As Quatro Sessões

5 Terceira Sessão - Matt


POV. Nicole

Matt tinha 17 anos. Já tinha um tempo que estava comigo sempre com a mesma questão: ele não é transparente.

— Eu sinto que eu perdi a chance da minha vida, mas ao mesmo tempo eu acho que eu devia ser otimista quanto a isso. — dizia ele durante a consulta.

— Me explique melhor.

— Sabe, mesmo que eu tenha perdido essa chance, eu sinto que eu posso encontrar outras bem maiores.

— Eu sei que não é desse jeito que as coisas funcionam.

— Como assim?

— Oportunidades são raras. Podem aparecer outras? Mas é claro! Mas estamos falando da vida. — me reposicionei na cadeira. — Da vida onde tudo é possível. Oportunidade é algo imprevisível. Quando algo aparece, não podemos perdê-la. E aliás, se você largou essa oportunidade, quem te garante que você não largará a próxima?

— Eu aprendi a lição.

— Será mesmo? — o questionei. — Ou será que você não repetirá a mesma ação como fez das outras vezes?

— Eu não tenho culpa disso.

— Sim, você tem. — afirmei. — E é por aí que vc tem que começar. Assumindo a sua inconstância em consertar o seus erros. O segredo é assumir.

— É muito mais do que isso.

— Então me diga.

— Eu não quero.

— Eu não estou te julgando e você sabe disso. Só estou repetindo a voz da sua consciência que você insiste em ignorar.

Ele começou a chorar. Esse era o mais longe que ele conseguia chegar em se abrir para mim. Quando eu finalmente terminava de explorar os seus sentimentos, ele chorava e não falava mais nada. Literalmente. Ele se mantia calado até o fim da sessão.

— Mattew, eu sou uma profissional experiente. Eu já ouvi de tudo. Coisas que você nem imagina, inclusive. Se não fosse o sigilo profissional, eu te contaria tudo, mas é essencial que você acredite em mim quando eu digo que eu posso te ajudar. Você acha que o seu problema é inexplicável, mas eu tenho certeza que já me deparei com ele em alguma matéria na faculdade. Seja o que for, não passa de uma ciência, lembre-se disso.

— Na verdade não.

— Sério? Por que não?

— Eu não quero falar.

Eu insisti por mais 20 minutos até o fim da sessão. Ele não se abria, então eu o liberei. Saí da sessão insatisfeita. Esse paciente conseguia testar todas as minhas teses, as minhas experiências. Querendo ou não, eu me sentia insuficiente quando o atendia. Ficava imaginando outra psicóloga utilizando outras palavras para o convencer a se abrir enquanto eu observava de longe minha derrota.

— Com fome, doutora? — perguntou meu estagiário depois que a sessão acabou.

— Sim. — respondi e me dirigi ao meu assistente. — Pede o de sempre pra mim, por favor.

— Ifood ou UberEats? — perguntou ele.

— Tanto faz, mas pede um com ketchup extra.

— Vai encomendar comida sendo que tem um refeitório aqui no hospital? — questionou Isaac.

— Se quiser ir e paquerar a sua namorada, fica à vontade, mas não estou afim de queimar o meu hambúrguer.

— Pode me explicar melhor essa história de comida queimada?

— Não quero. Pede pra ele te explicar. — apontei pro meu assistente que estava pedindo a comida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.