quem não quer nada, mas que, na verdade, alguma coisa quer.
— O que faz aqui?
— Bom, eu não conheço muito bem a cidade e eu estou cansado pra ir pro hotel e desfazer as malas, então eu pensei em ficar aqui mesmo e sabe, né? Aguardar o segundo turno.
— Ah. — respondi. — Ótimo. Divirta-se.
Ele ia saindo, mas tinha lembrado de algo importante.
— Ei, ei, ei, ei, ei! — o chamei imediatamente.
— Sim, doutora.
— A sua namoradinha, paquera, seja lá o que você esteja querendo, pois é, não invista nela.
— Estou ciente deste conselho, doutora.
— Estou falando sério. Ela queimou meu bife.
— Como?
— Longa história, enfim, faça o que quiser, só não se misture com ela.
Ele saiu meio insatisfeito e deixando bem à vista que não iria seguir meu conselho. Parece um paciente que eu tenho e que, por acaso, a sua consulta é a próxima na minha agenda.
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